quarta-feira, 1 de junho de 2011

A rua sem portões

Lembrada pela decoração natalina, a rua Roberto Sandall, na Ponta da Praia, não existe somente como local de passagem, com 200 metros de extensão. A rua remete a um período histórico discutido hoje como desejo, como algo que se perdeu com a mudança da cidade.

Dos 14 prédios que compõem a via, somente três têm portões. E ambos não foram instalados como filhos do medo paranóico da atualidade. Os dois edifícios instalaram seus portões no século passado, há pelo menos 15 anos, claro que por causa da segurança, mas dividida com a estética da época.  

Até os anos 50, a rua Roberto Sandall era uma chácara, que pertencia a um inglês de mesmo nome. Na verdade, Robert, aportuguesado quando virou nome de via pública. A rua ao lado se chama Inglaterra, também em homenagem ao dono do terreno.

Os primeiros edifícios foram erguidos na mesma década. São como dois irmãos, duas torres gêmeas, hoje figuras comuns diante dos espigões paridos pela expansão imobiliária. Timão e Âncora inauguraram a urbanização daquele território.

Morei por 25 anos na Roberto Sandall. Cheguei lá na noite de 15 de outubro de 1980. Lembro-me da data porque, aos seis anos, sabia que era o Dia do Professor. Logo, não tinha aula. Tempo em que os docentes não trabalharam no dia comemorativo (punitivo?).

A rua enfrentou mudanças – claro – nos últimos 30 anos. As duas lombadas, que transformaram a via em playground, foram retiradas para dar maior velocidade aos carros. A extinção das lombadas enterrou consigo as corridas de bicicletas com obstáculos, que atraia gente de todo o bairro. Matou também os Jogos Olímpicos do lugar e provocou adaptações nas partidas de futebol e de taco. Hoje, os dois esportes são ingredientes de memória por ali.

O que permaneceu, por mistério, foi a segurança. A rua conseguiu sobreviver à carceragem privada da classe média. Ao contrário das ruas e avenidas próximas, nenhum prédio necessitou de portões, grades e outros apetrechos tecnológicos para proteção.

A única alteração na paisagem foram os porteiros e demais funcionários, antes vinculados por décadas aos locais de trabalho. Moravam lá mesmo! Um deles viveu no mesmo prédio, como zelador, por quase 40 anos. Hoje, são homens de uniformes, mão-de-obra de empresas terceirizadas. As vantagens de uma legislação (exploração?) trabalhista deslocada no tempo e no espaço.

Coincidência ou não, as crianças, com suas bicicletas, skates e bolas, também desapareceram. As sobreviventes, aposto, cumprem prisão domiciliar, com direito a refeições, banheiros privativos e uso diário de videogame ou consumo de desenhos animados nos canais segmentados da TV a cabo. Ver o sol, durante a semana, apenas da janela, ainda assim por alguns minutos.

O comércio no térreo do edifício Itapoá, único da rua, sobrevive nas mãos do enésimo proprietário, hoje um salão de beleza (ou clínica de estética, no palavreado plastificado atual). Nos anos 80, a mercearia do seu Alírio juntava dezenas de crianças, que esperavam as balas e outros doces atirados pelo comerciante no dia de Cosme e Damião.

Depois, a vendinha – como muitos a chamavam - se firmou nas mãos do Neca, também organizador do time de futebol da rua, outro cadáver exterminado pela modernidade. Ou o time morreu pela não-renovação dos atletas, que se aposentaram aos poucos?

A rua Roberto Sandall perdeu parte de sua identidade. Atravessou a metamorfose prevista da urbanidade. Virou uma senhora caladona. O trânsito de pessoas encolheu na proporção da idade avançada de muitos moradores.

Se crianças e adolescentes sumiram, a rua segue na calmaria de quem aproveita o pôr-do-sol da vida. Neste sentido, a Roberto Sandall permanece como uma fatia de saudosismo do interior, lugar onde muitos se cumprimentam pelo nome, testemunharam o crescimento dos filhos dos vizinhos e hoje perguntam pelos netos.

A serenidade da velhinha só cai diante da outra personalidade, bem mais frenética e que renasce a cada mês de novembro, iluminada com lâmpadas coloridas e cheia de vitalidade. Excesso de vida, com o congestionamento de carros que para ver as luzes e entupir as garagens com a chegada da temporada de verão.

Um comentário:

Renan Belini disse...

os prédios sem portões, realmente era algo que eu nunca tinha parado pra pensar. Show de bola o texto Marcão!