terça-feira, 28 de junho de 2011

Neymar não é Pelé!

A euforia – ou a maledicência travestida de boa fé – pode colocar em dúvida o mais redundante dos cenários. É o caso do título deste texto, fruto de um susto que tomei ao comprar o jornal no domingo pela manhã. Tenho o hábito de passar na banca por volta das 11 horas, antes de seguir para a emissora de rádio onde tenho um programa com dois amigos.
Antes de apanhar um exemplar da Folha ou do Estadão, passo os olhos pelas capas das revistas semanais. Às vezes, compro uma ou duas; depende da capa ou da quantidade de reportagens interessantes no índice. Reconheço que parece atitude chata de jornalista, mas encaro como misto de obrigação profissional e prazer.
Uma das capas me assustou a ponto de pensar e escrever sobre o atacante do Santos. Uma das revistas comparava Neymar a Pelé. O título da reportagem se referia a ele como o “Pelé do século XXI”.
Por que insistimos tanto em buscar um novo rei cada vez que aparece um atacante de ponta na Vila Belmiro? Basta ser atacante e negro para que o jogador receba uma coroa da imprensa, dirigentes, empresários e outros papagaios. Vários atletas, de medíocres a craques, carregaram este peso nas costas nos últimos 35 anos.
Robinho, há oito anos, recebeu o fardo, acreditou nos tagarelas e reproduziu várias vezes o discurso – quando chegava a um clube – de que seria o melhor jogador do mundo. Teve até a complacência do próprio rei, que comparecia ao Centro de Treinamento do Santos para reforçar a irresponsabilidade sobre o moleque em início de carreira.

Ser o melhor por uma temporada, conforme prometeu seguidamente Robinho, não o aproxima de ser Pelé. O atacante do Milan, com a idade e as decepções, percebeu o quanto a soberba atrapalhou a carreira dele, que jamais conseguiu ser protagonista em nenhuma das equipes européias em que jogou, mais a seleção brasileira.
Neymar é o eleito do momento. Apesar de melhor jogador de futebol em atividade por aqui hoje, ele desequilibra partidas em campeonatos vistos como periféricos. Mas já assumiu também a missão de ser o melhor jogador do planeta. E não o será jogando por aqui, ainda que insista na hipótese. Sinto o cheiro de discurso para agradar torcedores e jornalistas, que talvez esconda a consciência real do cenário.
Neymar depende de, no mínimo, dois passos. O primeiro é demarcar o território na seleção brasileira. Amistosos enganam os amigos do curto prazo. Estas partidas atendem contratos, aceleram vendas de atletas para o exterior.
É necessário sobreviver a competições internacionais. A Copa América é o aperitivo que pode acabar em má digestão ou em passaporte para outros endereços. A Copa do Mundo seria o prato principal, quando o atacante terá 22 anos.
Enquanto o Mundial não chega, o atleta do Santos precisa escalar o segundo degrau: arrebentar no futebol europeu. Acreditar que bom desempenho na Copa Libertadores ou no Campeonato Brasileiro altera o estado de coisas no futebol internacional é esperar pelo milagre de Natal.
Para alcançar “níveis estratosféricos”, como disseram seus empresários, Neymar tem que se transferir para um grande clube de um centro nervoso da Europa. A cor da camisa não importa. Se a mudança será no meio ou no final do ano, também pouco interfere.
Os jornais falam em quatro propostas de times de ponta. É bem provável que seja um chute certeiro. A oferta chegará, tanto que o jogador se prepara fisicamente (ganho de massa muscular) para encarar um modelo de futebol no qual cair ao solo não é sinônimo de falta marcada pelo árbitro.
Neymar, ao lado de Ganso, ressuscita a esperança do futebol brasileiro se divorciar da robotização europeia. Nos últimos anos, de fato, os destaques da seleção brasileira são zagueiros e goleiros. Depois dos Ronaldos, a seleção conseguiu destaques pontuais, que não sobreviveram às competições mais duras. Kaká e Adriano foram protagonistas, mas faltou a Copa do Mundo.
Neymar ainda é um menino e não merece ser comparado à Pelé. Para o bem do menino, claro. Queimar etapas auxilia empresários, que engordam comissões, e a venda de revistas. Ambos enganam o leitor-torcedor comum, que crê numa jóia brilhante na vitrine, enquanto não enxerga a pedra preciosa em início de lapidação.  
Sábias são as palavras do colunista Tostão, o melhor do ramo. O ex-jogador defende a ideia de que craque é aquele jogador que se mantém em nível elevado por vários anos, com oscilações mínimas.
Para se aproximar de Pelé, Neymar precisa de mais 10 anos de alto nível. E de títulos. Mesmo assim, a comparação permanecerá tão frágil quanto patética. Em História, um dos erros mais comuns é julgar uma época por outra. Fazer juízo de valor sobre o passado a partir das vantagens concedidas pelo presente, desprezando contextos e a própria distância cristalizada pelo tempo.
Comparar Neymar com Pelé é ignorar modelos diferentes de futebol. É se prender à relativização das estatísticas. É assassinar a arte esculpida por ambos pela frieza dos números e da matemática.
Meu maior medo é que Neymar sofra as conseqüências e a crueldade alheia por não ter sido Pelé. Basta que ele seja apenas Neymar.

