sexta-feira, 29 de julho de 2011

O braço estendido


A senhora de 70 anos levou o recado ao pé da letra. Estava em uma faixa de pedestres, não havia semáforo e, com o trânsito movimentado, perdera a perspectiva de atravessar a avenida Pinheiro Machado. Lenta ao caminhar, ela estava atrasada para um compromisso. Avançou um passo na rua e estendeu o braço direito.

Um motorista também cumpriu o recado à risca. Parou o veículo para que a mulher pudesse cruzar a avenida. A generosidade virou problema. Logo atrás vinha outro carro. O segundo motorista não percebeu a pedestre e não brecou a tempo. O saldo foi uma colisão entre dois veículos, sem feridos. A senhora, com medo, chegou à calçada oposta, seguiu seu caminho e desapareceu, enquanto os dois motoristas discutiam sobre o prejuízo material.

A história, relatada por taxistas, é uma exceção, mas serve para ilustrar possíveis conseqüências da campanha Faixa Viva, implantada pela CET, em Santos. A proposta em si, obviamente, não causa acidentes, mas gera a dúvida se motoristas e pedestres estão preparados para abandonar a selvageria que norteia o tráfego na cidade em vários momentos do dia.

Conversei com uma dezena de taxistas, todos com adesivos da campanha em seus carros, nas últimas duas semanas. As conversas foram isoladas, durante o trajeto de uma corrida ou no ponto. Todos elogiaram a ideia, mas pediram alterações estruturais no trânsito.

O curioso, no entanto, foi a resposta para a nova relação com pedestres. Os taxistas apenas paravam para idosos e reclamaram que muitos deles entendem que podem estender o braço em qualquer lugar, inclusive fora da faixa. Esta mentalidade indica que a campanha não é suficiente para redesenhar comportamentos. Ficou cristalino, pelos depoimentos, ainda que sem base científica, mas com experiência cotidiana, que os motoristas pararam seus veículos por causa da aparência dos pedestres. Neste raciocínio, jovens podem esperar mais um pouco ou procurar outro lugar para cruzar uma rua.

A Faixa Viva, de maneira isolada, tende ao esquecimento. São necessárias políticas públicas mais agudas e duradouras para modificar o tráfego. Ou evitar o caos nas principais vias da cidade. Endereços como as avenidas Conselheiro Nébias e Ana Costa entopem em horários de pico, sinal de que o cenário começa a adoecer com gravidade.

Por trás disso, persiste a mentalidade do culto aos automóveis. É difícil ir contra o crescimento no número de carros nas vias públicas. Santos está entre as três cidades do país, na proporção, com mais veículos por habitante.

O automóvel se transformou em um dos termômetros do desenvolvimento econômico, além de representar – para o consumidor – símbolo de ostentação e ascensão social.

A Prefeitura não pode, sozinha, alterar o quadro que caminha para focos de paralisia no tráfego. Mas é fundamental colocar o problema na agenda pública, atraindo a sociedade civil para o debate. Discussão de fato, não como ocorreu com o Plano Diretor, em que entidades receberam a coroa de Rainha da Inglaterra, enquanto a Câmara aprovava 100% das propostas do Poder Executivo. Um das ideias recusadas foi justamente a que previa planejamento do setor de transportes a longo prazo.

A Faixa Viva necessita de irmãos para sobreviver como ícone de um novo comportamento. Caso contrário, será abandonada como órfã, assim como o mutirão da carona, outra iniciativa da CET, chacota entre os que se lembram dele. Hoje, a Faixa Viva reforça o coro dos descrentes, que repetem a piada enquanto dirigem suas armas: a melhor maneira de perder o braço é estendê-lo nas ruas e avenidas de Santos. 

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Quem é Amy?

Prometi a mim mesmo que não me manifestaria sobre a morte de Amy Winehouse. Não sou fã dela. Mal conheço suas músicas. Nunca tive interesse pela carreira da moça. Apenas era exposto à vida desregrada da personagem quando abria portais de notícias ou assistia a algum telejornal, como milhões de pessoas.

Não me interessava conhecê-la, até porque as barreiras e estratégias da indústria cultural se mostravam eficientes para conter qualquer possibilidade de opiniões ou manifestações dela. Testemunhava somente a degradação – que integra o pacote de consumo cruel – da cantora britânica à distância, sem pensar muito a respeito. Era mais uma celebridade no universo pop, que me permitia duvidar – com injustiça - do talento, misturado com a vida de produto.

Como não costumo cumprir as promessas de segunda-feira, resolvi refletir sobre a morte da moça. Li alguns críticos que respeito para me informar um pouco mais. Obviamente, não corri a nenhuma loja de CDs. Se não pagava por um álbum dela, quanto mais agora, inflacionado pela morbidez econômica.

Não baixei músicas também. Até porque não tenho essa prática, nem com meus próprios ídolos. Prefiro ouvi-los nas rádios rock ou cultivar os velhos CDs com seus clássicos. Quando vou à loja, procuro as promoções de coletâneas ou trabalhos ao vivo. No último mês, foi o que fiz com a Sade, apenas para comprar fragilmente duas cantoras.

Não resisti ao fenômeno Amy Winehouse. Não me refiro à mulher, mas à mercadoria empacotada como dramaturgia-clichê. Comecei a me aborrecer com a sucessão de atrocidades em torno dela. Família, pessoas próximas, jornalistas e outras espécies de oportunistas resolveram destrinchar a vida e a morte da cantora, exagerando nas atitudes, nos juízos de valor, nas qualidades e defeitos da artista. No fundo, despersonalizaram a mulher para espremê-la mais uma vez. E não será a última.

Fãs não integram este espectro perverso. Acreditavam nela e precisam ser perdoados. Exalam paixão, compram sem racionalidade, perdoam os deslizes nos shows, contemporizam a decadência física do ídolo. Estes acompanharam o início e o desfecho da biografia musical da cantora inglesa. Os fãs vão se manifestar de maneiras particulares, renovarão a relação de respeito pela moça e seguirão suas vidas.

