sexta-feira, 4 de março de 2011

Alienígenas pegam ônibus?

Os políticos, quando querem demonstrar preocupação sem resolver problemas, apresentam projetos de lei. Descontando exceções, os projetos de lei costumam integrar o pacote “jogar para a torcida”, que inclui a promoção de audiências e a criação de comissões. O Poder Legislativo é o reino das gavetas. Nestes lugares, há espaços de sobra para abrigar projetos de lei que nasceram condenados ao papel. São filhotes que, de caso pensado ou não, morrem antes de colocar a cabeça para fora do ovo.  

Vereadores, deputados e senadores adoram enquadrar o mundo em leis. É um vício cultural que parece inerente ao Poder Legislativo, mas não tem origem na política, e sim na vida cotidiana. Basta encostar a barriga no balcão de qualquer padaria ou se sentar em um boteco para ouvir alguém defendendo novas leis para a solução de velhos problemas. Como se papel jurídico, necessariamente, alterasse mentalidades e valores.
Dois projetos de lei servem como exemplos de ideias que nasceram para testemunhar o próprio velório. Após reportagens sobre os privilégios parlamentares, políticos e jornalistas ressuscitaram o projeto do senador Cristovam Buarque, que determina que políticos com mandato sejam obrigados a matricular seus filhos em escolas públicas.
Não estranhe, leitor. A associação entre benefícios parlamentares e escola pública é esquizofrênica mesmo. O que talvez mereça reflexão é o cinismo que se esconde por trás da proposta. Vamos supor que, num delírio coletivo, o projeto seja aprovado e entre em vigor. É de um simplismo infantil acreditar que a matrícula dos filhos em escolas públicas mudaria o pensamento dos políticos sobre educação.
A escola ficaria melhor? Talvez as premiadas com a presença dos filhinhos de papai. Segurança particular. Doação de recursos. Miçangas que jamais alterariam a cafonice da roupa. A estrutura – dá para apostar – seguiria intocável. O fato é que políticos não aprendem por exemplos. Políticos aprendem por resultados ou quando a faca eleitoral encosta no pescoço. “O que posso ganhar? O que posso perder se me comprometer com esta ideia?”   
Em Santos, temos um exemplo recente sobre um projeto de lei que nasceu com destino traçado: as gavetas das comissões da Câmara Municipal. O vereador Valdir NaHora (PSB) apresentou um projeto que proíbe passageiros de viajar em pé no transporte coletivo.

O projeto ganhou visibilidade por causa do aumento médio de 7% no preço das passagens. Mesmo que seja bem intencionada, a ideia é estéril. A proposta do vereador – da bancada do governo - não é realidade nos melhores sistemas de transporte do planeta. Até porque a questão não é essa. Como disse uma amiga, ao conhecer a proposta:
— Coitados de nós! Vamos esperar dias por um ônibus.
Ainda bem que o projeto não tirou o foco do reajuste nas passagens. Na Baixada Santista, são quase 200 mil passageiros por mês. Ônibus enormes em vias estagnadas. Um modelo de transporte cada vez mais individualizado, que privilegia carros e motocicletas. Tarifas, na proporção, extorsivas. Os vereadores de Santos nunca entraram em conflito com a Prefeitura para alterar o sistema vigente. Todos se acovardaram diante das empresas de ônibus.
Este projeto engrossará a lista dos natimortos. Mas permitirá ao vereador demarcar território, impor uma postura ou simplesmente ir de garupa num tema atual e fazer média com grupos eleitorais e colegas de bancada. Vencem as soluções mirabolantes como programas de caronas e corredores de ônibus, enquanto encaramos um aperitivo da vida paulistana.   
Os parlamentares colecionam chances perdidas. Não debatem questões públicas de maneira aguda, com planejamento, diálogo com sociedade civil e costura com o Poder Público. Talvez eu esteja enganado por crer que política representa sinônimo de coisa pública. Na lógica de raciocínio de muitos profissionais da política, debate público jamais seria oportunidade. Para enxergar assim, eles teriam que engolir uma pílula de consciência coletiva.  

2 comentários:

Cahe´s blog disse...

Como na minha modesta opinião, de cada três políticos, quatro não prestam, ou melhor, só olham para o próprio umbigo, sinto que a coisa pública só é defendida a favor do povo se o resultado final for favorável ao bolso ou às intenções políticas de futura candidatura do parlamentar.
O importante é apresentar projetos, mesmo os nati-mortos, assim o nome é lembrado.
Vale lembrar Ataulfo Alves: falem mal, mas falem de mim.

Abraços,
Cahe is a Blogger

Marcelo poeta disse...

Caro Marcão no primeiro sábado antes do carnaval fui curtir o carnabonde, uma decepção além de uma guerra de espumas transformou uma brincadeira em frenesi e falta de educação dos foliões o pior foi o prefeito Papa aclamando o carnaval de Santos como o melhor e mais familiar do estado, a revolta me bateu nas veias contra os aumento da passagem no transporte urbano e todos desabrigados em enchentes e incêndios oficiais quando fui cercado por guardas municipais pedindo para eu dispersar saí fora não vou ser um soldado de exército só,mas fica meu protesto e acho que nossos políticos e seus filhos e mulheres deveriam estudar e se servir do transporte público viva liberdade de expressão.