sexta-feira, 29 de abril de 2011

O jardineiro

Regis é um velho amigo. Ou um amigo velho. A inversão dá sempre no mesmo porque delimita a idade, seja do sujeito, seja da amizade. Embora goste muito dele, nunca tive o direito e a coragem de alertá-lo. A vida dele é uma “paradeza”, como diriam meus parentes mineiros.

Regis se aposentou e, até o final do ano passado, ocupava seu tempo com o próprio controle do tempo. Dos outros. Passava horas na garagem do prédio onde reside, lugar em que serve de referência. Era balcão de informações, centro de fofocas, controle de entrada e saída de carros, moradores e visitantes. Tudo permeado por comentários meteorológicos.

A eficiência era tamanha que deixava o posto apenas para comer, dormir e ver TV, esta última tarefa depois das 22 horas. Permanecer no posto informal de vigilância e conversar com os vizinhos aguçaram a percepção dele para um problema das redondezas. Regis se incomodava com a transformação do canteiro central da avenida onde mora, a Pedro Lessa, em depósito de lixo.

Nem os caminhões de coleta e os suportes de metal davam conta de tanta tranqueira. Além dos sacos pretos convencionais, o canteiro abrigava pedaços de cadeiras, restos de sofás, sapatos furados, brinquedos abandonados, entre outras quinquilharias.

Regis olhou para os pequenos montes de entulho, colaboração de moradores e comerciantes, e decidiu que precisava fincar bandeira naquele território antes que fosse tomado pelos invasores porcalhões. Era o ponto de virada em um roteiro linear e aborrecido de vida.

Como a maioria dos aposentados, Regis teria que trabalhar novamente. Como a minoria dos aposentados ativos (a contradição trabalhista em si), descobriu uma nova vocação e prazer.

Ele se tornou o jardineiro e guardião de um trecho de 200 metros da avenida, a duas quadras do Canal 6. Ali, o cinza ganhou tons de verde. Regis começou com pequenos vasos de plantas. A tática era de guerrilha: ocupar o espaço antes que o inimigo o fizesse.

O passo seguinte foi convencer a vizinhança, residente em casas e prédios de três andares, a doar plantas para aumentar a zona verde. Aproveitava até o armamento adversário. Pedaços de madeira ganharam novo uso quando compunham o cercado que protegia as plantas. Restos de metais viraram cordas para garantir a firmeza da proteção.

O hobby agora é expediente. Comerciantes das redondezas doam materiais. Moradores e visitantes comentam a mudança de visual. Regis foi promovido e levou de presente a responsabilidade proporcional ao novo cargo. A manutenção é diária, inclusive aos domingos, mesmo aqueles chuvosos em que o vigilante resistia em se deslocar de casa para a garagem.

A vida de jardineiro não fez com que Regis abandonasse a posição de vigia. As plantas não tomam os dois períodos de “trabalho”. Ser jardineiro virou acúmulo de função não-remunerada. Ele se queixa? Pintar um pedaço do bairro de verde natural não apenas traçou uma nova relação com o tempo como também incluiu mais um assunto na pauta diária do homem-referência.

Para a esposa, antes resignada com a “paradeza” do marido, as flores brotaram no concreto do canteiro para redesenhar o relacionamento. A TV continua ligada depois das 22 horas, desta vez com duas pessoas no sofá.

terça-feira, 26 de abril de 2011

A preliminar

O texto abaixo é uma pequena alegoria em homenagem ao Dia do Goleiro, comemorado hoje.
O estádio estava quase vazio. Quarta-feira à noite. O Santos enfrentaria a Internacional, de Limeira, pelo Campeonato Paulista. O jogo, na Vila Belmiro, era pouco atraente, até para os mais fanáticos. O Santos vivia uma fase de vacas magras, com raras finais e muitas decepções.
Na preliminar, o Santos faria um amistoso contra a Portuguesa Santista, pela categoria juvenil, atual sub-17. Para os jogadores do Santos, uma armadilha. Se perdessem, ouviriam vaias da torcida, que estava ali para ver o time vencer sempre, não importa a idade. Se ganhassem, não teriam feito mais do que a obrigação.
Na Portuguesa Santista, o técnico Zé Luiz, o Galo, havia injetado nos garotos o clima de final de campeonato. Para eles, talvez fosse a única vez que jogariam na Vila Belmiro, mesmo que fosse uma preliminar do Paulistão.
O que se viu foi uma partida equilibrada, feia de se ver. Os moleques da Briosa, na época uma equipe de 2º Divisão, comiam a grama, molhada por causa da chuva que aumentava os espaços vazios nas arquibancadas. Jogavam a partida mais importante do ano, depois de vencerem o torneio regional da categoria.
Do lado do Santos, muitos jogadores sentiram o peso daquele amistoso. Eles não estavam acostumados com a Vila Belmiro. Treinavam por lá de vez em quando. E a torcida os tratava como se fossem profissionais. Cobranças e xingamentos a cada passe errado. Pedidos de substituição do número 2, do número 5, atletas desconhecidos até pelos corneteiros das arquibancadas.
O placar se arrastava em zero a zero. Poucas chances do Santos, todas elas defendidas sem maiores problemas pelo goleiro da Portuguesa. Na verdade, parecia treino de ataque contra defesa, partida de meio campo. A dupla de zagueiros da Portuguesa, Marcos e Paulo, irmãos gêmeos, espantava a bola para todos os lados, sem vergonha de serem chamados de beques de fazenda.
No final do primeiro tempo, escanteio para o Santos. A zaga da Briosa se atrapalhou para cortar a bola, que insistiu em permanecer na grande área. Na confusão, um dos atacantes do Santos, de nome Marcelo, empurrou para o gol. Santos 1 a 0. Final do primeiro tempo.
O segundo tempo seguiu sem alterações significativas. A Briosa se manteve fechada. O Santos, contente com o resultado. As arquibancadas, um pouco mais cheias. A chuva parou.
O goleiro da Portuguesa se assustou apenas com o grito da torcida, o famoso Uhhhhhh!, quando uma bola passou à direita. O barulho foi mais perigoso do que o chute em si.
No final, cinco mil pessoas acompanham aquele jogo entre moleques, enquanto esperavam pelo jogo principal. Daquele time da Portuguesa, ninguém se tornou jogador profissional. Do Santos, dois ou três conseguiram se profissionalizar e atuar em times do interior.
O goleiro da Briosa, dois anos depois, mudou de lado até se contundir e perceber que era mais feliz em Ulrico Mursa do que na Vila Belmiro. Do outro lado do canal, não havia estrutura, mas prevalecia o jogo no sentido mais poético e idealista do termo. Sem empresários, sem resultados, sem competições internas.
Mas a verdadeira mudança se deu quando o goleiro, em momento de lucidez, notou que, como jogador de futebol, poderia ser um bom jornalista.
Naquele noite, na Vila Belmiro, o Santos venceu a Inter, de Limeira, por 3 a 2. Por ter jogado a preliminar, pude ver o jogo de graça. Lembro-me de dois aspectos: dois gols foram feitos pelo zagueiro Camilo e o Santos jogava com um ponta esquerda chamado Edson Ampola, que havia atuado pelo Naviraiense, aquele mesmo time que perdeu para a turma de Neymar e Ganso por 10 a 1.
Para o então goleiro da Briosa, a preliminar foi e sempre será o espetáculo principal daquela quarta-feira chuvosa.

