sexta-feira, 10 de junho de 2011

O excesso e a falta

Tenho excesso de peso. Falta praticar mais exercícios que me dêem prazer, em pé ou deitado.
Trabalho como escravo voluntário. Falta tempo para jogar o relógio da burocracia fora.
Convivo com colegas diariamente; muitos deles por obrigação. Falta encontrar amigos para uma conversa e um abraço.
Tenho preguiça demais. Ainda bem que a vaidade está em falta no cinismo que me habita.
Pago dívidas perpétuas. Falta vergonha para abandonar os supérfluos e os descaminhos do cotidiano.
Faço críticas demais. Talvez seja a ausência da felicidade infantil da alienação.
Testemunho intolerância e arrogância por todos os lados. Sinto saudades das diferenças e do suicídio do padrão.
Ouço e leio bobagens em demasia. Preciso sentir a despedida temporária das redes sociais e seus comentaristas de oportunidade.
Amo meus filhos no limite da dor. A culpa é o resultado da distância, ainda que minha ausência seja por horas.
Coisas em excesso entopem minhas vias. Falta-me decência de atirá-las pela janela, sem apego ou remorso.
No excesso ou na falta, me recuso a desejar a falsa normalidade do meio-termo. Se o mundo é dos médios, prefiro salvar minha própria insanidade.

12 comentários:

Ebrael Shaddai disse...

A conclusão é absolutamente brilhante! Parabéns!

Lembro-me de uma frase bíblica, em que Deus fala a Moisés, mais ou menos, assim:

"Que sejas frio ou quente, pois se fores môrno te vomitarei da minha boca!"

Abçs!

A viajante disse...

Mundo mediano, esse nosso! Há dias que não caibo em mim, de tantas faltas! Abraços.

Cruz disse...

Caro professor, tenho prá mim que a excessos e faltas todos nós estamos expostos e o que é excesso para alguns, falta a outros e vice versa. Podemos compensar "deixando de lado a obsessão por terminar tudo e dar a cada objeto e a cada pensamento um lugar determinado, porque a julgar pelo que vemos ao nosso redor, o mundo é pura desordem" (Isabel Allende).O eterno aluno.

Beth Soares disse...

Texto maravilhoso!
Também detesto o morno e linear!

Um grande beijo!

Elton de Freitas disse...

Olá Caro Marcos,

havia tempos não lia um texto tão profundo com tanta objetividade, realmente estou impressionado.
Concordo e acho que muitos dos aspectos citados se devem a couraça extremamente forte que desenvolvemos acreditando que nos fará sobreviver mais. Nos proteger? Do que? Da realidade? Percebo que algumas coisas que nos faltam estão ao nosso lado, mas infelizmente a couraça nos protege do que inclusive nos faria feliz.
Acho que vou frequentar mais este louco mundo de seus textos. (isso é um elogio ok)

Grande abraço.

Marcus Vinicius Batista disse...

Ebrael e Beth, agradeço imensamente pela leitura. Gostei da ideia do morno. É o conforto momentâneo, mas que tende a esfriar. Grande abraço!!

Marcus Vinicius Batista disse...

Viajante, há dias em que é preciso parar para se reequlibrar. Caso contrário, o déficit se torna irreversível. Mas tanto a falta como o excesso podem ser divertidos. Obrigado pelo comentário. Beijo.

Marcus Vinicius Batista disse...

Antônio, meu amigo, a desordem é tamanha que, às vezes, não consigo encontrar nada. Abração!!

Marcus Vinicius Batista disse...

Elton, sinta-se à vontade para mergulhar na loucura. Até porque já abriu a porta do sanatório!! (risos) Agradeço pela leitura e pelo comentário generoso. Grande abraço!!

cristina disse...

Excelente . Muito bom .
Faz tempo que não leio um texto assim.

Carol Gutierrez disse...

é bem isso mesmo. Fantástico como sempre, professor!
abs

Anônimo disse...

Belo texto. São Percepções de uma pessoa que alcançou a maturidade. Mas como todas as outras não consegue sair do rolo compressor, sempre queremos ser o que as pessoas esperam que sejamos.

É sereno, mas um pouco triste.

Ass: uma pessoa que vive a se perguntar o que é felicidade.