domingo, 26 de junho de 2011

Um dia anormal

Nada mais ilusório do que uma goleada em clássico. O time vencedor se afoga na fantasia de que é melhor do que a realidade a ser mostrada nas rodadas seguintes. Ao derrotado, resta uma crise inventada que se apagará na próxima vitória. Se permanecer na liderança, o fracasso será enterrado na proporção do tempo na dianteira.
A goleada do Corinthians sobre o São Paulo por 5 a 0 se encaixa em mais esta teoria de botequim. Foi uma tarde em que tudo conspirou a favor do clube cujos atacantes são questionados. Do outro lado, o líder do campeonato travou a ponto de expor várias deficiências ao mesmo tempo, inclusive as que não costumam existir, como a defesa tradicionalmente sólida.
O Corinthians chutou 28 bolas a gol. O São Paulo, apenas quatro. Parecia treino de ataque contra defesa. Danilo, sempre posto em xeque, conduziu a armação do time como o camisa 10 clássico, posição carente desde a saída de Douglas para o mundo árabe. E ainda marcou o gol mais bonito da partida. Liédson, por sua vez, não marcava há três jogos. Fez três gols hoje.
O São Paulo era o líder invicto. Cinco vitórias em cinco jogos. Desempenho ímpar. Mas atuou como as equipes do interior que enfrentam o Corinthians no Pacaembu. Acuado. Temeroso. Encolhido na defesa para que o sofrimento terminasse logo. Como o time pequeno que aposta suas fichas no primeiro tempo, para entrar em coma depois do intervalo.  
Os zagueiros, escola-referência no Morumbi, estavam pregados na grama. Perderam quase todas as bolas de cabeça. O goleiro Rogerio Ceni, que lacrou o gol contra o Ceará há uma semana, cometeu o erro de um iniciante. Até quando fez uma defesa excepcional, a bola caiu nos pés de Liédson, solitário na pequena área.
Outros exemplos (ou estatísticas) poderiam consolidar este dia diferente para ambos os lados. A vitória no clássico representa um cenário pontual. Esconde os defeitos. Supervaloriza as qualidades. Altera as potencialidades do time se observadas como aspecto isolado.
O Corinthians segue como uma equipe instável, com deficiências em todos os setores. O time precisa de reforços, mais do que Alex e Emerson. O goleiro, por exemplo, não traz a imagem de solidez por causa das falhas em partidas importantes. Vive com a sombra de Renan, revelação do Avaí, nos calcanhares.
A defesa está desconfigurada desde a aposentadoria de William, que mantinha a regularidade com Chicão. O meio-campo teve várias perdas desde o ano passado, todas para o futebol europeu. No ataque, Adriano é apenas uma miragem, enquanto o time permanece viciado em doses de Liédson.
O São Paulo não deixará de ser candidato ao título por causa da goleada. Continuará com as mesmas carências e, como vários adversários, tentará remontar o time ao longo da temporada, durante um campeonato longo, de 38 rodadas.
O resultado de 5 a 0 no Pacaembu só servirá de três coisas. A primeira, óbvio, foi diminuir a distância entre o Corinthians, agora em segundo lugar, e o líder tricolor. A segunda, mais divertida, é alimentar as brincadeiras nos balcões de padarias e mesas de boteco. E a última, afastar um pouco dos holofotes o Santos de Neymar e companhia, até porque eles estão na Argentina com a seleção brasileira.

quinta-feira, 23 de junho de 2011

A estética dos doentes


A novidade nas academias chiques é um pó misturado na água. A poção mágica é chamada de Jack 3D, em função das substâncias químicas que compõem o produto. O milagre do momento aumenta a capacidade de treinamento e reduz a fadiga do atleta.

O Jack 3D engrossaria as prateleiras dos suplementos se não fossem dois problemas. A substância é proibida no Brasil, por ser considerada doping. E provoca efeitos colaterais como taquicardia e problemas neurológicos.

O que leva pessoas normais a buscar compostos ilegais para treinar em academias? Se a medida é injustificável para atletas de ponta, imagine para os freqüentadores comuns. Por que arriscar a própria saúde com ações que seriam decorrentes da própria busca por vida saudável?

A ditadura da estética se esconde atrás de nomes pomposos, métodos revolucionários e tratamentos divinos. A aparência passou a ser a medida de muitas circunstâncias. Estar no corpo padrão significa a legitimação de um modo de viver, dependente do olhar de outros escravos da forma, indiferentes ao conteúdo.

Moldar a casca se transformou em obsessão. O Brasil, hoje, é o segundo país do mundo em número de cirurgias plásticas e de freqüentadores de academias e no consumo de remédios para emagrecer.    

No filme Meia-noite em Paris, última obra de Woody Allen, há uma cena em que o protagonista, um roteirista vivido por Owen Wilson, evita que a esposa do escritor Scott Fitzgerald cometa suicídio. O roteirista foi transportado no tempo e se encontra na capital francesa, nos anos 20.

Depois de agradecer a ele pelo salvamento, a esposa de Fitzgerald ganha um comprimido do roteirista, que diz algo como:

— Será sua salvação no futuro!

O comprimido era um Valium. A piada de Allen é, obviamente, atual. As relações sociais viraram patologias. Qualquer comportamento fora do padrão é passível de diagnóstico. Claro que a popularização de certos termos pode significar mais informações sobre doenças, mas o que se vê – em muitas situações – é a popularização do milagre em forma de remédio.

Se o sujeito trabalha demais, está sob stress. Dá-lhe relaxantes e outras pílulas. Se alguém segue melancólico, deve estar deprimido. Uma cartela de Prozac ou outras tranqueiras coloridas para reanimar o tristonho. Se a criança é bagunceira, provavelmente será hiperativa. A solução: ritalina nela!

Estamos doentes de corpo e alma. Como escravos do corpo perfeito, também fracassamos diante da ideia de que a felicidade não acontece o tempo todo. Não compreendemos angústias, ansiedades e derrotas momentâneas, inerentes às relações com outras pessoas.

A impaciência e a incapacidade de olhar para si com o devido tempo de reflexão nos fazem parecer com aqueles sujeitos ingênuos que eram enganados por caixeiros viajantes e seus remédios tão exóticos quanto fruto de charlatanismo, no século 19. Tudo para alcançar a falsa normalidade, ditada e aprovada pelo outro, também algemado pela estética feliz a qualquer preço.

