sexta-feira, 27 de maio de 2011

Os gurus


Nas duas vezes em que liguei a TV esta semana, eles estavam lá. Ambos se vestiam bem, falavam com clareza e não suavam, mesmo que estivessem no meio de uma tempestade. Aposto que estavam perfumados. Se a TV exalasse cheiro, o aroma ocuparia a sala toda.

Com falsa modéstia, diziam ao entrevistador que não se consideravam gurus. Minimizam o que garante a própria existência: o acúmulo de dinheiro. No espelho, se veem como sujeitos com boas ideias, dispostos a compartilhá-las com outras pessoas que buscam qualidade de vida. Ou seria sucesso? Mudança de personalidade? Motivá-las a protagonizar a própria vida? Torná-las proativas?

Os clichês se amontoam para compor as receitas que servem como efeito colateral de uma sociedade doente. Neste corpo enfermo, circulam imediatismo, fidelidade cega ao consumo, individualismo, culto à aparência e outros microorganismos semelhantes.

Em um olhar microscópico, os gurus se revelam ocos. Como os caixeiros viajantes do século 19, eles vendem receitas infalíveis para um público desesperado por respostas milagrosas. Oferecem elixires exóticos que funcionarão como placebo para males específicos.  

Os gurus do século 21 se fantasiam de profetas. A falsa sabedoria se esconde atrás de respostas passo a passo, impregnadas de superficialidade. Profetas respiram metáforas. Jamais indicam o caminho único.

Os gurus trocam o cajado e as roupas maltrapilhas por palco, microfone, terno e gravata, enquanto exigem fé incondicional. Sem ela, o fiel consumidor não chegará ao paraíso ou permanecerá paralisado no purgatório do mercado, esteja em igrejas ou em templos onde imperam reuniões, crachás e outros elementos, que se valorizam quando ganham nomes em inglês. mperam reunido de trabalhoados s de vidros filmados e, terno e gravata virar a p de superficialidade. , enquanto vendem livros

Os gurus também fingem agir como curandeiros para os males da vida profissional. Como pajés artificiais, prometem a virada de mesa na próxima esquina ou na semana que vem.

Pajés ou xamãs sabem que o processo de cura é lento e depende do interior do paciente. Pajés vêem com clareza a incerteza da cura. Às vezes, basta o conforto de reduzir a dor. A sabedoria destes homens reside na convicção de que o saber nunca é finito ou absorvido totalmente. O aprendizado é interminável e, acima de tudo, indeterminado. Os gurus da modernidade, ao contrário, transpiram convicção absoluta e conhecimento de causa, com respostas que se encaixam em todas as dúvidas.  

Os gurus são filhotes do espetáculo. Motivam para entreter. Divertem para motivar. Das palavras articuladas aos gestos calculados, caminham sobre o padrão, com controle cirúrgico sobre a fé alheia. Prometem a felicidade e a mudança de destino, embora conscientes de que virar a página depende do dono do livro, e não de quem o vendeu.

Por ironia, ao vê-los na TV, fiquei motivado. Pensei sobre eles. Enquanto escrevia, os gurus vendiam livros de auto-ajuda. As obras davam dicas para enriquecer, com a certeza de que ricos ficarão apenas os autores. Confesso que, por um instante, eles quase me convenceram com as pregações. Para me proteger, me agarrei ao meu próprio guru, o controle remoto.

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