terça-feira, 8 de março de 2011

Alma feminina, um débito insensato


Esqueci o autor, mas não o elogio. O melhor que recebi por um texto era terno, direto, de reconhecimento imediato. Chocou-me com cinco palavras:

— Você escreve com alma feminina!
            
 A paralisia não aconteceu pela ofensa. Sem que eu soubesse, fui atingido por um disparo certeiro, mas sem premeditação. O atirador, que quis somente me agradar, talvez não tivesse plena consciência de onde ficava a bolinha vermelha do alvo. Ignorava o impacto de tamanha generosidade.


Nem eu sabia! Jamais imaginaria que a alma feminina seria minha busca como autor. Jamais perceberia que a expressão “alma feminina” traria consigo uma série de qualidades inerentes à criatividade humana. Simbolizava a humanidade em nível estratosférico.

Alma feminina remete à sensibilidade, se veste de serenidade, incorpora acolhimento, observação e percepção única do mundo. As mulheres acolhem melhor, protegem como doação e se sacrificam quando sentimentos e emoções são postos à mesa, sejam circunstâncias rotineiras ou crise com perspectivas insolúveis.

O elogio me levou a constatar o óbvio, como qualquer homem inundado pelas próprias fraquezas. Estou cercado por mulheres. O lado bom da visão tardia é a chance (persistente em se fazer ouvir) de compartilhar a graça recebida. Estou rodeado por elas talvez pelas minhas escolhas, provavelmente pelas respostas nos relacionamentos que me levam a renovar o fôlego dos encontros e a minimizar os equívocos, algumas vezes adiados.

Mais do que as presenças redundantes de mãe, irmã, filha, namorada, as mulheres estão a meu lado na maior parte de minha existência. Escolhi profissões dominadas por elas. Convivi com grupos de jornalistas compostos por mulheres na totalidade. Olhares peculiares sobre os fatos, os personagens e suas histórias. Ensinaram-me a enxergar com os olhos, sem se dar conta de que o faziam. Por ranços culturais, o único homem era o chefe, atual testemunha destas linhas escritas.

Dou aulas em cursos onde elas controlam o espaço e reagem com mais competência, via de regra. Os dois últimos cursos em que me matriculei são pilotados por elas. O domínio e o controle acontecem como se fossem processos naturais, sem que o cerco ocorra pela força. A persistência é muda, quando esbravejam para demarcar território. Não há cerceamento. Há envolvimento. Não há truculência. Há diálogo.

Conviver com mulheres ajudou-me a entendê-las? A frágil sensação de maturidade me empurrou para o inevitável. Desisti de tentar! A curiosidade não morreu; apenas entrou em período de hibernação depois de compreender que a sabedoria freudiana seria útil. Foi uma das poucas decisões sensatas que tomei na vida. A aura de mistério que esconde e toca a feminilidade é o combustível que nos aproxima delas. Pelo cheiro. Pelo olhar. Pelos jogos de sedução. Pela afetividade.

Mulheres são instáveis? A contradição é inerente à condição feminina? Não tenho a mais vaga ideia do que seja “condição feminina”. Presunção de quem tenta defini-la ou enquadrá-la em rótulo. 


A expressão, utilizada de maneira vã, só reforça o argumento masculino de que elas são instáveis e contraditórias. Para compensar, é vital reconhecer que tais características também sobrevivem escondidas na virilidade de cristal dos homens.

Talvez as mulheres exponham com maior risco sua instabilidade, seus paradoxos, suas idas e vindas. Os homens, cegos e surdos pela falsa imagem de força, fracassam ao mascarar o que julgam como defeito. Padecem de burrice ao quadrado, pois não visualizam como defeito a virtude e insistem em fazer birra para admitir isso, como criança mimada na frente dos pais em corredor de supermercado.

Uma amiga sempre me diz que prefere construir amizade com homens. As mulheres, para ela, são chatas, melindradas e competitivas. Uma visão aceitável. Trata-se de uma mulher falando de outras, adversárias ou não. Quando isso acontece, mantenho a segurança do silêncio. Concordar ou discordar me conduzem à mesma encruzilhada. Provoco uma reação corporativista, de 180 graus.

— Quem disse isso? As mulheres são muito melhores.

Aprendi que o desfecho sempre resultará na minha derrota. Perco porque concordo com a competitividade particular das mulheres. Homens também concorrem entre si. Talvez a diferença resida em reconhecer a agressividade da competição.

Perco também se aguço o espírito de corpo das mulheres. Elas continuam cobertas de razão. Elas são melhores, sem o sentido de que melhores estabelecem, no outro lado, os piores. Estes, claro, seriam os homens. A comparação é tão burra quanto crer na onipotência masculina.

Mulheres são melhores no sentido de excelência. Capacidade de nos ensinar. Competência em nos amar. Eficiência em nos entender e nos apontar o quanto cultuamos a idiotice. Talvez pequem por recitar a mesma lição várias vezes. Homens não escutam. Absorvem por acerto e erro, se é que ali brotou um erro, e não um deslize, termos distantes na visão masculina.

Apenas um ponto me incomoda a esta altura. Deveria ter escrito sobre elas antes. Sinto-me, de certa forma, como se pagasse uma dívida por obrigação, uma prestação em loja de departamentos ao escrever sobre as mulheres numa data comemorativa. Talvez seja pelo fato de que datas assim só existem para os dominados. Talvez porque pressuponha que um dia de exceção confirma o controle do outro no restante do ano.

Peço desculpas pelo pessimismo, por eventuais injustiças ou por não fazer jus ao elogio. Jamais pediria clemência pela dívida com vocês, mulheres. O débito é de longo prazo e auto-renovável, não importam as oscilações da economia, a taxa de juros ou a variação de humor do credor, ainda que ele sofra (e me persiga), mensalmente, por causa da TPM.

4 comentários:

Beth Soares disse...

Obrigada pelo maravilhoso texto! Espero que a TPM te persiga menos, de agora em diante! (risos)

Grande beijo!

Cahe´s blog disse...

Nosso mundão hoje pode estar melhor porque as mulheres sobressaem-se mais - acabou a era do machismo e da dependência subalterna antes imposta e elas.
Pensar com o coração pode trazer resultados melhores que pensar com a razão, mas sem passionalidades.
Querendo ou não, elas sempre foram nossos oráculos, seres superiores que nos conduziram de alguma forma para que não perecêssemos cedo.
Deram-nos cordas para nos enforcarmos e, espere e verão, vão dominar e melhorar este planeta.

Glória a vós, Mulheres... e que Deus nos proteja.

Rackel de Deus disse...

Belíssimo texto! Obrigada pela prazerosa leitura, que me fez sentir mais saudades das suas aulas.

Beijo Grande!

Marcus Vinicius Batista disse...

Rackel, Obrigado pela leitura. Apareça quando quiser. Beijo.