Cada vez que passo em frente a uma farmácia-shopping, me lembro da história contada por uma psicóloga. Quando encontrar crianças reunidas, espere por moleques e meninas agitados. A criança quietinha, sentada no cantinho, xodó de adultos pelo comportamento exemplar, é provavelmente a deslocada. E não está, necessariamente, doente.

As demais crianças? Apenas crianças.   

domingo, 19 de junho de 2011

A marcha ficou careta?

O sinal verde do Superior Tribunal Federal (STF) para a realização da Marcha da Liberdade deu o efeito que os adversários esperavam. A marcha, que aconteceu em vários lugares do país, sendo 11 capitais, ficou entorpecida, esvaziou. Infelizmente, virou só nota nos jornais de domingo.
Em São Paulo e no Rio de Janeiro, não reuniu mais de 3 mil pessoas. Em Santos, no litoral de SP, apenas 30 pessoas se encontraram na praça da Independência, uma das principais da cidade.
Ao autorizar a marcha, o STF matou o caráter principal dela. A marcha existe como enfrentamento social, como contestação de comportamentos repressores, capaz de convocar e aglomerar diversas minorias e/ou grupos sociais. A marcha exige liberdade, jamais tutela do poder. Na teoria, o protesto serve para reivindicar a possibilidade de pensar sem controle das instituições e de se rediscutir convenções sociais.
Por que, então, se reunir para exigir liberdade se, juridicamente, ela foi concedida? É claro que a marcha representou uma resposta contra a violência policial ocorrida em maio, na Marcha da Maconha, em São Paulo. Mas o caráter proibitivo se perdeu quando os próprios policiais ficaram amordaçados diante dos manifestantes. As autoridades e seus cães ladravam, mas não podiam morder. Ninguém deseja pancadaria, mas o aspecto transgressor se desloca para a neutralidade perante a inércia da autoridade presente.
A marcha, como qualquer forma de protesto, tem que nascer da sociedade civil, das pessoas que se sentem indignadas por qualquer problema social. E tem que surpreender os homens do Estado, levá-los a tomar medidas desesperadas ou impensadas que se transformarão em um tiro nos próprios pés. A manifestação se constrói a boca pequena, no um a um, nunca com a mediação de quem existe para tentar extingui-la.
A Marcha da Maconha, no último mês, exemplifica esta postura. Policiais, quando agridem manifestantes, reforçam a própria imagem de truculência, consolidam a acusação de despreparo para lidar com eventos de contradição ao poder.  E dão a razão para quem exigia direitos por meios pacíficos.
No momento em que uma marcha recebe o aval o poder, cai na armadilha da previsibilidade. Torna-se mais um evento com alvará do Poder Público, com espaço delimitado, com tempo definido. O trânsito é organizado, a imprensa é avisada pelas assessorias de comunicação, a marcha entra no calendário do final de semana. Quem deveria ser ignorado ganhou passaporte para atuar como co-organizador.
Protestos só funcionam quando se equiparam a greves de serviços essenciais. O objetivo é interferir na rotina da cidade, fazendo com que os gritos de mudança sejam ouvidos em diversos segmentos, ainda que provoquem rejeição. Neste cenário, a pior reação é a indiferença.
Interferir no cotidiano da cidade implica balançar o senso comum, provocar o cidadão que segue robotizado no cotidiano. Fazer com que ele tome uma decisão sobre o que vivencia à revelia, seja pensar um pouco a respeito do problema, tomar ciência ou reclamar para si mesmo. Isolar um protesto é reduzi-lo à badulaque no espaço urbano.  
A autorização do STF, mesmo que carregada de boa intenção, favoreceu a “turma do bem”, com suas feições de horror cínico e seus murmúrios discordantes das causas que envolveram a marcha. Os senhores do Judiciário cristalizaram a posição dos conservadores, seguros para dizer que o vazio nas ruas e praças indicou que a sociedade é contrária à palavra de quem protesta.
O foco, apesar das várias causas incluídas no pacote, ainda reside na legalização da maconha. O esvaziamento do protesto recarrega o cartucho de quem deseja enterrar o assunto. Desinformar é a munição. O tema, de saúde pública, perde impacto para o discurso de repressão, com alicerces na segurança pública e no moralismo que generaliza (e reduz) o debate.   
A marcha ganhou a liberdade de voz e de caminhada. Mas quem está disposto a ouvi-la e andar com ela?

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Uma pessoa?

 
O casal retornava para casa depois de um jantar em restaurante japonês. Era aniversário dela, momento de balanço, ainda mais quando se completa data redonda. Os dois andavam pela rua Ministro João Mendes, no bairro do Embaré, em Santos. Acabaram de atravessar a rua Castro Alves e seguiam ao lado das paredes de metal da obra ainda nas fundações.

Antes de passar pelo sonho de consumo de ferros e concreto, ela viu um amontoado de tecidos junto ao canteiro que protegia uma árvore. O local estava escuro por causa da iluminação deficiente e pela copa de outra árvore, a cinco metros dali.

— O que é isso?

O namorado olhou para o lado, viu dois pés para fora dos tecidos, calçados por um par de chinelos de dedo, ambos gastos por quilômetros rodados.

— É um homem dormindo entre as árvores!

Ela, acostumada a atender casos difíceis na vida profissional, não segurou a surpresa:

— É uma pessoa?

Ela passou a mão direita no rosto. Não conseguia entender como aquele homem poderia estar ali, encolhido, exposto, estendido sobre um pedaço de papelão diante de um frio de 15 graus. Com 10 anos de experiência, ela lidava com usuários de drogas, pessoas sem família, sujeitos com problemas psiquiátricos, toda a ordem de indivíduos que costumam ser deslocados pela sociedade.

O choque a fez repetir três vezes:

— Meu Deus, é uma pessoa!

