segunda-feira, 30 de maio de 2011

A confiança como dogma

 
Sempre me julguei um sujeito desconfiado, fruto da construção do jornalista que se deu em mim. Percebi que estava, em parte, errado. Desconsiderei – como o espeto de pau na casa do ferreiro – que o paradoxo habita qualquer pessoa e, é por ele, que nos tornamos interessantes, profundos e que devemos correr da vida com seus sentimentos lineares.

A estrada faz a viagem mais aventureira quando tortuosa. O caminho das pedras, quando reto, produz imagem padrão, que aborrece e me deixa sonolento. Pensar com um pouco mais de clareza e serenidade derrubou a fragilidade do argumento absoluto. Plantou dúvidas. Contaminou-me com incertezas.

Aprender a refletir sobre si é tão assustador quanto libertador, como a clareira que se abre depois de horas na mata fechada. Permaneço desconfiado, mas diante daqueles que ocupam o poder. Este ensinamento jornalístico calcificou como ferida curada, como marcas na jornada da contradição.

A quebra de outros eixos supostamente dogmáticos me fez avaliar o quanto a confiança pode ser a chave para algemas que paralisam e repulsam  relacionamentos e novas experiências. Confiar no outro implica se expor pelas janelas das emoções, entender que relações humanas representam um darwinismo sentimental, no qual prevalece a capacidade de adaptação ao outro para evolução e sobrevivência de ambos como um só espécime.

Compreendi que exercitava a confiança sem notar a prática por ela mesma. Segurei-me na teoria como saída sem sentir como estava obsoleta. A confiança nasce e se multiplica como ponto natural quando outra pessoa se refaz a cada encontro pela afetividade. Gostar do outro é, definitivamente, confiar nele. E gostar dele não é idolatrá-lo.

Acreditar em alguém não implica em vê-lo como um dogma. Crer numa pessoa jamais pode significar segui-la sem reflexão, sem um olhar cuidadoso. Nunca confio às cegas. Ou passei a lutar contra isso, ainda que de vez em quando caia no auto-engano.

Também não me vanglorio de confiar desconfiando. O outro é passível de erros, falhas, deslizes voluntários ou não. Se o entendermos por esse caminho, se torna menos doloroso o contato com aqueles que se agarram em princípios como valores inquestionáveis.

Os adeptos de códigos rígidos de conduta não costumam enxergar os motivos para as regras estabelecidas. Apenas as cumprem, num processo de esquecimento que apaga o porquê da criação delas. As regras também ganham o status de dogmas. “Sempre fui assim.” “Sou assim com todas as pessoas.” As desculpas freqüentes para a rigidez habitam os outros até porque podem machucar na frente do espelho.

Confiar em alguém resulta em flexibilizar normas, enterrar valores secundários, simplesmente perdoar para continuar. A ausência de perdão indica o quanto quem confia, na verdade, sempre desconfia.

A eterna desconfiança, na afetividade, aponta o que podem ser os sintomas mais melancólicos que cicatrizaram no homem-linear. O primeiro resulta na dificuldade de enxergar quem anda ao lado. A linearidade da resposta única, a tal desconfiança, gera a cegueira que o impede de compartilhar o essencial com outra pessoa, de construir sonhos e desejos em comum.

A desconfiança eterna também conduz a um beco sem saída: a necessidade quase obsessiva de ler alguém como se fosse (ou como devesse ser) a imagem e semelhança de si mesmo. Não há reações distintas. Não podem brotar diferenças. Não podem existir respostas múltiplas para uma única questão.  

Precisei reconhecer e confessar minhas próprias contradições para visualizar e injetar em mim a ideia de que confiança e desconfiança pertencem à mesma mãe. E que nasceram juntas, em tempo único. Confiar e desconfiar, numa dança em que este dois parceiros se revezam sem interrupções, é valorizar o que há de melhor no outro e ter consciência de que ele pode me modificar. 

A mudança é inevitável. A metamorfose fica mais saudável se eu a percebo durante a transição, interminável, contínua e dependente de outros, além dos meus princípios e valores que, se não tomar precauções, me paralisam e me cegam diante do novo, diante do horizonte inédito a cada encontro. 

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Os gurus


Nas duas vezes em que liguei a TV esta semana, eles estavam lá. Ambos se vestiam bem, falavam com clareza e não suavam, mesmo que estivessem no meio de uma tempestade. Aposto que estavam perfumados. Se a TV exalasse cheiro, o aroma ocuparia a sala toda.

Com falsa modéstia, diziam ao entrevistador que não se consideravam gurus. Minimizam o que garante a própria existência: o acúmulo de dinheiro. No espelho, se veem como sujeitos com boas ideias, dispostos a compartilhá-las com outras pessoas que buscam qualidade de vida. Ou seria sucesso? Mudança de personalidade? Motivá-las a protagonizar a própria vida? Torná-las proativas?

