sexta-feira, 13 de maio de 2011

A doença do nariz vermelho


O medo não era compatível com o ambiente. Ela paralisava em lugares onde a alegria deve ser o sentimento cartão de visita. Sorria forçado, inventava histórias, arranjava um jeito de ir embora para casa mais cedo. Às vezes, ir para casa elevava o grau de tortura. Aumentava o pânico porque ela pensava nele. Construía a imagem dele pelos movimentos, roupas, frases de efeito, reação da plateia.

Maria é o nome fictício da paciente. Merece que a identidade seja preservada por temer a exclusão social e o preconceito, principalmente da família e dos amigos. Seria o medo ao quadrado, de quem detesta a solidão por temer alguém que a maioria adora, ou pelo menos se diverte com ele.

Depois de seis meses de terapia às escondidas, Maria se convenceu de que o medo dele nascera na infância. As mãos suavam a cada festinha de primos e amigos de escola. As pernas tremiam. O desmaio viria antes dos parabéns. Lembra-se de chorar e ouvir da mãe:

 — Isso é frescura! Pode voltar para a roda com seus colegas! O que eles vão pensar de você?

Maria acreditava, pelas gargalhadas, que todos estavam entretidos demais para prestar atenção nela. Para evitar contato visual com o problema, antecipava-se nas desculpas para faltar nas festas. Um dia, a dor de cabeça. No mês seguinte, uma dor de barriga no dia do aniversário da prima e melhor amiga. Preferia a vergonha a se borrar de medo, o que poderia acontecer se estivesse lá.

Descoberta a causa, restava entender a evolução da doença. Ela entendia assim, uma enfermidade, ainda que o terapeuta negasse a patologia. Estar doente significava o modo de entender que o medo residia em um endereço além do seu alcance, incontrolável para sua vitalidade.

A adolescência confirmava o quadro de anormalidade, na cabeça dela. Paulo, o namorado, idolatrava filmes de terror, mesmo com a decadência do gênero em plenos anos 90. Ela achava bobagem de gente imatura, mas tolerava a matança para segurar o sujeito. A contrapartida eram as comédias românticas, que ele fazia questão de chamar de filmes mela-cueca.

Maria suportava machadadas, pescoços cortados, tiroteios, facadas, cadáveres de toda ordem. Até a série de documentários Faces da Morte ela assistiu (e reviu) sem reclamar. O namoro entrou em crise (e terminou) quando a convidou para ver o novo filme de terror da locadora, mais uma fita B baseada em obra de Stephen King. 


O assassino vinha do além e executava crianças, dizia a sinopse da caixa. Nada seria mais clichê. O terror se materializou quando o assassino apareceu na tela. A fantasia era idêntica àquelas que a horrorizavam na infância, em gênero, número de sapatos e grau de violência do riso.

Não conseguiu se explicar para o namorado. Mais um episódio para o arquivo das esquisitices dela. Paulo não compreendia porque Maria não entrava na mais famosa rede de fast-food. O homem na porta, simpático e imóvel, a impedia de comer o sanduíche, o pacote de batatas fritas e tomar um refrigerante. Só se comesse na rua. O namorado creditava a resistência ao regime constante, que acompanham as mulheres como uma relação umbilical.

O namorado brincava que ela não teve infância por desconhecer certas lembranças da programação infantil de TV. Vovó Mafalda, Papai Papudo, quem eram estes? Ela aturava as palhaçadas de Paulo. Mas preferiu acabar o namoro a se explicar. Saiu correndo da casa dele naquele dia e terminou pelo telefone. Melhor a fama de má do que viver o medo.

Agora, na fronteira dos 30 anos, precisava resolver o problema. Discordava do terapeuta. Estava doente. Nada duraria tanto tempo, com tanta profundidade. Nem aquele monstro de sorriso aberto e kit de tortura que terceirizava risadas. 


Maria foi para a Internet. Ali, achou o caminho. Não a cura, mas a saída para confrontar a fobia e seu agressor desconhecido. No Orkut, viu que não estava sozinha. Uma comunidade com 300 membros a esperava para compartilhar experiências, realimentar o medo, crucificar o mal em forma de roupas coloridas.

Maria adorou a palavra, que resumia parte de sua vida: coulrofobia. O medo de palhaço virou camiseta, tema de blog, campanha de conscientização. O desejo, agora, é criar um comando de caça aos narizes vermelhos. Maria seria a mentora intelectual. O argumento de que os palhaços – palavra que se recusa a pronunciar – são tristes por trás do sorriso espontâneo não alterou os planos de extermínio.

Gargalhou pela primeira vez, com as fantasias homicidas. Nunca mais voltou ao terapeuta. Nunca mais foi às festas infantis. Chegar perto de um deles, jamais!   

Obs.: Este texto foi publicado, originalmente, no site Jornalirismo

Um comentário:

tenshilivis disse...

eu ñ chego a ter medo mas q eu num gosto, eu num gosto!