Mas e os cínicos, que correm para parecer parte do circo? Aqueles que se alimentaram, de início, de uma mera curiosidade mórbida. Amy Winehouse morreu aos 27 anos. E daí? De que serve entrar para o panteão imaginário de Jimi Hendrix, Kurt Cobain e outros? Nenhum deles se tornou peça obrigatória no museu da música por causa da idade em que morreram.

E os sobreviventes da viagem, muitos deles sessentões? Submeteram-se à avaliação do tempo e se tornaram clássicos, obrigatórios em qualquer estante ou publicação que fale sobre rock. Exemplos como Ozzy, Dylan e Keith Richards. Ser um clássico não tem conexão com o corpo, vivo ou morto. O artista entra para um time como esse pelo que fez, pelo que criou. Pode ser o caso de Amy Winehouse.

Amy Winehouse deveria ter sido blindada quando havia sinais da curva inevitável. Familiares agora falam em privacidade, depois de anos agarrados aos microfones e às câmeras. Lavaram as mãos quando Amy perdeu o poder de decidir por si mesma, esmigalhada pelo vício. Produtores e empresários espremeram a laranja até o bagaço, com turnês em que a cantora se arrastava e se expunha ao ridículo, como os shows em São Paulo e na Bulgária.

A máquina de dinheiro rendeu o que pôde e agradou a muitos. Com a morte, a exploração vai continuar, definitivamente, com DVDs, CDs de músicas que haviam sido desprezadas por qualidade inferior, trechos de gravação com blábláblá. Com o perdão da desproporcionalidade, Amy vai trilhar – morta – o mesmo caminho de Michael Jackson.

Amy Winehouse é mais um talento jogado fora pela selvageria alheia. É óbvio que a moça era adulta e – até certo ponto – poderia controlar seus atos. Mas a doença – alcoolismo assim o é – implicava na intervenção de terceiros, omissos diante da tragédia acompanhada como capítulos de novela.

Jamais saberemos a dimensão real da capacidade criativa da cantora, que me parece mais interessante de observar do que os fuxicos de alcova. Dois CDs são pouca coisa. Um deles levou cinco Grammys, mas pode significar fato isolado. Mera especulação pelas redundantes circunstâncias.

Escrevo sobre Amy Winehouse porque lamento a morte dela, como de qualquer outra pessoa. É o que prega o mínimo senso de humanidade. Não consigo e sequer tenho vontade de sentir pena dela. Pena é um sentimento de quem se julga superior. Um ato arrogante e, neste caso, hipócrita porque não a conheço. O que li são conjecturas e episódios isolados, paridos pela mídia que ama o maniqueísmo de seus personagens construídos.

Amy Winehouse sempre me passou a impressão de quem lidava mal com o isolamento (o paradoxo da superexposição) e, principalmente, de quem pedia socorro. Em condições normais, ninguém se expõe a um processo contínuo e doloroso de auto-destruição, seja profissional, pessoal e afetivo.

Não pretendo ouvir sua obra tão cedo. Tentarei dar o distanciamento da história para que possa sentir – sem prazo definido – vontade de ouvi-la cantar. Destinar a personagem ao papel de figurante e aproveitar o que a cantora tem de melhor. É a maneira que me parece mais justa de deixá-la descansar.

A moça, seu nome e seu legado artístico merecem paz.  

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Reconstrução ou amostra grátis?


Rafael; Pará, Edu Dracena, Durval e Léo; Arouca, Ibson, Elano e Paulo Henrique Ganso; Neymar e Borges. No papel, talvez seja o melhor time brasileiro da atualidade. Esta equipe estréia hoje, contra o Flamengo, na Vila Belmiro. Eles nunca jogaram juntos e compõem o que o Santos possui de melhor, no momento, para se recuperar no Campeonato Brasileiro e sonhar em medir forças contra a melhor equipe do planeta, no final do ano, no Mundial Interclubes.

O Santos de hoje pode não ser o clube de amanhã. A amostra, por enquanto, é grátis porque o time inicia um processo de reconstrução. Vários atletas coadjuvantes saíram; outros foram contratados. O assédio permanece latente sobre as principais estrelas da equipe.


Da forma como o futebol é conduzido no país, precisamos nos acostumar com a desmontagem de times vencedores. Assistimos apenas às fagulhas de sucessivas histórias de amor, desfeitas com a fugacidade de um namoro de verão. Um semestre é o limite para o sonho do torcedor.

Ganso e Neymar, por exemplo, recebem, pela imprensa, propostas milionárias quase todos os dias, das quais somos incapazes de distinguir se representam uma despedida em breve ou mais uma cortina de fumaça para (re)valorizar jogador. Os atletas brasileiros seguem atraentes, mas encareceram, enquanto as atuações na seleção não condizem – em proporção – aos caminhões de dólares exigidos no Brasil. Pode ser a saída, ainda que frágil, para prendê-los mais um pouco por aqui.

Esqueçamos um pouquinho os esquemas empresariais e pensemos nos 11 que defenderão o Santos na maratona de jogos pelo campeonato nacional. Mais do que isso, nas palavras do técnico Muricy Ramalho, o Santos está sem time. A história do campeonato nacional, no modelo pontos corridos, indica duas características básicas para se posicionar entre os quatro primeiros.

A primeira dela é manter a comissão técnica durante toda a competição. Comissão técnica, porque a equipe de profissionais é quem mantém o barco no rumo. Os treinadores, à beira do campo com seus sinais e gritos, são supervalorizados no papel que exercem. Palavras de gente como Tostão e o próprio Muricy.

A comissão técnica, com tranqüilidade para cumprir suas obrigações, consegue traçar e executar, na maioria das vezes, objetivos de longo prazo. Dentro e fora de campo. Antes, durante e depois das partidas.