Os clichês se amontoam para compor as receitas que servem como efeito colateral de uma sociedade doente. Neste corpo enfermo, circulam imediatismo, fidelidade cega ao consumo, individualismo, culto à aparência e outros microorganismos semelhantes.

Em um olhar microscópico, os gurus se revelam ocos. Como os caixeiros viajantes do século 19, eles vendem receitas infalíveis para um público desesperado por respostas milagrosas. Oferecem elixires exóticos que funcionarão como placebo para males específicos.  

Os gurus do século 21 se fantasiam de profetas. A falsa sabedoria se esconde atrás de respostas passo a passo, impregnadas de superficialidade. Profetas respiram metáforas. Jamais indicam o caminho único.

Os gurus trocam o cajado e as roupas maltrapilhas por palco, microfone, terno e gravata, enquanto exigem fé incondicional. Sem ela, o fiel consumidor não chegará ao paraíso ou permanecerá paralisado no purgatório do mercado, esteja em igrejas ou em templos onde imperam reuniões, crachás e outros elementos, que se valorizam quando ganham nomes em inglês. mperam reunido de trabalhoados s de vidros filmados e, terno e gravata virar a p de superficialidade. , enquanto vendem livros

Os gurus também fingem agir como curandeiros para os males da vida profissional. Como pajés artificiais, prometem a virada de mesa na próxima esquina ou na semana que vem.

Pajés ou xamãs sabem que o processo de cura é lento e depende do interior do paciente. Pajés vêem com clareza a incerteza da cura. Às vezes, basta o conforto de reduzir a dor. A sabedoria destes homens reside na convicção de que o saber nunca é finito ou absorvido totalmente. O aprendizado é interminável e, acima de tudo, indeterminado. Os gurus da modernidade, ao contrário, transpiram convicção absoluta e conhecimento de causa, com respostas que se encaixam em todas as dúvidas.  

Os gurus são filhotes do espetáculo. Motivam para entreter. Divertem para motivar. Das palavras articuladas aos gestos calculados, caminham sobre o padrão, com controle cirúrgico sobre a fé alheia. Prometem a felicidade e a mudança de destino, embora conscientes de que virar a página depende do dono do livro, e não de quem o vendeu.

Por ironia, ao vê-los na TV, fiquei motivado. Pensei sobre eles. Enquanto escrevia, os gurus vendiam livros de auto-ajuda. As obras davam dicas para enriquecer, com a certeza de que ricos ficarão apenas os autores. Confesso que, por um instante, eles quase me convenceram com as pregações. Para me proteger, me agarrei ao meu próprio guru, o controle remoto.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

O pecado das palavras

Demorei a perceber o quanto as palavras mantém relação profunda comigo. Escrever de maneira profissional pode nos conduzir à cegueira diante da sensibilidade. Isso implica ignorar a escrita como um trabalho artesanal. Lapidação, mesmo. Esculpir uma a uma, alterar sentidos, reformar um sinônimo, esconder intenções do leitor.

Idolatro palavras e, por isso, dependo delas enquanto as valorizo. Palavras têm peso, força e razão específica para sair da inércia. Elas não flertam com você por qualquer bobagem.

Não tenho o direito de jogá-las fora. Tento não desperdiçá-las. Se cometo ato falho, o arrependimento machuca, corrói como ácido na pele.  

É impossível expressar – sequer sentir – as mesmas emoções por todas as palavras. Existem preferidas e é honesto com todas reconhecer as diferenças entre elas. É como a relação entre pais e filhos. Oficialmente, os pais dizem amar a todos, mas os fatos desmentem o carinho.

Testemunho, inoperante, a morte de muitas palavras, que costumam ser gastas depois de momentos de glória, surradas como se não tivessem relevância ou impacto em quem as recebe. É da natureza do idioma, organismo vivo, fascinante pela multiplicidade de significados.

O mau uso das palavras gera, de certa maneira, um pecado contra este trabalho de ourives, quase sacro, de juntá-las, fundi-las em ouro puro, que sobrevive à metamorfose do texto, em múltiplos gêneros e modelos.


Reconheço que, às vezes, o pecado pode ser involuntário se praticado por um bem maior. Todos o fazemos e nos cabe aceitar ou conceder o perdão em busca de algo mais profundo: o entendimento do outro. Assim, poderíamos amenizar o principal mal que tortura as palavras: a indiferença alheia.

Cometo a petulância de construir uma classificação para os pecados que exercitamos com as palavras. A ordem pode e merece ser alterada, desde que jamais enterremos nossas escolhas. No fundo, a declaração de fidelidade a todas. Escrever é transgredir. Pecar é se libertar do eu reprimido, e as palavras são as chaves que abrem as algemas.

A vaidade, por exemplo, reside nos substantivos. Julgam-se únicos, independentes dos demais elementos de uma frase qualquer. Podem ser ocultos e, mesmo assim, não perdem o sentido do poder. Quando se desfaz a ilusão, percebem que – na realidade – são dependentes e, principalmente, viciados numa relação doentia com os verbos.

