segunda-feira, 28 de março de 2011

Ceni e a moça abandonada

O atacante Fernandinho deitado perto da área do Corinthians, aos oito minutos do segundo tempo, acendeu o sinal de alerta. Era o lugar perfeito para o goleiro Rogério Ceni, do São Paulo, cobrar uma falta. Lado esquerdo da área, que exige um batedor destro. Três metros da linha, que coloca a barreira dentro da grande área.
Quando vi Ceni correndo em direção à bola, torci pela primeira vez na vida contra o goleiro. Como corintiano, sempre admirei Rogério por representar uma linhagem de líderes de luvas, que se perdeu em meu time depois da saída de Ronaldo. Como corintiano, percebi que o cenário estava desenhado para se estabelecer marcas históricas, para criar mais um estigma contra meu clube de coração.
Rogério poderia fechar o gol, o São Paulo poderia quebrar o tabu, mas jamais marcar o centésimo gol de sua carreira, ontem à tarde, em Barueri. Que ficasse para a rodada seguinte ou contra qualquer time pequeno do interior. Em clássico, o ferro em brasa arde mais e deixa cicatrizes mais profundas.

A ironia é que me senti penalizado por Julio Cesar por poucos segundos. Ao ver Ceni tirar a camisa e comemorar como um juvenil, minha admiração pelo goleiro do São Paulo não só foi reforçada, como cresceu. Jogadores como ele estão em vias de extinção, aparecem em todas as listas de preservação ambiental do esporte.
Dizer que Rogério Ceni merece ser lembrado pelos gols e por jogar bem com os pés é de um reducionismo infantil. São particularidades que o diferenciam, mas o goleiro conseguiu jogar duas décadas em alto nível, o que o colocaria em qualquer prateleira de craques da posição. Ceni sabe que é diferente, mas jamais se acomodou na arrogância que enterra os jogadores-celebridades. A disciplina mantém o jogador em atividade sem depender de misericórdia do clube ou do nome para ser titular.
Rogério esteve em duas Copas do Mundo. Pagou o preço da injustiça da história. Nasceu na época errada, com muitos craques de estrada curta na seleção brasileira. Começou quando Taffarel era absoluto. E alcançou a maturidade com Marcos em pleno processo de canonização e Dida como um dos melhores goleiros do planeta. Mas isso não invalida ou minimiza a qualidade do trabalho de Ceni.
O goleiro prima por qualidades específicas da posição. Domina os fundamentos básicos e os aplica em conjunto, o que o permite jogar com regularidade. Além de ser mestre na reposição de bola, que mescla precisão e velocidade, ele entende que o goleiro é um corpo inteiro, e não somente duas mãos protegidas por luvas.
Como os grandes goleiros, Ceni defende com os pés, joelhos e outras partes do corpo, sinais de quem tem consciência de que posicionamento é quase tudo. Isso faz com que não seja um goleiro-voador, espécie comum em saltar para defender qualquer bola, mesmo que esteja em cima do goleiro.
Ceni também jamais poderá ser tachado de “mão-de-pau”, expressão que define os goleiros rebatedores. Santos e Corinthians tiveram profissionais deste tipo em um passado recente. Goleiros que soltam todas as bolas e mascaram este defeito com saltos circenses sem sair do lugar. Enganam somente os leigos, que os consideram elásticos ou ágeis.
O goleiro do São Paulo apresenta outra qualidade que deveria ser inerente à posição. O goleiro é o único sujeito que tem o privilégio de ver a dinâmica do jogo por inteiro, por não estar diretamente envolvido nela. Este distanciamento dá a ele a obrigação de ser sábio na orientação dos zagueiros, laterais e volantes e reconhecer as variações táticas de uma partida.
O goleiro, com esta visão, é a extensão do técnico dentro do campo. Muitos dos arqueiros viram capitães e se transformam em bons técnicos após a aposentadoria. Mas isso implica em liderança e senso de coletividade. Ceni comanda defesas, o que é muito diferente da postura de goleiros escandalosos, que se resumem em berrar e deixar seus defensores mais nervosos.
A liderança de um goleiro é comprovada pela capacidade – dentro das tensões de uma partida e do pouco tempo para a tomada de decisões – de apontar as deficiências, expor possíveis soluções táticas ou técnicas e reconhecer as próprias responsabilidades nas mesmas circunstâncias.  

Ceni demonstra outro tipo de comportamento que me agrada, como sujeito que acompanha futebol. É interessante ver como jornalistas são paradoxais nas coberturas. Os repórteres costumam reclamar que jogadores respondem às perguntas de maneira padronizada, mas se apressam em estigmatizar de “polêmico” o atleta que fala claramente, com articulação e que, acima de tudo, compreende que a entrevista se constrói pelo diálogo, e não por dois monólogos.
O goleiro do São Paulo analisa o jogo como poucos e se transforma automaticamente em um concorrente para jornalistas e comentaristas que se agarram em fatos, sem compreender as estruturas que os sustentam. Rogério não se furta em questionar as bobagens ditas em programas de mesa redonda, especialmente os que se assemelham a bate-papo de boteco, ou em coletivas de imprensa, quando a pergunta ignora fatos anteriores ou despreza o olhar em perspectiva.
Lamento que o Corinthians tenha sido carimbado pelo goleiro do São Paulo com o centésimo gol. Mas fico contente em ver que o futebol ainda tem espaço para atletas que sabem aliar amor à camisa e profissionalismo. Rogério Ceni é daqueles que não precisam beijar a camisa o tempo todo para dizer o quanto amam o clube que defendem. Provam seus sentimentos com atitudes antes, durante e depois de um jogo.
Rogerio Ceni é uma ave rara, destinada a um único endereço. Sempre duvidei dos jogadores que dizem amar para o resto da vida a moça que acabaram de conhecer. Esses, cedo ou tarde, voam para outras bandas ao primeiro canto que lhes seduz, sem se importar onde fica o ninho, desde que a ração seja atraente.    

domingo, 27 de março de 2011

A camisa 10, em coma induzido

 
Tinha feito a lição de casa. Li sobre a seleção brasileira antes do jogo contra a Escócia, aquele tipo de amistoso que recupera a boa imagem, a auto-estima e engana os mais apressados. Quando liguei a televisão, o jogo estava com cinco minutos. Ao me acomodar no sofá e olhar para a tela, estranhei. A imagem mostrava um atleta baixinho que dominava a bola perto da área escocesa e erraria um passe na seqüência. Minha primeira reação foi: 

— Quem é esse cara?

