sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Doente, eu?


Caminho quase um quilômetro entre um dos empregos (jornalistas colecionam patrões) e minha casa. No trajeto, são 12 salões de beleza ou clínicas de estética ou outros nomes, em vários idiomas, que reforçam exatamente o produto a ser vendido: aparência.

Perto da residência de uma amiga, há quatro estabelecimentos numa quadra. A concorrência é saudável. Todos vão muito bem, obrigado, tanto que investiram em reformas das instalações este ano. No prédio de meus pais, há um ponto comercial que vingou depois de 15 anos. Qual o ramo? Redundante dizer. Ao menos afastou a lenda de que havia cabeça de burro enterrada por ali. Na rua ao lado, mais dois salões de beleza, sempre cheios.

O milagre da multiplicação de cabeleireiros (o nome original) indica desenvolvimento econômico, mas realça comportamentos e valores culturais, marcas de um modo de vida cada vez mais dependente da aparência em detrimentos de aspectos essenciais, internos aos seres humanos.

A progressão geométrica, em Santos, também diz respeito às farmácias ou drogarias ou nomes parecidos que atendem a outro sintoma do homem moderno: a dependência química, a escravidão da saúde fast-food.

Na década passada, a cidade viveu um debate em torno da lei que estabelecia a distância mínima de 200 metros entre duas farmácias. O assunto foi remediado por injeções de interesses e hoje é possível observar farmácias que convivem na mesma calçada ou se transformaram em mini-supermercados, onde se come, bebe e melhora a aparência. As duas áreas se abraçam para tratar várias patologias, físicas ou sociais, para que os “pacientes-clientes” pareçam saudáveis.

A somatória singela destes dois segmentos marca em brasa o estilo de vida atual. Apostamos em soluções velozes para problemas de longa duração. Fomos soterrados pela preocupação com o outro, com a aprovação social e estética dentro de critérios e moldes jamais determinados por quem os segue.

Os homens (e as mulheres) de hoje mal consegue conviver com a própria imagem no espelho. Fogem, em desespero, de conversas internas, de reflexões e avaliações sobre atos e a própria vida. É mais fácil buscar, em farmácias e salões de beleza, respostas imediatas para os males que insistem em reaparecer para o retoque nas pontas, na próxima semana.

As respostas podem se materializar na pílula azul da metamorfose sexual, nas pílulas da felicidade que encenam matar a melancolia ou na nova técnica de escova, que ressuscitará – atrás da cortina de fumaça – aquela mulher ideal que jamais poderia ter desaparecido pela crueldade do tempo.

Ninguém é contra a valorização de si mesmo. O exagero nos conduz a cegueira de que torrar horas atrás de cremes e outras substâncias representa a fronteira da mudança. O exagero que nos leva a crer, de forma fanática, nas farmácias como locais de lazer, ponto de passeio familiar, com um comprimido mágico para cada pedra no caminho.  

Vivemos numa sociedade doente, que se perpetua pelo individualismo e pela intolerância. Muitos se tornaram escravos voluntários do padrão. Lutam para serem diferentes e melhores, enquanto chafurdam na lama dos iguais. Neste sentido, quem ruma por uma estrada de curvas particulares paga o preço da incompreensão. Quem tenta rejeitar a robotização padece de alguma enfermidade. É a sociedade que idolatra criar patologias para quem se recusa a tomar a pílula da moda ou ter o cabelo da celebridade do mês.

Lembro-me da reação de um amigo que, ao ver mais uma farmácia a ser inaugurada, comentou ingenuamente:

— Mais uma? Deve ter muita gente doente! 


Um comentário:

Thaís Redher disse...

ODEIO TODAS AS FARMÁCIAS.
E POR MAIS INCRÍVEL QUE PAREÇA SALÕES DE BELEZA.
NÃO HA CRISE PARA ESSES DOIS ESTABELECIMETOS MESMO QUE ESTEJA ALI UMA CABEÇA DE BURRO ENTERRADA ELA VAI ENRIQUECER O DONO.MAS SALÃO É UMA BELEZA IMEDIATISTA E MÊS RETRASADO EU FUI CORTAR MEUS CABELOS TIPO D.CANÔ, FIOS LONGOS, RETOS, PUXADO POR UM COQUE, EU QUERIA UMA COISA DIFERENTE E O QUE A MULHER FÊZ, ERA DIGNO DE COLOCAR AQUI.EU PARECIA O CAZUZA ,VIVIA DE LENCINHOS NA CABEÇA,E AI ESSA SEMANA EU ACERTEI COM O MEU CABELO,MAS...SEMPRE TEM UM mas ,JA É HORA DE DORMIR.E ACORDAR NÉ?NÃO SEI FAZER ESCOVA ,E AS LUZES ACOBREADO POR CIMA DOS MEUS CABELOS CASTANHOS PINTADOS ,PARECEM BOM-BRIL ENFERRUJADO ,EU COMEÇEI A CHORAR, E NEM POSSO QUERER MUDAR, PORQUE QUEM FÊZ FOI A VIZINHA ,QUE SE EU A MAGOAR ELA SE SUICIDA OU ME MATA.
A VERDADE É QUE EU QUERIA ENVELHECER EM PAZ, EU JA SOU UMA SENHORA DE 61 ANOS, É CLARO NÃO QUERO ESSAS RUGAS,EU NÃO POSSO MESMO DESAPARECER ,EU ERA TÃO LINDA era ERA( AH! CAPS lOCK) MEU DEDO PENSA QUE ISSO AQUI É A MINHA VELHA MÁQUINA DE ESCREVER.bEM EU TO PARECENDO COM O CABELO DO FILME CORRA lOLA CORRA ,QUANDO ESTÁ EM MOVIMENTO, TA UMA MERDA, E EU NÃO POSSO RECLAMAR, EU NEM PAGUEI AINDA ,ESSA É A VERDADE.MAS NINGUÉM ACEITA UMA MULHER COM CABELOS BRANCOS ,AS MESMAS,NOS CHAMAM DE RELAXADAS,DE TUDO QUE É NOME DEPRECIATIVO GRISALHO NUM HOMEM É CHARME ELAS ATÉ SE ENGRAÇAM COM ELES... E A VERDADE É UMA SÓ envelhecemos.E não há cremes ,nem salões ,nem remédios de farmácias que de jeito, a não ser neles mesmo que estão cada vez proliferando nas esquinas ,em um quarteirão aqui de casa ,eu moro em SAMPA 7(NÃO É CONTA DE MENTIROSO NÃO)7 FARMÁCIAS CONVIVEM COM UM POVO DA TERCEIRA IDADE DA PRIMEIRA E ÚLTIMA, E EU TO DE SACO CHEIO.ADORO FICAR AQUI MAS JA NÃO AGUENTO MAIS FICAR SENTADA.AQUI NÃLO TEM SEGUIDORES? QUERIA SEGUIR SEU BLOG E NÃO TO ENCONTRANDO JEITO,SEGUE O MEU ENTÃO E CORRIJA OS ERROS TÁ?QUERO SAIR DO PLANETA SABENDO ESCREVER.aH! AO LER PENSEI QUE VC FOSSE UM SENHOR DE UNS 60 ANOS NO MÍNIMO...QUE CABEÇA MAIS MADURA HEIN?