A ira se traduz, para mim, numa cruzada contra uma praga que contamina os textos escritos e orais. O gerúndio foi modificado ao ponto de ter a importância reduzida. O gerundismo, a versão esquizofrênica, machuca o idioma com crueldade, esvazia o lirismo e nos transforma em robôs que vomitam palavras. Ou vendem tranqueiras ao telefone.

A avareza se manifesta pelos adjetivos, recurso fácil (olha o uso dele aqui!) que eleva ou extermina todos os que se aproximam dele. Qualificar com uma palavra pode minimizar uma circunstância, um cenário, um personagem.

O adjetivo, se banalizado, é a muleta do achismo, que economiza sempre ao relegar argumentos e contextos a um plano coadjuvante (nada como outro adjetivo). Os qualificativos, aliás, também envolvem outro pecado, a preguiça, pela rapidez em que se encerra uma ideia ou pensamento.

A luxúria mora nos advérbios, de qualquer espécie. Eles são explorados sem limite, sem critério, sem respeito. Nós, produtores de texto ou de falas, os prostituímos (ou violentamos) quando exigimos funções e posições por qualquer pechincha. Erramos na aplicação sem dó, sem pensarmos que o desvio de cargo os mata na essência, os extermina como seres fundamentais na construção do que desejamos dizer.

A gula se perpetua na própria relação entre as palavras e nós, que nos alimentamos dela. No mundo de hoje, nos enfastiamos de verbos, substantivos, adjetivos e outros ingredientes. Engolimos o cardápio e não o digerimos. Vomitamos como matracas que desprezam o que é dito ou escrito. Pelos outros, claro. Falamos demais. Ouvimos de menos. Passamos mal sempre, elaboramos desculpas pelo mal-estar e repetimos a dose, embriagados com as palavras que bebemos.


O melhor dos pecados, óbvio, encerra a lista. A inveja é minha! Nenhum dos pecados anteriores sobrevive ou resiste ao verbo. É o pai de todos. O verbo é a palavra com fúria. Se no início era o verbo, ele ganha corpo e assegura o recheio, além de arrematar o desfecho com virilidade.

O verbo alimenta a vaidade do substantivo. Pode dispensar advérbios. Impõe o regime para o monte de gordura que injetamos no texto. Reduz os adjetivos à insignificância da superficialidade. E, mesmo vestido de gerúndio, não perde a pose na condução do raciocínio.

Cometo todos os pecados com soberba. E não pago penitência. Até porque todos os textos não padecem do orgulho dos que crêem na imortalidade. Os autores caem de joelhos. As palavras, conscientes da própria finitude, nasceram para ceder lugar a outras, no momento em que cumprem seu traçado: a reescrita.

Todos os textos são destinados à nova escrita, à morte e ao renascimento da nova união de palavras. Inclusive este! 

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Bem-vindo à selva


Ressuscitei como ciclista há seis meses, depois de uma hibernação que durou 18 anos. Durante quase o tempo, era um urso de quatro rodas, como dono ou como carona. Com a bicicleta, as pernas foram as primeiras partes do corpo a recuperar os movimentos. 

Antes, os exercícios mecânicos se limitavam ao balanço dos pés nos três pedais e ao exaustivo molejo do punho direito na troca de marchas, enquanto o braço esquerdo seguia paralisado ao volante.

Imaginava que o principal problema seria montar o novo (velho) animal. Mas a sabedoria do ditado popular pulverizou minha dúvida em cinco segundos – e uma pedalada embriagada – no estacionamento da loja esportiva. Andar de bicicleta, você nunca desaprende. Se perdeu o jeito, peça ajuda ao profissional mais próximo porque o tempo das rodinhas passou para você.

Caso caísse na primeira tentativa, o horário noturno, de dia útil, me salvaria do vexame. Como a loja estava quase fechada, a platéia seria de duas testemunhas, ambas sem chance de postar a vergonha em redes sociais. Seria o dito pelo duvidoso.


As boas-vindas ou o batismo na selva aconteceram no primeiro dia de ciclovia. Percebi que precisava enxergar diferente minha nova relação com o sistema de transporte. Não tinha mais quatro rodas. Era um ciborg de duas com aro 26, mais o motor de duas pernas – que não davam um cavalo – de potência.

A perspectiva mudou, mas a selva permanecia preservada. Intacta. Rapidamente entendi que nem os roteiristas de videogame seriam tão imaginativos assim. A ciclovia representava a versão sem cortes de um jogo. As diferenças entre o virtual e o real residiam na ausência de bônus por avançar de fase, de vidas extras e na impossibilidade de ganhar pontos com a eliminação dos adversários. Todos valeriam a mesma pontuação, sejam velhinhas, crianças ou outros ciclistas: de 12 a 30 anos de cadeia.

