sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

O professor e o bode

Moralismo se faz com pressa. E política rasteira se pratica com desinformação. Quando os dois se juntam, para deleite dos hipócritas, julgamentos acontecem sem tempo de avaliação. Culpados e inocentes, vítimas e agressores, têm seus papéis definidos no calor da hora.
A Escola Estadual João Octávio do Santos, no Morro do São Bento, se envolveu num episódio impregnado de moralismo barato. Um dos professores de Matemática do ensino médio foi afastado por causa de uma aula. O professor utilizou exemplos de criminalidade, como tráfico de drogas e prostituição, para criar problemas aritméticos para seus alunos.
A história viraria fofoca nos bancos escolares se o assunto não chegasse à imprensa. A partir daí, as “autoridades”, em ritmo de prova de 100 metros rasos, correram para mostrar serviço e exerceram – sem assumir publicamente - os papéis de carrasco e juiz. Sequer cogitaram avaliar os riscos de um estigma, de uma execração pública para qualquer um dos atores da trama.
Os moralistas sempre agem com base em problemas pontuais. Jamais o colocam no contexto. Nunca esbarram na estrutura. Ignoram o entorno. Operam como se o mundo funcionasse no preto e no branco, sem considerar os diversos tons de cinza que transitam entre as duas cores. Reproduzem o enredo de uma novela no horário nobre, na qual mocinhos e vilões são claramente definidos, sem espaço para a contradição e as nuances.
É evidente que os exemplos utilizados pelo professor de Matemática são exagerados, reprováveis em termos pedagógicos. O professor poderia trabalhar o problema da segurança pública de inúmeras maneiras, sem dar margem a ataques histéricos e atabalhoados. É fundamental deixar cristalino que o objetivo não é defendê-lo, e sim colocar alguns aspectos que me parecem fundamentais para a compreensão mais aguda do episódio.
Embora tome decisões sozinho, um professor não é independente em absoluto. Se atua assim, é porque houve confiança ou negligência da equipe pedagógica. Quando o professor comete deslizes, a equipe tem a obrigação de orientá-lo e corrigir a rota das atividades dentro e fora da sala de aula.
Para evitar constrangimentos, é prática recorrente no planeta educação afastar o docente. O bode expiatório recebe o carimbo na testa, e a sujeira é enterrada embaixo do tapete. Não há co-responsáveis ou a percepção de oportunidade para transformar um erro em avaliação de um problema social.
Em Santos, existem escolas públicas e privadas que proibiram professores de discutir política em sala de aula às vésperas das eleições, no ano passado. Em uma das escolas, no Boqueirão, a diretora alegou que opção política era uma questão familiar e que os alunos poderiam se tornar rebeldes. Rebeldia e alienação, que poderiam ser palavras antônimas, foram costuradas como gêmeas.
No caso da escola João Octávio dos Santos, o professor de Matemática, ao falar de criminalidade, não discorreu sobre alienígenas ou temas absolutamente distantes dos estudantes. Quem já foi ao Morro do São Bento sabe que os moradores convivem diariamente com a violência física e psicológica imposta pelo tráfico de drogas. Muitos dos adolescentes, que deveriam estudar, deixam a escola para se transformar em aviões ou vigias dos traficantes locais.
Na outra ponta da corda, a Polícia Civil anunciou – segundo reportagem do jornal A Tribuna – que investigaria possível apologia ao crime. Parece-me sensato acreditar que um professor, quando aborda a criminalidade, tem a intenção de despertar em seus alunos a consciência sobre o problema, e não formar uma geração de consumidores de cocaína e crack. Ou alguém apostaria na teoria de que um professor debate tráfico de drogas ou prostituição para recrutar soldados e garotas para o crime?
Esta história, infelizmente, engrossa o coro do delírio social. Perde-se a oportunidade de expor a frágil infra-estrutura do bairro, e permite-se que o Poder Público, omisso de carteirinha, se esconda por trás da máscara do politicamente correto. Neste festival de cinismo, prevalece o estigma – a “aula do crime”, como o caso foi intitulado –, e o principal envolvido é silenciado para assegurar que o estado de coisas sobreviva, sem maiores estragos.

Um comentário:

Cahe´s blog disse...

Pra mim, lavaram a roupa suja fora de casa sem sequer saber se estava mesmo suja.

Antes do escarcéu, por que não chamar o professor e ouvi-lo?

Infelizmente essa mania de primeiro crucificar, com danos até irreparáveis, para depois analisar é lugar comum - o casal da escola de base que o diga.

Pelo que ouvi, o final desta história iria mostrar que o crime não compensa e, sendo verdade, poderia sim ser uma boa lição.

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