sexta-feira, 8 de julho de 2011

Mentiras


Minto todos os dias. Minto para várias pessoas. Minto para proteger a mim e aos outros. Minto para me esconder. Minto para cumprir convenções sociais. Minto descaradamente ou sem perceber.

Os estudos sobre o comportamento mentiroso indicam que contamos, em média, 200 inverdades (uma forma educada de evitar a repetição de palavras) por dia. A maioria delas são de pequeno porte e de perna curta. São atos circunstanciais, que asseguram a sobrevivência cotidiana, evitam conflitos por bobagens e driblam obstáculos desnecessários para a convivência, inclusive com aqueles que merecem ouvir mentiras sempre.

Descontando as mentiras tóxicas, fraudulentas ou de má fé, enganamos quase sempre sem premeditar. As pequenas mentiras flertam com o irracional, o instintivo, nascem pela ausência de reflexão, pela vontade de seguir em frente, despachar alguém ou uma situação com potencial dano.

Enganamos quando dizemos bom dia para o vizinho insuportável. Mentimos quando elogiamos a roupa bonita da namorada para garantir uma noite sem melindres. Somos estelionatários afetivos quando enaltecemos o desempenho sexual do(a) parceiro(a) para não magoá-lo(a). Fingimos adorar um filme para que o amigo-fã não tumultue a pizza pós-espetáculo.

Elogiamos a comida da sogra pelo bem do casamento. Não o dela, claro. Concordamos com as ideias do chefe para garantir o salário do próximo mês. Prometemos aos deuses mudança de comportamento, tremendo de medo pela punição dos céus ou de viajar ao inferno sem direito ao purgatório.

E quando mentimos para blindar alguém da dor? É o caso de um amigo, que escondeu o desemprego de um parente para preservar o casamento dele. A encenação envolveu levá-lo ao trabalho-fantasma por dois meses.

A dor pode ser mais aguda no momento em que morte e mentira dão as mãos. Tentamos fraudar a morte o tempo todo. De cara, legislamos em causa própria. Fazemos o que for possível para evitar um encontro com o sujeito de capa preta e foice na mão direita, o anjo da morte ou ceifador, qualquer que seja o nome que as culturas dão a ela.

Desejamos ignorá-la quando se aproxima para levar alguém querido. Procuramos por milagres, acendemos velas para todas as crenças, fazemos promessas tão mirabolantes que envergonhariam o mais sujo dos políticos. Tudo por um pouco mais de tempo com aquele que, muitas vezes, juramos socar por mesquinharias e outras tralhas que habitam nossa pequenez.

Quando a morte (ou qualquer muro intransponível) se aconchega, adotamos o mundo das ilusões. Conheço pessoas que souberam da morte de entes queridos meses depois porque parentes pretendiam protegê-las. O sentimento de traição do “protegido” pode ofuscar a dor da perda. Um esqueleto a mais para trancar no armário, geralmente lotado de artificialismos ou de contas não acertadas.

A mais grave das mentiras, porém, sobrevive e se realimenta em vida, no permanente exercício do auto-engano. Mentiras recitadas para outros, ainda que minúsculas, podem ser avaliadas, consertadas, até passíveis de desculpas ou de arroubos de sinceridade.

O problema está nas mentiras que contamos para nós mesmos, cegos pela certeza de uma verdade que nunca existiu. Jamais duvidar de si e dos próprios caminhos é o veneno que perpetua a cegueira de quem não percebeu a mentira exaustivamente reprisada como dogma.

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