Foram três, quatro segundos de incerteza. A memória falhou e se transformou em agonia quando vi que ele corria com o número 10 às costas. Primeira partida como titular e ganha de presente o número dos iluminados?

Passei a acompanhar parte do jogo procurando pelo camisa 10, Jadson, que atua na Ucrânia. Provavelmente nervoso pelo peso que carregava, o meia se equivocou em passes seguidos, chutou fraco quando esteve à frente do goleiro da Escócia e terminou o primeiro tempo escondido na ponta direita.

Cada vez que a câmera focalizava o banco de reservas, eu procurava pelo substituto, por aquele que salvaria simbolicamente o cargo de camisa 10 no segundo tempo. Torcia para que sofresse de cegueira temporária.

Quando a câmera se deteve por mais tempo nos jogadores, senti-me derrotado, embora o Brasil ganhasse naquele momento por 1 a 0. O reserva imediato era Renato Augusto, do Bayer Leverkusen, que estreou no amistoso anterior com o mesmo número às costas.

Tive vontade imediata de escrever para o técnico Mano Menezes e, de certa forma, o faço neste momento. Ele tem ideia da heresia que comete com o número que simboliza parte substancial do futebol a partir da metade do século passado? São compreensíveis e aceitáveis mudanças sucessivas numa fase de transição, mas sinto que há abuso de poder quando jogadores ainda sem estrada e sem o dom do centro do palco vestem a camisa 10.

Qualquer time que se respeita, do bairro à seleção, do futebol de botão ao clube globalizado, sabe que a camisa 10 é concedida ao homem que se diferencia dos demais. Ao sujeito que terá a responsabilidade de decidir a partida nos detalhes imprevisíveis aos mortais. Ao jogador que entende seu papel como único, não exatamente o líder, mas o que muda a história do jogo, mesmo que seja a pelada na praia do domingo à tarde.

A troca de escolhidos para a 10 é o mais agudo sintoma de escassez de talentos no Brasil. A camisa parece destinada ao setor de Recursos Humanos, que resolveu testar vários candidatos com currículos semelhantes. O cargo não é para os semelhantes; pelo contrário, é para o currículo que encabeça a pilha. 

As dúvidas de Mano Menezes nos entorpeceram a ponto de virarmos dependentes de dois jogadores, nomes citados a cada ausência, a cada passe errado do substituto amaldiçoado.

Somos devotos de Kaká, que sofre com seguidas contusões desde a Copa do Mundo. E sonhamos acordados, à beira do desespero, com Ganso, que ressuscita na Vila Belmiro a mágica dos meias clássicos, que enxergam os alvos e os espaços que só visualizamos depois do acorde tocado em ouvido absoluto.

Este vício é, paradoxalmente, saudosista e futurista. Kaká vai entrar na faixa dos 30 anos, o que implica menor velocidade, menos força física e maiores possibilidades de contusões. Não teremos mais o meia melhor jogador do mundo. Kaká terá que se adaptar. Transformar a idade em experiência. A velocidade em atalhos. O físico deteriorado em visão ampliada do cenário à frente. Ele dá a impressão de que compreende a metamorfose e que pode sobreviver em alto nível até 2014. Seria, de qualquer modo, outro Kaká.

Ganso ainda é jogador de clube. Pior: ainda é jogador de clube brasileiro. Uma temporada excelente, instantes de gênio, olhar único são insuficientes para projetar mais três anos? Tostão, por exemplo, defendeu recentemente que um craque só merece este título quando atua vários anos entre os melhores. Instabilidade é prerrogativa dos bons jogadores. 

Ganso personifica o desejo de recuperar uma dinastia de mestres de doutrina única. O problema é que os desejos podem se tornar fantasias. O meia do Santos jogou somente uma vez pela seleção brasileira, em um amistoso. Ainda representa uma imagem distorcida. Significa mais uma necessidade do que um fato concreto.

Se os dois atuarem como se espera, a camisa 10 sairá do coma induzido. Sem um deles, o risco aumenta e a conduz novamente à UTI, dependendo das circunstâncias. Os atletas testados, até o momento, comprovaram que não estão prontos. Timidez é pecado imperdoável para o personagem principal, mesmo que o protagonista entenda que deve seguir para a sombra para um atacante ficar no centro. Mas, para ter consciência disso, é preciso ter clareza da própria condição única.

