quinta-feira, 7 de abril de 2011

O regulamento dos cegos

Sempre desconfiei das pessoas que seguem e aplicam regras, literalmente, o tempo todo. Nunca refletem sobre regulamentos, por mais que pareçam insanos. Nunca rompem com normas, mesmo que representem atraso e criem dificuldades para si e para outros. São como serviçais domesticados, incapazes de mexer o copo de lugar, ainda que haja risco de que o objeto se espatife no chão.

Os escravos das regras matam a própria sensibilidade, que detecta a beleza única. Jamais tiram as vendas. Se por um acaso da probabilidade resolvem tirá-las e olhar para os lados, são incapazes de notar uma flor que resiste no solo árido.

A eficácia das regras não depende somente dos carrascos que as idolatram, encobertos por máscaras negras, que se eximem de responsabilidades com a justificativa de que cumpriram ordens. Uma regra ganha a dimensão adequada se os atingidos por ela – o que inclui os executores – possuem o mínimo de sensibilidade para entender os estragos que podem provocar quando conduzidas ao pé da letra. 



Pensei na cegueira das regras ao ver a expulsão de Neymar, no jogo contra o Colo Colo, pela Libertadores da América. O atleta do Santos foi expulso porque vestiu uma máscara de si mesmo, entregue pelo colega de clube Robson, que estava fora do campo. Neymar já possuía um cartão amarelo.

Na semana passada, o goleiro do São Paulo, Rogério Ceni, também foi premiado com advertência porque tirou a camisa quando marcou o centésimo gol. E contra o Corinthians, que extinguiu um tabu de quatro anos sem vitórias sobre o adversário. 

Aplicar um cartão amarelo, nestas circunstâncias, é exigir uma frieza impossível para qualquer ser humano que, em condições normais, estaria em êxtase. Como pedir para Neymar, de apenas 19 anos, a racionalidade absoluta depois de marcar um golaço que manteria o Santos vivo na competição? Se, depois do gol, o atacante caminhasse como quem vai à cozinha apanhar um copo d’água, seria caso de internação imediata.

Como exigir do goleiro tricolor a ausência de emoções enquanto vive um instante único na história do esporte? Como pedir a ele que se contivesse no capítulo maior de sua trajetória profissional?

É como punir com perda de pontos o piloto que acaba de vencer uma corrida depois de horas. Imagine se Ayrton Senna fosse punido quando venceu o GP Brasil. Ou Helio Castro Neves, o homem-aranha, ao arrancar o capacete e correr para as grades que o separam do público. 

Regras não são sacras. Existem para demarcar, estabelecer limites e organizar ações em determinado contexto. Regras respondem a espaços e tempos específicos, jamais podem se perpetuar como se não houvesse flexibilidade ou dinâmica nas relações humanas.


Regras, quando transformadas em monumentos dogmáticos, tendem a se tornar mais importantes do que as situações para as quais foram criadas. Regras devem envolver o olhar humano sobre as circunstâncias, antes que substituam o próprio cenário. Se isso acontece, não há razão para mantê-las em vigor. 

Sempre me incomodou ver um jogador de futebol receber cartão amarelo por segurar um adversário ou colocar a mão na bola para conter um ataque. O atleta cometeu falta, conhece a punição pelo anti-jogo, mas não levou adiante a hipótese de um ato mais violento.

Nestes casos, juízes são implacáveis, e muitos até fazem pose para aplicar a pena. A advertência é tratada como caso fechado, enquanto a controvérsia insiste em nascer em episódios de agressão. Quantas vezes assistimos aos árbitros-comentaristas falarem em interpretação quando um jogador dá um carrinho por trás no adversário? Ou quando o agride a ponto de tirá-lo da partida? 

O bom senso de árbitros de futebol desaparece e os cega quando o assunto é comemoração de gols. É necessário dividir a responsabilidade deles com os velhinhos da Fifa, teimosos em acreditar que o futebol não evolui como os demais esportes e filhotes da inércia quando não aceitam que alterar regras é ingrediente fundamental para a dinâmica do esporte. 

Comemorar gols é quase tão importante quanto fazê-los. A catarse exorciza toda a tensão e a expectativa em torno da dança e de seus bailarinos. Punir um atleta porque se empolgou com seu próprio feito, muitas vezes surpreendente ou especial, é matá-lo na sua própria natureza. 

As regras existem para sofrer revisão, de acordo com a evolução do alvo delas mesmas. Concordo que futebol, embora seja caixa de ressonância cultural, não tem que ser palco de manifestações de estímulo à violência ou de atos políticos e religiosos de grupos específicos. A boa intenção não indica que embaixo daquela pele existe exatamente um cordeiro.  

Ignorar que a celebração do gol, em suas variadas formas, é inerente à natureza do futebol significa assumir-se como cego, vestir-se como sujeito neutro quando esta posição não existe. Árbitros tomam decisões por critérios subjetivos e erram pelos mesmos motivos. Por que não fazer vistas grossas para a festa dos jogadores, aproveitando que os velhinhos da Fifa estão mais preocupados se o chá das cinco veio com açúcar ou adoçante? 