O cobertor amarelado não servia somente como protetor paliativo. O cobertor é o manto de invisibilidade. Manto que protege as demais pessoas do corpo no chão. O cobertor o esconde do mundo que se sustenta na ausência daquele homem que dorme.

Mais do que dormir, aquela pessoa transita por uma estrada de hibernação social. Como muitos, ele é transparente para a cidade. Na visão dominante, como ele não contribui, não deve ter benefícios. Não consome, perdeu o direito à cidadania.

O que ela fez, ao vê-lo, pode ser interpretado pelos cínicos como uma reação instantânea, a ser esquecida no próximo pedaço de pizza ou nos primeiros minutos do banho quente, minutos após o encontro na rua.

Se não bastasse o trabalho para fazê-la lembrar todos os dias da tarefa interminável de ajeitar vidas, prevalece o fato de que – coletivamente – o assunto é ignorado. Ignora-se, por exemplo, a forma como os invisíveis são tratados pelos faxineiros de farda.

Moradores de rua são vistos como animais por parte da sociedade. E, como bichos, merecem comida de segunda linha (exceção dos bebezinhos de estimação, que até chapinha no cabelo ganham hoje em pet shops). Como seres selvagens, merecem – na perspectiva de quem recebe ordens para limpá-los – ser enxotados na porrada, como o gado que não entrou no curral.

A invisibilidade os mantém a uma distância segura de quem se julga civilizado. Mas recomenda-se prudência, pois os “homens em hibernação” se multiplicam nas esquinas de Santos. Sem escolher bairro, sem permanecer em guetos. Hoje, são mais de 600 pessoas. Pessoas?

sexta-feira, 10 de junho de 2011

O excesso e a falta

Tenho excesso de peso. Falta praticar mais exercícios que me dêem prazer, em pé ou deitado.
Trabalho como escravo voluntário. Falta tempo para jogar o relógio da burocracia fora.
Convivo com colegas diariamente; muitos deles por obrigação. Falta encontrar amigos para uma conversa e um abraço.
Tenho preguiça demais. Ainda bem que a vaidade está em falta no cinismo que me habita.
Pago dívidas perpétuas. Falta vergonha para abandonar os supérfluos e os descaminhos do cotidiano.
Faço críticas demais. Talvez seja a ausência da felicidade infantil da alienação.
Testemunho intolerância e arrogância por todos os lados. Sinto saudades das diferenças e do suicídio do padrão.
Ouço e leio bobagens em demasia. Preciso sentir a despedida temporária das redes sociais e seus comentaristas de oportunidade.
Amo meus filhos no limite da dor. A culpa é o resultado da distância, ainda que minha ausência seja por horas.
Coisas em excesso entopem minhas vias. Falta-me decência de atirá-las pela janela, sem apego ou remorso.
No excesso ou na falta, me recuso a desejar a falsa normalidade do meio-termo. Se o mundo é dos médios, prefiro salvar minha própria insanidade.

Sozinhos ou solitários?

O censo do IBGE é um caminhão de números. Leva semanas para que se analise o comportamento dos brasileiros por múltiplos ângulos. Optei por focalizar apenas uma estatística: 12% das residências têm um único morador. Dez anos antes, o índice era de 7%, quase a metade.
Morar sozinho é o desejo de muitas pessoas. Motivos variados: livrar-se dos pais ou dos filhos, alcançar a liberdade, ter autonomia para tomar as próprias decisões ou a suposta incapacidade de dividir espaço com alguém.
Minha inquietação não está na decisão de viver sozinho. Todos precisam de um momento para si. É o período em que avaliamos ações, reações e pensamentos, inclusive daqueles com quem convivemos em outros ambientes. Sozinhos, planejamos o dia seguinte. Esvaziamos o cérebro diante do cotidiano acelerado e propenso à ausência de reflexão e de auto-crítica.
A dificuldade maior reside na característica contemporânea de estar junto sem perceber o quanto se enterra na solidão. O pior solitário é aquele sujeito que, rodeado de pessoas, não consegue enxergar o próprio deslocamento social, a inabilidade para interação. Até porque sustenta habitual desinteresse pelos demais.
O solitário quase nunca está sozinho. A vida dele, aliás, costuma ser ativa. Esqueça a figura clássica do eremita, aquele homem que se isola no meio do mato ou na montanha por não suportar a humanidade ou para avaliá-la a partir de uma distância segura.
O solitário se julga cercado de outros indivíduos, que traçam suas órbitas em torno dele, o responsável por monólogos professorais. O solitário de hoje pode se ver como popular, ávido por platéia, nunca de cúmplices. Ele se alimenta das próprias teses, nunca da partilha de ideias ou da manutenção de canais de diálogo.
O sujeito sozinho pode fazê-lo por opção. Quem voa solo entende sua casa como refúgio, como porto seguro, em que basta a voz da TV ou o latido do cachorro de estimação para se proteger da amargura da solidão.
O solitário grita em desespero por reconhecimento, por resposta, por ressonância de suas palavras. O solitário se socorre, por exemplo, nas redes sociais, endereços em que compartilha os mais fúteis detalhes da vida particular, obcecado por escapar da rotina ordinária dos mortais.


