domingo, 28 de agosto de 2011

Na ponta dos pés


Por Karina Serqueira*

Ao passar pelas ruas com o meu coque e trajes de balé sempre deparo com alguma garotinha que olha para mim encantada e diz à mãe:

— É uma bailarina? Mãe, quero fazer balé!

Confesso que na infância nunca tive esse sonho. Sonhava em ser fada, apresentadora de programa de auditório, cientista e mil outras coisas, mas nunca bailarina. Costumava implorar à minha mãe para fazer ginástica olímpica, queria fazer acrobacias, mas minha mãe queria balé. Sem entrarmos em consenso, fui para a natação.

Hoje, quase não reconheço aquela menina de antes, que torcia o nariz ao ouvir a palavra balé e agora torce o pé, mas não desce da sapatilha de ponta. Ser bailarina é ser masoquista, e qualquer bailarina que ama o que faz concorda sinceramente com esse fato. Balé é força e graciosidade. Por trás da coreografia linda, existe muito treino, meses ou anos de preparação.

O mundo do balé é cruel. Você não o escolhe. Ele escolhe você e exige coisas quase impossíveis. É por isso que todo ano uma legião de garotinhas entra no balé, mas poucas resistem aos nove anos de curso. O treino é pesado, algumas dão sorte de nascer com um super alongamento ou com o pé perfeito, mas ainda assim para o balé não é suficiente.

O balé é perfeição. E perfeição, na verdade, não existe. Ser bailarina é viver em busca da perfeição, fazer passos que exigem e fazer o espectador acreditar que o que você faz é muito simples. É por isso que toda a bailarina sempre tem de lidar com o chato que vem falar que balé não é esporte, não é exercício. É só ir lá e ficar na ponta dos pés, bonitinha. Nessas horas, você se segura e simplesmente manda o infeliz ir fazer uma aula para ver como é. Você acaba rindo sozinha ao imaginá-lo tentar fazer tudo o que você treina há anos e, mesmo assim, ainda não domina com perfeição.

Balé é para quem ama. Só o amor explica as incontáveis horas de aulas, treinos e ensaios. Só o amor explica passar noites com gelo no pé, no joelho e em tudo mais só para estar bem e continuar a treinar. Só uma bailarina de coração entende o que é tomar aquele tombo, ficar agoniada semanas afastada com gesso e depois voltar e dançar como se nunca tivesse caído.

Amo o que faço. Por isso, mesmo sem o alongamento perfeito, sem a perna certa e outros requisitos que o balé exige, insisto. Continuo a dançar, a me superar. Finalmente, estou colhendo os frutos de nove anos de esforço. Não existe sensação melhor — depois da apresentação em que deu tudo de si ou o exame para passar de ano — do que o momento em que a jurada diz o quanto você foi bem, o quanto cresceu.

É por isso que continuarei na ponta dos pés, até quando eles me permitirem.

* Texto produzido para a Oficina de Crônicas, na disciplina Leitura e Produção de Textos, do curso de Produção Multimídia (UNISANTA)

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