A seleção brasileira oscila como qualquer time em fase transitória. Os goleiros são seguros. Os zagueiros e laterais, confiáveis e com experiência nos principais times do mundo. Mano Menezes matou, por enquanto, os volantes adeptos da truculência em troca de meias enrustidos, mais técnicos e versáteis. O técnico pode ficar tranqüilo sobre um dos atacantes. De Neymar a Nilmar. De Robinho a Pato.
Faltam dois problemas que insistem em incomodar, a cada amistoso. O camisa 10 é um deles. O outro é o nove, o velho centroavante. Este cargo, desde Ronaldo, também está vago. Mas é assunto para outra conversa.

sexta-feira, 25 de março de 2011

Seminário discute produção científica em História


Acontece entre hoje e amanhã, no campus Dom Idílio, da Universidade Católica de Santos (UNISANTOS), o 2º Seminário de Pesquisa e Iniciação Científica do curso de História. O evento reúne professores, alunos, ex-alunos e historiadores, que vão apresentar trabalhos científicos produzidos nos últimos dois anos na universidade. A programação também prevê a realização de uma mesa redonda e de uma oficina, na Museu do Café, no Centro de Santos.

Segundo o coordenador do curso, Paulo Fernando Campbell Franco, o objetivo do seminário é discutir os espaços culturais da cidade como pontos preservação da identidade, da memória e da história, além de refletir sobre a produção e circulação de conhecimento na área.

O seminário começa hoje, às 19 horas, com a apresentação de cerca de 20 trabalhos, divididos em duas áreas: “História, Política, Cultura e Educação Patrimonial” e “História do Brasil e História Regional”.  Todas as pesquisas foram produzidas por ex-alunos da instituição, formados nos últimos dois anos.

Amanhã, entre 8 horas e 9h30, outros 15 projetos de pesquisa serão apresentados pelos estudantes do último ano do curso de História. São trabalhos em início de elaboração, com conclusão prevista para o final de 2011.

Na seqüência, até às 12 horas, será realizada a mesa redonda “As instituições culturais na cidade de Santos e a preservação do patrimônio. Participam Marcela Resek (Museu de Arte Sacra), Marilia Bonas Conte (Museu do Café), Rita Márcia Cerqueira (Fundação Arquivo e Memória), Rodrigo Christofoletti (Engenho São Jorge dos Erasmos) e Fabio Maimone (UNISANTOS).

A programação se encerra a partir das 15 horas, com a realização da Oficina Museu do Café. O 2º Seminário de Pesquisa e Iniciação Científica é uma realização do projeto cultural Transhistórias, ligado ao curso de História da universidade. A entrada é gratuita. O campus Dom Idílio fica na avenida Conselheiro Nébias, 300, em Santos. 

As lendas urbanas


A decisão do Governo estadual de assassinar e enterrar o projeto de implantação do Veículo Leve sobre Trilhos (VLT) apenas confirmou que a ideia jamais conseguiu sair da abstração. O VLT engrossou a lista das lendas urbanas, que causam adoração e temor em muitos segmentos da região.
             
As lendas urbanas são uma expressão cultural norte-americana, consolidadas e difundidas principalmente pelo cinema. Lendas urbanas não servem para explicar o mundo que nos cerca. Mas podem ilustrar e expor como alegorias nossos piores medos.
            
A Baixada Santista teme jamais abdicar de suas amarras provincianas. A proximidade com o maior centro político e econômico do país realimenta o sonho da vida cosmopolita. O problema reside em abrir mão dos confortos e dos privilégios que a “Síndrome de Sucupira” nos fornece.

A classe política, muitas vezes adepta do provincianismo como garantia de poder, explora os receios e as angústias locais via linguagem do progresso. Nada diferente da filosofia que fez escola, por exemplo, com Adhemar de Barros e Paulo Maluf. Grandes obras, nesta lógica, representariam a mudança radical de destino, aquilo que a região poderia ter sido.

A Ponte Santos-Guarujá, como legítima lenda urbana, está no projeto há mais de meio século. O discurso vigente prega que a ponte seria a solução definitiva para a travessia entre as duas cidades. Ações menos megalomaníacas, como ampliação do serviço de balsas e planejamento do trânsito, são tão irrelevantes assim?

Toda lenda tem um caráter mágico. O ilusionismo é o combustível que cristaliza a fantasia e a distancia de uma realidade concreta e sensata. O então candidato à presidência José Serra, no ano passado, vestiu a cartola e apontou a varinha de condão para o litoral quando inaugurou a maquete da ponte. Pelo menos, houve serventia ambiental. Os materiais que compõem a maquete podem ser – em parte – reciclados.

Neste jogo de cena, representamos os personagens de “Esperando Godot”, peça escrita pelo irlandês Samuel Beckett. Somos os dois sujeitos que aguardam por alguém sem saber o motivo. Esperamos o que e quem não conhecemos. Sem ter ideia do porquê, empacamos pela expectativa e pela esperança. Acreditamos, às cegas, no novo, embora sejamos incapazes de defini-lo. 

Na Baixada Santista, Godot se esconde nas lendas urbanas que, assim como ele, jamais se farão presentes em carne, osso e obra concluída. Godot, para se eternizar, apenas muda de feições na nossa imaginação. O sonho se desloca, no jogo político, para não sair da inércia.

A Baixada Santista, parafraseando o Brasil, é pintada como o símbolo do futuro. O cenário perfeito para Godot, um camaleão de terno, gravata e mandato de quatro anos. Ele, que interpretou nos últimos 15 anos o Ceasa regional, o aeroporto metropolitano, o parque da Xuxa, o VLT e a ponte entre Santos e Guarujá, para elencar seus principais trabalhos.

Hoje, a classe política reescreve o texto de Beckett quando joga as nossas fichas no pré-sal. Nossas porque políticos não assumem eventuais equívocos para construir uma lenda. Quanto tempo esperaremos se o futuro sequer foi esboçado no horizonte ou no fundo do oceano?

Tenha a certeza de que, entre promessas e projetos, o mágico nunca erra o número. Foi você que não compreendeu o truque.  

terça-feira, 22 de março de 2011

Universidade de goleiros

O Palmeiras é um time chato de se ver. E dá prazer em assisti-lo jogar. As partidas se arrastam, com excesso de chutões e passes laterais. Faltam jogadores diferenciados. A correria o coloca no patamar dos comuns. Mas não perco um jogo da equipe.

