terça-feira, 12 de julho de 2011

E agora, Marina?

A saída de Marina Silva do Partido Verde era final previsível de filme-clichê. O embate entre ela e a cúpula do PV indicava que o namoro circunstancial da eleição para presidente não se transformaria em casamento. O divórcio só não tinha data marcada.
As diferenças entre Marina e a direção do PV eram irreconciliáveis. Marina Silva tentava democratizar as escolhas hierárquicas no partido. Mas enfrentava dois focos de resistência. O primeiro estava personalizado no presidente Sergio Penna, no comando desde 1999 e que se deu mais um ano de mandato. No PV, filiados, por exemplo, não têm direito a voto. As escolhas são feitas por meio de conselhos. Os federais escolhem os dirigentes estaduais e assim por diante.
A segunda trincheira do partido é a própria natureza dele. O PV não se identifica e tampouco prega uma agenda pública ambiental pragmática. Parte de seus integrantes, muitos com mandato, vieram de outras legendas por interesses em verbas e cargos, elementos banalizados quase como valores éticos na política contemporânea.
A agenda de sustentabilidade, exemplificada na discordância do novo Código Florestal, pertencia ao grupo que organizava a campanha de Marina Silva à presidência da República. Com a saída dela, o partido precisará assumir riscos, se desejar manter o vínculo com o debate público sobre meio ambiente.
Marina Silva não deixou sozinha o PV..Arrastou com ela o candidato a vice-presidente Guilherme Leal, presidente da Natura, e o também empresário Ricardo Young, que se candidatou ao Senado por São Paulo. A torneira de recursos e apoios financeiros secará por agora.
Por outro lado, permaneceram o deputado Alfredo Sirkis, crítico ferrenho do PV, e o jornalista Fernando Gabeira, militantes históricos do partido.  
Com a saída de sua maior representante, o PV deverá retornar a sua condição tradicional, uma legenda nanica. Neste sentido, o partido não será diferente dos demais peixes pequenos. Sobreviverá de acordos estaduais e municipais, Na esfera federal, vai engrossar o grupo que age como massa de manobra do governo do PT, conectado com suas ventosas em cargos de segundo escalão e destinação de verbas a currais eleitorais.
A saída de Marina Silva causou impacto também na Baixada Santista. Em Santos, um ex-vereador e dois candidatos a deputado deixaram a legenda. É claro que nenhum deles possui lastro histórico de militância ambiental. Apenas simbolizavam o que representa, na prática, a instituição.
Para Marina Silva, qualquer prognóstico é mero chute em direção à bandeira de escanteio. Ela precisa se manter no centro do debate político até 2014. Até agora, conseguiu estar entre os protagonistas, inclusive porque o governo Dilma assumiu de vez a postura cinza, ao menos nas atitudes, como a Usina de Belo Monte e o Código Florestal.
Marina já se moveu ao retomar a coluna no jornal A Folha de S. Paulo, o que assegura contato contínuo com formadores de opinião e eleitores de perfil simpático a ela. Mas a ex-senadora aposta também nas redes sociais como mecanismo de propagação de propostas e aproximação com o eleitorado mais jovem. A dúvida reside na imprevisibilidade da Internet, onde morrem quaisquer exercícios de futurologia. Três anos é tempo longo demais.
Outro aspecto político é a necessidade de institucionalizar o grupo de Marina Silva. Ou seja, ela e seus apoiadores precisam de um partido. Voltar para o PT? As velhas feridas ainda sangram. São visões de mundo diferentes. Filiar-se a um partido de centro-esquerda? Seria trocar o PV por um irmão gêmeo.
É provável que Marina tenha que construir uma casa do chão, o que – de certa forma - implicaria em seguir o mesmo rumo do prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab. Criar um novo partido seria reforçar a lista de nanicos. Mas a estratégia traria as vantagens de controlar uma legenda, algo que não acontecia no PV, e cumprir a legislação eleitoral.
Com ou sem partido, Marina Silva deve apostar em si mesma e na coerência do discurso ambiental, tema em crescimento na agenda pública. O partido poderia ter qualquer cor, até porque eleitores escolhem pessoas e desprezam, com razão, as instituições partidárias.

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