domingo, 24 de abril de 2011

Para os coiotes, uma bala de festim

Políticos costumam se comportar como os coiotes, com o perdão da generalização. Mantém-se em silêncio à espera da oportunidade perfeita para abocanhar sua presa. Jamais entram em conflito. Pegam os restos da vítima, já abatida por outros predadores.

A campanha do desarmamento e a ideia de um novo plebiscito sobre a venda de armas indicam como a classe política adora ser oportunista. Os parlamentares, em Brasília, pouco se interessam por segurança pública, exceto na hora de fatiar orçamento para fazer média com os currais eleitorais.

O massacre em Realengo representou, neste caso, apenas uma justificativa torta para que deputados e senadores se aproveitassem da dor alheia e praticassem um discurso vazio, descontextualizado, enquanto disparam – com consciência - no alvo errado pelas razões equivocadas.

O assassinato das crianças cariocas não tem relação alguma com o problema da venda de armas no Brasil, ao menos na proposta da campanha. Mas é um prato suculento para quem pretende desviar a atenção de responsabilidades espinhosas, como a reforma política, e retorcer a exceção como se fosse regra geral.

A campanha do desarmamento raspa na superfície a questão das armas no Brasil. Na última campanha, mais de 220 mil armas foram entregues pelos cidadãos comuns. Houve redução de homicídios? Somente em curto prazo. Sem outros passos, o patamar anterior é novamente retomado. E desarmar a população não explica, de maneira completa, a violência urbana.

A campanha do desarmamento evita, teoricamente, que o sujeito comum cometa crimes pelos quais se arrependerá por muito tempo. A briga de trânsito, a desavença no bar, o dia ruim no trabalho, o entrevero com a mulher. Uma arma nas mãos e a cabeça quente resultam numa combinação explosiva, que destrói vidas, da vítima, do agressor e de familiares.

O problema é que a campanha, isoladamente, é tão estéril quanto se não existisse. Parte das armas volta ao mercado clandestino pelo crime organizado. Outra parte entra, com anuência de muitos agentes do Estado, pelas fronteiras repletas de buracos de vigilância. E o próprio cidadão comum pode adquirir, com os relacionamentos certos, armas de pequeno porte para se defender dos mesmos incidentes cotidianos, no trânsito, no bar ou em casa. Às vezes, com o apoio de quem deveria impedir a transação.

A fiscalização é tão frágil quanto as armas dos policiais que combatem a criminalidade nas cidades brasileiras. O jornal O Estado de São Paulo procurou dez escolas de tiro para verificar as condições prévias para aceitação de alunos. Do total, sete escolas registravam matrículas de menores de idade e não checavam antecedentes criminais.

A soma dos obstáculos reforça a velha mania da classe política de, num tiro só, fugir do debate social profundo e ganhar com a cortina de fumaça. O massacre em Realengo nada tem a ver, diretamente, com segurança nas escolas ou com o comércio de armamentos.

A discussão seria mais proveitosa se os deputados e senadores cobrassem do Poder Executivo políticas duradouras de saúde mental, com os recursos financeiros adequados. Talvez, deste modo, um sujeito diagnosticado com esquizofrenia tivesse o acompanhamento correto e constante, que reduziria as chances de um surto violento concluído com sangue. 

A campanha do desarmamento e a repetição de um plebiscito sobre a proibição do comércio de armas são como balas de festim no campo de batalha. Simulam uma situação, fazem barulho, mas não ferem ninguém. Inúteis, não fazem cócegas nas partes diretamente interessadas – que lucram – com o negócio no país.

As balas de festim recebem, como brinde, a conivência dos coiotes, que esperam com paciência pelo apodrecimento da carniça no meio do deserto. Depois, eles a devoram, lambem os beiços e a fazem desaparecer do horizonte da agenda pública.

terça-feira, 19 de abril de 2011

Gênio ou trabalhador infantil?


