segunda-feira, 18 de julho de 2011

Contaminados pela arrogância

A perda de quatro pênaltis contra o Paraguai é, obviamente, o centro das conversas sobre a eliminação do Brasil na Copa América. Mas os erros são pontuais e pouco acrescentam aos fatores que cercam a condução e a formação do time nos últimos 12 meses.


Afirmar que o Brasil perdeu para si próprio também seria colocar mais uma pedra no castelo de arrogância que aprisiona a seleção, cenário semelhante a da Copa do Mundo da Alemanha, em 2006. O que diferencia os dois grupos são, basicamente, a média de idade e os objetivos do grupo de jogadores.

Com a desclassificação, ressuscitaram das tumbas os cadáveres apressados em puxar para o subsolo o corpo do atual treinador da seleção. Há situações de jogo que sempre estarão além dos limites profissionais de um técnico de futebol. È perda de tempo gritar novamente pelos velhos nomes, como Felipão, Muricy Ramalho e Wanderley Luxemburgo.

Acreditar que qualquer um deles convocaria uma seleção diferente seria ingenuidade ou má fé. Supor que qualquer um deles teria desempenho melhor soa como clarividência charlatã.

A seleção brasileira, independentemente do sujeito no comando, está condenada a se afogar na própria arrogância, se mantivermos a mentalidade atual, inclusive na postura dos personagens periféricos.

A Copa América deixou claro que os jovens ainda não estão prontos e correm risco de passar por processo de fritura, marcado por cobranças antecipadas e excessivas. Ganso e Neymar protagonizam este capítulo.

Ambos representam uma geração valorizada desde a fase em que o fruto estava verde. Esta geração – e não há peças de reposição aos montes – é tratada como astros de rock, parafraseando a definição do jornalista Juca Kfouri. Vivem cercados por um exército, com muitos soldados sanguessugas, que promovem a estratégia de os atletas aparecerem a qualquer preço, jogarem literalmente para torcida (na verdade, para o telão) e misturarem episódios de vida pública com a rotina privada. Jogadores transformados em participantes de reality show.

A soberba não representa privilégio apenas de jogadores isolados. O time atua, inflamado por dirigentes, empresários e jornalistas bajuladores, como se o Brasil fosse, com sobras, o melhor do planeta. Como se a seleção brasileira pudesse contar com três, quatro equipes do mesmo nível. Mal formamos um elenco de 22 atletas. Poderíamos incluir Kaká e outros jogadores de sucesso na Europa, meia dúzia de atletas sem garantias de respostas positivas e rápidas.

O desempenho na Copa América pode ser visto como parte da estrada não-linear do programa de renovação. A seleção ainda possui um goleiro confiável e uma defesa sólida, mesmo com a alternância de jogadores nas laterais e no miolo de zaga. Do meio para frente, optamos pelo rejuvenescimento, que até o momento se desenha como infantilização.

Nós, os torcedores, somos tão arrogantes quanto o time para o qual gritamos, seja de admiração ou de ódio. Não admitimos perder para o Paraguai, sem considerar o desempenho recente da seleção adversária e levar em consideração que muitos dos jogadores deles defendem clubes nos mesmos centros que nossos “ídolos”.

A seleção brasileira sofre as conseqüências do mercado globalizado do futebol, que nivelou esquemas táticos, estratégias de jogo, formação física e técnica dos jogadores. Cegos pela arrogância, que conduz a desinformação, nos contentamos com o exercício de auto-engano, numa postura esquizofrênica, que transita entre o desprezo pelo oponente e o reconhecimento frágil de que “não existem mais bobos no futebol.”

A arrogância do universo que cerca a seleção brasileira se materializou na forma de jogar, mascarada – em parte – pela vitória por 4 a 2 contra o Equador, o pior time da chave. A equipe nacional transpira a sensação de que pode ganhar quando bem entender, golear quando quiser. Abandona a objetividade por uma arte estéril, sem efeito, que não resulta em admiração aos olhos do espectador.

A soberba indica que o Brasil está sentado sobre as glórias do passado, enquanto – paradoxalmente – tenta se reinventar. O problema é que a recriação da identidade implica em injeções de simplicidade. Jamais em excesso de malabarismos e toques pretensiosos como se o gol fosse um parto natural, como se o adversário fosse composto por cones ou jogadores de futebol de mesa.

O arrogante, quando não se reconhece, finge ser justo com o passado antes enterrado pela pressa dos que medem o mundo por resultados. O abandono do contexto serve agora para fazer mea culpa, no jogo de cena para aliviar as pedras atiradas contra Dunga, visto como autor de um bom trabalho até a derrota para a Holanda.

O prazer em massacrar Dunga se alimentava, entre outros fatores, da estupidez por não levar Ganso e Neymar à Copa. Agora, as palavras são devidamente esquecidas. Esquecidas por cinismo de quem diz – hoje – que ele estava certo em deixar os dois atletas dos Santos no Brasil.

Cínicos porque transformam em verdade a mera especulação. Jamais saberemos como eles se comportariam e a Copa América não é parâmetro para análises deste calibre. São cenários rigorosamente diferentes.

A seleção brasileira e seus detratores terão que se contentar com o material humano atual. Para dar conta dos próximos três anos, é preciso mudar de comportamento, entender que fogos de artifícios em clube são bombinhas sem pólvora. Talvez, assim, consigamos vencer os mais fracos e equilibrar com os grandes times, grupo do qual perdemos a cadeira cativa. O Brasil é somente convidado eventual, dependendo da festa.


Um comentário:

Filipe Lima disse...

E é exatamente por essa arrogância que a Seleção passou por uma renovação abrupta e desnecessária.

Quando o Brasil perde, o povo brasileiro não sabe admitir que o adversário foi melhor: nunca perdemos para ninguém além de nós mesmos, a "culpa" sempre é de alguns jogadores e invariavelmente do treinador.

Foi por essa interpretação que deixamos de convocar nomes de qualidade como Júlio César, Maicon, Lúcio e Elano para, meses depois, voltar a chamá-los. Se não houvesse essa caça às bruxas pós-derrota, os quatro citados nunca teriam deixado o grupo, e a renovação com Lucas, Ganso, Neymar e Pato poderia ter sido feita com mais calma, aproveitando um bom time formado durante o período de Dunga.

Falta ao País humildade de entender que, no momento, não somos a melhor seleção do mundo (nem num top 3 estamos), para cobrar nossos atletas da maneira correta.