O solitário pode estar rodeado de “amigos virtuais”, mas não se relaciona com mais de meia dúzia. É como se enchesse a arquibancada de espectadores, todos eles surdos para o discurso que está por vir. O próprio solitário, na verdade, age como um alienista, distante de todos enquanto convive com eles. Precisa falar, mas não presta atenção na voz alheia.
Vivemos em uma sociedade onde os solitários se multiplicam como clones, em ritmo de individualização próxima do absoluto. Exemplos (sintomas?) são muitos. Dirigimos carros com único passageiro. Andamos protegidos da voz do outro por fones de ouvido. Dialogamos com o teclado do celular sem olhar para alguém da mesma espécie, ao lado no ponto de ônibus.
Falamos com colegas de trabalho, sentados a dois metros, por e-mails. Anunciamos o almoço ou o jantar pela Internet. Assistimos aos mesmos programas por TVs diferentes, em cômodos diferentes. E vivemos a vida de celebridades nos detalhes, enquanto ignoramos o nome do vizinho de porta.
Somos seres sociais, de corpo presente, de convivência quase nula. È simples estarmos sozinhos. Triste é vendar os olhos para a solidão, com a certeza de que estar na multidão em marcha é estar com alguém.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

O trato com os uruguaios

 
A conversa está estranha. Só se fala do Santos, tratado como fenômeno digno da banda mais bonita da cidade. Com o Campeonato Brasileiro ainda no início, a possibilidade de conquista da Copa Libertadores pela terceira vez, depois de quase 40 anos, ocupa o topo da pauta nos botecos, balcões de padaria, pontos de ônibus e cafezinho no ambiente de trabalho.

Por trás de um discurso otimista, muitos torcedores viajaram no tempo e se encontram em 23 de junho, dia seguinte à decisão final do torneio.

— Enfrentar o Barcelona será complicado. Precisamos de reforços!

— Diego seria excelente reforço para o Mundial.

As frases variam pouco e transitam em torno de ideia de que o Santos já ganhou a Libertadores. Muitos desconsideram o Penãrol como um adversário digno de atrapalhar a conquista do clube da Vila Belmiro. Neste conjunto de argumentos, a tradição da camisa e os resultados anteriores só valem para um dos lados. 

O tratamento é, no mínimo, arrogante. A maioria desconhece o adversário do Santos. Parte-se do princípio obsoleto de que o futebol brasileiro é o centro do mundo. “Somos o país do futebol”. “Formamos duas, três seleções a qualquer hora.”

A dose excessiva de ufanismo mascara as feridas e evitar expor os buracos da muralha de areia. A queda de vários times brasileiros na mesma competição intercontinental, com a reação de surpresa de boa parte da imprensa, funciona como indicativo para que a dianteira ilusória está mais para corrida cabeça a cabeça.

O Santos não fez uma campanha brilhante no torneio. Jogou com o regulamento no bolso e fez o que era absolutamente necessário para se classificar à fase seguinte. Não há demérito nisso, mas não se pode afirmar que venceu com sobras. O Santos sempre ganhou apertado e sofreu em muitas partidas até o final.

Na primeira fase, o clube se classificou na última rodada, após vencer três jogos seguidas. Até então, era o terceiro colocado de uma chave com quatro equipes. Venceu vários jogos por 1 a 0 e, com brios, empatou com o Cerro Porteno, no Paraguai.

Além da conquista antecipada, ouço torcedores enfileirando reforços para a disputa do Mundial Interclubes. Aliás, para a final contra o Barcelona, o que elimina a participação dos campeões dos outros continentes. Será que o desastre do Internacional, no ano passado, não é suficiente para esmagar a soberba?

Os três nomes mais comentados são os meias Diego e Zé Roberto e o zagueiro Alex Silva. A imprensa tem papel fundamental quando infla o otimismo exagerado. Na opinião de muitos jornalistas, a diretoria do Santos espera o término da Libertadores para decidir e/ou divulgar as contratações.

E o Campeonato Brasileiro? O Santos não tem interesse na competição? Optar por uma equipe reserva enquanto disputa as finais do torneio continental é prudência. Mas não considerar que os reforços seriam principalmente para recuperar o terreno perdido no Brasileirão soa como blefe.

È evidente que o Santos consta entre os favoritos para qualquer campeonato. No caso da competição nacional, a história mostra que elenco e planejamento são quase sempre o remédio para suportar as 38 partidas e chegar entre os primeiros colocados.

O próprio técnico Muricy Ramalho, por experiência, se tornou mestre neste tipo de torneio. No São Paulo, principalmente, demonstrou consciência de que reservas interferem no desempenho do time por causa de suspensões, contusões e outros imprevistos. Ele sempre repetiu o mantra do elenco que conduz ao título.

O Santos perdeu três atacantes (Zé Eduardo, Keirrison e Diego). Só trouxe um, Borges. O meia Alan Patrick também vai embora. Ganso vive machucado. Isso sem falar que a janela européia ainda não foi aberta, o que pode provocar novas perdas.

Se os três nomes forem contratados, o Santos assume o favoritismo com folga. A zaga se tornou sólida com Muricy e ficaria ainda mais forte com Alex Silva, titular do São Paulo até outro dia e figura habitual de convocações da seleção brasileira.

Zé Roberto é o veterano que poderia ajudar dentro e fora de campo. Talvez não consiga suportar o ritmo do Campeonato Brasileiro, mas a longa jornada permite que o atleta descanse em certas circunstâncias.

Mas não é justo com Zé Roberto compará-lo a ele mesmo. O atleta que viria da Alemanha é muito diferente daquele sujeito que esteve na Vila Belmiro. Mais velho, mais experiente, mais lento, mais propenso a contusões. Necessita de um cuidado especial, com destino certo para coadjuvante.

Diego está em férias da cidade. Tem laços com o clube. Precisa se reaproximar do futebol brasileiro para voltar à seleção. O jogador do Wolfsburg teve duas temporadas instáveis, depois de arrebentar no Werder Bremen e se transformar no melhor atleta da Alemanha.

Diego é novo, 26 anos, mas sabe que a última chance de disputar a Copa do Mundo está aqui. Chegará em 2014 com 29 anos e poderá amenizar a carência de meias na seleção. Mano Menezes arriscou convocar Ganso machucado e joga as fichas nele pela falta de opções. O técnico conversou com Kaká, ciente de que ainda pode tirar algo do meia do Real Madrid, hoje com 29 anos.

