sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Bom dia, meu filho!

Marliane Rnilz da Costa sai de casa todos os dias antes de clarear. Em ponto, às 5 horas. Ela é vendedora de passagens da Viação Piracicabana e precisa estar na rua Sete de Setembro antes do sol nascer. Ela mora a meia quadra de onde ficam as duas árvores. Atravessa a rua para não se aproximar delas. Ainda que à distância, ela cumpre o ritual de olhar para a amoreira e dizer:
— Bom dia, meu filho!

Marliane nunca tocou na árvore. Um dos irmãos, Regis, tem a responsabilidade de zelar pelas plantas. Quando conversou comigo, Marliane estava a dois metros da amoreira. Falava de costas para a árvore. Quando se virava para ela, engasgava, os olhos se enchiam de lágrimas. Marliane respirava fundo e buscava concentração para retomar a conversa.

A mãe de Murilo confessou que, no primeiro ano, não admirava a ideia de promover uma rua de lazer para relembrar a morte do filho. “Estava de luto. Fui convidada especial.” A partir de 2007, se envolveu diretamente com a organização do evento.

Murilo morreu numa segunda-feira. Marliane vendia passagens em frente à Santa de Casa de Santos. Conhecia muitos funcionários, que a deixavam tomar água e utilizar um dos banheiros do hospital. No momento do acidente, o movimento estava tranqüilo e ela havia engatado conversa com uma amiga. Ela se recorda de ter mencionado os filhos várias vezes até sentir uma dor no peito.

A sensação de mãe, que cientista algum consegue explicar, se transformou em preocupação. “Não deve ser nada”, pensou. Minutos depois, a ambulância que tentava salvar a vida do garoto de oito anos passou em frente ao ponto. Ela não prestou atenção, até porque havia se acostumado com a rotina das emergências no local. “Toda hora passa viatura por lá.”

Marliane só percebeu que havia algo diferente quando notou meia dúzia de funcionários olhando diretamente para ela. Murilo havia sido identificado. Nenhum deles tinha coragem de dar a notícia para a vendedora de passagens. Marliane só pensou em acidente com um dos três filhos quando avistou a cunhada saindo da Santa Casa.

Hoje, a árvore é mais do que um símbolo. Para Marliane, a amoreira é Murilo. A amoreira é a projeção de como o filho dela estaria aos 14 anos. É quando ela olha para a árvore, soluça e diz: “ele cresceu, está grande, feliz e com vida.”

Um comentário:

Beth Soares disse...

Transformar dor em poesia não é algo simples de se fazer. É preciso, além de talento, paixão e uma dose extra de sensibilidade. E você fez isso com maestria. Minha admiração por você aumenta a cada minuto. Estar perto de você é uma maneira maravilhosa de aprender como transformar palavras em instrumentos valiosos, não só da mente, mas do coração. Agradeço a Deus por isso.
Beijo bem grande!