Mas a primeira característica depende, como uma injeção diária ministrada a um doente crônico, do segundo ponto: o elenco. O Campeonato Brasileiro obriga os principais clubes a manterem times com 22 jogadores para as 38 partidas. 22 jogadores em condições de decidir, não garotos que completam treino ou atletas de qualidade duvidosa. Contusões, suspensões, o desgaste natural da temporada, além das convocações para as seleções principal e de base, representam elementos que desmontam uma equipe ao longo do torneio.


O técnico Muricy Ramalho reclamou inúmeras vezes que não possui este grupo. Vencedor de quatro campeonatos nos últimos cinco anos, ele sabe como ninguém que reservas à altura (a receita aponta evitar medalhões!) são meio caminho andado para figurar entre os melhores. São Paulo, por três vezes, e Fluminense, ambos sob comando dele, confirmam a tese.

Hoje, o Santos possui somente 11 titulares e dois ou três reservas com capacidade de resposta imediata em uma partida. Os demais são meninos crus, recém-promovidos ao time de cima, e novidades de segunda linha sem grandes chances de uma sequência de jogos.

Neymar e Ganso, salvo o adeus para a Europa, serão convocados com freqüência para a seleção brasileira. A ausência dos dois – e eventualmente Elano – abala a espinha dorsal. Faz do Santos um time como os demais. A classificação no campeonato, mais a escassez de gols (nove em oito partidas), selam o argumento da instabilidade.

A Vila Belmiro estará lotada para ver a estréia do Santos idealizado. Pena que não há garantias de que a amostra grátis será um remédio definitivo para a mesmice do futebol nacional. Um grande time precisa de tempo para se desenvolver. A gestação é naturalmente instável e dolorosa.

Este Santos pode morrer antes de sair do ovo, o que me dá a impressão de que veremos o trailer de um filme candidato ao Oscar, mas sem acesso a ele nas salas de cinema.  

Gente grande ...


Por Vinicius Mauricio*

Maria, curiosa, se sentou no sofá branco de dona Maria. E a patroa reclamou. Maria foi mais para a pontinha do móvel e contra-argumentou: “Só um segundo!” Pasma, Maria olhou e se calou. Na TV, retratos de um futuro que começava a ser pintado. Na sala, um quadro comum no Brasil diário. Que coisa, decidiram pelas domésticas, lá num país desses que só rico vai.

Maria achou que ia virar patroa, mas Maria deu um banho de fria realidade: Maria, continue a limpeza, pago pelas horas trabalhadas. E a empregada levantou e ajeitou o vestido com jeito de gente grande. Pegou o espanador e parecia arrumar com mais alegria, devido à notícia que ouvia.

Não era novela, e a repórter dizia: “Reunião Organização Internacional do Trabalho assegura mesmos direitos que os outros profissionais às empregadas domésticas. Constituição brasileira vai ter de se adequar...” Imagine com o FGTS contar? Maria, nas nuvens, faxinava.

Maria patroa empinou o nariz e retrucou a repórter. Maria não gostou e chiou. Nem era mais questão de aceitar ou não. Ambas teriam que se interar da decisão. Maria desligou a TV e Maria ligou. Maria pensou: “Que Maria abusada!” E a outra: “Que Maria abusada!” Eram iguais, em condições diferentes; uma, agora, só mais potente.

A patroa sonhou que estava lavando louça, acordada no sofá, e acordou: “Maria, deixa eu ouvir a TV!” E Maria apertou o botão para aumentar o som, prestando atenção na repórter. Para ela, era melhor que ganhar na loteria, era um grande dia. “Tá vendo, dona Maria, agora eu trabalho igual e ganho diferente...” Maria estava contente e Maria, indiferente.

* Vinicius Mauricio é jornalista. 

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Os dedos tortos


Goleiros são como boxeadores. Precisam ter mãos grandes para sobreviver na profissão. E dedos tortos para marcar o tempo de estrada. Goleiros com unhas feitas e dedos simétricos indicam falso testemunho no ofício. São enganadores, assim como as bailarinas de pés de fada. 

Os goleiros colecionam luxações, rachaduras nos ossos, dores contínuas; são deformações que indicam quantos prazeres – chutes interceptados? - foram estragados no cotidiano do futebol. É a trajetória de dedicação do escravo das dores suportáveis, armado de esparadrapos e ataduras para persistir como o sujeito que brocha a existência do gol.

O castigo nasce nos detalhes. Os dedos entortam, normalmente, em defesas fáceis. As mãos traem quando a segurança domina a bola. Luvas se tornam instrumentos inúteis quando o goleiro está destinado à dor, como se não bastassem sucessivas decepções a cada balançar das redes.

Julio César, do Corinthians, caiu com tranqüilidade para defender um chute de longa distância do atleta do Botafogo. A defesa foi sem rebote, com reposição de bola serena, daquelas em que o zagueiro vira as costas aliviado. Mas o dedo mindinho do goleiro estava torto. Com a transmissão ao vivo pela TV, a vitimização se transformou em heroísmo.

Ao colocar o dedo de Julio César no lugar, o médico do Corinthians alterou a história do goleiro no clube. Julio é o herói do momento. Sempre será lembrado pela façanha de jogar com o dedo arrebentado. A prova de amor para um time destinado a vencer quando as críticas se multiplicam, quando o suor jorra além do normal da pele de jogadores medianos esforçados.

O Corinthians vencia por 1 a 0, a sétima vitória seguida, a nona em dez partidas. O técnico Tite já havia feito as três substituições. Jogo fora de casa, adversário impondo pressão pelo empate. O cenário era delicado e, por isso, favorável a atos de sacrifício. Julio César percebeu que aqueles cinco minutos a mais, com o dedo latejando, poderiam tatuá-lo como corintiano.

A conjunção de fatores mudou a relação de Julio César com a torcida. Uma bola cruzada na área. O goleiro afasta com a mão direita, até porque a outra apenas fazia figuração. Dois minutos depois, em um contra-ataque, Paulinho faz o segundo gol, que sacramenta o resultado no Rio de Janeiro.

