sexta-feira, 10 de junho de 2011

Sozinhos ou solitários?

O censo do IBGE é um caminhão de números. Leva semanas para que se analise o comportamento dos brasileiros por múltiplos ângulos. Optei por focalizar apenas uma estatística: 12% das residências têm um único morador. Dez anos antes, o índice era de 7%, quase a metade.
Morar sozinho é o desejo de muitas pessoas. Motivos variados: livrar-se dos pais ou dos filhos, alcançar a liberdade, ter autonomia para tomar as próprias decisões ou a suposta incapacidade de dividir espaço com alguém.
Minha inquietação não está na decisão de viver sozinho. Todos precisam de um momento para si. É o período em que avaliamos ações, reações e pensamentos, inclusive daqueles com quem convivemos em outros ambientes. Sozinhos, planejamos o dia seguinte. Esvaziamos o cérebro diante do cotidiano acelerado e propenso à ausência de reflexão e de auto-crítica.
A dificuldade maior reside na característica contemporânea de estar junto sem perceber o quanto se enterra na solidão. O pior solitário é aquele sujeito que, rodeado de pessoas, não consegue enxergar o próprio deslocamento social, a inabilidade para interação. Até porque sustenta habitual desinteresse pelos demais.
O solitário quase nunca está sozinho. A vida dele, aliás, costuma ser ativa. Esqueça a figura clássica do eremita, aquele homem que se isola no meio do mato ou na montanha por não suportar a humanidade ou para avaliá-la a partir de uma distância segura.
O solitário se julga cercado de outros indivíduos, que traçam suas órbitas em torno dele, o responsável por monólogos professorais. O solitário de hoje pode se ver como popular, ávido por platéia, nunca de cúmplices. Ele se alimenta das próprias teses, nunca da partilha de ideias ou da manutenção de canais de diálogo.
O sujeito sozinho pode fazê-lo por opção. Quem voa solo entende sua casa como refúgio, como porto seguro, em que basta a voz da TV ou o latido do cachorro de estimação para se proteger da amargura da solidão.
O solitário grita em desespero por reconhecimento, por resposta, por ressonância de suas palavras. O solitário se socorre, por exemplo, nas redes sociais, endereços em que compartilha os mais fúteis detalhes da vida particular, obcecado por escapar da rotina ordinária dos mortais.


O solitário pode estar rodeado de “amigos virtuais”, mas não se relaciona com mais de meia dúzia. É como se enchesse a arquibancada de espectadores, todos eles surdos para o discurso que está por vir. O próprio solitário, na verdade, age como um alienista, distante de todos enquanto convive com eles. Precisa falar, mas não presta atenção na voz alheia.
Vivemos em uma sociedade onde os solitários se multiplicam como clones, em ritmo de individualização próxima do absoluto. Exemplos (sintomas?) são muitos. Dirigimos carros com único passageiro. Andamos protegidos da voz do outro por fones de ouvido. Dialogamos com o teclado do celular sem olhar para alguém da mesma espécie, ao lado no ponto de ônibus.
Falamos com colegas de trabalho, sentados a dois metros, por e-mails. Anunciamos o almoço ou o jantar pela Internet. Assistimos aos mesmos programas por TVs diferentes, em cômodos diferentes. E vivemos a vida de celebridades nos detalhes, enquanto ignoramos o nome do vizinho de porta.
Somos seres sociais, de corpo presente, de convivência quase nula. È simples estarmos sozinhos. Triste é vendar os olhos para a solidão, com a certeza de que estar na multidão em marcha é estar com alguém.

2 comentários:

Elton. disse...

Olá Marcos,

de certa forma estamos na maioria das vezes sozinhos, ou não?
Hoje as pessoas se especializaram em extrair o que há de pior, em vez do inverso.
A intolerância é semeada a largos passos, e a paciência é espécie em extinção.
Isso acaba fazendo com que a amioria das pessoas ache que estando só será mais feliz.
Mas pode ter certeza, se perguntares a elas sabe quel será a resposta?

Marcus Vinicius Batista disse...

Elton, concordo plenamente com vc. A questão talvez seja essa: muitos evitam estar sozinhos - ou fingem estar acompanhados - porque o contato consigo mesmo representa uma dor insolúvel. Ou quem sabe não se deparam com a futilidade quase absoluta ao olharem para o espelho? Grande abraço!!