terça-feira, 19 de abril de 2011

Gênio ou trabalhador infantil?


O futebol, com seus personagens, me assustou duas vezes na semana passada. Se ainda fossem os lances, a surpresa seria agradável. O problema é que os sustos nasceram do cenário bizarro que rodeia o jogo e o transforma em um negócio sem travas ou limites.
           
O primeiro golpe veio de um dos netos de Pelé, de 12 anos. Não consigo imaginar, neste caso, a dor em ser neto de Pelé. O garoto é parente de alguém que é visto por todos, mas o encontrou uma única vez. Ao decidir jogar bola, elevou a pressão – involuntariamente - ao nível do insuportável.
           
Filho da falecida vereadora Sandra Regina, o menino ganhou, ao lado do irmão de 10 anos, título de nobreza, embora não-oficial. Os dois moleques pagam o alto preço de uma responsabilidade abstrata, sem ensinamentos particulares, com exposição pública constante.
           
Ambos vão deixar Curitiba, onde foram morar depois da morte da mãe, para jogar no São Paulo. O mais velho deles concedeu entrevistas. E o primeiro susto! O garoto dizia que a mudança era importante para sua carreira.
           
Carreira? Aos 12 anos? Na idade em que jogar bola é diversão permanente, símbolo de um mundo lúdico, no qual as cobranças deveriam ser de outra natureza? Nem o avó dele, precoce que foi, chegou perto deste ponto.


O segundo choque aconteceu quando li uma entrevista de Jean Chera, na coluna de Denise Covas, no jornal Boqueirão. O atleta de 15 anos está no Santos desde os nove. Recebe um salário maior do que a maioria esmagadora dos trabalhadores brasileiros. É tratado como o novo Neymar, Robinho ou qualquer outro jogador que esteja no auge no clube.
           
Em determinado momento da conversa, Chera disse que pretendia disputar a Copa do Mundo de 2014 pela seleção brasileira. Minha reação foi matemática. Parei de ler e comecei a fazer contas.
           
O jogador tem 15 anos, certo? Acabou de subir para o sub-17 do Santos. Ainda precisa passar pelo sub-20, treinar com os profissionais, entrar no time principal, se firmar como titular e arrebentar por um ano, no mínimo, para ser convocado. Depois, treinar na seleção, esquentar o banco, tornar-se titular e derrubar os concorrentes diretos, mais velhos e experientes, para entrar na lista final de 23 atletas inscritos no Mundial.
           
O garoto precisa ultrapassar estas etapas em três anos. Estará com 18 anos. Apenas Pelé e Ronaldo percorreram caminho semelhante, com a licença poética da história. Seria pretensão ou declaração de adolescente? Apostaria nos dois aspectos combinados, mas não me parece ser este o problema.
           
Os dois se comportam como se fossem adultos. Falam como adultos. Usam os jargões da vida adulta nas redes sociais, como aconteceu com Chera que se “sentiu desvalorizado” pelo Santos e reclamou publicamente no Twitter. Enfrentam comparações que muitos adultos não suportariam em condições normais.
           
Ambos são vítimas e, como agravante, não foram alertados para tal condição. Correm o risco de queimar fases da vida que não poderão ser retomadas, com a conivência de pessoas próximas. Perderão experiências em troca de outras que talvez não estejam prontos para dimensioná-las.
           
O futebol se transformou em uma engrenagem que tritura pessoas cada vez mais jovens. E as descarta cada vez mais cedo. A adolescência vira um vácuo preenchido por contratos publicitários, assessores, compromissos de marketing, pressão por resultados e metas de trabalho dentro e fora do clube.
           
Vida privada e pública se misturam num período de mudanças e de incertezas. De insegurança e de ansiedade natural. A adolescência se caracteriza pela proteção via grupos sociais, via amizades que parecem ser necessidade vital. A fama por aquilo que ainda não fizeram (e talvez não façam) os isola. A solidão de quem vive cercado de gente.
           
Como esses moleques podem atravessar ilesos este deserto se vivem em bolhas de plástico? Como sobreviver em um mundo no qual um deslize ocupa a primeira página de jornal do dia seguinte? Não há espaço para pequenas rebeldias. Compromissos à revelia determinam o dia de hoje e de amanhã.      
           
As duas declarações indicam personagens mal interpretados, oriundos de uma dramaturgia que sacrifica o ator para benefício do diretor e dos produtores. Os dois repetem discursos que não parecem ser deles, mas a incorporação de valores e clichês repetidos a exaustão por quem deveria protegê-los dos leões.
           
Nenhum ato de transgressão será tolerado. São profissionais, adultos em potencial, bradam os agenciadores. Neymar é um caso em curso de exposição excessiva e de amnésia conveniente daqueles que o julgaram até ontem. Alexandre Pato é outro exemplo, do outro lado do oceano. Muitos jornalistas se referem a ele como veterano. Alguém que não explodiu como deveria, apesar de ter somente 21 anos, mas casado e divorciado pelas páginas das celebridades.


A maturidade de uma atleta de futebol ocorre, na média, aos 27 anos. A estabilidade envolve os aspectos emocional, físico, técnico e tático. No futebol atual, muitos meninos (ex-) prodígio colecionam, aos 27 anos, cicatrizes cirúrgicas, rodaram por vários clubes e, por vezes, são classificados como velhos, como um bagaço espremido de olho na lata de lixo.
           
O Brasil, como fornecedor de matéria-prima no pacto colonial do futebol, poderá incinerar uma geração. O país, antes vendedor de talentos em maturação, hoje fabrica adolescentes para a Europa e outros mercados periféricos. Estes moleques não desabrocham por aqui. Muitos nunca atuaram profissionalmente no país em que nasceram.
           
Os primeiros sinais da infantilização do futebol aparecem como surpresas na lista de convocados para a seleção brasileira. Os rostos são desconhecidos. Nunca apareceram no noticiário local. Mercadorias exportadas antes de completar o processo tradicional de manufatura.
           
Antes, reclamávamos do excesso de estrangeiros na seleção brasileira. Agora, assistimos a refugiados que vestem a camisa amarela. Mais do que estrangeiros, estes atletas se tornaram estranhos. Incompletos lá fora. Anônimos aqui.
           
A ironia desta história é que, se estivessem em outras áreas da economia, os dois garotos talvez servissem de exemplos de exploração de trabalho infantil. Seus responsáveis seriam enquadrados e multados pelo Ministério do Trabalho.
           
No futebol, são pedras preciosas em fase de lapidação. É capaz dos fiscais ainda apertarem as mãos de quem os explora em agradecimento por um gol futuro, vendido como sonho ou promessa de fé vazia.

Um comentário:

André Rittes disse...

Por essas e por outras que não gosto de futebol! Depois que virou comércio, então, já era. O negócio é torcer pela "burrinha"...