domingo, 10 de julho de 2011

O andarilho é insano?

Convivemos há mais de 20 anos. A data de início do nosso relacionamento é imprecisa, inclusive porque não houve apresentação formal entre nós ou evento solene que marcasse o começo desta história. Não posso sequer classificar como amizade, o que implicaria numa relação de níveis semelhantes entre as partes. Não há afetividade. O que existe é a minha curiosidade sobre ele, enquanto sou ignorado sem cerimônia.
Não sei o nome dele. Deduzi o bairro onde mora pelo lugar de preferência das caminhadas dele. Nunca conversamos, até porque ele está sempre em movimento. E com pressa! Apelidei-o de andarilho porque precisava chamá-lo de alguma coisa. Seria indelicado apontar e dizer “aquele ali” ou mencionar “o cara que anda”. E, de fato, evita explicações desnecessárias para a história.
A descrição e o comportamento dele talvez permitam a identificação do sujeito. O andarilho nunca dialoga, ao menos em público. Também despreza companhia para as caminhadas. Andar ao lado dele significa se transformar em nada. Ele é solitário enquanto anda; assim, dita o próprio ritmo. Ignora as calçadas, pois prefere caminhar pelo asfalto, com ou sem trânsito. Buzinas, reclamações e xingamentos são sinfonia inútil para quem se faz de surdo.
O destino dele é desconhecido, mas confesso que poderia descobri-lo com pouco esforço, uma atitude que considero sem graça. Nunca me interessei por onde ele pretende ou quer chegar.
Ele desperta curiosidade por quebrar a dinâmica mecanizada da rotina urbana, a cada vez que atravessa o trânsito e obriga motoristas e pedestres a observá-lo. Parar para pensar nele, por um segundo que seja, rompe com a inércia do cotidiano de uma cidade média como Santos, no litoral de SP.
O andarilho ruma em marcha, sem exército, em movimentos repetitivos de braços e pernas. A cabeça está sempre empinada, como se enxergasse além, acima de carros e seus ocupantes. Veste apenas uma bermuda, não importa o patamar de aquecimento global. Caminha descalço, sem se importar com as imperfeições do asfalto, incapazes de alterar a velocidade das passadas, como se fossem os ponteiros de um relógio de estação de trem.
Jamais o vi de camisa. A bermuda lembra as usadas por jovens de classe média, que imitam o estilo dos rappers norte-americanos. A diferença é que não existe uma cueca para sobrar na bermuda e evitar exposições de áreas anônimas.
Encontro o andarilho com freqüência irregular, normalmente nas proximidades do canal 6, no bairro da Ponta da Praia. Em todas as ocasiões, ele andava em direção à orla da praia e passou por mim como se eu não existisse. Não há como rotulá-lo de mal educado ou necessidade de se sentir menor por causa disso. O andarilho, se pudesse, atravessaria a todos como fantasmas cruzam paredes em filmes de terror B.
Este personagem da vida urbana poderia ser enquadrado como mais um “louco do bairro” ou expressões semelhantes e superficiais. Prefiro crer que o andarilho personifica a contestação dos robôs que dirigem, viajam ou caminham pela cidade, sem olhar para os lados ou para frente. As cabeças baixas que simbolizam os sintomas da vida automatizada.
O jeito insano de transitar pela cidade faz do andarilho um alienista no meio do sanatório sem muros, mas com rodas e motores. A transgressão miúda nos passos de um suposto louco poderia provocar um lapso de lucidez em quem não se enxerga como maluco, mas encara os demais como pirados.
Encontrei, recentemente, o andarilho. Foi a única vez em que estávamos em posições diferentes. Ele me ignorou como de hábito. Eu seguia com minha filha, Mariana, para a natação. O atraso para a aula fez com que andássemos em ritmo acelerado.
Não havia risco de choque entre trens descarrilados. Eu e minha filha passamos por ele com pressa a ponto de quase não termos notado. Pela primeira vez, o andarilho estava parado, sentado em frente a uma loja.
Semanas depois, ao vê-lo caminhando na marcha tradicional, compreendi o recado dado no encontro às avessas. A comunicação pelo andar (e pela paradeza) era o sinal de fumaça para que eu o visse como a chave que me libertaria – mesmo que fosse um indulto provisório – da insanidade que, eventualmente, conduz minha própria vida.
Estar sentado, para o andarilho, talvez seja o instante em que redesenha a próxima romaria. Andar tem um propósito e indica que o tráfego a esmo – de destino ilusório - é prerrogativa dos insanos, perdidos sempre em suas estradas individualizadas, com chegadas formadas por verdades absolutas. 

Um comentário:

ebraelshaddai disse...

À "insanidade" que você que você aplica à sua própria vida eu denominaria automatismo! O andar das massas parece já ser delineado por leis da Física, em que a inércia (lei da conservação do movimento/repouso) parece invencível.

Sempre que vemos alguém sair fora do comportamento de massa, nossa visão e chocada pela possibilidade de um ser na massa de semelhantes zumbis destoar dessa platéia do horror diário. Isso mesmo, choca-nos a originalidade e a auto-determinação alheios. De insanos, se nos tornam super-heróis, semideuses, espíritos livres, dignas de romances plagiados de Paulo Coelho...