O futebol, com seus personagens, me assustou duas vezes na semana passada. Se ainda fossem os lances, a surpresa seria agradável. O problema é que os sustos nasceram do cenário bizarro que rodeia o jogo e o transforma em um negócio sem travas ou limites.
           
O primeiro golpe veio de um dos netos de Pelé, de 12 anos. Não consigo imaginar, neste caso, a dor em ser neto de Pelé. O garoto é parente de alguém que é visto por todos, mas o encontrou uma única vez. Ao decidir jogar bola, elevou a pressão – involuntariamente - ao nível do insuportável.
           
Filho da falecida vereadora Sandra Regina, o menino ganhou, ao lado do irmão de 10 anos, título de nobreza, embora não-oficial. Os dois moleques pagam o alto preço de uma responsabilidade abstrata, sem ensinamentos particulares, com exposição pública constante.
           
Ambos vão deixar Curitiba, onde foram morar depois da morte da mãe, para jogar no São Paulo. O mais velho deles concedeu entrevistas. E o primeiro susto! O garoto dizia que a mudança era importante para sua carreira.
           
Carreira? Aos 12 anos? Na idade em que jogar bola é diversão permanente, símbolo de um mundo lúdico, no qual as cobranças deveriam ser de outra natureza? Nem o avó dele, precoce que foi, chegou perto deste ponto.


O segundo choque aconteceu quando li uma entrevista de Jean Chera, na coluna de Denise Covas, no jornal Boqueirão. O atleta de 15 anos está no Santos desde os nove. Recebe um salário maior do que a maioria esmagadora dos trabalhadores brasileiros. É tratado como o novo Neymar, Robinho ou qualquer outro jogador que esteja no auge no clube.
           
Em determinado momento da conversa, Chera disse que pretendia disputar a Copa do Mundo de 2014 pela seleção brasileira. Minha reação foi matemática. Parei de ler e comecei a fazer contas.
           
O jogador tem 15 anos, certo? Acabou de subir para o sub-17 do Santos. Ainda precisa passar pelo sub-20, treinar com os profissionais, entrar no time principal, se firmar como titular e arrebentar por um ano, no mínimo, para ser convocado. Depois, treinar na seleção, esquentar o banco, tornar-se titular e derrubar os concorrentes diretos, mais velhos e experientes, para entrar na lista final de 23 atletas inscritos no Mundial.
           
O garoto precisa ultrapassar estas etapas em três anos. Estará com 18 anos. Apenas Pelé e Ronaldo percorreram caminho semelhante, com a licença poética da história. Seria pretensão ou declaração de adolescente? Apostaria nos dois aspectos combinados, mas não me parece ser este o problema.
           
Os dois se comportam como se fossem adultos. Falam como adultos. Usam os jargões da vida adulta nas redes sociais, como aconteceu com Chera que se “sentiu desvalorizado” pelo Santos e reclamou publicamente no Twitter. Enfrentam comparações que muitos adultos não suportariam em condições normais.
           
Ambos são vítimas e, como agravante, não foram alertados para tal condição. Correm o risco de queimar fases da vida que não poderão ser retomadas, com a conivência de pessoas próximas. Perderão experiências em troca de outras que talvez não estejam prontos para dimensioná-las.
           
O futebol se transformou em uma engrenagem que tritura pessoas cada vez mais jovens. E as descarta cada vez mais cedo. A adolescência vira um vácuo preenchido por contratos publicitários, assessores, compromissos de marketing, pressão por resultados e metas de trabalho dentro e fora do clube.
           
Vida privada e pública se misturam num período de mudanças e de incertezas. De insegurança e de ansiedade natural. A adolescência se caracteriza pela proteção via grupos sociais, via amizades que parecem ser necessidade vital. A fama por aquilo que ainda não fizeram (e talvez não façam) os isola. A solidão de quem vive cercado de gente.
           
Como esses moleques podem atravessar ilesos este deserto se vivem em bolhas de plástico? Como sobreviver em um mundo no qual um deslize ocupa a primeira página de jornal do dia seguinte? Não há espaço para pequenas rebeldias. Compromissos à revelia determinam o dia de hoje e de amanhã.      
           
As duas declarações indicam personagens mal interpretados, oriundos de uma dramaturgia que sacrifica o ator para benefício do diretor e dos produtores. Os dois repetem discursos que não parecem ser deles, mas a incorporação de valores e clichês repetidos a exaustão por quem deveria protegê-los dos leões.
           
Nenhum ato de transgressão será tolerado. São profissionais, adultos em potencial, bradam os agenciadores. Neymar é um caso em curso de exposição excessiva e de amnésia conveniente daqueles que o julgaram até ontem. Alexandre Pato é outro exemplo, do outro lado do oceano. Muitos jornalistas se referem a ele como veterano. Alguém que não explodiu como deveria, apesar de ter somente 21 anos, mas casado e divorciado pelas páginas das celebridades.


A maturidade de uma atleta de futebol ocorre, na média, aos 27 anos. A estabilidade envolve os aspectos emocional, físico, técnico e tático. No futebol atual, muitos meninos (ex-) prodígio colecionam, aos 27 anos, cicatrizes cirúrgicas, rodaram por vários clubes e, por vezes, são classificados como velhos, como um bagaço espremido de olho na lata de lixo.
           
O Brasil, como fornecedor de matéria-prima no pacto colonial do futebol, poderá incinerar uma geração. O país, antes vendedor de talentos em maturação, hoje fabrica adolescentes para a Europa e outros mercados periféricos. Estes moleques não desabrocham por aqui. Muitos nunca atuaram profissionalmente no país em que nasceram.
           