Se os juízes assumissem, sem exceções, o argumento da interpretação, talvez o futebol não tivesse que conviver, por segundos, com a insanidade de testemunhar o autor da obra punido, como réu único, por vibrar com a própria genialidade artística.

7 comentários:

Tarcisio disse...

Primeiramente, parabéns pelo texto. Percebo que foi escrito no calor dos acontecimentos. Bom as regras do futebol, assim como qualquer outra, existem para serem cumpridas, se foi o Neymar, Rogério Ceni ou o Ronaldo contra o Palmeiras ao retornar para o futebol brasileiro, não importa. Esses profissionais têm que entender que o futebol para eles é trabalho e como qualquer trabalho existe regras, injusta ou não cabe a eles conhecerem e cumprirem, assim como cabe a qualquer outro trabalhador cumprir as regras de sua profissão, seja ela a de advogado, médico, jornalista entre tantas outras. E até mesmo nós, quantas leis consideramos injustas, mas acabamos por aceitar? A autoridade está ali para fazer com que as regras sejam seguidas independente de quem seja como diz uma velha expressão em latim “Dura Lex sede Lex”.
PS. Concordo que o cartão foi um exagero nos casos acima, mas é a regra, e ela vale para todos, tenho certeza de que se os clubes não estivessem de acordo com essas normas elas não estariam vigorando.
Grande Abraço Marcão

Marcus Vinicius Batista disse...

Tarcisio, agradeço a leitura, mas devo fazer uma ponderação. Os clubes não tem peso algum na elaboração das regras do jogo. As determinações vem de cima para baixo, confeccionadas pela International Board. As propostas e as queixas dos times, historicamente, costumam ser ignoradas. Será que as regras não merecem, realmente, questionamento? Não seria parte do processo democrático colocá-las em dúvida? Grande abraço!!

Daniel Simonian disse...

Parabéns pelo texto genial como sempre.
As regras são antigas e acredito que toda essa bagunça esta acontecendo porque o futebol de hoje é novo. Estamos na ponta do gráfico. Na transição onde certas regras que não tem motivo nenhum de existir.
Essa nova era do futebol já modificou as paradinhas, o auxílio de mais dois árbitros em campo. É questão de tempo para que todas elas se moldem a esse novo estilo de jogar futebol.
Abração!

Marcus Vinicius Batista disse...

Daniel, concordo com você. Por que não utilizar, por exemplo, o recurso de vídeo para verificar certos lances, como o pênalti? Outros esportes como o tênis utilizam a tecnologia e não perderam em emoção. O curioso é que os opositores ao vídeo só defendem a permanência das regras quando o prejudicado é a equipe adversária. Grande abraço!

Angela disse...

Parabéns pelo texto,as regras existem para serem cumpridas mas o bom senso cabe sempre numa decisão. A minha mãe de 87 anos pensa como você sobre as regras do futebol, achei deselegante o comentário sobre os idosos. Valeu a reflexão. Abraços

Marcus Vinicius Batista disse...

Angela, agradeço pelo comentário e gostaria de fazer uma ponderação. Os "velhinhos" da Fifa não são todos velhinhos. Muitos são bem novos que sua mãe. A velhice é uma ironia para o atraso de perspectiva. Um abraço!

Anônimo disse...

Pois é, por mais paradoxal que seja ,a maior razão do futebol está com a paixão do torcedor.
O que levaria um mortal(dentre os quais me incluo)a ficar com a TV ouvindo discussões: se o cartão foi dado justamente ao jogador,ou se a bola entrou toda no gol, se o impedimento milimétrico poderia ser detectado pelo bandeirinha,...só um delírio de paixão, daqueles desenfreados.
Quem,...senão insanos(olha eu de novo),sustentaria pelo mundo esse disparate explícito que é o todo que gira no em torno do futebol.
Aos craques mais bem sucedidos, só resta saber quando vão pra fora pois é impossível por aqui, conquistarem a independência financeira ganhando "apenas" 500 páus por mês,durante pelo menos doze anos e mais a grana de publicidade.
No caso abordado da regra do cartão, acho que a paixão de novo vai falar mais alto e a palavra final, não vai estar com os velhinhos da Fifa, nem com o mais conceituado dos comentaristas, mas sim com o torcedor, verdadeiro mote de toda essa algazarra premeditada.
Se o Santos se classificar para a próxima fase da Libertadores, o nosso craque é genial e tem o direito de extravazar aquele momento de alegria, que o cartão foi injusto, mas o que vai se fazer regra é regra,tudo bem na próxima fase "é nóis"!!!
Em caso contrário,os torcedores(também tô nessa),vão saber muito bem o que o Neymar deveria fazer com a "porra" daquela màscara.