A ciclovia, de fato, reproduzia a genética das vias ao lado dela. Motoristas de ônibus não respeitam motoristas de carros, que odeiam motociclistas, que desprezam ciclistas, que ignoram pedestres. Todos culpam a todos e se sentam no confortável banco das vítimas para se eximir de responsabilidades ou eventuais falhas.


Mais do que pedalar contra o vento, em dia de frio, embaixo de chuva, ser ciclista é compreender que não nasceu para o trânsito. Pedalar é ser uma aberração no tráfego, pela mentalidade atual. Uma mancha na pintura, sem chance de integração e contaminado pelos mesmos erros daqueles que tanto critica ou quando simplesmente se lembra da mãe deles.

Em Santos, cidade onde moro, andar de bicicleta significa percorrer ciclovias que te levam de lugar algum para um ponto desconhecido. A ciclovia te arremessa, inevitavelmente, no tráfego. Estas vias, tão imperfeitas como remendadas, não levam os ciclistas ao local de trabalho. Começam numa parte do caminho e terminam no caminho incompleto.

Andar de bicicleta é uma aula de antropologia urbana a céu aberto. Permite conhecer tipos desconhecidos por quem era motorista. Como outra espécie da fauna, os motoristas costumam acreditar que ciclistas são como a velha piada dos japoneses: todos iguais para atrapalhar a vida alheia.


Pedalando, você encontra o piloto, aquele que confunde ciclovia com pista de corrida. Ele vive com pressa pelo prazer de ultrapassar os concorrentes de olho no pódio imaginário.

O ciclista comum – rótulo em que me enquadro, sem falsa modéstia – convive também com a tartaruga, o colega que desfila em sua velha bicicleta, sem a menor chance de vencer a lebre numa fábula de vida real. Ele adora aparecer nos horários de pico, para irritar quem vai ou volta do trabalho.

Mas o maior oponente não pedala nem corre. Aqui aflora o corporativismo da bancada da bicicleta. O adversário é o pedestre, que ignora a sinalização e atravessa a ciclovia na fé cega de que o ciclista vai brecar. Apenas se esquece que, hoje, o cotidiano do trânsito sobrevive além da pureza das campanhas que defendem a cortesia.

Infelizmente, freios em bicicletas costumam ser acessórios do passado. O freio tende a ser orgânico, ambientalmente incorreto, protegido por tênis ou chinelo de dedo. 

Os pedestres que passeiam como cachorros representam uma mutação genética da espécie. Diante deles, os ciclistas duvidam, por dois segundos, se não poderiam pontuar no videogame, antes de lembrarem que – na teoria – são civilizados.

Os pedestres também atravessam a via sob crença transcendental de que alguém no além os protegerá, mas entregam a própria mentira pela atitude inconsciente. No fundo, sabem do risco, até porque colocam o coitado do cachorro na frente na ciclovia, jamais ao lado. Arriscar o pescoço do outro remete aos freios duvidosos. Ciclista que se preze não atinge aqueles que mal sabem onde estão.


A selvageria do trânsito, com as buzinas, gritos e palavrões patológicos, me fazia temer os pedestres quando pedalo. E evitar os motoristas pelos mesmos sintomas. Mas o sintoma de rejeição ao pedestre sumiu recentemente.  A medicação consiste em andar a pé. O problema é que, ao apanhar a bicicleta, o antídoto renasce como veneno, na versão moderna do médico e o monstro. O pedestre volta a ser o alvo do videogame doentio e contraditório.


Nas várias personalidades que ocupam o mesmo corpo, minha única certeza é que ser ciclista reorganiza os pensamentos e me apresenta novamente para a cidade onde moro. Como dificuldade maior, a barriga obesa, alvo original da compra da bicicleta, que não desapareceu. A culpada deve ser a magrela. 