Os primeiros sinais da infantilização do futebol aparecem como surpresas na lista de convocados para a seleção brasileira. Os rostos são desconhecidos. Nunca apareceram no noticiário local. Mercadorias exportadas antes de completar o processo tradicional de manufatura.
           
Antes, reclamávamos do excesso de estrangeiros na seleção brasileira. Agora, assistimos a refugiados que vestem a camisa amarela. Mais do que estrangeiros, estes atletas se tornaram estranhos. Incompletos lá fora. Anônimos aqui.
           
A ironia desta história é que, se estivessem em outras áreas da economia, os dois garotos talvez servissem de exemplos de exploração de trabalho infantil. Seus responsáveis seriam enquadrados e multados pelo Ministério do Trabalho.
           
No futebol, são pedras preciosas em fase de lapidação. É capaz dos fiscais ainda apertarem as mãos de quem os explora em agradecimento por um gol futuro, vendido como sonho ou promessa de fé vazia.

sexta-feira, 15 de abril de 2011

O atirador desconhecido


O atirador de Realengo, no Rio de Janeiro, provocou uma necessidade inerente à comoção com os assassinatos. Entender o mal e a possível insanidade do agressor se torna obsessão, para que o conforto das respostas nos posicione diante da tragédia. Explicar, neste momento, se constitui em um beco sem saída. Não há como descobrir, por completo, as motivações e o passado do atirador. Rascunhar um desenho psicológico do agressor é o máximo a ser feito. Nada além de arranhar a superfície, com a consciência de que uma resposta satisfatória permanecerá longe do ideal.

Os acontecimentos violentos abrem margem para outra doença social contemporânea: a indústria das especulações. Esta enfermidade se manifesta em quatro passos: 1) fornecer combustível à história. Qualquer elemento periférico vale como foco; 2) gerar novos capítulos a partir destas informações; 3) elevar a dramaticidade (como se o fato em si não fosse dramático o suficiente) e 4) transformar o conjunto da obra numa novela em horário nobre.

Um dos sintomas que permeiam massacres, por exemplo, são os clichês hollywoodianos. Tenta-se, de forma apressada e desencontrada, justificar e diagnosticar o agressor, mesmo que à distância. Qualquer característica comum, em princípio, se torna um traço para compor o perfil do “monstro”.

Menos de 24 horas depois dos assassinatos, era possível ler e ver várias explicações sobre a vida pessoal do atirador. Uma delas remetia à quantidade de horas que ele passava no computador. Jovens urbanos ficam horas na Internet e não é por isso que resolvem executar adolescentes nas escolas. Outra justificativa envolvia o suposto comportamento introvertido do rapaz em sala de aula, anos antes do crime. Alunos quietos e, por vezes, isolados se encaixam no perfil do matador em potencial?

As perguntas mal formuladas conduzem, evidentemente, às respostas rasas. O caso é único, assim como todos os demais que exigem uma avaliação psicológica. A estupidez se traduz por enquadrar o assassino de uma dúzia de pessoas em um manual de roteiro para seriados de TV ou como se a ação dele pudesse ser tão previsível como uma receita de bolo.

O estigma também se estende à religião. A tarefa se simplifica quando se reforçam, sem intervalos, os rótulos sobre aquilo que se desconhece. A ligação com o Islamismo pesa no perfil do atirador. Só falta dizer que ele agiu sob influência de Osama Bin Laden para completar o pacote delirante.

A superficialidade das reflexões não é o que mais me assusta. A perversidade social também reside nos efeitos dela. Quando mais se especula sobre as motivações do atirador, atende-se ao que ele, provavelmente, mais desejava: a eternidade, um lugar na prateleira da História. A publicação da carta é um exemplo do espetáculo em curso.

O mal, nesta lógica, é alçado à condição de monumento, idolatrado por fãs que transformam crimes em entretenimento de final de semana. O atirador foi presenteado com perfis em redes sociais como o Twitter e comunidades no Orkut. Por que memoriais virtuais para conduzir a violência ao glamour? Por que mostrar o corpo dele na TV? Por que expor crianças, que viveram a pior experiência da história delas, a uma bateria de perguntas?  

O distanciamento do calor dos fatos ainda é a melhor arma para se chegar a um olhar mais profundo sobre o caso. É preciso rejeitar e ignorar também as declarações padronizadas de psicólogos e psiquiatras que encaixam qualquer história em suas teorias de boteco, loucos a sorrir diante das câmeras de TV.

O atirador não será, aqui, identificado. Lembrar o nome, como elemento básico da identidade humana, o glorificaria. O anonimato dele é o antídoto contra seus desejos de fama. Mas o assassino não deve ser esquecido. Deve ser estudado para que se melhore a capacidade de análise comportamental.

