sexta-feira, 17 de junho de 2011

Uma pessoa?

 
O casal retornava para casa depois de um jantar em restaurante japonês. Era aniversário dela, momento de balanço, ainda mais quando se completa data redonda. Os dois andavam pela rua Ministro João Mendes, no bairro do Embaré, em Santos. Acabaram de atravessar a rua Castro Alves e seguiam ao lado das paredes de metal da obra ainda nas fundações.

Antes de passar pelo sonho de consumo de ferros e concreto, ela viu um amontoado de tecidos junto ao canteiro que protegia uma árvore. O local estava escuro por causa da iluminação deficiente e pela copa de outra árvore, a cinco metros dali.

— O que é isso?

O namorado olhou para o lado, viu dois pés para fora dos tecidos, calçados por um par de chinelos de dedo, ambos gastos por quilômetros rodados.

— É um homem dormindo entre as árvores!

Ela, acostumada a atender casos difíceis na vida profissional, não segurou a surpresa:

— É uma pessoa?

Ela passou a mão direita no rosto. Não conseguia entender como aquele homem poderia estar ali, encolhido, exposto, estendido sobre um pedaço de papelão diante de um frio de 15 graus. Com 10 anos de experiência, ela lidava com usuários de drogas, pessoas sem família, sujeitos com problemas psiquiátricos, toda a ordem de indivíduos que costumam ser deslocados pela sociedade.

O choque a fez repetir três vezes:

— Meu Deus, é uma pessoa!

O cobertor amarelado não servia somente como protetor paliativo. O cobertor é o manto de invisibilidade. Manto que protege as demais pessoas do corpo no chão. O cobertor o esconde do mundo que se sustenta na ausência daquele homem que dorme.

Mais do que dormir, aquela pessoa transita por uma estrada de hibernação social. Como muitos, ele é transparente para a cidade. Na visão dominante, como ele não contribui, não deve ter benefícios. Não consome, perdeu o direito à cidadania.

O que ela fez, ao vê-lo, pode ser interpretado pelos cínicos como uma reação instantânea, a ser esquecida no próximo pedaço de pizza ou nos primeiros minutos do banho quente, minutos após o encontro na rua.

Se não bastasse o trabalho para fazê-la lembrar todos os dias da tarefa interminável de ajeitar vidas, prevalece o fato de que – coletivamente – o assunto é ignorado. Ignora-se, por exemplo, a forma como os invisíveis são tratados pelos faxineiros de farda.

Moradores de rua são vistos como animais por parte da sociedade. E, como bichos, merecem comida de segunda linha (exceção dos bebezinhos de estimação, que até chapinha no cabelo ganham hoje em pet shops). Como seres selvagens, merecem – na perspectiva de quem recebe ordens para limpá-los – ser enxotados na porrada, como o gado que não entrou no curral.

A invisibilidade os mantém a uma distância segura de quem se julga civilizado. Mas recomenda-se prudência, pois os “homens em hibernação” se multiplicam nas esquinas de Santos. Sem escolher bairro, sem permanecer em guetos. Hoje, são mais de 600 pessoas. Pessoas?

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