Julio César esperou por cinco anos para assumir a camisa 1 do clube. Nunca foi unanimidade. Falhou em momentos importantes, destino dos goleiros bons, porém comuns. A direção do clube não confia nele, tanto que contratou Renan, revelação do Avaí, de Santa Catarina.

Julio César chegou a perder a posição para Rafael Santos, que falhou em excesso e deixou a equipe. Desde a saída de Dida, o Corinthians jamais teve um goleiro à altura das tradições e responsabilidades do cargo.

Julio César, formado e amaldiçoado em casa, teria o destino de outros que amargaram a transição entre dinastias de goleiros excepcionais. Agora, com o dedo torto de um boxeador, ele sairá das notas de rodapé para ocupar o posto de personagem principal de um episódio da história corintiana.

O goleiro terá a vantagem das lembranças dúbias. Ele poderá ser lembrado como o vilão que errou numa partida decisiva de Campeonato Paulista, contra o Santos, na Vila Belmiro. Mas os que transpiram amor cego vão se recordar do goleiro que deslocou o dedo mindinho da mão esquerda, recolocou-o no lugar e agüentou em campo contra o Botafogo, em pleno Rio de Janeiro.

Goleiros honestos, não exatamente gênios, vivem assim. Com mãos tortas, preferem vias sinuosas para escrever – sem garantias de compreensão – a própria biografia, dolorosa como o dedo arrebentado por um chute sem pretensão na quarta-feira à noite.  


Praças para ficar


Estive por três dias em Atibaia, no interior de São Paulo.  Mesmo considerando a diferença de tamanho entre Santos e o lugar em que visitava, não deixei de notar a contraposição entre as praças daqui e de lá. O olhar foi reforçado porque, antes de viajar, conversei com uma amiga sobre a metamorfose das praças de Santos.

As praças da cidade perderam o papel original. Viraram locais de passagem, sem espaço para reuniões, políticas ou não, sem ocupar a rotina de vizinhos que se encontravam para dividir os fatos do dia e observar ou vigiar as crianças que aproveitavam o bate-papo dos adultos para correr e brincar.

As praças eram pontos de encontro para discutir problemas do bairro e serviam como um jornal oral de informações locais. Funcionavam como referência para os acontecimentos de uma comunidade, para apoio mútuo contra os problemas cotidianos. Até centro de fofocas e maledicências apimentavam a história de pequenos grupos de moradores.

Hoje, as exceções reforçam a saudade de um período que caminha rumo ao cemitério. A praça da Independência, por exemplo, abrigou estudantes que gritavam pelo final da era Collor. O lugar, atualmente, só fica cheio quando torcedores resolvem celebrar conquistas da seleção brasileira ou do Santos.

Em bairros da Zona Noroeste e dos Morros, ainda é possível vivenciar as praças do século passado. Mas são ocasiões que tendem a rarear por causa da expansão imobiliária e de outras feridas sociais, como a violência urbana. Será que apenas o modo de vida mudou?

Na Zona Leste, as praças se tornaram manchas na paisagem. Algumas são mantidas por empresas que, preocupadas com a boa imagem ligada ao meio ambiente, as conservam. Outros endereços, como a praça Palmares, reúnem jovens em torno do skate e do movimento hip-hop, cansados de reclamar e de pedir por melhorias no local.

As praças de Santos, em sua maioria, perderam as flores. Têm alguma área verde, mas sem o colorido que alimenta a vida nestes espaços. E sem o essencial para a sobrevivência delas: gente! Numa praça, por exemplo, na Ponta da Praia, cheguei a testemunhar um casal tocando violino para ninguém, na escuridão de um lugar mal iluminado, mas decorado com bancos de madeira para a fotografia de cartão postal.

Ao visitar Atibaia, pude perceber uma cidade onde as praças representam o modelo inverso. Ali, a vida pulsava a qualquer hora do dia, inclusive como passagem, porém mais lenta, retardada por um boa tarde, um aperto de mão ou por um papo de cinco minutos sobre o jogo do time preferido.

Durante a viagem ao interior, outra amiga resumiu a diferença entre as escolhas feitas pelas duas cidades:

— Aqui, no interior, as praças são para ficar. Em Santos, as pessoas só passam por elas.

Hoje, muitos moradores de Santos ainda freqüentam praças, mas o modelo privatizado, cercado de restaurantes fast-food com suas comidas franqueadas. É possível vivenciar também encontros em locais que, vagamente, parecem praças, onde se multiplicam grades, câmeras de vigilância e homens de uniforme. As praças, ou espaço gourmet, assumem a máscara do consumo e o estilo de vida no qual se reunir é isolar-se.
 
É melancólico assistir à transformação de uma cidade, que sonha com ares cosmopolitas, enquanto reforça o sangue bairrista e as roupas provincianas. Neste sentido, o ar interiorano soa, para os falsos modernistas, como cenário ultrapassado, à espera do crescimento selvagem e sem limites.  

terça-feira, 19 de julho de 2011

Homofobia é caso de política


A agressão a pai e filho, como se fossem um casal homossexual, em uma feira agropecuária, na cidade São João da Boa Vista, interior de São Paulo, pode ser vista como dano colateral. Descartando a frieza da expressão de origem militar, o fato é que testemunhamos uma guerra não tão silenciosa, que perdeu o gelo como característica e que, acima de tudo, inseriu sem volta a homofobia na agenda pública.

O preconceito contra a opção sexual sempre teve como alicerce, evidentemente, valores culturais. Entre eles, o machismo, que persiste como elemento-chave para a compreensão das relações na sociedade brasileira. E todo embate cultural se transforma em ato político.

O que vemos, hoje, é o passo seguinte. O ato político ganhou as vias jurídicas e as instituições político-partidárias, por essência. As consequências do preconceito sexual alcançaram o topo da cadeia, balançaram a torre de marfim dos poderes que, por força do hábito, caminham de costas para o cotidiano social e suas dificuldades.