terça-feira, 17 de maio de 2011

As lições do Santos

O Santos é o melhor time de todos os tempos da última semana, parafraseando Os Titãs. Com o perdão do exagero, o clube monopoliza a atenção de quem gosta de futebol, principalmente pelo equilíbrio que sustenta a harmonia entre defesa, meio-campo e ataque. Apenas o Cruzeiro – talvez - consiga desempenho semelhante no momento, no país.  
O Santos não é uma equipe imbatível tampouco próxima daquela que demolia adversários no primeiro semestre de 2010. Mas o time de hoje tem algo a ensinar aos colegas grandes de São Paulo.
Gostaria de me concentrar em dois ensinamentos e partir das duas finais contra o Corinthians. O Santos atuou, nos dois jogos, três jogadores formados no próprio clube. O goleiro Rafael e o atacante Neymar mais o meia Alan Patrick jogaram no último domingo. Na primeira partida, havia Ganso.
O Corinthians teve dois atletas: o goleiro Julio Cesar e o atacante Dentinho, de saída do clube. O goleiro será o último dos moicanos a atuar com regularidade no Campeonato Brasileiro.
As finais apenas indicam o que ocorre com os grandes de São Paulo há dois anos, no mínimo. Enquanto o Santos mantém uma fábrica de jogadores, os adversários investem sucessivamente em medalhões ou em jogadores de segunda linha. Às vezes, acertam a mão como se colassem a lista de reforços a um bilhete de loteria.
O Corinthians, por exemplo, não tem – entre titulares e reservas – atletas que foram campeões da Copa São Paulo em 2009. Jogadores como Boquita e Dodô foram pouco utilizados e logo emprestados. O Palmeiras se notabilizou por formar goleiros. Nas demais posições, o clube estagnou. Vive de contratações de custo baixo ou reata relacionamentos com ídolos que não tiveram sucesso no exterior. Valdívia e Kléber?
O São Paulo abusa da bipolaridade na formação do time. Começa a temporada com a apresentação de vários reforços, muitos enxergando o auge da carreira pelo retrovisor. Ao longo do ano, começa a dispensá-los e colocar jovens sem a fase de maturação. Entre os dispensados, Marcelinho Paraíba e Cleber Santana. Fernandão mal joga. Rivaldo fez 12 partidas e marcou apenas uma vez. Ambos terão vida longa no clube?
Lucas e Casemiro são exceções. Os demais jovens acabam emprestados sem uma sequência de jogos. Quando entram, é para encarar a má fase do clube.
Enquanto isso, o Santos consegue manter um banco de reservas recheados de promessas em todos os setores da equipe. Há zagueiros como Vinicius, laterais como Alexsandro, meias como Felipe Anderson, todos entrando com cautela no time principal. Isso sem falar nos que se foram, de Andre, que chegou à seleção, à Breitner, em Santa Catarina.
Outra lição que o Santos aparentemente aprendeu é não desfigurar um time durante um campeonato. É claro que o time – diante de uma série de fatores, que transitam da fragilidade econômica do país à ganância particular – poderá ser desmontado em um mês. Até agora, perdeu apenas coadjuvantes como Zé Eduardo e Maikon Leite, que podem ser substituídos por gente da casa ou revelações do interior. Os dois se encaixam nesta segunda condição.
O Corinthians pagou o preço do comportamento oposto. Durante os cinco primeiros meses do ano, negociou Roberto Carlos e Jucilei, além de assistir à aposentadoria de Ronaldo. As peças não foram repostas à altura, com exceção da chegada de Liédson. Gastou uma fortuna em Adriano, que só poderá jogar no segundo semestre. Estaria em forma e concentrado caso não se machucasse?  
O clube também se desfez de Bruno Cesar e Dentinho, ambos titulares, apesar das oscilações. Elias e Christian também foram embora no meio do caminho. Ralf, Paulinho e Ramirez não apagaram os antecessores da memória coletiva.
A colheita de uma geração de jogadores nos campos da Vila Belmiro não é exclusividade desta gestão. É a fusão das duas administrações, que se reflete na conquista de vários títulos nas categorias de base na última década. O problema é que o clube fatiou inúmeros jogadores com empresários, o que sempre compromete as finanças. O último caso problemática envolveu Jean Chera, do sub-17. É uma jogada de risco que o clube parece disposto a aplicar.
O Corinthians dá sinais de que pretende se mexer e modificar a relação entre o time profissional e as equipes de formação de atletas. A contratação do técnico Narciso, co-responsável por avanços do Santos na área, é um sinal de que a luz amarela incomoda os dirigentes corintianos.
Se o quadro não mudar logo, o Santos continuará desfilando com Neymars, Robinhos, Gansos e Diegos, enquanto os adversários torram dinheiro em profissionais próximos da linha de chegada. Não será preciso consultar cartas ou videntes para adivinhar em qual endereço as taças vão se concentrar nas próximas temporadas.

domingo, 15 de maio de 2011

As ilusões regionais

Os campeonatos regionais se tornaram obsoletos de vez. Estes torneios, vivos somente por tradição e política, tinham como maior objetivo preparar os times grandes para as competições mais importantes do ano. Servem hoje como uma neblina, que mascara as deficiências destas equipes.

O principal sintoma da fragilidade dos 12 clubes de maior peso são as sucessivas eliminações em torneios dentro e fora do Brasil, para adversários de porte médio ou de países de força menor no continente. Nesta lógica invertida, figurantes e coadjuvantes derrubam os protagonistas antes da metade do filme e reescrevem roteiros que perdem a previsibilidade do valor comercial.


Ganhar de clubes pequenos do interior continua a assegurar a obviedade dos gigantes nas finais dos estaduais. Só que a obrigação hoje virou façanha. O desequilíbrio da ordem natural transparece, por exemplo, na escassez de goleadas nestas competições. São, muitas vezes, vitórias magras, inclusive dentro de casa.

Os casos, quando se sucedem, indicam um padrão e, principalmente, alertam para um problema que se instala e tende a se aprofundar. O Atlético-MG foi eliminado pelo Grêmio Prudente, clube rebaixado no Campeonato Paulista. O rival Cruzeiro caiu, dentro de Minas, para o colombiano Once Caldas, que dá trabalho ao Santos na fase seguinte da Copa Libertadores. Um campeonato de Libertadores não significa passaporte para o panteão dos tradicionais.