O atirador já entrou, por ironia, para a História, mesmo que pela porta dos fundos. As vítimas, infelizmente, terão que esperar do lado de fora, enquanto a memória coletiva se encarrega de apagar seus nomes.   

terça-feira, 12 de abril de 2011

Valéria e as mãos que liam o mundo

Nunca acreditei em horóscopos. Não leio colunas sobre Astrologia ou escuto aquelas recomendações de rádios FM sobre como será meu dia. Mas sempre acreditei na colunista deste jornal. Valéria Nader era daquelas pessoas raras, capazes de desconcertar alguém com poucas palavras.
Valéria repetia todos os anos um ritual de desmontagem de alunos novos. Muitos ouviam dizer que a professora lia mãos. Olhavam com desdém para aquela moça, numa cadeira de rodas, que os recebia com um sorriso amável, para compreender a desconfiança que sustenta o medo dos recém-chegados.
Valéria olhava para o rosto da menina, sorria novamente, apanhava as mãos dela e fazia uma série de afirmações. Ou seriam dúvidas semeadas? As feições de quem duvidava desmoronavam a cada conselho, a cada orientação travestida de previsão. Ali, não havia futurologia. Havia uma percepção apurada das necessidades, dos desejos e das aflições que impregnam a humanidade do outro.
Semanas depois, o ritual se concretizava em um novo capítulo. Duas ou três estudantes comentavam, num canto de sala, sobre como as palavras de Valéria funcionaram para elas. Como as previsões se materializavam em fatos cotidianos na vida delas.
O segredo residia na ausência de milagre. Valéria não tinha poderes mágicos. Apenas se interessava pelo outro e entendia com clareza o que precisava ser dito, sem machucar, sem constranger, sem iludir.
O mundo, Deus, o destino, o acaso, sei lá como denominar quem resolveu cobrar um preço pelo dom da professora. O valor que compensava, como um carrasco perverso, a singularidade dela.
Valéria estava presa em si mesma. Ela pagou por um crime que jamais cometeu. Enfrentou um inimigo silencioso, que torturava com a lentidão dos sádicos, que desmontava o oponente em etapas. A esclerose múltipla a fez cumprir uma pena única.
Mas a doença desconhecia a essência de seu adversário. Valéria lutava com a lucidez. Derrotava o inimigo com uma arma que ele não poderia conceber na própria crueldade. A casca a afligia, mas realçava um cérebro pulsante, curioso, uma mente aguçada para interpretar o ambiente e seus habitantes transitórios, sem descanso, sem enrijecer as expressões que marcam quem se vitimiza na dor.
Valéria poderia ter rendido à esclerose, mas preferiu domesticá-la com consciência do final inevitável. Valéria era o domador que entrou na jaula, sem chicote, para segurar o leão faminto. Seria devorada de qualquer modo, mas tentaria convencer o animal a reconsiderar a idéia. Ou dobraria os instintos dele por uns minutos a mais, tempo suficiente para admirar a beleza e a poesia que se reproduziam fora do calabouço.   
A capacidade de ignorar o mal, na medida do possível, se sustentava no prazer de surpreender pela memória do improvável. Valéria guardava detalhes que pessoas comuns jogariam na lata de lixo assim que o diálogo de corredor ou a conversa de elevador morressem.   
Mesmo convivendo com centenas de alunos e muitos colegas na universidade, Valéria era capaz de se lembrar o dia do aniversário de cada um. Mais do que incorporar uma enciclopédia ou soar como um mural de recados de rede social, ela sabia que um simples parabéns ou a lembrança de uma data próxima derrubariam qualquer irritação ou ansiedade da vida acelerada.
Valéria era uma professora rara. Não falo de conteúdos pedagógicos ou especialização de almanaque. Eu a admirava, entre outras particularidades, por rejeitar a arrogância acadêmica ou por não ter prazer em ouvir o som da própria voz, um dos sintomas nocivos dos donos do saber.
Valéria era socrática por natureza. Perguntava quando sabia a resposta. Afirmava em tom de interrogação. Ensinava enquanto aprendia. Sabia a data do meu aniversário e o nome dos meus filhos, por exemplo. Mas sempre perguntava, nas datas de aniversário, inclusive deles, como se chamavam. O tom indicava que era o jeitinho de se aproximar para uma conversa.
O jornal Boqueirão perdeu uma colunista que permeou sua história por dez anos. Agradeço pelo privilégio de conhecer e conviver com a mulher atrás da colunista. Aprender com quem lia o mundo além dos riscos que atravessam as mãos, além dos 12 signos do Zodíaco que nos recomendam o futuro mais próximo.
A dor da perda conduz a obviedade de valorizar os raros. Valorização que as páginas de jornais são limitadas para retratar. Mas a dor, felizmente, não consegue vendar quem acredita que Valéria mudou de endereço para abrir os olhos de outros novatos, inseguros, medrosos e desconfortáveis. Valéria agora está livre. Viverá a liberdade do desconhecido que, definitivamente, fascina os sábios e os poetas.

Observação: Texto publicado, originalmente, na seção Blog News, do jornal Boqueirão (Santos/SP), veículo para o qual Valéria Nader escreveu a coluna Astrologia por 10 anos.