Quando o poder chacoalha, a liga da discriminação se vê obrigada a colocar o exército na rua. O silêncio vira gritaria. Os gritos, quase sempre desprovidos de argumentos, se escondem atrás da violência, seja física ou psicológica.

Colocar a violência contra gays em debate faz com que os preconceitos também saiam do armário e contradigam as palavras do sociólogo Octavio Ianni. Ele dizia que o brasileiro tinha preconceito de ter preconceito. Às claras, a falta de civilidade e o moralismo não conseguem mais se esconder sob o manto do politicamente correto.

O embate, deste modo, foi redesenhado como batalha campal, seja via microfones, lobbies, bancadas eleitorais ou nas ruas das metrópoles. Entraram em curto-circuito ideias como associar a opção sexual a doenças, criminalidade ou vagabundagem.

As mudanças culturais em curso passaram a exigir das famílias esforços maiores para evitar o assunto na mesa de jantar ou para esconder o integrante com “desvio de caráter” dos amigos e parentes. Ainda que seja para dialogar em terceira pessoa, as pessoas precisam fazer escolhas, mesmo que seja não se posicionar de forma clara e direta. A omissão do silêncio tende a morrer diante de fatos que teimam em se amontoar à soleira da porta.

A extensão dos direitos dos casais heterossexuais para os casais homoafetivos serviu como divisor de águas para esfregar o problema numa parcela da sociedade, cínica em fingir ou diminuir uma fase de transição latente. A bancada da bíblia, que luta para misturar moralidade religiosa com questões sociais, saiu das sombras e colocou na linha de frente soldados suicidas como o deputado federal carioca Jair Bolsonaro, ícone de muitos grupos no país.

O momento atual do jogo de estratégia é desatar o cabo-de-guerra que envolve a votação do projeto de lei da criminalização da homofobia. A proposta, muitas vezes, é colocada no mesmo patamar do crime de racismo, no sentido de aprovação por tabela. São contextos diferentes, de raízes históricas diferentes, com formas de manifestação distintas.

Criminalizar a homofobia reforça a vitória das linhas que defendem a bandeira da diversidade, mas talvez seja prejudicial como significado das conquistas dos direitos civis. Tenho dúvidas se não seria a aceitação à força, com sobreposição criminal. A violência contra gays pode e deve se enquadrada na legislação em vigor. Respeitar o olhar do outro não reside em parir novos artigos jurídicos, e sim na aplicabilidade dos que existem e no combate à sensação de impunidade.

A arma mais vigorosa não se encontra na letra jurídica. A resposta começa a aparecer nos produtos culturais, nos conteúdos da indústria de massa que – bem ou mal – invadem a sala dos preconceituosos e dos simpatizantes. Personagens gays se multiplicam pelas novelas, numa aproximação com a realidade cotidiana, ainda que conectados – eventualmente - aos estereótipos.

O jornalismo de opinião passou a complementar as alterações no modelo de cobertura de casos de violência urbana, como a história dos jovens agredidos com lâmpadas fluorescentes na avenida Paulista ou neste episódio da feira agropecuária. Neste caso, o juízo de valor parece aproximar o jornalismo da prática cidadã (palavra tão desgastada nos dias atuais). Até a parada gay começou a ser tratada como ato político, no qual os jornalistas compreenderam que as alegorias e a picardia estão à serviço da crítica social e do enfrentamento contra a perpetuação do preconceito.

Os casos de violência, por tristeza, vão se repetir, independentemente do tamanho da cidade, da oportunidade política ou dos valores culturais vigentes. O que se espera é que estes danos colaterais – com o perdão da expressão - exponham a selvageria dos animais que resistem à convivência com quem pensa e age de outra maneira. Punir com rigor é parte do caminho, neste aspecto, para a redução do preconceito e para o crescimento civilizatório, se é podemos nos ver assim no espelho do passado recente. 

O vício que alivia


Quando comprou o apartamento, ela estava casada. Quando se mudou para o dois quartos, sala, cozinha e banheiro, Silvia imaginou que viveria no paraíso. Poderia morar ali por anos, mas o divórcio a colocou no purgatório. Dois anos depois, a inauguração do shopping a enviou ao céu sem escalas.

Sem marido e sem cronograma de trabalho de Amélia, Silvia se entregou à fé. Na religião do consumo, a igreja era o shopping center, com a vantagem de poder orar quando quisesse. E ela virara beata, pois se ajoelhava aos desejos todos os dias.

Se estava cansada, pagava aquelas massagens rápidas. Relaxamento em 15 minutos. Quando se sentia angustiada ou brigava com o novo namorado, afogava as mágoas e se levantava na loja de cosméticos. Se a melancolia ameaçava se transformar em quadro depressivo, Silvia corria para a praça de alimentação, onde um disque-entulho no formato comida resolvia a lacuna no peito com discurso robótico e sem espera.

Ela se viciou no shopping center. E, como todo viciado, insistia em negar o comportamento repetitivo ao abrir o leque de desculpas e mecanismos de defesa. Era como se procurasse e folheasse as páginas do dicionário de adjetivos. Todos positivos, é claro.

O templo merecia sua presença diariamente, por razões variadas. Não tinha carro, mas elogiava o estacionamento. Nunca fora assaltada, e a segurança dos homens de preto perpetuava a virgindade criminal. Reclamava das dores nas costas e irritava-se se alguma amiga lembrava das cadeiras duras da praça de alimentação, onde permanecia por horas, como se cumprisse expediente.

A filosofia de vida balançou na quarta-feira, exatamente às cinco da tarde. As dúvidas se manifestaram, de início, como uma pontada no abdômen. Para Silvia, não havia simbolismo na relutância. A pontada se transformou em pequenas dores.

Ela resolveu ignorar o próprio corpo. Nada que a impedisse de percorrer os corredores novamente atrás daquela oferta de sapato alto. Havia deixado a inspeção para depois e temia que o desconto desaparecesse com o estoque. A experiência de quilômetros percorridos naquele piso brilhante lhe dizia que a concorrência feminina era acirrada, eficiente e veloz na proporção do estouro do cartão de crédito, o terceiro a ser invalidado este mês.