O principal torneio das Américas, por sinal, serve como parâmetro para as dificuldades que os times grandes brasileiros colhem. A temporada começou com o Corinthians, despachado pelo Tolima, pequena equipe da Colômbia.

Os demais clubes, com exceção do Cruzeiro, sangraram para se classificar. Fluminense e Santos passaram na última rodada depois de recuperação. O Santos, hoje o melhor time do país, teve que vencer três partidas seguidas, duas por placar apertado. Vencer por pouco é prática recorrente também no torneio estadual, diferente da rotina de goleadas do ano passado. 


Na etapa seguinte, quatro eliminações, todas para adversários de história recente. A exceção foi o próprio Santos, adaptado à política Muricy Ramalho, que economiza nos gols, mas equilibra as finanças com uma defesa sólida, a mesma turma classificada dois meses antes como instável.

Na Copa do Brasil, sobrou o Vasco da Gama entre os quatro melhores, mesmo time que fez uma Taça Guanabara digna de rodapé na biografia. O Palmeiras saiu com honras após se tornar sparring no treino do Coritiba, no Paraná. Flamengo e São Paulo apanharam de equipes médias, coadjuvantes de primeira divisão do Campeonato Brasileiro.

Esta seqüência de fatos aponta para uma necessidade de reformulação dos torneios estaduais, que escondem a falta de planejamento administrativo dos próprios clubes. Os cartolas se aproveitam dos adversários de menor expressão para queimar revelações, anunciar a aquisição de jogadores em baixa na carreira (ou no final dela) e vender atletas razoáveis para mercados de segunda linha. Times são montados e demolidos duas, três vezes ao ano.

O argumento de que os estaduais funcionam como preparação para outros cenários também não se sustenta mais. O que se testemunha são o excesso de partidas, a maioria irrelevantes, que levam os melhores times (e os melhores atletas) à fadiga muscular, quando não acontecem contusões em efeito dominó. 


O Santos, por exemplo, encara duas decisões por semana sem elenco para tal maratona. A recompensa pelo desempenho se transformou em sofrimento. O clube se supera a cada três dias, quando o tempo para treino é substituído por horas nas salas de embarque e desembarque de aeroportos.

Não houve equipe B para jogar o estadual. É preciso exigir performance no limite, em frequência robótica, de jovens ainda em desenvolvimento e de veteranos em fase de preservação.

Não defendo a morte dos campeonatos estaduais, que devem permanecer para a salvação de clubes menores, escravos – em boa parte dos casos – deste tipo de torneio. É a sobrevida para o restante do ano.
           
Mas a fórmula implora por reparos, por essência na duração. Quatro meses são uma eternidade para as equipes de ponta, clientes cativos das decisões. Por que os grandes, pelo histórico, não entram posteriormente, em momentos decisivos? Renda em estádio é negócio secundário, no sistema no qual a TV dá as cartas.

Por que as federações não reduzem o número de partidas e, em acordo com a CBF, encaixam os times da primeira divisão dos Estados em divisões menores do Campeonato Brasileiro?

O torneio nacional começa na próxima semana. Será equilibrado como sempre, com pelo menos 10 clubes na disputa pelo título. A ingenuidade levará muitos à crença de que ainda temos o melhor futebol do planeta porque a competição por aqui é diferente das principais da Europa, nas mãos de dois ou três times de cada país.

A cortina de fumaça distorce a visão e a fé. O Campeonato Brasileiro será competitivo, mas, pelo que se viu em quatro meses, repetirá o baixo nível dos últimos anos, com as exceções individuais de sempre. 

sexta-feira, 13 de maio de 2011

A doença do nariz vermelho


O medo não era compatível com o ambiente. Ela paralisava em lugares onde a alegria deve ser o sentimento cartão de visita. Sorria forçado, inventava histórias, arranjava um jeito de ir embora para casa mais cedo. Às vezes, ir para casa elevava o grau de tortura. Aumentava o pânico porque ela pensava nele. Construía a imagem dele pelos movimentos, roupas, frases de efeito, reação da plateia.

Maria é o nome fictício da paciente. Merece que a identidade seja preservada por temer a exclusão social e o preconceito, principalmente da família e dos amigos. Seria o medo ao quadrado, de quem detesta a solidão por temer alguém que a maioria adora, ou pelo menos se diverte com ele.

Depois de seis meses de terapia às escondidas, Maria se convenceu de que o medo dele nascera na infância. As mãos suavam a cada festinha de primos e amigos de escola. As pernas tremiam. O desmaio viria antes dos parabéns. Lembra-se de chorar e ouvir da mãe:

 — Isso é frescura! Pode voltar para a roda com seus colegas! O que eles vão pensar de você?