Jogar no Santos que se acostumou a vencer pode ser a redenção de Diego, que repetiria a trilha de Robinho. O atacante do Milan se recuperou aqui – onde o nível é mais baixo – e garantiu a presença na última Copa do Mundo.

O Santos, hoje, é o time da moda. Se não vence, briga pelas primeiras posições. Muitos querem jogar pelo clube, ponte para vôos mais elevados. No Santos, trabalha o melhor técnico brasileiro dos últimos cinco anos.

Tudo conspira a favor.  Mas acreditar que a Libertadores tem um campeão definido é o exemplo de prepotência que conduz ao segundo lugar. Ao contrário de jornalistas e torcedores, o time deve estar blindado da euforia. 
Caso contrário, o Santos terá apenas se esquecido, como se diz no próprio futebol, de combinar com os uruguaios. 

terça-feira, 7 de junho de 2011

Ronaldo? Não, o homem da cara feia

Ronaldo se despede hoje da seleção brasileira. Milhões vão testemunhar a aposentadoria. Milhares vão escrever sobre ele e agradecê-lo pelos serviços prestados. Centenas vão acompanhar, bem de perto, no vestiário, nos corredores e à beira do gramado os minutos que antecedem a entrada em campo, além dos momentos pós-despedida.
Como já dei adeus ao Fenômeno e também disse obrigado pela folha corrida no futebol mundial, aproveitei a festa para escrever sobre um personagem que, na atual conjuntura da seleção brasileira, é o comandante dentro de campo.
Lúcio completou, contra a Holanda, a centésima partida pela seleção. Entrou para a minoria centenária, associada a gerações vencedoras e pilhas de títulos, inclusive em Copas do Mundo. Lúcio levou a dele, em 2002.
O zagueiro da Inter, de Milão, é o líder na acepção do termo dentro do futebol. Não é o medalhão que vive e sobrevive dos holofotes da mídia. Não protagoniza vitórias com gols ou lances de efeito. Ele trabalha a partir de soluções internas para problemas internos. Conversa de pé de ouvido ou bronca na privacidade do vestiário.
Lúcio somente dá entrevistas quando a ocasião se faz realmente necessária. E joga numa posição em que as boas partidas representam obrigação cumprida. Falhas quase sempre resultam em derrotas ou gols adversários.
Lúcio está com 33 anos. Promete integrar o grupo na próxima Copa do Mundo, aos 36. A história do futebol indica que o perfil do jogador não transforma o sonho em delírio. O zagueiro tem uma vida regrada, avessa às badalações. Mantém a vida privada entre quatro paredes. E permanece em alto nível há anos, sempre nos principais campeonatos, sempre em equipes grandes.
O zagueiro é um dos principais expoentes de uma geração de defensores que tornou a mão-de-obra brasileira cobiçada pelos principais times europeus. Quase todas as equipes de ponta contam com atletas brasileiros em suas defesas. Do clássico ao raçudo, do velocista ao técnico, os zagueiros brasileiros encontraram espaço no principal centro de futebol nos últimos 15 anos. Lúcio está na Europa há cerca de uma década. Passou pela Alemanha e se adaptou com facilidade ao futebol da Itália.  
Formado no Internacional, de Porto Alegre, o zagueiro joga como se ainda estivesse nos campos enlameados do interior gaúcho, de frente com aqueles adversários recém promovidos à divisão principal e, portanto, na disputa do jogo da vida. Qualquer partida vale vaga para final, na cabeça dele.

Lúcio não é um Luis Pereira, mas sabe passar a bola, ao contrário da maioria dos colegas de profissão, que engrandecem e perpetuam o título de beques de fazenda. Ele jamais foi um rebatedor. Desarma e fica com a bola. Só manda para o mato se houver aperto e sem ficar vermelho de vergonha.
O sujeito é um doador, adepto da solidariedade. Ao longo da carreira, preferiu jogar no combate direto aos atacantes e deixou os colegas mais clássicos para a sobra. O casamento com Juan, herdeiro de Aldair no Flamengo e na seleção, durou anos desta forma.
Quando assisto a um jogo da seleção, espero pelo óbvio: ver o zagueiro arrancar com a bola por 40, 50 metros, como se mostrasse aos volantes que entopem o meio-campo a natureza do trabalho. E entrega a bola nos pés do meia-atacante, sem aqueles chutões modelo ligação direta, com chances de sucesso idênticas a um bilhete de loteria. 
Hoje, na despedida do Ronaldo, o zagueiro Lúcio cumprirá novamente seu papel. Fará cara feia para os romenos, jogará como se não fizesse parte de uma festa. Sem sorrisos, sem abraços, é o nosso Lugano, melhor tecnicamente. Tentará servir ao companheiro de zaga, David Luiz, do Chelsea, para mantê-lo tranqüilo, sem afobações. É amistoso, mas perder para a Romênia indicará crise à porta.

A apoteose de Lúcio será a arrancada até o meio-campo, quando empurrará o time ao ataque nos momentos de monotonia. Ele vai desarmar os romenos vários vezes, sejam cortes de cabeça, sejam carrinhos na bola, sem falta. Se necessário, vai reclamar com o juiz e correr os 90 minutos como se tivesse 20 anos.
Lúcio deve seguir como titular na Copa América, em julho, na Argentina. Restará aos “novatos” Thiago Silva, do Milan, e David Luiz, além de Alex Silva, Luisão e outros zagueiros de excelente nível disputarem a vaga no lado esquerdo da defesa. Como está provado desde a conquista de 2002, o Brasil não tem problemas em se defender. Em parte, graças ao homem da cara feia.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

A santa está presa

 
A rua Santa Catarina, no José Menino, sempre foi famosa pelas pensões. No século passado, carregava a fama de reduto dos farofeiros. No politicamente correto, os turistas de um dia que, com seus ônibus, lotavam várias vias em torno do Orquidário Municipal antes de ver o mar.