Acompanho o Palmeiras para admirar a escola de goleiros do clube. A fabricação em série torna difícil diferenciá-los. O desempenho de Deola no último final de semana, contra o São Caetano, só surpreendeu os alienígenas. Excelentes goleiros brotam no gramado no Parque Antártica.

O goleiro Marcos é o maior ídolo do clube nos últimos 15 anos e, como disse recentemente, cumpre hora extra. Ele é o produto exclusivo de uma linha que permanecerá por anos no mercado sem risco de queixas nos órgãos de defesa do consumidor. Marcos pretende se aposentar no final da temporada, com a sucessão encaminhada. Ninguém precisa arriscar o nome. Seria mais confortável jogar as fichas numa lista de herdeiros.

O clube é o pior ataque dos quatro grandes no Campeonato Paulista, mas tem a melhor defesa. Sofreu somente seis gols em 14 partidas. E utilizou três goleiros diferentes. Bruno atuou uma vez, além de Deola e Marcos.

Quem acompanha futebol sabe que a diferença entre eles, na atualidade, não é tão grande a ponto de causar preocupação. Se um dos outros grandes tiver que escalar o reserva, haverá apreensão dentro e fora do campo. Temas como insegurança e irregularidade vão permear o noticiário. 


 O Palmeiras colhe os frutos da dinastia criada por Valdir Joaquim de Moraes, também um excelente goleiro, que se transformou em um dos maiores treinadores de camisas 1. Um dos três melhores goleiros brasileiros de toda a história fez carreira no Palestra. Emerson Leão jogou mais de 10 anos no clube e disputou quatro Copas do Mundo, duas como titular. Em três delas, defendia o gol palmeirense.

A partir dos anos 80, o Palmeiras estabeleceu sua escola, que casou com uma mudança de olhar do mercado internacional para os goleiros brasileiros. Entre Leão e Zetti, houve uma fase de transição, com dois bons profissionais: Gilmar e Martorelli. Não eram atletas de seleção brasileira, mas agüentavam as pontas em tempos de seca de títulos.

Com a chegada de Zetti, a linha de produção entrou em funcionamento. Depois dele, vieram Ivan Izzo e Veloso. O segundo alcançou a seleção. Veloso deu lugar a Marcos, que conviveu com Diego Cavalieri, excelente goleiro e vítima de escolhas erradas para um cargo de muitos candidatos e poucas vagas. No lugar de Cavalieri, Bruno e Deola que, aos 27 anos, assume um lugar de destaque no clube.

Deola rodou por equipes pequenas como Juventus, gastou as luvas e voltou mais maduro. Tanto ele quanto Bruno estão prontos para suceder o pentacampeão, de maneira definitiva, a partir do próximo ano.

O sucesso do Palmeiras na posição se deve ao método de trabalho, planejamento e, principalmente, ao entendimento dos goleiros de que devem se preparar sempre. No Palmeiras, goleiro precisa cultivar a virtude da paciência. Serão anos de banco de reservas até que apareça a chance, que não avisa quando cairá nas mãos deles. 


 Normalmente, um goleiro palmeirense nasce quando o outro se machuca. O parto sempre ocorre de surpresa. Veloso teve oportunidades com as contusões de Zetti e Ivan. Cavalieri aproveitou as graves contusões que torturaram Marcos após a Copa de 2002. Deola era terceiro goleiro e inverteu a hierarquia com Bruno quando ele se contundiu.

A escola palmeirense ganha maior evidência diante da dificuldade dos adversários em formar novos profissionais. O São Paulo vivencia a “ditadura” Ceni e seus quase mil jogos. Sorte do tricolor. O problema é que não há um novo Ceni à vista. O clube não formou novos goleiros nos últimos anos. Denis, que veio da Ponte Preta, é a aposta. Como toda aposta, pode dar errado.

O Corinthians não tem um ídolo da casa na posição desde Ronaldo. Depois dele, investiu em nomes de fora, alguns com sucesso como Dida e Felipe, que segurou à unha todas as vacas magras da Segunda Divisão. Julio César cresce com a titularidade, mas depende de rodagem para sabermos se a camisa se encaixa. O time não possui um reserva à altura.

O Santos é um caso à parte. O time da Vila Belmiro sempre teve grandes goleiros, muitos geniais, como Gilmar e Rodolfo Rodriguez, mas sempre contratados. O último a chegar à seleção brasileira foi Fabio Costa, importado da Bahia. Sergio (hoje Guedes) foi revelado pela Ponte Preta e foi à seleção nos anos 90, na época de elencos sofríveis e ausência de taças na estante. Nem o filho de Pelé, Edinho, saiu das categorias de base da Vila. 


Nas duas últimas temporadas, o Santos deu espaço para as revelações caseiras, mais por necessidade do que por vontade de romper a tradição. Felipe não suportou o tranco e perdeu a vaga para Rafael. O goleiro atual ainda provoca desconfiança até pela irregularidade natural entre os jovens.

Na Vila Belmiro, o goleiro Guido, das categorias de base, é tratado como uma revelação. Seria um líder nato – premissa da posição – e teria a característica de crescer em partidas importantes – premissa da posição em times grandes.

