domingo, 26 de junho de 2011

Um dia anormal

Nada mais ilusório do que uma goleada em clássico. O time vencedor se afoga na fantasia de que é melhor do que a realidade a ser mostrada nas rodadas seguintes. Ao derrotado, resta uma crise inventada que se apagará na próxima vitória. Se permanecer na liderança, o fracasso será enterrado na proporção do tempo na dianteira.
A goleada do Corinthians sobre o São Paulo por 5 a 0 se encaixa em mais esta teoria de botequim. Foi uma tarde em que tudo conspirou a favor do clube cujos atacantes são questionados. Do outro lado, o líder do campeonato travou a ponto de expor várias deficiências ao mesmo tempo, inclusive as que não costumam existir, como a defesa tradicionalmente sólida.
O Corinthians chutou 28 bolas a gol. O São Paulo, apenas quatro. Parecia treino de ataque contra defesa. Danilo, sempre posto em xeque, conduziu a armação do time como o camisa 10 clássico, posição carente desde a saída de Douglas para o mundo árabe. E ainda marcou o gol mais bonito da partida. Liédson, por sua vez, não marcava há três jogos. Fez três gols hoje.
O São Paulo era o líder invicto. Cinco vitórias em cinco jogos. Desempenho ímpar. Mas atuou como as equipes do interior que enfrentam o Corinthians no Pacaembu. Acuado. Temeroso. Encolhido na defesa para que o sofrimento terminasse logo. Como o time pequeno que aposta suas fichas no primeiro tempo, para entrar em coma depois do intervalo.  
Os zagueiros, escola-referência no Morumbi, estavam pregados na grama. Perderam quase todas as bolas de cabeça. O goleiro Rogerio Ceni, que lacrou o gol contra o Ceará há uma semana, cometeu o erro de um iniciante. Até quando fez uma defesa excepcional, a bola caiu nos pés de Liédson, solitário na pequena área.
Outros exemplos (ou estatísticas) poderiam consolidar este dia diferente para ambos os lados. A vitória no clássico representa um cenário pontual. Esconde os defeitos. Supervaloriza as qualidades. Altera as potencialidades do time se observadas como aspecto isolado.
O Corinthians segue como uma equipe instável, com deficiências em todos os setores. O time precisa de reforços, mais do que Alex e Emerson. O goleiro, por exemplo, não traz a imagem de solidez por causa das falhas em partidas importantes. Vive com a sombra de Renan, revelação do Avaí, nos calcanhares.
A defesa está desconfigurada desde a aposentadoria de William, que mantinha a regularidade com Chicão. O meio-campo teve várias perdas desde o ano passado, todas para o futebol europeu. No ataque, Adriano é apenas uma miragem, enquanto o time permanece viciado em doses de Liédson.
O São Paulo não deixará de ser candidato ao título por causa da goleada. Continuará com as mesmas carências e, como vários adversários, tentará remontar o time ao longo da temporada, durante um campeonato longo, de 38 rodadas.
O resultado de 5 a 0 no Pacaembu só servirá de três coisas. A primeira, óbvio, foi diminuir a distância entre o Corinthians, agora em segundo lugar, e o líder tricolor. A segunda, mais divertida, é alimentar as brincadeiras nos balcões de padarias e mesas de boteco. E a última, afastar um pouco dos holofotes o Santos de Neymar e companhia, até porque eles estão na Argentina com a seleção brasileira.

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