Hoje, a rua traz nas costas um fardo involuntário e mais doloroso. A Santa Catarina divide com a gruta de Nossa Senhora de Lourdes um ponto de consumo de crack. Durante o dia, o movimento de usuários é mais discreto. É possível visitar a gruta, ainda que com relativo temor.

Quando anoitece, a gruta é trancafiada. Uma grade tenta separar a imagem de Nossa Senhora de Lourdes de um dos mais graves problemas sociais de Santos. Todos os dias, de 30 a 40 pessoas se reúnem para consumir crack e dividir o sofrimento provocado pelo que se acreditava ser a droga mais devastadora dos centros urbanos. O vício em oito segundos.

O purgatório sempre tende a se transformar em inferno. Duas novas (velhas) versões do crack, o Hulk (pedra de cor verde) e o Capitão América (rosa), já circulam na Baixada Santista. O óxi, uma versão mais poderosa, também já foi apreendido por aqui. Mais de 50 kg, segundo reportagem do jornal A Folha de S.Paulo.

O óxi possui querosene e – em outra variedade – gasolina na composição, além do coquetel de substâncias presentes no crack. O efeito ainda não pode ser mensurado, mas se imagina o estrago no organismo. Na cracolândia, em São Paulo, um usuário disse ter perdido 15 quilos em um mês.

A concentração de usuários na rua Santa Catarina é um cenário conhecido por todos. O problema reside na forma como se trata a questão. O Estado insiste em confundir – por conveniência? – tráfico com consumo. O traficante é caso de polícia. O usuário, de saúde pública.

A permanência das pessoas no local indica a esterilidade das ações públicas. Não basta retirar os viciados da rua Santa Catarina. Serão colocados aonde? Sem mencionar a violência física eventual, até porque “homens da lei” não pedem por favor, caro cidadão. É redundante dizer que, cientes dos riscos e reféns da droga, os usuários retornam ao José Menino no dia seguinte.

Separar quatro leitos, no Hospital da Zona Noroeste, como anunciou a Prefeitura para o próximo semestre, é esconder o esqueleto no armário. O número de vítimas é muito maior. Internar sem tratamento de longo prazo pode adiar a retomada do vício ou somente esconder o “desvio” dos olhos de todos.

Quando se confunde segurança com saúde pública, fica cristalina a perspectiva – com a concordância de parte da sociedade – de que os usuários de crack são responsáveis por tudo o que fazem. Não necessariamente! É uma doença não apenas biológica, mas também social, que altera valores e comportamentos individuais. Os mais radicais, no alto da ignorância, creditam ao viciado a consciência voluntária do vício. Estar lá, na sarjeta, nesta visão, seria um desejo, uma vontade, quase um prazer.  
As duas santas não dão conta de proteger o cenário em que vivem hoje. Não há milagre, promessa ou oração capaz de modificar a vida dos usuários. É uma questão de fé, mas na decência de quem gerencia a cidade, pessoas que insistem em combater um doença terminal com os remédios errados. Em doses exageradas, o medicamento é o veneno que eleva a dor, quando não provoca a morte, sem poesia, crua e anônima. 

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Quando a lei carrega nas tintas


A decisão da presidente Dilma Rousseff em assinar a lei que proíbe a venda de tintas em spray para menores de 18 anos é um exemplo de como a classe política se distancia da realidade, seja por pressupostos equivocados, seja pela carga de preconceito.

A lei, publicada na semana passada, determina que a venda só poderá ser feita com a apresentação do documento que comprove a idade do consumidor. Os comerciantes terão que identificar o comprador na nota fiscal. E os fabricantes terão que imprimir nas embalagens as frases: “Pichação é crime. Proibida a venda a menores de 18 anos.”

A lei simboliza a mentalidade recorrente de que mudanças de comportamento acontecem a partir da tinta marcada em papel. Como se não houvesse exemplos para demonstrar que alterações se dão pela força (ainda bem que os políticos, às vezes, se esquecem disso), por referências reconhecidas pelo indivíduo ou pelas relações sociais, alimentadas pela influência mútua entre pessoas.

Não se convence alguém a mudar de postura social com a canetada de um governante que se diz cheio de boas intenções. Cigarros e cerveja desmentem a hipocrisia de quem reside em torres de marfim, distante do cotidiano cultural.

Se o primeiro passo virou tropeço, o segundo não existe. Uma lei, para “pegar” no Brasil, necessita de fiscalização e do senso de punição. E, mesmo assim, temos que desconsiderar os amigos do rei e a corrupção estatal.

Com ou sem honestidade, quem vai perder tempo com burocracia para averiguar nota fiscal em casa de tintas ou lojas de ferramentas? Não há problemas mais relevantes para fiscalizar nas relações entre empresas e consumidores?

Esta lei se constitui numa leitura estúpida de faixa etária. É típica de quem não conhece nem desejou conhecer o comportamento dos jovens urbanos. A legislação fantasia que os pichadores são menores de idade. É claro, pois – ao completar 18 anos – o adolescente automaticamente se transforma em adulto e desenvolve repulsa por pintar ou escrever seu nome em paredes. Apenas o Governo Federal foi capaz de prever tal metamorfose.

O delírio em forma de lei também deixa implícita a ideia de que o menor, quando compra tinta em spray, teve seu destino traçado: sujar o muro alheio. Arte seria, então, uma manifestação de adultos, sempre responsáveis pelos seus atos. E as paredes são os únicos lugares para uso de tinta. Voltemos à tinta guache do universo infantil, que se dissolve em água, assim como esta lei natimorta.

A proibição da venda de tinta em spray representa ainda uma redundância jurídica. É o clássico desvio de foco. Como não se consegue coibir a pichação, já prevista como crime, apela-se para o ponto de venda e para o infrator, aqui em caráter abstrato. Nada como fingir interesse em resolver uma questão pública.

