quinta-feira, 26 de maio de 2011

O pecado das palavras

Demorei a perceber o quanto as palavras mantém relação profunda comigo. Escrever de maneira profissional pode nos conduzir à cegueira diante da sensibilidade. Isso implica ignorar a escrita como um trabalho artesanal. Lapidação, mesmo. Esculpir uma a uma, alterar sentidos, reformar um sinônimo, esconder intenções do leitor.

Idolatro palavras e, por isso, dependo delas enquanto as valorizo. Palavras têm peso, força e razão específica para sair da inércia. Elas não flertam com você por qualquer bobagem.

Não tenho o direito de jogá-las fora. Tento não desperdiçá-las. Se cometo ato falho, o arrependimento machuca, corrói como ácido na pele.  

É impossível expressar – sequer sentir – as mesmas emoções por todas as palavras. Existem preferidas e é honesto com todas reconhecer as diferenças entre elas. É como a relação entre pais e filhos. Oficialmente, os pais dizem amar a todos, mas os fatos desmentem o carinho.

Testemunho, inoperante, a morte de muitas palavras, que costumam ser gastas depois de momentos de glória, surradas como se não tivessem relevância ou impacto em quem as recebe. É da natureza do idioma, organismo vivo, fascinante pela multiplicidade de significados.

O mau uso das palavras gera, de certa maneira, um pecado contra este trabalho de ourives, quase sacro, de juntá-las, fundi-las em ouro puro, que sobrevive à metamorfose do texto, em múltiplos gêneros e modelos.


Reconheço que, às vezes, o pecado pode ser involuntário se praticado por um bem maior. Todos o fazemos e nos cabe aceitar ou conceder o perdão em busca de algo mais profundo: o entendimento do outro. Assim, poderíamos amenizar o principal mal que tortura as palavras: a indiferença alheia.

Cometo a petulância de construir uma classificação para os pecados que exercitamos com as palavras. A ordem pode e merece ser alterada, desde que jamais enterremos nossas escolhas. No fundo, a declaração de fidelidade a todas. Escrever é transgredir. Pecar é se libertar do eu reprimido, e as palavras são as chaves que abrem as algemas.

A vaidade, por exemplo, reside nos substantivos. Julgam-se únicos, independentes dos demais elementos de uma frase qualquer. Podem ser ocultos e, mesmo assim, não perdem o sentido do poder. Quando se desfaz a ilusão, percebem que – na realidade – são dependentes e, principalmente, viciados numa relação doentia com os verbos.

A ira se traduz, para mim, numa cruzada contra uma praga que contamina os textos escritos e orais. O gerúndio foi modificado ao ponto de ter a importância reduzida. O gerundismo, a versão esquizofrênica, machuca o idioma com crueldade, esvazia o lirismo e nos transforma em robôs que vomitam palavras. Ou vendem tranqueiras ao telefone.

A avareza se manifesta pelos adjetivos, recurso fácil (olha o uso dele aqui!) que eleva ou extermina todos os que se aproximam dele. Qualificar com uma palavra pode minimizar uma circunstância, um cenário, um personagem.

O adjetivo, se banalizado, é a muleta do achismo, que economiza sempre ao relegar argumentos e contextos a um plano coadjuvante (nada como outro adjetivo). Os qualificativos, aliás, também envolvem outro pecado, a preguiça, pela rapidez em que se encerra uma ideia ou pensamento.

A luxúria mora nos advérbios, de qualquer espécie. Eles são explorados sem limite, sem critério, sem respeito. Nós, produtores de texto ou de falas, os prostituímos (ou violentamos) quando exigimos funções e posições por qualquer pechincha. Erramos na aplicação sem dó, sem pensarmos que o desvio de cargo os mata na essência, os extermina como seres fundamentais na construção do que desejamos dizer.

A gula se perpetua na própria relação entre as palavras e nós, que nos alimentamos dela. No mundo de hoje, nos enfastiamos de verbos, substantivos, adjetivos e outros ingredientes. Engolimos o cardápio e não o digerimos. Vomitamos como matracas que desprezam o que é dito ou escrito. Pelos outros, claro. Falamos demais. Ouvimos de menos. Passamos mal sempre, elaboramos desculpas pelo mal-estar e repetimos a dose, embriagados com as palavras que bebemos.


O melhor dos pecados, óbvio, encerra a lista. A inveja é minha! Nenhum dos pecados anteriores sobrevive ou resiste ao verbo. É o pai de todos. O verbo é a palavra com fúria. Se no início era o verbo, ele ganha corpo e assegura o recheio, além de arrematar o desfecho com virilidade.

O verbo alimenta a vaidade do substantivo. Pode dispensar advérbios. Impõe o regime para o monte de gordura que injetamos no texto. Reduz os adjetivos à insignificância da superficialidade. E, mesmo vestido de gerúndio, não perde a pose na condução do raciocínio.

Cometo todos os pecados com soberba. E não pago penitência. Até porque todos os textos não padecem do orgulho dos que crêem na imortalidade. Os autores caem de joelhos. As palavras, conscientes da própria finitude, nasceram para ceder lugar a outras, no momento em que cumprem seu traçado: a reescrita.

Todos os textos são destinados à nova escrita, à morte e ao renascimento da nova união de palavras. Inclusive este! 

4 comentários:

Cruz disse...

Caro Professor, acabo de ler este texto, e de cara já lastimei por não o ter lido antes. Lembrei da minha mãe. Ela era uma devoradora de livros, revistas, jornais, enfim, tudo que continha letras e palavras ela devorava com um apetite incontrolável. E só estudou até o 4º ano primário! Para nos incentivar a ler ela fazia toda a semana, aos sábados,uma sopa com macarrão de letrinhas que era tão gostosa que eu e meus irmãos adorávamos. Mas, havia um ritual. Primeiro, degustávamos todo o caldo, e depois ela colocava sobre a mesa um punhado de balas e um tablete de chocolate chamado Bolero (que nem existe mais!), e falava: quem juntar letras e formar uma palavra ganha uma bala, e quem formar mais palavras ganha o bolero. E assim, eu li meu primeiro texto "A raposa e as uvas" aos 06 anos de idade na Cartilha Sodré que era do meu irmão que estava no 1º ano do curso primário. O eterno aluno.

Marcus Vinicius Batista disse...

Antônio, que belíssima história. O mais importante, contudo, são as experiências com os mais velhos, que nos marcam como brasa. Todos deveríamos compartilhar uma história assim, principalmente quando estamos em sala de aula. Grande abraço, meu amigo!!!

Beth Soares disse...

Também idolatro as palavras. Talvez por isso me emocionei tanto ao ler este texto, um dos mais belos que vc já escreveu. Infelizmente, justo agora, as palavras me faltam para expressar o quanto este texto foi importante para mim. Obrigada. Te admiro cada vez mais.

Guilherme Alves disse...

Final de expediente, pego-me lendo este maravilhoso texto.
Completou esta sexta-feira pacata de trabalho com um turbilhão de letras e suas combinações.
Agradeço por ler seus escritos. (isso mesmo,agradeço)
Cada texto é um aprendizado.
Aprendizado com gostos diferentes, do alívio à angústia.
Só um semestre como seu aluno,cursando Publicidade e Propaganda e te admiro.Muito.

Novamente,obrigado Marcão.