Nenhum dos três adversários do Palmeiras é capaz de incomodá-lo quando se discute goleiros. Seria a água do clube? Ou alguma substância adesiva nas luvas? É treinamento duro, oportunidade sem pressa e orientação adequada. A longo prazo.
No Parque Antártica, até o jeito de cair e reclamar com a defesa quando se toma gol é igual.

segunda-feira, 14 de março de 2011

A mulher violentada


Homenagens refrescam as relações, servem como reconhecimento e até lustram o ego. Mas homenagens também funcionam como capas, que escondem obstáculos e adiam o contato com eles. São potenciais alimentos para a ausência de crítica ou para assegurar a permanência de um estado de coisas desagradável para quem recebeu louros, placas comemorativas ou tapas nas costas, menos violentos no instante da celebração.

O Dia Internacional da Mulher indica avanços, mas não são a garantia de que tudo está bem. Muitos se aproveitam para, em ato de violência sutil, questionar as condições de igualdade e exigir contrapartidas. Nenhuma mulher, em sã consciência, deseja cenários de igualdade. Mulheres desejam respeito às diferenças, a morte do preconceito de gênero e oportunidades semelhantes para o exercício de suas vidas, com o olhar feminino sobre elas.

Poderia me agarrar às estatísticas para defender quanto estamos distantes de respeitar as mulheres. Recuso-me a transformar dramas em números. Não vou incorporar a frieza de uma pilha de boletins de ocorrência para minimizar o comportamento animalesco ou para desumanizar vítimas.

Mulheres são violentadas o tempo todo. A tortura física e psicológica é ininterrupta, com intervalos para troca de métodos. Os carrascos mudam de endereço, de status, de parentesco e de instrumentos cortantes. O tipo de agressão também varia, do preconceito descompromissado ao estupro numa esquina escura. Do olhar lascivo no trabalho ao marido que desconta sua mediocridade na sparring mais próxima. Do colega melindrado às próprias mulheres – travestidas de homens – tão machistas quanto eles.


O Dia Internacional da Mulher existirá até o momento em que as questões femininas se tornem supérfluas. Hoje, são urgentes. São gritos emergenciais de uma sociedade que se esforça para esmagar o diferente, como se carregasse na testa o carimbo da inferioridade, ao mesmo tempo em que se constitui em ameaça para os covardes dominadores.

As mulheres não devem ser lembradas no dia 8 de março. Elas devem exigir atitudes, clamar por mudanças. A lembrança contenta os paralisados e fortifica quem ocupa o controle. Lembrar alivia as dores, mas protela sem apagar o próximo conflito, a próxima violação de dignidade.

Mais do que comprar uma flor ou dar um beijo de circunstância, os homens devem se recusar a compreendê-las ou moldá-las a sua imagem e semelhança. As mulheres não pediram ou deliraram com tamanha violência. Ninguém almeja ser nulo. Devemos, sim, respeitar o espaço e o tempo delas.

O Dia Internacional da Mulher não merece a maldição das exceções. Mulheres poderão sorrir e abandonar a esperança da continuidade do dia 8 de março quando homens – e mulheres cúmplices – rasgarem a escritura de propriedade. Homens violentam companheiras, amigas, parentes e desconhecidas porque se julgam donos de suas vítimas, como pedaços de carne que poderiam comprar em qualquer açougue ou supermercado.

O selvagem que empilha corpos e distribui hematomas é incapaz de diferenciar o que ele vê na TV, por exemplo, de quem divide a cama, a casa, o trabalho ou uma simples calçada com ele. A exploração de corpos femininos, catalogados como se formassem um pomar, pode dar a sensação de que basta esticar o braço e apanhar a fruta para obter o prazer desejado. O jogo de ilusões somente reforça os valores dos frágeis sujeitos, crentes de que violar o outro não significa violar a própria humanidade.

O Dia Internacional da Mulher tem que sobreviver como bandeira de emergência social. Em 8 de março, multipliquei o desejo afetuoso de parabéns. Mas acredito que, para muitas deles, bastaria que seguissem em paz.

sexta-feira, 11 de março de 2011

O filho no purgatório


Localizado às margens da rodovia Rio-Santos, Caruara é um bairro com dois pais, o biológico e o de criação. Ambos têm sua importância, com papéis diferentes, mas se unem no desejo de controlar o filho ou, pelo menos, ficar com as glórias quando o garoto progride na vida. Nas crises, nenhum dos dois atende aos pedidos de socorro. Ou fingem responder aos gritos de ajuda.  

O pai biológico, nesta relação familiar conflituosa, é aquele que aparece de vez em quando, passa mão na cabeça do filho, tenta comprá-lo com um presente ou um sorriso para desaparecer por dias ou semanas. Este tipo de paternidade é exercida pela cidade de Santos, a quem o Caruara está vinculado em termos administrativos. É um cordão umbilical que abrange de recursos a políticas públicas.

O pai de criação tem menor aquisitivo, mas acompanha o dia-a-dia do filho em crise de identidade. Bertioga não é o pai ideal, daqueles que participam, como dizia o slogan da pomada para contusões musculares. É um parente para a solução da vida prática, de pequenos problemas.

Boa parte dos moradores de Caruara tem ligações afetivas e profissionais com Bertioga. O distrito de Vicente de Carvalho, em Guarujá, é o lugar mais próximo que chegam de Santos. Um braço de mar e um bom pedaço de terra separam Caruara da maior cidade da região, e não se trata de licença poética. Muitas crianças e até adultos nunca estiveram na cidade que veste a máscara de pai biológico.

Visito o Caruara com regularidade desde meados dos anos 90. O bairro tinha aquele charme que nos envia de pronto ao cenário idílico do interior. Pessoas sentadas nas calçadas no final de tarde para conversar sobre o próprio cotidiano. Crianças gravitavam em torno destas rodas de conversas com pipas, peões, bolinhas de gude e outros apetrechos em risco de extinção.

