segunda-feira, 14 de março de 2011

A mulher violentada


Homenagens refrescam as relações, servem como reconhecimento e até lustram o ego. Mas homenagens também funcionam como capas, que escondem obstáculos e adiam o contato com eles. São potenciais alimentos para a ausência de crítica ou para assegurar a permanência de um estado de coisas desagradável para quem recebeu louros, placas comemorativas ou tapas nas costas, menos violentos no instante da celebração.

O Dia Internacional da Mulher indica avanços, mas não são a garantia de que tudo está bem. Muitos se aproveitam para, em ato de violência sutil, questionar as condições de igualdade e exigir contrapartidas. Nenhuma mulher, em sã consciência, deseja cenários de igualdade. Mulheres desejam respeito às diferenças, a morte do preconceito de gênero e oportunidades semelhantes para o exercício de suas vidas, com o olhar feminino sobre elas.

Poderia me agarrar às estatísticas para defender quanto estamos distantes de respeitar as mulheres. Recuso-me a transformar dramas em números. Não vou incorporar a frieza de uma pilha de boletins de ocorrência para minimizar o comportamento animalesco ou para desumanizar vítimas.

Mulheres são violentadas o tempo todo. A tortura física e psicológica é ininterrupta, com intervalos para troca de métodos. Os carrascos mudam de endereço, de status, de parentesco e de instrumentos cortantes. O tipo de agressão também varia, do preconceito descompromissado ao estupro numa esquina escura. Do olhar lascivo no trabalho ao marido que desconta sua mediocridade na sparring mais próxima. Do colega melindrado às próprias mulheres – travestidas de homens – tão machistas quanto eles.


O Dia Internacional da Mulher existirá até o momento em que as questões femininas se tornem supérfluas. Hoje, são urgentes. São gritos emergenciais de uma sociedade que se esforça para esmagar o diferente, como se carregasse na testa o carimbo da inferioridade, ao mesmo tempo em que se constitui em ameaça para os covardes dominadores.

As mulheres não devem ser lembradas no dia 8 de março. Elas devem exigir atitudes, clamar por mudanças. A lembrança contenta os paralisados e fortifica quem ocupa o controle. Lembrar alivia as dores, mas protela sem apagar o próximo conflito, a próxima violação de dignidade.

Mais do que comprar uma flor ou dar um beijo de circunstância, os homens devem se recusar a compreendê-las ou moldá-las a sua imagem e semelhança. As mulheres não pediram ou deliraram com tamanha violência. Ninguém almeja ser nulo. Devemos, sim, respeitar o espaço e o tempo delas.

O Dia Internacional da Mulher não merece a maldição das exceções. Mulheres poderão sorrir e abandonar a esperança da continuidade do dia 8 de março quando homens – e mulheres cúmplices – rasgarem a escritura de propriedade. Homens violentam companheiras, amigas, parentes e desconhecidas porque se julgam donos de suas vítimas, como pedaços de carne que poderiam comprar em qualquer açougue ou supermercado.

O selvagem que empilha corpos e distribui hematomas é incapaz de diferenciar o que ele vê na TV, por exemplo, de quem divide a cama, a casa, o trabalho ou uma simples calçada com ele. A exploração de corpos femininos, catalogados como se formassem um pomar, pode dar a sensação de que basta esticar o braço e apanhar a fruta para obter o prazer desejado. O jogo de ilusões somente reforça os valores dos frágeis sujeitos, crentes de que violar o outro não significa violar a própria humanidade.

O Dia Internacional da Mulher tem que sobreviver como bandeira de emergência social. Em 8 de março, multipliquei o desejo afetuoso de parabéns. Mas acredito que, para muitas deles, bastaria que seguissem em paz.

8 comentários:

Renato SIlvestre disse...

Belíssimo texto Marcão. Parabéns, diz tudo o que deve ser dito, direto ao ponto. Um viva às diferenças e as mulheres, que merecem muito mais amor e respeito do que têm atualmente.

Beth Soares disse...

É uma pena que textos como este, assim como pessoas que pensem como você, sejam tão raros. Parabéns pela coragem de dizer tantas verdades e pela sensibilidade, que te deixa bem próximo de desvendar o grande mistério que é a alma feminina.

Um beijo!

Cahe´s blog disse...

Que o texto é bom, nem preciso comentar - isto é inerente ao Marcão.

Pausa para lembrar do preconceito racial contra os negros.
Creio que há certa semelhança entre negros e mulheres no quesito respeito e merecimento em ser alguém.
O problema é que hoje em dia o preconceito racial (étnico na verdade) está tomando formas diferentes, com os afrodescendentes acabando por tornarem-se mais preconceituosos que os ditos brancos.
Parece que o antirracismo está passando a ser um racismo invertido, com o negro não suportando o branco.
Que as mulheres consigam seu lugar ao sol, sejam respeitadas como merecem e passem a viver juntas com o homem e não digladiando com dele.

ABAIXO A BURCA!

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VERA MORAES disse...

Lindo texto. Ainda mais sendo de autor e não autora. Porém, sonho com o dia em que a data comemorativa seja coisa do passado. Utopia? Grande bj Marcão

Marcus Vinicius Batista disse...

Renato e Beth, agradeço imensamente pela leitura e pelos comentários. O texto é apenas um singelo olhar sobre um problema muito mais profundo e doloroso. Grande abraço!!

Marcus Vinicius Batista disse...

Cahe, fico contente em perceber que o texto provocou outras reflexões. Mas me permita discordar. Não consigo enxergar este "racismo invertido". Até porque a prática discriminatória envolve relações de poder. E o poder nas instituições, por essa perspectiva, ainda é branco. Grande abraço, meu amigo!

Marcus Vinicius Batista disse...

Vera, não sei se seria uma utopia a morte da data comemorativa. Mas, infelizmente, não consigo visualizar este falecimento a curto prazo. Houve avanços, mas os processos são normalmente lentos, sem a possibilidade de previsão de tempo de mudança. Muito obrigado pela leitura! Beijo!

Cahe´s blog disse...

Marcão,
Eu sinto esse racismo invertido no comportamento entre os iguais.
O dia a dia na rua e não no âmbito do poder.
No poder tende a piorar: lembra-se da afirmação “não é racismo quando um negro se insurge contra um branco”, feita pela ministra Matilde Ribeiro, da Secretaria Especial de Política e Promoção da Igualdade Racial?

O racismo é algo de mão dupla.

Abraço,
Carlos Freire
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