Maria acreditava, pelas gargalhadas, que todos estavam entretidos demais para prestar atenção nela. Para evitar contato visual com o problema, antecipava-se nas desculpas para faltar nas festas. Um dia, a dor de cabeça. No mês seguinte, uma dor de barriga no dia do aniversário da prima e melhor amiga. Preferia a vergonha a se borrar de medo, o que poderia acontecer se estivesse lá.

Descoberta a causa, restava entender a evolução da doença. Ela entendia assim, uma enfermidade, ainda que o terapeuta negasse a patologia. Estar doente significava o modo de entender que o medo residia em um endereço além do seu alcance, incontrolável para sua vitalidade.

A adolescência confirmava o quadro de anormalidade, na cabeça dela. Paulo, o namorado, idolatrava filmes de terror, mesmo com a decadência do gênero em plenos anos 90. Ela achava bobagem de gente imatura, mas tolerava a matança para segurar o sujeito. A contrapartida eram as comédias românticas, que ele fazia questão de chamar de filmes mela-cueca.

Maria suportava machadadas, pescoços cortados, tiroteios, facadas, cadáveres de toda ordem. Até a série de documentários Faces da Morte ela assistiu (e reviu) sem reclamar. O namoro entrou em crise (e terminou) quando a convidou para ver o novo filme de terror da locadora, mais uma fita B baseada em obra de Stephen King. 


O assassino vinha do além e executava crianças, dizia a sinopse da caixa. Nada seria mais clichê. O terror se materializou quando o assassino apareceu na tela. A fantasia era idêntica àquelas que a horrorizavam na infância, em gênero, número de sapatos e grau de violência do riso.

Não conseguiu se explicar para o namorado. Mais um episódio para o arquivo das esquisitices dela. Paulo não compreendia porque Maria não entrava na mais famosa rede de fast-food. O homem na porta, simpático e imóvel, a impedia de comer o sanduíche, o pacote de batatas fritas e tomar um refrigerante. Só se comesse na rua. O namorado creditava a resistência ao regime constante, que acompanham as mulheres como uma relação umbilical.

O namorado brincava que ela não teve infância por desconhecer certas lembranças da programação infantil de TV. Vovó Mafalda, Papai Papudo, quem eram estes? Ela aturava as palhaçadas de Paulo. Mas preferiu acabar o namoro a se explicar. Saiu correndo da casa dele naquele dia e terminou pelo telefone. Melhor a fama de má do que viver o medo.

Agora, na fronteira dos 30 anos, precisava resolver o problema. Discordava do terapeuta. Estava doente. Nada duraria tanto tempo, com tanta profundidade. Nem aquele monstro de sorriso aberto e kit de tortura que terceirizava risadas. 


Maria foi para a Internet. Ali, achou o caminho. Não a cura, mas a saída para confrontar a fobia e seu agressor desconhecido. No Orkut, viu que não estava sozinha. Uma comunidade com 300 membros a esperava para compartilhar experiências, realimentar o medo, crucificar o mal em forma de roupas coloridas.

Maria adorou a palavra, que resumia parte de sua vida: coulrofobia. O medo de palhaço virou camiseta, tema de blog, campanha de conscientização. O desejo, agora, é criar um comando de caça aos narizes vermelhos. Maria seria a mentora intelectual. O argumento de que os palhaços – palavra que se recusa a pronunciar – são tristes por trás do sorriso espontâneo não alterou os planos de extermínio.

Gargalhou pela primeira vez, com as fantasias homicidas. Nunca mais voltou ao terapeuta. Nunca mais foi às festas infantis. Chegar perto de um deles, jamais!   

Obs.: Este texto foi publicado, originalmente, no site Jornalirismo

Os mini-executivos


As duas mães enfrentavam problemas idênticos. Sentiam-se angustiadas, preocupadas com o desempenho dos filhos na escola. A primeira delas temia pelo futuro do filho, que apresentava deficiências de aprendizagem na visão da professora, traduzidas em notas vermelhas no boletim bimestral. A situação seria aceitável se o garoto não tivesse somente dois anos de idade. 

A outra mãe, até um mês atrás, adorava a ideia de que a filha fosse dormir sozinha às 21 horas. Depois, percebeu que o sono também atrapalhava a lição de casa. A filha não se concentrava. E não era questão de trocar os livros por brinquedos. Ela desmaiava com cinco minutos de desenho animado.

A menina tinha uma agenda digna de executivo de grande empresa. Uma pauta de trabalho que, em certos dias, alcançava 12 horas de atividades. Mal tinha tempo para comer. O banho era contado no relógio. A garota, além da escola, fazia natação, futebol e balé. Fora os esportes, tinha aulas de inglês e informática, mais a iniciação musical duas vezes por semana. A idade da mini-executiva: seis anos, um terço da vida em rotina profissional.  

Ambas as mães, assim como milhares de pais, se apavoram com a competitividade que assombra o mundo dos adultos e procuram proteger as crianças do futuro ainda incerto no horizonte. Projetam uma preparação que coloca a infância em risco e queima etapas do desenvolvimento sem a noção do preço que seus filhos vão pagar pela transformação em adultos pequenos.