No Caruara, a escola era uma extensão da sala de muitas moradias. Professores e outros funcionários freqüentavam festas de aniversário, acompanhavam o crescimento das crianças e dividiam sentimentos e emoções com gente simples, a maioria migrante das regiões Norte e Nordeste.

O bairro também atraia famílias da “cidade grande”, que concretizavam o sonho de morar perto da natureza e abandonavam – fora do trabalho – a paranóia dos centros urbanos.

O filho cresceu, entrou na puberdade e tornou-se tão rebelde quanto o corpo em mutação adolescente. E sem pais para orientá-lo nesta fase insegura de metamorfose. A independência vira fardo quando se é imaturo, quando os pais não oferecem condições para que o filho ande com as próprias pernas.

A creche Noel Gomes Ferreira é um exemplo de como um pai biológico toca a campainha somente para cobrar seu filho. A creche foi inundada cinco vezes este ano. Em quatro ocasiões, as aulas foram suspensas. Por duas vezes, a água da chuva chegou a meio metro de altura. Geladeiras e outros equipamentos tiveram perda total.

A creche foi inaugurada há dois anos, de maneira provisória. A promessa seria construir outra unidade no terreno ao lado, que também pertence à Prefeitura de Santos. Até hoje, o terreno se parece mais com um laboratório de botânica a céu aberto do que com um rascunho de creche. E não há perspectiva de obras no horizonte.

Ser pai é também permitir que o filho desenhe o próprio trajeto. Ser pai é assumir a própria incompetência em conduzir a cria. É cortar grilhões e libertá-lo para crescer. Caruara foi amaldiçoado pela omissão, talvez por não render glórias ao pai. Nunca rendeu votos. Nunca definiu uma eleição.

O problema é saber se o pai de criação pretende, além de absorver a vida prática dos moradores, assumir o pagamento das contas do adolescente. Enquanto isso, o filho vivencia uma crise de identidade, como se estivesse no purgatório, em avaliação pelos pecados cometidos por quem o pariu.

quinta-feira, 10 de março de 2011

O telefonema para Moacyr


A morte aguça lembranças. Ressuscita, na sua própria ironia de apagar rastros, episódios que os sobreviventes julgavam enterrados. Lembranças que também nasceram para o escuro. Memórias, sempre editadas em busca da imagem límpida, que vão se esfacelar com o desfecho. Uma imagem em vias de ser desconstruída no mesmo ritmo em que as flores desaparecem como homenagens.
A morte do escritor gaúcho Moacyr Scliar abriu a gaveta para uma história que estava destinada ao rodapé da minha própria biografia. Um encontro que saltou para a capa do meu almanaque de experiências, assim que dividi o assunto com um colega igualmente apaixonado por livros, o jornalista Marcio Calafiori.  
Era um jornalista recém-formado, na última década no século passado. Trabalhava na imprensa há alguns anos, quase todo o tempo em emissoras de TV. Dois amigos, Alessandro Padin e Fabio Tatsubô, me convidaram para escrever em um jornal de São Vicente, no litoral de São Paulo.
O jornal se chamava O Emissário e seria uma daquelas lacunas profissionais que te marcam com ferro em brasa. Jornalismo sem maiores preocupações comerciais. Jornalismo com liberdade para escolher assuntos, entrevistados e formas de escrever. Jornalismo feito com bolsos vazios, com a ansiedade de assegurar a próxima edição. Jornalismo de laboratório, para experimentar e ignorar os riscos de explosão.
Ganhei uma página sobre livros. Podia publicar resenhas, críticas ou entrevistar escritores. Na prática, fazia o que bem entendia, desde que cumprisse o prazo de entrega do material. O resto era esticar o braço e receber uma injeção de idealismo.

Estava impressionado com Scliar. Como leitor, vivia uma etapa de leituras frenéticas, compulsivas em quantidade. O leitor darwiniano, em seleção natural das espécies literárias. Se deixassem, lia até bula de remédio, como dizia um velho professor. Naquela fase, descobria escritores brasileiros contemporâneos, o que remediava um casamento mal sucedido com autores clássicos do período pré-vestibular.
É um crime – com José de Alencar e com um jovem de 16 anos – exigir que tal adolescente leia e interprete com profundidade O Guarani. A obrigação – mais os resumos fast-food dos cursinhos – afastam pretendentes e também adiam encontros amorosos com Machado de Assis, Carlos Drummond de Andrade e outros autores brasileiros. Para todo autor, existe um leitor adequado, que vive um inferno particular. Desrespeitar o tempo do leitor é assassinar quem tenta conquistá-lo.
Aos 20 e poucos anos, conhecia Moacyr Scliar de leituras recentes. Como jornalista, resolvi que deveria entrevistá-lo. Ofereci o assunto aos editores do jornal, que apenas acenaram com a autorização de praxe. Do tipo “toca o barco, porra”.
Não me lembro exatamente com quem conversei, mas arranjei o telefone da casa dele, em Porto Alegre. Desconfio até hoje que consegui o número via consulta telefônica na Telesp. O velho 102.
Fiz o interurbano sem confiança. Imaginava que ele não estivesse em casa. Como médico sanitarista, poderia estar no hospital a trabalho. Ou em viagem por conta de compromissos literários. Era meio de tarde. Se estivesse em casa, talvez não atendesse um jornalista. Por que falaria com um moleque de um jornal minúsculo de outra região do Brasil?
A empregada atendeu o telefonema. Perguntei se ele estava em casa. Ela confirmou que sim. Perguntei, tenso, se poderia conversar com ele. A empregada apenas disse:
— Um minutinho!
Em menos de um minuto, um alô de sotaque carregado, bem cantado, ocupou o outro lado da linha. Perguntou meu nome. Como repórter, agi como tal. Dei meu nome mais o nome do jornal. Scliar encerrou o mini-interrogatório com o nome da cidade em que eu estava.
Daí em diante, uma conversa agradável que durou mais de meia hora. Respondeu a todas as dúvidas, elementares ou não. Não fugiu das perguntas pretensiosas de quem desejava demarcar território ou esbanjar conhecimento do alto da inexperiência.
Tinha uma página de jornal no bloco de notas. Da maneira mais tranqüila e serena. Da maneira que eu desejava. Sem assessores, problemas de agenda ou ataques de estrelismo e arrogância do entrevistado. Moacyr Scliar me atendeu com a mesma calma de quem realizava um consulta médica, imagino eu.