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Uma senhora sábia

Minha avó viajou há dois anos. Não voltou mais. Se fosse uma criança, talvez engolisse a justificativa que mascara a finitude. Como adulto, finjo aceitar a explicação para atordoar a saudade.
A personalidade incomum começava pelo nome incomum. Norvina não é exatamente a última moda nos cartórios ou nas revistas de pais e filhos. E não é único. Outras duas mulheres receberam o mesmo nome, na mesma cidade, no interior de Minas Gerais. E nasceram na mesma época. Talvez uma tendência local; assim, incomum. Ou um instante de criatividade coletiva.           
Dona Norvina foi a pessoa mais sábia que conheci. A sapiência dela não estava nos livros nem nos diplomas que nunca teve. Saber não era arrotar informação de almanaque. Saber era explodir em humanidade. Explosão que significava mastigar, em si, o melhor e pior, sem se martirizar por tal condição.
A profundidade do relacionamento entre nós se sustentou, nas minhas lembranças, pelas sutilezas das pequenas experiências. São os detalhes de rodapé de página que representaram e reforçaram o amor que transitou pela plenitude do enredo. Era ela quem estava na janela quando fui pela primeira vez sozinho ao cinema, aos 10 anos. Não olhei para trás, mas tenho a convicção de que estava lá, como zeladora fiel.
Ela protagonizou, certamente, o jogo de futebol mais rápido da história. Da minha história. Um jogo de futebol de botão, o microclássico entre Santos e Corinthians. Como corintiano e neto, dei a saída. Em três toques, o primeiro chute a gol. Corinthians um a zero. Bola no centro do estrelão.
O Santos daria a saída. O excesso de força da “treinadora”, apresentada ao “esporte” cinco minutos antes, resultou na quebra – ao meio – do camisa 10 da Vila Belmiro. Dei a partida por encerrada e guardei, como relíquia, aquele time eternamente destinado ao desfalque.  
Dona Norvina era uma jornalista honoris causa, ao menos na análise crítica dos telejornais. Minha mãe perguntou a ela porque assistia apenas um telejornal à noite e, após o término, rumava para a cama.
— Por que ver outro jornal? Quem viu um, viu todos!
A serenidade se caracterizava pelo silêncio e pela observação inteligentes, permeada por frases (hoje, soam como citações dignas de serem perpetuadas) diretas, definitivas.
Muitas vezes, me dou conta que repito para minha filha, Mariana, de oito anos, lições nada professorais de Dona Norvina. Quando atravessávamos uma avenida movimentada, ela me alertava:
— Corre que os carros estão fazendo 120!
A velocidade fictícia dos veículos me ajudou a compreender como a senhora foi devorada pela velocidade real e soube dar as costas para ela. Preferiu retornar às origens por perceber que as relações humanas reais, olho no olho, salvam as mais profundas necessidades e desejos de qualquer um.
A sabedoria se tornava discreta pela contaminação da mineirice, que assegurava o humor de quem ditava a brincadeira pelo canto de boca. A brincadeira de quem enganava o neto ao encher uma velha garrafa de Campari com groselha Milani e se divertia com as reações dos adultos, assustados por ouvir de uma criança que a avó incentivava o consumo de bebidas alcoólicas. Em doses diárias, aliás, cheias até a boca em copo de requeijão.
O rosário de “causos” não cabe na palavra escrita, mas traz, no mínimo, um voto de confiança. As pequenas experiências devem indicar um olhar de aprovação do leitor que nos acompanhou neste texto. Os detalhes vão parir identificação e, principalmente, a ideia de que a perda, embora dolorosa, restaura as imagens amareladas pelo tempo que morre e renasce no eterno retorno da convivência. Ainda que imaginativa.

quinta-feira, 7 de abril de 2011

O regulamento dos cegos

Sempre desconfiei das pessoas que seguem e aplicam regras, literalmente, o tempo todo. Nunca refletem sobre regulamentos, por mais que pareçam insanos. Nunca rompem com normas, mesmo que representem atraso e criem dificuldades para si e para outros. São como serviçais domesticados, incapazes de mexer o copo de lugar, ainda que haja risco de que o objeto se espatife no chão.

Os escravos das regras matam a própria sensibilidade, que detecta a beleza única. Jamais tiram as vendas. Se por um acaso da probabilidade resolvem tirá-las e olhar para os lados, são incapazes de notar uma flor que resiste no solo árido.

A eficácia das regras não depende somente dos carrascos que as idolatram, encobertos por máscaras negras, que se eximem de responsabilidades com a justificativa de que cumpriram ordens. Uma regra ganha a dimensão adequada se os atingidos por ela – o que inclui os executores – possuem o mínimo de sensibilidade para entender os estragos que podem provocar quando conduzidas ao pé da letra. 



Pensei na cegueira das regras ao ver a expulsão de Neymar, no jogo contra o Colo Colo, pela Libertadores da América. O atleta do Santos foi expulso porque vestiu uma máscara de si mesmo, entregue pelo colega de clube Robson, que estava fora do campo. Neymar já possuía um cartão amarelo.

Na semana passada, o goleiro do São Paulo, Rogério Ceni, também foi premiado com advertência porque tirou a camisa quando marcou o centésimo gol. E contra o Corinthians, que extinguiu um tabu de quatro anos sem vitórias sobre o adversário. 

Aplicar um cartão amarelo, nestas circunstâncias, é exigir uma frieza impossível para qualquer ser humano que, em condições normais, estaria em êxtase. Como pedir para Neymar, de apenas 19 anos, a racionalidade absoluta depois de marcar um golaço que manteria o Santos vivo na competição? Se, depois do gol, o atacante caminhasse como quem vai à cozinha apanhar um copo d’água, seria caso de internação imediata.

Como exigir do goleiro tricolor a ausência de emoções enquanto vive um instante único na história do esporte? Como pedir a ele que se contivesse no capítulo maior de sua trajetória profissional?

É como punir com perda de pontos o piloto que acaba de vencer uma corrida depois de horas. Imagine se Ayrton Senna fosse punido quando venceu o GP Brasil. Ou Helio Castro Neves, o homem-aranha, ao arrancar o capacete e correr para as grades que o separam do público. 

Regras não são sacras. Existem para demarcar, estabelecer limites e organizar ações em determinado contexto. Regras respondem a espaços e tempos específicos, jamais podem se perpetuar como se não houvesse flexibilidade ou dinâmica nas relações humanas.


Regras, quando transformadas em monumentos dogmáticos, tendem a se tornar mais importantes do que as situações para as quais foram criadas. Regras devem envolver o olhar humano sobre as circunstâncias, antes que substituam o próprio cenário. Se isso acontece, não há razão para mantê-las em vigor. 

