sexta-feira, 29 de abril de 2011

O jardineiro

Regis é um velho amigo. Ou um amigo velho. A inversão dá sempre no mesmo porque delimita a idade, seja do sujeito, seja da amizade. Embora goste muito dele, nunca tive o direito e a coragem de alertá-lo. A vida dele é uma “paradeza”, como diriam meus parentes mineiros.

Regis se aposentou e, até o final do ano passado, ocupava seu tempo com o próprio controle do tempo. Dos outros. Passava horas na garagem do prédio onde reside, lugar em que serve de referência. Era balcão de informações, centro de fofocas, controle de entrada e saída de carros, moradores e visitantes. Tudo permeado por comentários meteorológicos.

A eficiência era tamanha que deixava o posto apenas para comer, dormir e ver TV, esta última tarefa depois das 22 horas. Permanecer no posto informal de vigilância e conversar com os vizinhos aguçaram a percepção dele para um problema das redondezas. Regis se incomodava com a transformação do canteiro central da avenida onde mora, a Pedro Lessa, em depósito de lixo.

Nem os caminhões de coleta e os suportes de metal davam conta de tanta tranqueira. Além dos sacos pretos convencionais, o canteiro abrigava pedaços de cadeiras, restos de sofás, sapatos furados, brinquedos abandonados, entre outras quinquilharias.

Regis olhou para os pequenos montes de entulho, colaboração de moradores e comerciantes, e decidiu que precisava fincar bandeira naquele território antes que fosse tomado pelos invasores porcalhões. Era o ponto de virada em um roteiro linear e aborrecido de vida.

Como a maioria dos aposentados, Regis teria que trabalhar novamente. Como a minoria dos aposentados ativos (a contradição trabalhista em si), descobriu uma nova vocação e prazer.

Ele se tornou o jardineiro e guardião de um trecho de 200 metros da avenida, a duas quadras do Canal 6. Ali, o cinza ganhou tons de verde. Regis começou com pequenos vasos de plantas. A tática era de guerrilha: ocupar o espaço antes que o inimigo o fizesse.

O passo seguinte foi convencer a vizinhança, residente em casas e prédios de três andares, a doar plantas para aumentar a zona verde. Aproveitava até o armamento adversário. Pedaços de madeira ganharam novo uso quando compunham o cercado que protegia as plantas. Restos de metais viraram cordas para garantir a firmeza da proteção.

O hobby agora é expediente. Comerciantes das redondezas doam materiais. Moradores e visitantes comentam a mudança de visual. Regis foi promovido e levou de presente a responsabilidade proporcional ao novo cargo. A manutenção é diária, inclusive aos domingos, mesmo aqueles chuvosos em que o vigilante resistia em se deslocar de casa para a garagem.

A vida de jardineiro não fez com que Regis abandonasse a posição de vigia. As plantas não tomam os dois períodos de “trabalho”. Ser jardineiro virou acúmulo de função não-remunerada. Ele se queixa? Pintar um pedaço do bairro de verde natural não apenas traçou uma nova relação com o tempo como também incluiu mais um assunto na pauta diária do homem-referência.

Para a esposa, antes resignada com a “paradeza” do marido, as flores brotaram no concreto do canteiro para redesenhar o relacionamento. A TV continua ligada depois das 22 horas, desta vez com duas pessoas no sofá.

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