O jornal O Emissário publicou a entrevista, a mais importante que fiz para aquela publicação. O Emissário, infelizmente, morreu meses depois, seco nas finanças, mas com as honras de quem exercitou jornalismo como instrumento de valorização da cultura.
Tenho certeza absoluta de que, para Scliar, foi apenas mais uma conversa, sepultada na vala comum da memória tempos depois, talvez no mesmo dia. Para mim, a preciosidade restaurada numa mesa de conversa, que me carimbou como repórter.
A conversa-entrevista me transformou no leitor que passara a acompanhar – com fidelidade - a trajetória do escritor gaúcho por seus livros ou pela página dois do Caderno Cotidiano, em A Folha de S.Paulo. Nunca mais telefonei para ele. Moacyr me deixara satisfeito o suficiente para jamais cogitar a hipótese de incomodá-lo outra vez, em Porto Alegre.

terça-feira, 8 de março de 2011

Alma feminina, um débito insensato


Esqueci o autor, mas não o elogio. O melhor que recebi por um texto era terno, direto, de reconhecimento imediato. Chocou-me com cinco palavras:

— Você escreve com alma feminina!
            
 A paralisia não aconteceu pela ofensa. Sem que eu soubesse, fui atingido por um disparo certeiro, mas sem premeditação. O atirador, que quis somente me agradar, talvez não tivesse plena consciência de onde ficava a bolinha vermelha do alvo. Ignorava o impacto de tamanha generosidade.


Nem eu sabia! Jamais imaginaria que a alma feminina seria minha busca como autor. Jamais perceberia que a expressão “alma feminina” traria consigo uma série de qualidades inerentes à criatividade humana. Simbolizava a humanidade em nível estratosférico.

Alma feminina remete à sensibilidade, se veste de serenidade, incorpora acolhimento, observação e percepção única do mundo. As mulheres acolhem melhor, protegem como doação e se sacrificam quando sentimentos e emoções são postos à mesa, sejam circunstâncias rotineiras ou crise com perspectivas insolúveis.

O elogio me levou a constatar o óbvio, como qualquer homem inundado pelas próprias fraquezas. Estou cercado por mulheres. O lado bom da visão tardia é a chance (persistente em se fazer ouvir) de compartilhar a graça recebida. Estou rodeado por elas talvez pelas minhas escolhas, provavelmente pelas respostas nos relacionamentos que me levam a renovar o fôlego dos encontros e a minimizar os equívocos, algumas vezes adiados.

Mais do que as presenças redundantes de mãe, irmã, filha, namorada, as mulheres estão a meu lado na maior parte de minha existência. Escolhi profissões dominadas por elas. Convivi com grupos de jornalistas compostos por mulheres na totalidade. Olhares peculiares sobre os fatos, os personagens e suas histórias. Ensinaram-me a enxergar com os olhos, sem se dar conta de que o faziam. Por ranços culturais, o único homem era o chefe, atual testemunha destas linhas escritas.

Dou aulas em cursos onde elas controlam o espaço e reagem com mais competência, via de regra. Os dois últimos cursos em que me matriculei são pilotados por elas. O domínio e o controle acontecem como se fossem processos naturais, sem que o cerco ocorra pela força. A persistência é muda, quando esbravejam para demarcar território. Não há cerceamento. Há envolvimento. Não há truculência. Há diálogo.

Conviver com mulheres ajudou-me a entendê-las? A frágil sensação de maturidade me empurrou para o inevitável. Desisti de tentar! A curiosidade não morreu; apenas entrou em período de hibernação depois de compreender que a sabedoria freudiana seria útil. Foi uma das poucas decisões sensatas que tomei na vida. A aura de mistério que esconde e toca a feminilidade é o combustível que nos aproxima delas. Pelo cheiro. Pelo olhar. Pelos jogos de sedução. Pela afetividade.

Mulheres são instáveis? A contradição é inerente à condição feminina? Não tenho a mais vaga ideia do que seja “condição feminina”. Presunção de quem tenta defini-la ou enquadrá-la em rótulo. 


A expressão, utilizada de maneira vã, só reforça o argumento masculino de que elas são instáveis e contraditórias. Para compensar, é vital reconhecer que tais características também sobrevivem escondidas na virilidade de cristal dos homens.

Talvez as mulheres exponham com maior risco sua instabilidade, seus paradoxos, suas idas e vindas. Os homens, cegos e surdos pela falsa imagem de força, fracassam ao mascarar o que julgam como defeito. Padecem de burrice ao quadrado, pois não visualizam como defeito a virtude e insistem em fazer birra para admitir isso, como criança mimada na frente dos pais em corredor de supermercado.

Uma amiga sempre me diz que prefere construir amizade com homens. As mulheres, para ela, são chatas, melindradas e competitivas. Uma visão aceitável. Trata-se de uma mulher falando de outras, adversárias ou não. Quando isso acontece, mantenho a segurança do silêncio. Concordar ou discordar me conduzem à mesma encruzilhada. Provoco uma reação corporativista, de 180 graus.