Sempre me incomodou ver um jogador de futebol receber cartão amarelo por segurar um adversário ou colocar a mão na bola para conter um ataque. O atleta cometeu falta, conhece a punição pelo anti-jogo, mas não levou adiante a hipótese de um ato mais violento.

Nestes casos, juízes são implacáveis, e muitos até fazem pose para aplicar a pena. A advertência é tratada como caso fechado, enquanto a controvérsia insiste em nascer em episódios de agressão. Quantas vezes assistimos aos árbitros-comentaristas falarem em interpretação quando um jogador dá um carrinho por trás no adversário? Ou quando o agride a ponto de tirá-lo da partida? 

O bom senso de árbitros de futebol desaparece e os cega quando o assunto é comemoração de gols. É necessário dividir a responsabilidade deles com os velhinhos da Fifa, teimosos em acreditar que o futebol não evolui como os demais esportes e filhotes da inércia quando não aceitam que alterar regras é ingrediente fundamental para a dinâmica do esporte. 

Comemorar gols é quase tão importante quanto fazê-los. A catarse exorciza toda a tensão e a expectativa em torno da dança e de seus bailarinos. Punir um atleta porque se empolgou com seu próprio feito, muitas vezes surpreendente ou especial, é matá-lo na sua própria natureza. 

As regras existem para sofrer revisão, de acordo com a evolução do alvo delas mesmas. Concordo que futebol, embora seja caixa de ressonância cultural, não tem que ser palco de manifestações de estímulo à violência ou de atos políticos e religiosos de grupos específicos. A boa intenção não indica que embaixo daquela pele existe exatamente um cordeiro.  

Ignorar que a celebração do gol, em suas variadas formas, é inerente à natureza do futebol significa assumir-se como cego, vestir-se como sujeito neutro quando esta posição não existe. Árbitros tomam decisões por critérios subjetivos e erram pelos mesmos motivos. Por que não fazer vistas grossas para a festa dos jogadores, aproveitando que os velhinhos da Fifa estão mais preocupados se o chá das cinco veio com açúcar ou adoçante? 

Se os juízes assumissem, sem exceções, o argumento da interpretação, talvez o futebol não tivesse que conviver, por segundos, com a insanidade de testemunhar o autor da obra punido, como réu único, por vibrar com a própria genialidade artística.

domingo, 3 de abril de 2011

Sem reino e sem súditos


Dois atacantes retornaram ao Brasil e confirmaram o óbvio. Ex-atletas de seleção brasileira – alguns são ex, mesmo convocados eventualmente - fingem voltar às origens, recebem as honras do bom filho, tem a vida pregressa enterrada, enquanto tentam sobreviver diante da última porta aberta para exercer a profissão. 

Luis Fabiano retornou ao São Paulo. Deverá ter sucesso por aqui, mas há de se lembrar que jamais foi um atleta de ponta no universo europeu. Jogou em equipes médias e, no máximo, foi paquerado por times grandes. Foi o centroavante do técnico Dunga e ocupou uma vaga ainda não preenchida.


O outro representante dos “retornados” é quem me interessa mais. Adriano vai jogar pelo Corinthians em dois meses, quando começar o Campeonato Brasileiro. Será? Dois meses é tempo demais para uma carreira que perdeu o eixo a partir de 2008. O clube está ciente da condição e da fama do jogador e preparou um contrato de risco e por produtividade, embora a direção mantivesse a pose de pavão na festa de apresentação do atacante.

Adriano é um daqueles personagens que poderiam ter sido muito mais. Poderia ter sido o sucessor de Ronaldo, mas talvez tenha sido superestimado. Adriano é um atacante de força, dependente da condição física, o que exige uma vida quase espartana. O jogador rumou para o ponto oposto. Naturalmente, perdeu rendimento e sucessivos empregos.

O Corinthians, ao utilizar Ronaldo para servir de anfitrião do Imperador, tenta acertar dois alvos com um cheque apenas. A direção do clube é a dona do cassino, onde tem tudo a ganhar e, mesmo se perder dinheiro, poderá se colocar na condição de mais uma vítima da instabilidade do jogador. Ser vítima é sempre mais confortável. 


Com esta decisão, o clube busca também clarear a imagem de Ronaldo, manchada pela derrota na Libertadores e pela aposentadoria antecipada, e recuperar a de Adriano, que poderá ser eleito o pior estrangeiro da temporada italiana. Nove jogos pela Roma e jejum de gols. Quase demissão por justa causa.  

As chances de a estratégia dar certo são grandes. Ronaldo terá também uma festa de despedida e o time melhorou depois da eliminação para o Tolima. Se vencer o Campeonato Paulista, o Corinthians amenizará o grau de responsabilidade do ex-jogador. No caso de Adriano, jogar no Brasil é bem mais tranqüilo do que atuar nos principais centros da Europa.

Apesar dos ufanistas praticarem o auto-engano (ou a bajulação, no caso dos jornalistas de arquibancada) quando afirmam que o campeonato nacional é o mais difícil do mundo, esquecem-se de que ainda somos um mercado periférico e que a seleção brasileira continua estruturada a partir do que temos de melhor no Velho Continente. O raciocínio dos patriotas tem lógica, mas pelas razões erradas. O equilíbrio acontece porque o baixo nível é generalizado. 


Adriano é desnecessário para o Corinthians. Liédson resolveu os problemas do ataque e a própria aposentadoria de Ronaldo rearranjou o modo de jogar da equipe. Liédson toparia ser coadjuvante do novo companheiro? E vice-versa?

