terça-feira, 28 de junho de 2011

Neymar não é Pelé!

A euforia – ou a maledicência travestida de boa fé – pode colocar em dúvida o mais redundante dos cenários. É o caso do título deste texto, fruto de um susto que tomei ao comprar o jornal no domingo pela manhã. Tenho o hábito de passar na banca por volta das 11 horas, antes de seguir para a emissora de rádio onde tenho um programa com dois amigos.
Antes de apanhar um exemplar da Folha ou do Estadão, passo os olhos pelas capas das revistas semanais. Às vezes, compro uma ou duas; depende da capa ou da quantidade de reportagens interessantes no índice. Reconheço que parece atitude chata de jornalista, mas encaro como misto de obrigação profissional e prazer.
Uma das capas me assustou a ponto de pensar e escrever sobre o atacante do Santos. Uma das revistas comparava Neymar a Pelé. O título da reportagem se referia a ele como o “Pelé do século XXI”.
Por que insistimos tanto em buscar um novo rei cada vez que aparece um atacante de ponta na Vila Belmiro? Basta ser atacante e negro para que o jogador receba uma coroa da imprensa, dirigentes, empresários e outros papagaios. Vários atletas, de medíocres a craques, carregaram este peso nas costas nos últimos 35 anos.
Robinho, há oito anos, recebeu o fardo, acreditou nos tagarelas e reproduziu várias vezes o discurso – quando chegava a um clube – de que seria o melhor jogador do mundo. Teve até a complacência do próprio rei, que comparecia ao Centro de Treinamento do Santos para reforçar a irresponsabilidade sobre o moleque em início de carreira.

Ser o melhor por uma temporada, conforme prometeu seguidamente Robinho, não o aproxima de ser Pelé. O atacante do Milan, com a idade e as decepções, percebeu o quanto a soberba atrapalhou a carreira dele, que jamais conseguiu ser protagonista em nenhuma das equipes européias em que jogou, mais a seleção brasileira.
Neymar é o eleito do momento. Apesar de melhor jogador de futebol em atividade por aqui hoje, ele desequilibra partidas em campeonatos vistos como periféricos. Mas já assumiu também a missão de ser o melhor jogador do planeta. E não o será jogando por aqui, ainda que insista na hipótese. Sinto o cheiro de discurso para agradar torcedores e jornalistas, que talvez esconda a consciência real do cenário.
Neymar depende de, no mínimo, dois passos. O primeiro é demarcar o território na seleção brasileira. Amistosos enganam os amigos do curto prazo. Estas partidas atendem contratos, aceleram vendas de atletas para o exterior.
É necessário sobreviver a competições internacionais. A Copa América é o aperitivo que pode acabar em má digestão ou em passaporte para outros endereços. A Copa do Mundo seria o prato principal, quando o atacante terá 22 anos.
Enquanto o Mundial não chega, o atleta do Santos precisa escalar o segundo degrau: arrebentar no futebol europeu. Acreditar que bom desempenho na Copa Libertadores ou no Campeonato Brasileiro altera o estado de coisas no futebol internacional é esperar pelo milagre de Natal.
Para alcançar “níveis estratosféricos”, como disseram seus empresários, Neymar tem que se transferir para um grande clube de um centro nervoso da Europa. A cor da camisa não importa. Se a mudança será no meio ou no final do ano, também pouco interfere.
Os jornais falam em quatro propostas de times de ponta. É bem provável que seja um chute certeiro. A oferta chegará, tanto que o jogador se prepara fisicamente (ganho de massa muscular) para encarar um modelo de futebol no qual cair ao solo não é sinônimo de falta marcada pelo árbitro.
Neymar, ao lado de Ganso, ressuscita a esperança do futebol brasileiro se divorciar da robotização europeia. Nos últimos anos, de fato, os destaques da seleção brasileira são zagueiros e goleiros. Depois dos Ronaldos, a seleção conseguiu destaques pontuais, que não sobreviveram às competições mais duras. Kaká e Adriano foram protagonistas, mas faltou a Copa do Mundo.
Neymar ainda é um menino e não merece ser comparado à Pelé. Para o bem do menino, claro. Queimar etapas auxilia empresários, que engordam comissões, e a venda de revistas. Ambos enganam o leitor-torcedor comum, que crê numa jóia brilhante na vitrine, enquanto não enxerga a pedra preciosa em início de lapidação.  
Sábias são as palavras do colunista Tostão, o melhor do ramo. O ex-jogador defende a ideia de que craque é aquele jogador que se mantém em nível elevado por vários anos, com oscilações mínimas.
Para se aproximar de Pelé, Neymar precisa de mais 10 anos de alto nível. E de títulos. Mesmo assim, a comparação permanecerá tão frágil quanto patética. Em História, um dos erros mais comuns é julgar uma época por outra. Fazer juízo de valor sobre o passado a partir das vantagens concedidas pelo presente, desprezando contextos e a própria distância cristalizada pelo tempo.
Comparar Neymar com Pelé é ignorar modelos diferentes de futebol. É se prender à relativização das estatísticas. É assassinar a arte esculpida por ambos pela frieza dos números e da matemática.
Meu maior medo é que Neymar sofra as conseqüências e a crueldade alheia por não ter sido Pelé. Basta que ele seja apenas Neymar.

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