quinta-feira, 9 de junho de 2011

O trato com os uruguaios

 
A conversa está estranha. Só se fala do Santos, tratado como fenômeno digno da banda mais bonita da cidade. Com o Campeonato Brasileiro ainda no início, a possibilidade de conquista da Copa Libertadores pela terceira vez, depois de quase 40 anos, ocupa o topo da pauta nos botecos, balcões de padaria, pontos de ônibus e cafezinho no ambiente de trabalho.

Por trás de um discurso otimista, muitos torcedores viajaram no tempo e se encontram em 23 de junho, dia seguinte à decisão final do torneio.

— Enfrentar o Barcelona será complicado. Precisamos de reforços!

— Diego seria excelente reforço para o Mundial.

As frases variam pouco e transitam em torno de ideia de que o Santos já ganhou a Libertadores. Muitos desconsideram o Penãrol como um adversário digno de atrapalhar a conquista do clube da Vila Belmiro. Neste conjunto de argumentos, a tradição da camisa e os resultados anteriores só valem para um dos lados. 

O tratamento é, no mínimo, arrogante. A maioria desconhece o adversário do Santos. Parte-se do princípio obsoleto de que o futebol brasileiro é o centro do mundo. “Somos o país do futebol”. “Formamos duas, três seleções a qualquer hora.”

A dose excessiva de ufanismo mascara as feridas e evitar expor os buracos da muralha de areia. A queda de vários times brasileiros na mesma competição intercontinental, com a reação de surpresa de boa parte da imprensa, funciona como indicativo para que a dianteira ilusória está mais para corrida cabeça a cabeça.

O Santos não fez uma campanha brilhante no torneio. Jogou com o regulamento no bolso e fez o que era absolutamente necessário para se classificar à fase seguinte. Não há demérito nisso, mas não se pode afirmar que venceu com sobras. O Santos sempre ganhou apertado e sofreu em muitas partidas até o final.

Na primeira fase, o clube se classificou na última rodada, após vencer três jogos seguidas. Até então, era o terceiro colocado de uma chave com quatro equipes. Venceu vários jogos por 1 a 0 e, com brios, empatou com o Cerro Porteno, no Paraguai.

Além da conquista antecipada, ouço torcedores enfileirando reforços para a disputa do Mundial Interclubes. Aliás, para a final contra o Barcelona, o que elimina a participação dos campeões dos outros continentes. Será que o desastre do Internacional, no ano passado, não é suficiente para esmagar a soberba?

Os três nomes mais comentados são os meias Diego e Zé Roberto e o zagueiro Alex Silva. A imprensa tem papel fundamental quando infla o otimismo exagerado. Na opinião de muitos jornalistas, a diretoria do Santos espera o término da Libertadores para decidir e/ou divulgar as contratações.

E o Campeonato Brasileiro? O Santos não tem interesse na competição? Optar por uma equipe reserva enquanto disputa as finais do torneio continental é prudência. Mas não considerar que os reforços seriam principalmente para recuperar o terreno perdido no Brasileirão soa como blefe.

È evidente que o Santos consta entre os favoritos para qualquer campeonato. No caso da competição nacional, a história mostra que elenco e planejamento são quase sempre o remédio para suportar as 38 partidas e chegar entre os primeiros colocados.

O próprio técnico Muricy Ramalho, por experiência, se tornou mestre neste tipo de torneio. No São Paulo, principalmente, demonstrou consciência de que reservas interferem no desempenho do time por causa de suspensões, contusões e outros imprevistos. Ele sempre repetiu o mantra do elenco que conduz ao título.

O Santos perdeu três atacantes (Zé Eduardo, Keirrison e Diego). Só trouxe um, Borges. O meia Alan Patrick também vai embora. Ganso vive machucado. Isso sem falar que a janela européia ainda não foi aberta, o que pode provocar novas perdas.

Se os três nomes forem contratados, o Santos assume o favoritismo com folga. A zaga se tornou sólida com Muricy e ficaria ainda mais forte com Alex Silva, titular do São Paulo até outro dia e figura habitual de convocações da seleção brasileira.

Zé Roberto é o veterano que poderia ajudar dentro e fora de campo. Talvez não consiga suportar o ritmo do Campeonato Brasileiro, mas a longa jornada permite que o atleta descanse em certas circunstâncias.

Mas não é justo com Zé Roberto compará-lo a ele mesmo. O atleta que viria da Alemanha é muito diferente daquele sujeito que esteve na Vila Belmiro. Mais velho, mais experiente, mais lento, mais propenso a contusões. Necessita de um cuidado especial, com destino certo para coadjuvante.

Diego está em férias da cidade. Tem laços com o clube. Precisa se reaproximar do futebol brasileiro para voltar à seleção. O jogador do Wolfsburg teve duas temporadas instáveis, depois de arrebentar no Werder Bremen e se transformar no melhor atleta da Alemanha.

Diego é novo, 26 anos, mas sabe que a última chance de disputar a Copa do Mundo está aqui. Chegará em 2014 com 29 anos e poderá amenizar a carência de meias na seleção. Mano Menezes arriscou convocar Ganso machucado e joga as fichas nele pela falta de opções. O técnico conversou com Kaká, ciente de que ainda pode tirar algo do meia do Real Madrid, hoje com 29 anos.

Jogar no Santos que se acostumou a vencer pode ser a redenção de Diego, que repetiria a trilha de Robinho. O atacante do Milan se recuperou aqui – onde o nível é mais baixo – e garantiu a presença na última Copa do Mundo.

O Santos, hoje, é o time da moda. Se não vence, briga pelas primeiras posições. Muitos querem jogar pelo clube, ponte para vôos mais elevados. No Santos, trabalha o melhor técnico brasileiro dos últimos cinco anos.

Tudo conspira a favor.  Mas acreditar que a Libertadores tem um campeão definido é o exemplo de prepotência que conduz ao segundo lugar. Ao contrário de jornalistas e torcedores, o time deve estar blindado da euforia. 
Caso contrário, o Santos terá apenas se esquecido, como se diz no próprio futebol, de combinar com os uruguaios. 

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