Acima de tudo, a legislação foi elaborada por quem tentou apagar a escrita da história. Num ato de ignorância, não importa o sentido da palavra, virou-se as costas para o passado.

A manifestação em paredes e muros é um ato político, de insatisfação social. Na Roma antiga, por exemplo, muros eram pintados para espinafrar, inclusive com palavrões, políticos e/ou representantes da elite, além de gente do próprio universo de quem desenhou as letras. Ao longo do século XX, pichar muros foi – em muitos momentos – a única forma de exercício da cidadania, quando os demais canais estavam fechados, quando as demais vozes estavam emudecidas.  Era a resposta direta para a censura, para a violência, para a indecência política.

Mas o Governo Federal compensou com uma ação bondosa. Para concluir o quadro, o grafite agora é permitido. Alterou-se a lei n.9605/98, que estabelece que “a prática do grafite realizada com o objetivo de valorizar o patrimônio público e privado mediante manifestação artística” é legal, se autorizada pelo proprietário do imóvel.

Desconfiava que o Governo Federal estava na vanguarda. Estava tão à frente que pisoteou o óbvio. Aposto que os grafiteiros esperavam ansiosos por esta medida. Viviam em paralisia criativa, esperando pela assinatura presidencial. Agora sim, poderão fazer arte em muros e paredes. Como se os grafiteiros precisassem da ingenuidade castradora do poder; logo ele, um dos alvos preferenciais de quem cria pela liberdade de pensamento.

quarta-feira, 1 de junho de 2011

A rua sem portões

Lembrada pela decoração natalina, a rua Roberto Sandall, na Ponta da Praia, não existe somente como local de passagem, com 200 metros de extensão. A rua remete a um período histórico discutido hoje como desejo, como algo que se perdeu com a mudança da cidade.

Dos 14 prédios que compõem a via, somente três têm portões. E ambos não foram instalados como filhos do medo paranóico da atualidade. Os dois edifícios instalaram seus portões no século passado, há pelo menos 15 anos, claro que por causa da segurança, mas dividida com a estética da época.  

Até os anos 50, a rua Roberto Sandall era uma chácara, que pertencia a um inglês de mesmo nome. Na verdade, Robert, aportuguesado quando virou nome de via pública. A rua ao lado se chama Inglaterra, também em homenagem ao dono do terreno.

Os primeiros edifícios foram erguidos na mesma década. São como dois irmãos, duas torres gêmeas, hoje figuras comuns diante dos espigões paridos pela expansão imobiliária. Timão e Âncora inauguraram a urbanização daquele território.

Morei por 25 anos na Roberto Sandall. Cheguei lá na noite de 15 de outubro de 1980. Lembro-me da data porque, aos seis anos, sabia que era o Dia do Professor. Logo, não tinha aula. Tempo em que os docentes não trabalharam no dia comemorativo (punitivo?).

A rua enfrentou mudanças – claro – nos últimos 30 anos. As duas lombadas, que transformaram a via em playground, foram retiradas para dar maior velocidade aos carros. A extinção das lombadas enterrou consigo as corridas de bicicletas com obstáculos, que atraia gente de todo o bairro. Matou também os Jogos Olímpicos do lugar e provocou adaptações nas partidas de futebol e de taco. Hoje, os dois esportes são ingredientes de memória por ali.

O que permaneceu, por mistério, foi a segurança. A rua conseguiu sobreviver à carceragem privada da classe média. Ao contrário das ruas e avenidas próximas, nenhum prédio necessitou de portões, grades e outros apetrechos tecnológicos para proteção.

A única alteração na paisagem foram os porteiros e demais funcionários, antes vinculados por décadas aos locais de trabalho. Moravam lá mesmo! Um deles viveu no mesmo prédio, como zelador, por quase 40 anos. Hoje, são homens de uniformes, mão-de-obra de empresas terceirizadas. As vantagens de uma legislação (exploração?) trabalhista deslocada no tempo e no espaço.

Coincidência ou não, as crianças, com suas bicicletas, skates e bolas, também desapareceram. As sobreviventes, aposto, cumprem prisão domiciliar, com direito a refeições, banheiros privativos e uso diário de videogame ou consumo de desenhos animados nos canais segmentados da TV a cabo. Ver o sol, durante a semana, apenas da janela, ainda assim por alguns minutos.

O comércio no térreo do edifício Itapoá, único da rua, sobrevive nas mãos do enésimo proprietário, hoje um salão de beleza (ou clínica de estética, no palavreado plastificado atual). Nos anos 80, a mercearia do seu Alírio juntava dezenas de crianças, que esperavam as balas e outros doces atirados pelo comerciante no dia de Cosme e Damião.

Depois, a vendinha – como muitos a chamavam - se firmou nas mãos do Neca, também organizador do time de futebol da rua, outro cadáver exterminado pela modernidade. Ou o time morreu pela não-renovação dos atletas, que se aposentaram aos poucos?

A rua Roberto Sandall perdeu parte de sua identidade. Atravessou a metamorfose prevista da urbanidade. Virou uma senhora caladona. O trânsito de pessoas encolheu na proporção da idade avançada de muitos moradores.

Se crianças e adolescentes sumiram, a rua segue na calmaria de quem aproveita o pôr-do-sol da vida. Neste sentido, a Roberto Sandall permanece como uma fatia de saudosismo do interior, lugar onde muitos se cumprimentam pelo nome, testemunharam o crescimento dos filhos dos vizinhos e hoje perguntam pelos netos.

A serenidade da velhinha só cai diante da outra personalidade, bem mais frenética e que renasce a cada mês de novembro, iluminada com lâmpadas coloridas e cheia de vitalidade. Excesso de vida, com o congestionamento de carros que para ver as luzes e entupir as garagens com a chegada da temporada de verão.