Caminhou mais cinco minutos e os avisos reapareceram. Mais duas pontadas. Fingiu não ouvir o recado e seguiu ao terceiro piso. Não poderia se enganar sobre a próxima compra. O sapato era a arma para alcançar os holofotes no chá de bebê dali a três dias. Salto alto à tarde? Para ela, vaidade estava acima de hora, lugar e grau de amizade ou parentesco.

Ao entrar na loja, o corpo acenava, gritava, esperneava. Silvia não podia ignorar a si mesma. Precisava deixar o sapato para outra hora. O vexame passou a ser uma hipótese. Diante da encruzilhada, decidiu que adiaria a aquisição que engordará o andar térreo do armário de seis portas, ainda sob financiamento na maior loja do mesmo endereço.

Poderia resolver o desconforto se descesse um lance de escadas ou se relaxasse nas escadas rolantes. Rapidamente, estaria na sala onde haveria alguma privacidade. Isolamento, jamais. Mas tudo era uma questão de princípios. Princípios orgânicos. O shopping precisava compreender que não se tratava de rejeição pessoal. Eram valores nascidos antes do próprio centro de compras, derivações do divórcio que a machucara.

Silvia acreditava que o shopping havia curado todas as feridas e sequelas da perda de Augusto. As pontadas desmentiam as teorias, ressuscitavam a neurose. Enquanto andava para fora do templo, demolia a fé cega. Sentia-se apavorada, em parte por vergonha de si mesma, em parte pelo pavor da possibilidade de ficar enterrada em casa outra vez.

A única saída foi acelerar o passo. Não prestou atenção no aceno de Amadeu, o segurança da tarde. Quase atropelou a dona Inácia, uma das últimas vendedoras de quebra-queixo da cidade e proprietária informal de ponto na frente do shopping.

Nunca percorreu tão rapidamente as duas quadras que separam a vida real do paraíso do consumo. Pegou a chave durante o trajeto, e ficou feliz quando acertou o buraco da fechadura de primeira. Entrou no prédio e depois seria acusada de grosseira por não dar boa-tarde à vizinha do 12, sempre fofoqueira, mestre na cara fechada a qualquer hora do dia.

Silvia subiu os três andares saltando de dois em dois degraus. Entrou em casa suando em bicas. Não deu para trancar a porta. Era o momento de enterrar a paranoia da violência urbana. Mais cinco metros para matar as dores insistentes.

Jogou as roupas pelo caminho, como na primeira noite com o novo namorado, relegado a segundo plano. Na verdade, nem na fila de assuntos a resolver o sujeito apareceria no final daquela tarde. Ele não valia os vícios.

Silvia virou no segundo cômodo à direita, sem olhar. Mecanicamente, se sentou e respirou fundo. O alívio veio em 30 segundos, com a mesma dimensão do barulho que apenas ela ouvia. O trabalho interno representava um dogma para ela. Verdade incontestável que valia até presidência de comunidade em rede social. A certeza que defendia em debates sobre a importância da privacidade para certos atos.

Aliviada, ela se vestiu com rapidez e andou em marcha de volta ao templo. Dois andares de escada rolante e a oferta do dia ao alcance do cartão de crédito. Na porta da loja, não encontrou o cartaz que anunciava a promoção. Perdera o fetiche que ainda não pertencia a ela?

Silvia ficou tensa e desconfiada. Sentia o cheiro da derrota. O olhar da vendedora indicava o peso do fracasso. Desistiu de entrar, discutir e reclamar. Amanhã, haveria outra promoção. Se não fosse ali, o milagre aconteceria em outras bandas, dentro do mesmo prédio.

Naquele instante, a ideia de um novo creme abafaria a decepção. Amanhã, retornaria ao mesmo endereço. Só que em horário diferente. Não queria correr o risco de o relógio biológico sobrepor vícios. Trabalharia em casa depois do almoço para manter a fé inabalável pelo resto da tarde.
Obs.: Este texto ficcional foi publicado, originalmente, no site Jornalirismo.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Contaminados pela arrogância

A perda de quatro pênaltis contra o Paraguai é, obviamente, o centro das conversas sobre a eliminação do Brasil na Copa América. Mas os erros são pontuais e pouco acrescentam aos fatores que cercam a condução e a formação do time nos últimos 12 meses.


Afirmar que o Brasil perdeu para si próprio também seria colocar mais uma pedra no castelo de arrogância que aprisiona a seleção, cenário semelhante a da Copa do Mundo da Alemanha, em 2006. O que diferencia os dois grupos são, basicamente, a média de idade e os objetivos do grupo de jogadores.

Com a desclassificação, ressuscitaram das tumbas os cadáveres apressados em puxar para o subsolo o corpo do atual treinador da seleção. Há situações de jogo que sempre estarão além dos limites profissionais de um técnico de futebol. È perda de tempo gritar novamente pelos velhos nomes, como Felipão, Muricy Ramalho e Wanderley Luxemburgo.

Acreditar que qualquer um deles convocaria uma seleção diferente seria ingenuidade ou má fé. Supor que qualquer um deles teria desempenho melhor soa como clarividência charlatã.

A seleção brasileira, independentemente do sujeito no comando, está condenada a se afogar na própria arrogância, se mantivermos a mentalidade atual, inclusive na postura dos personagens periféricos.

A Copa América deixou claro que os jovens ainda não estão prontos e correm risco de passar por processo de fritura, marcado por cobranças antecipadas e excessivas. Ganso e Neymar protagonizam este capítulo.

Ambos representam uma geração valorizada desde a fase em que o fruto estava verde. Esta geração – e não há peças de reposição aos montes – é tratada como astros de rock, parafraseando a definição do jornalista Juca Kfouri. Vivem cercados por um exército, com muitos soldados sanguessugas, que promovem a estratégia de os atletas aparecerem a qualquer preço, jogarem literalmente para torcida (na verdade, para o telão) e misturarem episódios de vida pública com a rotina privada. Jogadores transformados em participantes de reality show.

