terça-feira, 12 de abril de 2011

Valéria e as mãos que liam o mundo

Nunca acreditei em horóscopos. Não leio colunas sobre Astrologia ou escuto aquelas recomendações de rádios FM sobre como será meu dia. Mas sempre acreditei na colunista deste jornal. Valéria Nader era daquelas pessoas raras, capazes de desconcertar alguém com poucas palavras.
Valéria repetia todos os anos um ritual de desmontagem de alunos novos. Muitos ouviam dizer que a professora lia mãos. Olhavam com desdém para aquela moça, numa cadeira de rodas, que os recebia com um sorriso amável, para compreender a desconfiança que sustenta o medo dos recém-chegados.
Valéria olhava para o rosto da menina, sorria novamente, apanhava as mãos dela e fazia uma série de afirmações. Ou seriam dúvidas semeadas? As feições de quem duvidava desmoronavam a cada conselho, a cada orientação travestida de previsão. Ali, não havia futurologia. Havia uma percepção apurada das necessidades, dos desejos e das aflições que impregnam a humanidade do outro.
Semanas depois, o ritual se concretizava em um novo capítulo. Duas ou três estudantes comentavam, num canto de sala, sobre como as palavras de Valéria funcionaram para elas. Como as previsões se materializavam em fatos cotidianos na vida delas.
O segredo residia na ausência de milagre. Valéria não tinha poderes mágicos. Apenas se interessava pelo outro e entendia com clareza o que precisava ser dito, sem machucar, sem constranger, sem iludir.
O mundo, Deus, o destino, o acaso, sei lá como denominar quem resolveu cobrar um preço pelo dom da professora. O valor que compensava, como um carrasco perverso, a singularidade dela.
Valéria estava presa em si mesma. Ela pagou por um crime que jamais cometeu. Enfrentou um inimigo silencioso, que torturava com a lentidão dos sádicos, que desmontava o oponente em etapas. A esclerose múltipla a fez cumprir uma pena única.
Mas a doença desconhecia a essência de seu adversário. Valéria lutava com a lucidez. Derrotava o inimigo com uma arma que ele não poderia conceber na própria crueldade. A casca a afligia, mas realçava um cérebro pulsante, curioso, uma mente aguçada para interpretar o ambiente e seus habitantes transitórios, sem descanso, sem enrijecer as expressões que marcam quem se vitimiza na dor.
Valéria poderia ter rendido à esclerose, mas preferiu domesticá-la com consciência do final inevitável. Valéria era o domador que entrou na jaula, sem chicote, para segurar o leão faminto. Seria devorada de qualquer modo, mas tentaria convencer o animal a reconsiderar a idéia. Ou dobraria os instintos dele por uns minutos a mais, tempo suficiente para admirar a beleza e a poesia que se reproduziam fora do calabouço.   
A capacidade de ignorar o mal, na medida do possível, se sustentava no prazer de surpreender pela memória do improvável. Valéria guardava detalhes que pessoas comuns jogariam na lata de lixo assim que o diálogo de corredor ou a conversa de elevador morressem.   
Mesmo convivendo com centenas de alunos e muitos colegas na universidade, Valéria era capaz de se lembrar o dia do aniversário de cada um. Mais do que incorporar uma enciclopédia ou soar como um mural de recados de rede social, ela sabia que um simples parabéns ou a lembrança de uma data próxima derrubariam qualquer irritação ou ansiedade da vida acelerada.
Valéria era uma professora rara. Não falo de conteúdos pedagógicos ou especialização de almanaque. Eu a admirava, entre outras particularidades, por rejeitar a arrogância acadêmica ou por não ter prazer em ouvir o som da própria voz, um dos sintomas nocivos dos donos do saber.
Valéria era socrática por natureza. Perguntava quando sabia a resposta. Afirmava em tom de interrogação. Ensinava enquanto aprendia. Sabia a data do meu aniversário e o nome dos meus filhos, por exemplo. Mas sempre perguntava, nas datas de aniversário, inclusive deles, como se chamavam. O tom indicava que era o jeitinho de se aproximar para uma conversa.
O jornal Boqueirão perdeu uma colunista que permeou sua história por dez anos. Agradeço pelo privilégio de conhecer e conviver com a mulher atrás da colunista. Aprender com quem lia o mundo além dos riscos que atravessam as mãos, além dos 12 signos do Zodíaco que nos recomendam o futuro mais próximo.
A dor da perda conduz a obviedade de valorizar os raros. Valorização que as páginas de jornais são limitadas para retratar. Mas a dor, felizmente, não consegue vendar quem acredita que Valéria mudou de endereço para abrir os olhos de outros novatos, inseguros, medrosos e desconfortáveis. Valéria agora está livre. Viverá a liberdade do desconhecido que, definitivamente, fascina os sábios e os poetas.

Observação: Texto publicado, originalmente, na seção Blog News, do jornal Boqueirão (Santos/SP), veículo para o qual Valéria Nader escreveu a coluna Astrologia por 10 anos.

2 comentários:

Anônimo disse...

nossa amei a sua historia continue assim enganando os outros ok bjao....

Anônimo disse...

isso e pura imaginacao da sua cabesa se converta a jesus e mude de vida eu te acinseilho ok....