terça-feira, 30 de agosto de 2011

O descanso do carnavalesco

Marzo era um sujeito sofisticado. Um homem classudo, como dizia a minha avó. Mesmo de camiseta, bermuda e chinelos, quando ia na padaria, o andar era tão apressado quanto elegante.

Quando o conheci, há 25 anos, Marzo tinha um único vício. Vício que paralisava a vida dele por uma semana, todos os anos. Corrigindo: vício que o alimentava de vida e exigia uma viagem para o Rio de Janeiro.

Marzo amava o Carnaval. E se orgulhava do fanatismo pelos bailes de gala e concursos de fantasias. Tinha olho clínico que, nos detalhes, separava o glamour da cafonice. Ele passava meses em preparação. Da escolha do tema ao figurino. Da viagem cuidadosamente pensada à dinâmica do desfile. Um ano em uma noite. No salão, Marzo encontrava a si mesmo, aristocrático sem ser esnobe, nobre com sensibilidade sacerdotal.

Nunca nos encontramos com grande freqüência. Os esbarrões eram ocasionais, em eventos da família dele. Marzo representava o papel de tio de três grandes amigos meus. Sempre os ajudou quando as necessidades financeiras se fizeram presentes. Sempre os auxiliou em seus projetos pessoais, ainda que fossem conflitantes com seus princípios. Abriu o caixa quando vislumbrava reforçar ou realizar sonhos de seus sobrinhos.

O tempo não o deixou menos calado. Falava pelos cotovelos. Perguntas se misturavam com queixas. Histórias cotidianas se alternavam com aquelas reclamações engraçadas de velho. Velho e maduro o suficiente para fazer piada de suas manias. Qualquer assunto na TV, mesmo que observado de forma atravessada, servia de comentários e opiniões formadas com convicção.

Os problemas de saúde o debilitaram pouco a pouco. Teimoso em ajudar aos outros, Marzo cometeu o pecado da auto-confiança. Talvez fosse medo de estar diante dos males que o invadiam. Mas nunca deixou que doenças o vencessem de goleada. O jogo era apertado, cada pedaço de território disputado no tapa. Recusava-se a ficar de cama. Imagina se deixaria de ir ao banco ou cumprir outras obrigações do cotidiano.

Tornou-se rotineiro para mim vê-lo caminhar com pressa pelas ruas do Boqueirão, em Santos. Com a visão frágil, Marzo não me reconhecia à distância. Ainda assim, me cumprimentava com entusiasmo, como se fosse um amigo de longa data. Bastava que eu levantasse a mão.

A última vez que o encontrei, percebi como a saúde dele fraquejava. Foi há dois anos, em um dia de semana qualquer, no meio da tarde. Saía da casa de um dos sobrinhos dele, Marcelo. Deixamos o elevador e atravessamos o hall de entrada do bloco.

Na porta de vidro, que dá acesso ao pátio, Marzo apareceu de surpresa. Parecia atrasado, e com todo o tempo do mundo, como de hábito. Falava de maneira acelerada, característica herdada pelo sobrinho mais velho.

Marzo o reconheceu. Depois, olhou para mim e perguntou ao sobrinho:

— Marcelo, este é o rapaz do plano de saúde? Estou esperando por ele. Você está atrasado, rapaz.

— Tio, esse é o Marcus. Você não se lembra dele?

Desconcertado, mas sem perder a pose, Marzo retomou a dianteira no diálogo.

— Claro! Oi, Marcus, como você está? Você está mais magro.

Marzo era assim. Elegante nas palavras, mesmo que elas exigissem uma mentira cordial, capaz de conquistar o interlocutor e redirecionar o rumo da prosa. Educado no trato diário, mesmo que fizesse uma ligeira confusão entre um amigo da família e um prestador de serviços anônimo.

Embriagados pela velocidade do cotidiano e pela ilusão da produtividade, nos afastamos de pessoas interessantes. Foi o que aconteceu comigo. Não o vi mais. As notícias que me chegavam dele pecavam pelo atraso e não dimensionavam os problemas de saúde.

Não soube que estava hospitalizado. No último final de semana, pude me despedir dele. Conversamos em silêncio, por cerca de um minuto. Ele me garantiu que estava em paz. Que descansava com serenidade.

O sobrinho mais novo, Frederico, definiu com sensibilidade a cerimônia de cremação, em meio aos acordes de piano e a meia luz que cobria o auditório.

— O tio se despediu com a classe de sempre. 

Dali em diante, somente o silêncio devotado para agradecer aos homens incomuns.


Um comentário:

mflexa disse...

Belíssima homenagem, Marcus
Obrigado pelo carinho

*abraços*