A soberba não representa privilégio apenas de jogadores isolados. O time atua, inflamado por dirigentes, empresários e jornalistas bajuladores, como se o Brasil fosse, com sobras, o melhor do planeta. Como se a seleção brasileira pudesse contar com três, quatro equipes do mesmo nível. Mal formamos um elenco de 22 atletas. Poderíamos incluir Kaká e outros jogadores de sucesso na Europa, meia dúzia de atletas sem garantias de respostas positivas e rápidas.

O desempenho na Copa América pode ser visto como parte da estrada não-linear do programa de renovação. A seleção ainda possui um goleiro confiável e uma defesa sólida, mesmo com a alternância de jogadores nas laterais e no miolo de zaga. Do meio para frente, optamos pelo rejuvenescimento, que até o momento se desenha como infantilização.

Nós, os torcedores, somos tão arrogantes quanto o time para o qual gritamos, seja de admiração ou de ódio. Não admitimos perder para o Paraguai, sem considerar o desempenho recente da seleção adversária e levar em consideração que muitos dos jogadores deles defendem clubes nos mesmos centros que nossos “ídolos”.

A seleção brasileira sofre as conseqüências do mercado globalizado do futebol, que nivelou esquemas táticos, estratégias de jogo, formação física e técnica dos jogadores. Cegos pela arrogância, que conduz a desinformação, nos contentamos com o exercício de auto-engano, numa postura esquizofrênica, que transita entre o desprezo pelo oponente e o reconhecimento frágil de que “não existem mais bobos no futebol.”

A arrogância do universo que cerca a seleção brasileira se materializou na forma de jogar, mascarada – em parte – pela vitória por 4 a 2 contra o Equador, o pior time da chave. A equipe nacional transpira a sensação de que pode ganhar quando bem entender, golear quando quiser. Abandona a objetividade por uma arte estéril, sem efeito, que não resulta em admiração aos olhos do espectador.

A soberba indica que o Brasil está sentado sobre as glórias do passado, enquanto – paradoxalmente – tenta se reinventar. O problema é que a recriação da identidade implica em injeções de simplicidade. Jamais em excesso de malabarismos e toques pretensiosos como se o gol fosse um parto natural, como se o adversário fosse composto por cones ou jogadores de futebol de mesa.

O arrogante, quando não se reconhece, finge ser justo com o passado antes enterrado pela pressa dos que medem o mundo por resultados. O abandono do contexto serve agora para fazer mea culpa, no jogo de cena para aliviar as pedras atiradas contra Dunga, visto como autor de um bom trabalho até a derrota para a Holanda.

O prazer em massacrar Dunga se alimentava, entre outros fatores, da estupidez por não levar Ganso e Neymar à Copa. Agora, as palavras são devidamente esquecidas. Esquecidas por cinismo de quem diz – hoje – que ele estava certo em deixar os dois atletas dos Santos no Brasil.

Cínicos porque transformam em verdade a mera especulação. Jamais saberemos como eles se comportariam e a Copa América não é parâmetro para análises deste calibre. São cenários rigorosamente diferentes.

A seleção brasileira e seus detratores terão que se contentar com o material humano atual. Para dar conta dos próximos três anos, é preciso mudar de comportamento, entender que fogos de artifícios em clube são bombinhas sem pólvora. Talvez, assim, consigamos vencer os mais fracos e equilibrar com os grandes times, grupo do qual perdemos a cadeira cativa. O Brasil é somente convidado eventual, dependendo da festa.


sexta-feira, 15 de julho de 2011

O sorriso de Júlio César

Aos 35 minutos do segundo tempo, o Equador rondava a grande área brasileira, pressão natural de quem perdia por 4 a 2 e estava prestes a ser eliminado da Copa América. Numa cobrança de escanteio, a bola pipocou na marca do pênalti até o chute de um dos atacantes equatorianos. A bola seguiu rasteira para a defesa de Júlio César no canto direito. Sem rebote, apesar da curta distância.
Ao se levantar, o goleiro sorriu para os zagueiros. Parecia um sorriso de alívio. Sorriso de quem abraçara a própria salvação, numa defesa sem técnica apurada, um aperto na bola que exorcizava a noite naquele instante.
Júlio César vivia uma noite rara. Tomou dois gols em duas partidas seguidas. O jogo se tornou mais incomum porque ambos foram erros do goleiro. O primeiro foi uma falha admitida por ele em entrevista. O segundo, entre os comuns, seria um gol normal. Para alguém do nível do Júlio César, significa um equívoco em serviço.
Os mais apressados começaram a questionar a titularidade do goleiro da Internazionale. Uma partida que jamais representaria o conjunto da obra. E os erros cometidos não têm relação alguma com o deslize contra os holandeses, na Copa do Mundo, argumento de quem desejava conectar os dois jogos e constituir má fase do atleta. Aliás, o Brasil perdeu naquele dia por uma série de falhas individuais, táticas e coletivas.
Júlio César chegará ao próximo Mundial com 33 anos, idade que marca os goleiros mais experientes. Estará menos veloz, mas conhecerá os atalhos da pequena área. Nesta etapa da vida, os goleiros compensam com colocação, reposição de bola mais precisa, liderança e leitura mais afiada dos detalhes do jogo.
Júlio César dá indicações de que iniciou este caminho. Voa menos. Um sintoma definitivo da metamorfose são as defesas com pés e outras partes do corpo. O goleiro, ao entrar na andropausa da profissão, reduz as defesas para o telão (ou fotógrafos) e se torna mais eficiente. Agarra mais, rebate menos. Quando o faz, manda a bola para fora e paralisa a partida.
Independentemente da fase, que não deve ser medida pelo jogo contra o Equador, o goleiro da seleção brasileira sobrevive sem substitutos à altura. O atual reserva, Victor (Grêmio), ainda não está pronto para ser titular. Na seleção, esquentar o banco significa ganhar quilometragem para um cargo que não perdoa falhas, mesmo contra galinhas mortas.
O terceiro goleiro, Jeferson, me parece escolha pessoal do técnico. Até o senso comum explica que a função é de confiança. Jeferson é jogador de clube, absoluto no Botafogo e basta. No Brasil, existem pelo menos três ou quatro goleiros em melhor condição, descontando os veteranos Marcos e Rogério Ceni, rumo à aposentadoria, mas ainda superiores ao titular do time carioca.
Fábio, do Cruzeiro, poderia estar entre os três goleiros de Mano Menezes. Cortado da Copa América, Fábio é titular há anos da equipe mineira, com atuações de alto nível durante muitos anos, assim como fez no Vasco da Gama, seu clube de origem.
Fora do Brasil, existem goleiros que poderiam compor o elenco da seleção brasileira, mas nenhum deles capaz de tomar – de forma incontestável – o lugar de Júlio César. Gomes, do Totenham, por exemplo. O goleiro esteve na última Copa do Mundo. No clube inglês, comporta-se como um atleta de primeiro nível. Segura as pontas em quase todos os jogos e, quando falha, o faz de maneira escandalosa. É a sina da posição.