Adriano ficaria no banco de reservas, caso Jorge Henrique e Dentinho tivessem melhor rendimento? Ou abandonaria o clube no meio do contrato? Para bom entendedor, as meias palavras recentes indicam que Adriano vai jogar, inclusive em condições duvidosas.

Por que o jogador não ficou mais de seis meses no São Paulo? Por que não suportou jogar mais do que uma temporada no Flamengo? Aliás, por que não retornou à casa onde nasceu?

Quando um jogador gera mais dúvidas do que certezas, o futuro não se desenha com linhas fortes. A instabilidade dele ajuda a entender porque seu contrato com o Corinthians expira no final do próximo ano.

Ninguém (torcida, dirigentes, imprensa) confia no atacante, mas tem esperanças de contar com lampejos do imperador no restante da temporada. Parece-me pouco – para ambos os lados – em se tratando de alguém que recebeu um título imperial da Internazionale, de Milão.


O que me entristece é ver alguém talentoso afogar seu dom no próximo copo de cerveja, na próxima noitada, nas ameaças de quem se julga incompreendido. Adriano poderia ter sido o centroavante do Brasil no último Mundial. Tinha, nos pés, a capacidade de estraçalhar defesas, sem olhar a cor da camisa.

Serviu de coadjuvante em 2006, como preparação para arrebentar no Mundial seguinte. Hoje, não integra a mais otimista das listas de convocáveis. Sequer foi disputado à tapa quando anunciou o retorno ao Brasil.

O Corinthians resolveu dar mais uma chance ao ex-imperador. Aos 30 anos, Adriano deve saber que os convites, a partir de agora, começam a ficar mais raros. Se jogar o Corinthians no lixo, restarão as lembranças de quem teve a coroa e o cetro nas mãos. E a certeza de que o clube contratou, além do imperador deposto, um ex-jogador. 

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Gilberto, os surdos e o mudo

 
Gilberto Mendes é um homem abençoado. Jamais diria que o talento dele se deve à obra divina, até porque concordo com a visão do próprio maestro, de que arte carrega consigo trabalho e certa dose de disciplina. Ele obteve, ao contrário de outros artistas também diferenciados, respeito, admiração, reconhecimento e homenagens em vida.

A ironia é que a fama precede o homem e sua obra. É de bom tom cultuar o maestro. Dá status posar para as câmeras ao lado dele. Mas a grosseria é inversamente proporcional quando se ignoram suas músicas e seus escritos. Falar com Gilberto em público, tudo bem. Ouvir o que ele tem a dizer, não necessariamente.

Talvez Gilberto Mendes esteja acostumado. Nada diferente do relacionamento com políticos, que viraram as costas várias vezes para o Festival de Música Nova, como se produção artística se limitasse às prateleiras de supermercado. Um ex-prefeito teria dito que era mais vantajoso investir em música sertaneja, como se o maestro não pudesse coexistir com Chitãozinho e Xororó no mesmo universo cultural e geográfico.

Conversei com Gilberto somente uma vez. Na verdade, foi uma entrevista por causa da morte de Tom Jobim. A proposta era ouvir músicos importantes, que pudessem aprofundar as contribuições do colega carioca.

Gilberto Mendes me recebeu em sua casa, no meio da tarde. Como jornalista em início de carreira, reconheço que não havia desenhado a dimensão exata do interlocutor. Mal o conhecia, mas estava disposto a ouvi-lo, com o respeito que qualquer entrevistado merece.

A obviedade de hoje me impressionou naquelas circunstâncias. O maestro falava com propriedade, sem afetação. A serenidade das palavras indicava a sapiência de quem é capaz de duvidar de si mesmo. Ele jamais defendeu a erudição como meio de separar ou excluir, marca de muitos intelectuais afogados na própria presunção.

Tornei-me admirador de seu pensamento cultural, mais do que fingir idolatrar sua música. Prefiro ler seus textos, consciente de que o olhar transparece e atravessa as partituras. Talvez isso ocorra por ignorância minha ou por preferência pessoal, o que não me soa pertinente investigar agora.

A admiração transformou-se em distanciamento. Esta metamorfose me levou ao silêncio e à observação. Já encontrei com Gilberto Mendes em livrarias, teatros, exposições e cinemas. Encontrar tem pitada de exagero, pois nunca me apresentei ou tive intenção de me aproximar com conversas de antesala. Dialogo com o maestro pela palavras dele, pelos ensinamentos impressos de quem compartilha a relação visceral com a arte e com a cultura.

Vi o maestro pela última vez há um mês e meio, na Pinacoteca Benedito Calixto, em Santos. Gilberto sentou na primeira fila para ouvir o médico e escritor Edson Amâncio. Fiquei em pé a maior parte do tempo na parede do fundo, distância mais do que segura para perpetuar o silêncio.

Quando pediu a palavra, o maestro jamais falou de si mesmo. Estava ali para debater e construir ideias, sem propagandear seus feitos como se subisse em um caixote em praça pública. Infelizmente, muitos não desejavam ouvi-lo, embriagados pelo som da própria voz, que expelia um clichê qualquer.

O maestro insistia que os artistas eram súditos da disciplina e do trabalho, mas – acima de tudo – se comportavam como observadores atentos do outro e dos detalhes do cenário. Sufocado por outras vozes, ele deu a impressão de que a saída era escutar aquele coro e encurtar os argumentos.

Decidi ir embora. A lição salvara aquela tarde irregular. Brotaram dúvidas. As perguntas se multiplicaram. A certeza é que continuarei com as leituras dos escritos de Gilberto Mendes, já que muitas respostas virão em doses homeopáticas nas páginas de jornal. Ou em um sábado na Pinacoteca.