sexta-feira, 8 de abril de 2011

Uma senhora sábia

Minha avó viajou há dois anos. Não voltou mais. Se fosse uma criança, talvez engolisse a justificativa que mascara a finitude. Como adulto, finjo aceitar a explicação para atordoar a saudade.
A personalidade incomum começava pelo nome incomum. Norvina não é exatamente a última moda nos cartórios ou nas revistas de pais e filhos. E não é único. Outras duas mulheres receberam o mesmo nome, na mesma cidade, no interior de Minas Gerais. E nasceram na mesma época. Talvez uma tendência local; assim, incomum. Ou um instante de criatividade coletiva.           
Dona Norvina foi a pessoa mais sábia que conheci. A sapiência dela não estava nos livros nem nos diplomas que nunca teve. Saber não era arrotar informação de almanaque. Saber era explodir em humanidade. Explosão que significava mastigar, em si, o melhor e pior, sem se martirizar por tal condição.
A profundidade do relacionamento entre nós se sustentou, nas minhas lembranças, pelas sutilezas das pequenas experiências. São os detalhes de rodapé de página que representaram e reforçaram o amor que transitou pela plenitude do enredo. Era ela quem estava na janela quando fui pela primeira vez sozinho ao cinema, aos 10 anos. Não olhei para trás, mas tenho a convicção de que estava lá, como zeladora fiel.
Ela protagonizou, certamente, o jogo de futebol mais rápido da história. Da minha história. Um jogo de futebol de botão, o microclássico entre Santos e Corinthians. Como corintiano e neto, dei a saída. Em três toques, o primeiro chute a gol. Corinthians um a zero. Bola no centro do estrelão.
O Santos daria a saída. O excesso de força da “treinadora”, apresentada ao “esporte” cinco minutos antes, resultou na quebra – ao meio – do camisa 10 da Vila Belmiro. Dei a partida por encerrada e guardei, como relíquia, aquele time eternamente destinado ao desfalque.  
Dona Norvina era uma jornalista honoris causa, ao menos na análise crítica dos telejornais. Minha mãe perguntou a ela porque assistia apenas um telejornal à noite e, após o término, rumava para a cama.
— Por que ver outro jornal? Quem viu um, viu todos!
A serenidade se caracterizava pelo silêncio e pela observação inteligentes, permeada por frases (hoje, soam como citações dignas de serem perpetuadas) diretas, definitivas.
Muitas vezes, me dou conta que repito para minha filha, Mariana, de oito anos, lições nada professorais de Dona Norvina. Quando atravessávamos uma avenida movimentada, ela me alertava:
— Corre que os carros estão fazendo 120!
A velocidade fictícia dos veículos me ajudou a compreender como a senhora foi devorada pela velocidade real e soube dar as costas para ela. Preferiu retornar às origens por perceber que as relações humanas reais, olho no olho, salvam as mais profundas necessidades e desejos de qualquer um.
A sabedoria se tornava discreta pela contaminação da mineirice, que assegurava o humor de quem ditava a brincadeira pelo canto de boca. A brincadeira de quem enganava o neto ao encher uma velha garrafa de Campari com groselha Milani e se divertia com as reações dos adultos, assustados por ouvir de uma criança que a avó incentivava o consumo de bebidas alcoólicas. Em doses diárias, aliás, cheias até a boca em copo de requeijão.
O rosário de “causos” não cabe na palavra escrita, mas traz, no mínimo, um voto de confiança. As pequenas experiências devem indicar um olhar de aprovação do leitor que nos acompanhou neste texto. Os detalhes vão parir identificação e, principalmente, a ideia de que a perda, embora dolorosa, restaura as imagens amareladas pelo tempo que morre e renasce no eterno retorno da convivência. Ainda que imaginativa.

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