— Quem disse isso? As mulheres são muito melhores.

Aprendi que o desfecho sempre resultará na minha derrota. Perco porque concordo com a competitividade particular das mulheres. Homens também concorrem entre si. Talvez a diferença resida em reconhecer a agressividade da competição.

Perco também se aguço o espírito de corpo das mulheres. Elas continuam cobertas de razão. Elas são melhores, sem o sentido de que melhores estabelecem, no outro lado, os piores. Estes, claro, seriam os homens. A comparação é tão burra quanto crer na onipotência masculina.

Mulheres são melhores no sentido de excelência. Capacidade de nos ensinar. Competência em nos amar. Eficiência em nos entender e nos apontar o quanto cultuamos a idiotice. Talvez pequem por recitar a mesma lição várias vezes. Homens não escutam. Absorvem por acerto e erro, se é que ali brotou um erro, e não um deslize, termos distantes na visão masculina.

Apenas um ponto me incomoda a esta altura. Deveria ter escrito sobre elas antes. Sinto-me, de certa forma, como se pagasse uma dívida por obrigação, uma prestação em loja de departamentos ao escrever sobre as mulheres numa data comemorativa. Talvez seja pelo fato de que datas assim só existem para os dominados. Talvez porque pressuponha que um dia de exceção confirma o controle do outro no restante do ano.

Peço desculpas pelo pessimismo, por eventuais injustiças ou por não fazer jus ao elogio. Jamais pediria clemência pela dívida com vocês, mulheres. O débito é de longo prazo e auto-renovável, não importam as oscilações da economia, a taxa de juros ou a variação de humor do credor, ainda que ele sofra (e me persiga), mensalmente, por causa da TPM.

sexta-feira, 4 de março de 2011

Alienígenas pegam ônibus?

Os políticos, quando querem demonstrar preocupação sem resolver problemas, apresentam projetos de lei. Descontando exceções, os projetos de lei costumam integrar o pacote “jogar para a torcida”, que inclui a promoção de audiências e a criação de comissões. O Poder Legislativo é o reino das gavetas. Nestes lugares, há espaços de sobra para abrigar projetos de lei que nasceram condenados ao papel. São filhotes que, de caso pensado ou não, morrem antes de colocar a cabeça para fora do ovo.  

Vereadores, deputados e senadores adoram enquadrar o mundo em leis. É um vício cultural que parece inerente ao Poder Legislativo, mas não tem origem na política, e sim na vida cotidiana. Basta encostar a barriga no balcão de qualquer padaria ou se sentar em um boteco para ouvir alguém defendendo novas leis para a solução de velhos problemas. Como se papel jurídico, necessariamente, alterasse mentalidades e valores.
Dois projetos de lei servem como exemplos de ideias que nasceram para testemunhar o próprio velório. Após reportagens sobre os privilégios parlamentares, políticos e jornalistas ressuscitaram o projeto do senador Cristovam Buarque, que determina que políticos com mandato sejam obrigados a matricular seus filhos em escolas públicas.
Não estranhe, leitor. A associação entre benefícios parlamentares e escola pública é esquizofrênica mesmo. O que talvez mereça reflexão é o cinismo que se esconde por trás da proposta. Vamos supor que, num delírio coletivo, o projeto seja aprovado e entre em vigor. É de um simplismo infantil acreditar que a matrícula dos filhos em escolas públicas mudaria o pensamento dos políticos sobre educação.
A escola ficaria melhor? Talvez as premiadas com a presença dos filhinhos de papai. Segurança particular. Doação de recursos. Miçangas que jamais alterariam a cafonice da roupa. A estrutura – dá para apostar – seguiria intocável. O fato é que políticos não aprendem por exemplos. Políticos aprendem por resultados ou quando a faca eleitoral encosta no pescoço. “O que posso ganhar? O que posso perder se me comprometer com esta ideia?”   
Em Santos, temos um exemplo recente sobre um projeto de lei que nasceu com destino traçado: as gavetas das comissões da Câmara Municipal. O vereador Valdir NaHora (PSB) apresentou um projeto que proíbe passageiros de viajar em pé no transporte coletivo.

O projeto ganhou visibilidade por causa do aumento médio de 7% no preço das passagens. Mesmo que seja bem intencionada, a ideia é estéril. A proposta do vereador – da bancada do governo - não é realidade nos melhores sistemas de transporte do planeta. Até porque a questão não é essa. Como disse uma amiga, ao conhecer a proposta:
— Coitados de nós! Vamos esperar dias por um ônibus.
Ainda bem que o projeto não tirou o foco do reajuste nas passagens. Na Baixada Santista, são quase 200 mil passageiros por mês. Ônibus enormes em vias estagnadas. Um modelo de transporte cada vez mais individualizado, que privilegia carros e motocicletas. Tarifas, na proporção, extorsivas. Os vereadores de Santos nunca entraram em conflito com a Prefeitura para alterar o sistema vigente. Todos se acovardaram diante das empresas de ônibus.
Este projeto engrossará a lista dos natimortos. Mas permitirá ao vereador demarcar território, impor uma postura ou simplesmente ir de garupa num tema atual e fazer média com grupos eleitorais e colegas de bancada. Vencem as soluções mirabolantes como programas de caronas e corredores de ônibus, enquanto encaramos um aperitivo da vida paulistana.   
Os parlamentares colecionam chances perdidas. Não debatem questões públicas de maneira aguda, com planejamento, diálogo com sociedade civil e costura com o Poder Público. Talvez eu esteja enganado por crer que política representa sinônimo de coisa pública. Na lógica de raciocínio de muitos profissionais da política, debate público jamais seria oportunidade. Para enxergar assim, eles teriam que engolir uma pílula de consciência coletiva.