A velocidade da informação e a sensação ininterrupta de conhecimento defasado também interferem no relacionamento entre pais e filhos. Muitas escolas, com medo de perder alunos e mensalidades, aceitam alfabetizar crianças com quatro, cinco anos, momento em que deveriam desenvolver outras aptidões de maneira lúdica, sem serem “amarradas” diante de cadernos, livros e estojos.

Programas de TV fazem a parte deles no assassinato da infância. Crianças disputam realities shows ou viram artistas mirins, vistas como engraçadas porque reproduzem comportamentos precoces. Curiosas como um animal domesticado capaz de repetir, com perfeição, as ordens dos adultos na mesma velocidade em que engordam as contas bancárias deles.

A metamorfose da criança em adulta é mais cruel no aspecto estético. Meninas vestidas como mulheres, com maquiagem e saltos altos. Nada da brincadeira tradicional de casinha, quando se repetem os papéis de pai e mãe. É o figurino para os compromissos profissionais, para a agenda social.

Atualmente, a febre na seção infantil das lojas de departamentos são os sutiãs com enchimento. Os produtos têm como público-alvo crianças de quatro e seis anos. Nenhuma das consumidoras-meninas entrou sozinha na loja e comprou o primeiro sutiã. Pena que vão se esquecer dele, oito anos antes da hora, ao contrário do slogan consagrado pela publicidade.  

A esquizofrenia social não reside nas crianças, fantasiadas de pequenos franksteins. A enfermidade contaminou os adultos, que não enfeitam seus filhos com alegorias imaginárias. São projeções que resultam em cobranças e responsabilidades para alguém que ainda vê o mundo como brincadeira.

Os executivos costumam reclamar que, por causa da carreira, colocaram em segundo plano a família e o lazer. As versões em miniatura seguem pelo mesmo caminho, proporcionalmente, mas sem o poder de escolha.  

quinta-feira, 5 de maio de 2011

A mão que balança o berço


Embora o horror sempre se instale como a primeira vez, abandonar bebês – infelizmente – é uma prática comum em muitas sociedades. Na última semana, no Estado de São Paulo, foram três casos. Um deles chamou a atenção por causa do flagrante de câmeras de segurança. A força das imagens dá vida ao temor, personifica o lado escuro do humano.

Ao mesmo tempo, histórias como a da cozinheira Rosineide Lins se desenrolam como novelas em capítulos finais. Heróis precisam ser eleitos. E vilões precisam de punições imediatas, simbolizadas por jaulas, o primeiro passo para o posterior desaparecimento do mapa.

O ato de Rosineide, evidentemente, choca e provoca repulsa. Não me interessa defendê-la, mas entendê-la. O que leva uma mãe a descartar um filho? A História não alivia, quando nos aponta como prática recorrente em inúmeras culturas, da Roma Antiga à China Contemporânea. Do abandono na beira do rio à roda dos enjeitados, presente nos conventos cristãos.

A pergunta levou muitas pessoas a uma premissa equivocada: supor que todas as mulheres são mães. A maternidade não é inerente ao universo feminino. Parir uma criança é bem diferente de criá-la, assumi-la, de se responsabilizar por ela, de se doar por outra vida.

A maternidade é uma construção cultural com data de nascimento no século XIX. Naquele período, as amas-de-leite não se limitavam a amamentar os bebês das madames burguesas, como também os criavam e, em muitas famílias, representavam as mães biológicas nos funerais.

E largar crianças depois do parto não está ligada à conta bancária. Se, na vida moderna, as mães de classe média não jogam fora os filhos, muitas delas terceirizam o cargo, via babás, empregadas domésticas ou professoras. Cobram os louros enquanto transferem os deveres cotidianos.

Como Rosineide Lins chegou a este ponto? Como alguém pode ter seis filhos, sendo dois deles criados por voluntários, sem que o sistema público de saúde ou de assistência social detecte um desastre social em evolução? Como uma auxiliar de serviços gerais, com R$ 600 de salário, pode gerar seis crianças em condições de sobrevivência? Rosineide pagará pelos erros, mas jamais deve ser trancada como o monstro do horário nobre. Compreender sua história exige senso de civilidade para, se for o caso, protegê-la dela mesma.

Outro personagem da história, o catador Andrey Antunes Menezes, foi alçado à condição de herói da semana. Qual foi o ato heróico praticado por ele? Qualquer pessoa com o mínimo de humanidade teria obrigação de retirar o bebê da caçamba de lixo. O heroísmo dele reside em sobreviver naquelas condições, tratado como cidadão de segunda classe, que fuça o lixo alheio.

Que tipo de glória terá um herói como ele? Tapas nas costas e 15 minutos de fama local? Ou oportunidades de refazer o próprio enredo e seguir como personagem anônimo, mas livre das falsas promessas de idolatria.