Helton, do Porto, está há quase dez anos na Europa. Foi campeão português, com excelente desempenho na última temporada. Mas o goleiro, também revelado no Vasco, teve poucas chances na seleção brasileira. Poderia figurar, tranquilamente, entre os três convocados.
Júlio César esperou duas Copas para ser titular. Ele foi cortado em uma delas e ficou como terceiro goleiro em outra. Assumiu a vaga no último Mundial e, meses antes, chegou a ser considerado o melhor da posição no planeta. Continua entre os cinco primeiros, para dizer o mínimo.
Se tudo correr normalmente, Júlio César ficará com a camisa 1 no Mundial do Brasil. Os demais, todos no mesmo patamar, devem brigar pelas outras duas vagas. Isso sem contar as revelações que nascerão no período.
O goleiro da Internazionale teve somente uma noite ruim e, com a sorte que ilumina os maiores, viu o Brasil vencer de forma que as falhas parecessem detalhes secundários na classificação para a fase seguinte da Copa América. Assim como o sorriso, símbolo de quem respirou e superou a tempestade de insegurança que assombram goleiros durante uma partida.

Meninos quietos

Oásis na floresta de concreto e ferro, o Jardim Botânico Chico Mendes é o lugar ideal para conversar com a arte-educadora Selma Maria. Ambos transmitem paz de espírito, são introspectivos e adeptos do silêncio como resistência à velocidade do mundo moderno.

Selma e o Jardim Botânico haviam acabado de se ver, quando sentamos em um dos bancos de madeira, em meio às árvores, para conversar. Seria exagero – e certa cafonice – afirmar que houve amor à primeira vista entre a educadora e o espaço onde trabalharia naquela tarde nublada e fria, mas apostaria na identificação mútua a partir do olhar contemplativo e da busca pela quietude para a reflexão sobre os seres, vivos ou não, que os cercam.

Selma tem 45 anos e três filhos. É, acima de tudo, uma menina quieta. Vive para brincar. Vive de brincar. Não compra seus brinquedos. Prefere fazê-los. Poucas vezes sozinha. No Jardim Botânico, montou cata-ventos de papelão e espeto de madeira (aqueles de churrasco) com 20 pessoas, crianças de sete a 85 anos.


Quando compra brinquedos, Selma Maria vai buscá-los longe. Não se incomoda em viajar mil quilômetros. Perdeu as contas de quantas vezes foi para a estrada, até o sertão de Minas Gerais, para seguir os rastros das palavras de Guimarães Rosa.

No sertão, a compra de um brinquedo é negócio único. Único exemplar. Único vendedor. Horas de boa conversa, que podem estar acompanhadas de comida e muitas testemunhas, todas dispostas a dividir as histórias vividas e contadas por um dos maiores escritores brasileiros.

As andanças de Selma Maria a tornaram conhecida. Trouxe mais de 200 brinquedos para a vida urbana, virtual e eletrônica das crianças. As viagens resultaram em exposição e livros publicados. Um deles se chama “Um Pequeno Tratado de Brinquedos para Meninos Quietos”, conjunto de prosa e poesia sobre os brinquedos feitos à mão, com o que estiver disponível.

Selma Maria foi ao Jardim Botânico, lugar desconhecido, para despertar nas crianças – esqueça a faixa etária, leitor – a chance de manter contato com elas mesmas. Com voz serena e firmeza nos argumentos, Selma defende que o faz-de-conta nunca se perde, até porque o adulto o cultua, sem perceber.

Construir o próprio brinquedo, para quem convive com crianças, além de estudar a cultura delas, é a reação à “gororoba” de informações disponíveis no mundo eletrônico. O computador não se constitui no inimigo, e sim o que fazemos com ele, traduzido na falta de convite dos adultos para conhecer o mundo que ultrapassa os muros do universo eletrônico.

— Qual criança trocaria um passeio por horas na frente da TV? O corpo dela é um brinquedo. O que fazer com esta explosão de energia?


Selma Maria levou tão a sério a relação com os brinquedos artesanais e as histórias por trás de cada peça que passará a viver com eles. A arte-educadora alterou a própria casa em Cotia, uma série de cômodos em formato de iglu (obra do sogro “professor Pardal”), para abrigar brinquedos.

Ao se levantar do banco de madeira, ela indicava o Jardim Botânico como metáfora da relação entre crianças e brinquedos. “A vida é a mistura. As puras misturas.” Metáfora confirmada nos olhos brilhantes e nas vozes sem fôlego das crianças que retornavam das alamedas do parque. Nas mãos delas, gravetos, folhas e objetos de plástico, talvez lixo para os cegos da infância adormecida. Em dez minutos, a metamorfose em bonecas e soldados e a quietude da viagem para dentro de si, em meninos e meninas.

Obs.: Veja um vídeo com a arte-educadora Selma Maria.