quinta-feira, 10 de março de 2011

O telefonema para Moacyr


A morte aguça lembranças. Ressuscita, na sua própria ironia de apagar rastros, episódios que os sobreviventes julgavam enterrados. Lembranças que também nasceram para o escuro. Memórias, sempre editadas em busca da imagem límpida, que vão se esfacelar com o desfecho. Uma imagem em vias de ser desconstruída no mesmo ritmo em que as flores desaparecem como homenagens.
A morte do escritor gaúcho Moacyr Scliar abriu a gaveta para uma história que estava destinada ao rodapé da minha própria biografia. Um encontro que saltou para a capa do meu almanaque de experiências, assim que dividi o assunto com um colega igualmente apaixonado por livros, o jornalista Marcio Calafiori.  
Era um jornalista recém-formado, na última década no século passado. Trabalhava na imprensa há alguns anos, quase todo o tempo em emissoras de TV. Dois amigos, Alessandro Padin e Fabio Tatsubô, me convidaram para escrever em um jornal de São Vicente, no litoral de São Paulo.
O jornal se chamava O Emissário e seria uma daquelas lacunas profissionais que te marcam com ferro em brasa. Jornalismo sem maiores preocupações comerciais. Jornalismo com liberdade para escolher assuntos, entrevistados e formas de escrever. Jornalismo feito com bolsos vazios, com a ansiedade de assegurar a próxima edição. Jornalismo de laboratório, para experimentar e ignorar os riscos de explosão.
Ganhei uma página sobre livros. Podia publicar resenhas, críticas ou entrevistar escritores. Na prática, fazia o que bem entendia, desde que cumprisse o prazo de entrega do material. O resto era esticar o braço e receber uma injeção de idealismo.

Estava impressionado com Scliar. Como leitor, vivia uma etapa de leituras frenéticas, compulsivas em quantidade. O leitor darwiniano, em seleção natural das espécies literárias. Se deixassem, lia até bula de remédio, como dizia um velho professor. Naquela fase, descobria escritores brasileiros contemporâneos, o que remediava um casamento mal sucedido com autores clássicos do período pré-vestibular.
É um crime – com José de Alencar e com um jovem de 16 anos – exigir que tal adolescente leia e interprete com profundidade O Guarani. A obrigação – mais os resumos fast-food dos cursinhos – afastam pretendentes e também adiam encontros amorosos com Machado de Assis, Carlos Drummond de Andrade e outros autores brasileiros. Para todo autor, existe um leitor adequado, que vive um inferno particular. Desrespeitar o tempo do leitor é assassinar quem tenta conquistá-lo.
Aos 20 e poucos anos, conhecia Moacyr Scliar de leituras recentes. Como jornalista, resolvi que deveria entrevistá-lo. Ofereci o assunto aos editores do jornal, que apenas acenaram com a autorização de praxe. Do tipo “toca o barco, porra”.
Não me lembro exatamente com quem conversei, mas arranjei o telefone da casa dele, em Porto Alegre. Desconfio até hoje que consegui o número via consulta telefônica na Telesp. O velho 102.
Fiz o interurbano sem confiança. Imaginava que ele não estivesse em casa. Como médico sanitarista, poderia estar no hospital a trabalho. Ou em viagem por conta de compromissos literários. Era meio de tarde. Se estivesse em casa, talvez não atendesse um jornalista. Por que falaria com um moleque de um jornal minúsculo de outra região do Brasil?
A empregada atendeu o telefonema. Perguntei se ele estava em casa. Ela confirmou que sim. Perguntei, tenso, se poderia conversar com ele. A empregada apenas disse:
— Um minutinho!
Em menos de um minuto, um alô de sotaque carregado, bem cantado, ocupou o outro lado da linha. Perguntou meu nome. Como repórter, agi como tal. Dei meu nome mais o nome do jornal. Scliar encerrou o mini-interrogatório com o nome da cidade em que eu estava.
Daí em diante, uma conversa agradável que durou mais de meia hora. Respondeu a todas as dúvidas, elementares ou não. Não fugiu das perguntas pretensiosas de quem desejava demarcar território ou esbanjar conhecimento do alto da inexperiência.
Tinha uma página de jornal no bloco de notas. Da maneira mais tranqüila e serena. Da maneira que eu desejava. Sem assessores, problemas de agenda ou ataques de estrelismo e arrogância do entrevistado. Moacyr Scliar me atendeu com a mesma calma de quem realizava um consulta médica, imagino eu.

O jornal O Emissário publicou a entrevista, a mais importante que fiz para aquela publicação. O Emissário, infelizmente, morreu meses depois, seco nas finanças, mas com as honras de quem exercitou jornalismo como instrumento de valorização da cultura.
Tenho certeza absoluta de que, para Scliar, foi apenas mais uma conversa, sepultada na vala comum da memória tempos depois, talvez no mesmo dia. Para mim, a preciosidade restaurada numa mesa de conversa, que me carimbou como repórter.
A conversa-entrevista me transformou no leitor que passara a acompanhar – com fidelidade - a trajetória do escritor gaúcho por seus livros ou pela página dois do Caderno Cotidiano, em A Folha de S.Paulo. Nunca mais telefonei para ele. Moacyr me deixara satisfeito o suficiente para jamais cogitar a hipótese de incomodá-lo outra vez, em Porto Alegre.

Um comentário:

Alessandro José Padin disse...

Ainda tenho todas as edições do Emissário guardadas. Boa Lembrança. Abraço!