quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Eu sou você amanhã

O garoto de 14 anos parece destinado a ser uma exceção. Detido 17 vezes, ganhou matéria no jornal. Estaria na escalada rumo ao topo da criminalidade. Um moleque irrecuperável, cuja “carreira” começou aos nove anos, quando dirigia um carro, obviamente, sem habilitação.
A última detenção do menino-prodígio aconteceu na semana passada. Dirigia um veículo furtado em Cidade Ademar, na periferia de São Paulo. O infrator foi encaminhado novamente para a Fundação Casa, a antiga Febem. A família disse à imprensa que desistiu dele. O pai alegou que bateu bastante nele, mas não teve jeito. “O que pretendo é arrumar um lugar para ele ficar, porque quero que estude.”
O primeiro detalhe é que, na apreensão aos nove anos, o garoto conduzia o carro do pai, para buscar a mãe no shopping. O segundo ponto é que, sem idade mínima para detenção (12 anos), o Judiciário determinou por três anos que ele tivesse supervisão psicológica, presença na escola e visitasse com freqüência à Vara da Infância. A vida prática demoliu o discurso teórico. Oito detenções, por furto de carro, arrombamento e direção proibida.
O terceiro fator do pacote da negligência são as nove detenções entre os 12 e 14 anos. Em todas as ocasiões, o garoto passou férias na Fundação Casa.  A maior estadia foi de três meses, no ano passado, porque os pais não foram buscá-lo na delegacia.
O conjunto da obra permite interpretações. O garoto não representa de longe um exemplo singular. Chamou a atenção pela quantidade de vezes, mas será esquecido no labirinto do sistema em breve.
Há também uma dose de sorte que permeia – de forma secundária – o caso dele. Todas as apreensões foram por delitos leves. Por algum motivo, que ninguém quis apurar porque não se prestou atenção nele, o garoto não “evoluiu” para crimes mais graves, como estupro e homicídio. Ele teve todas as ferramentas disponíveis, mas estagnou na escola da criminalidade.
Quem seriam os responsáveis? A complexidade da pergunta conduz à tentação das respostas simplistas, que centralizam fogo em alvo único. Família, que não o controlou e/ou impôs limites de comportamento? Poder Judiciário, que estabeleceu a pena, sem particularizar o caso? A Fundação Casa, que o depositou em suas unidades como mais um número em recuperação?
Apostaria na divisão da culpa, mas sem arriscar graus de responsabilidade. Somente incluiria outro ator nesta dramaturgia: nós. Na Internet, um pequeno passeio permite perceber como uma parcela da sociedade reage a este tipo de história. E, no silêncio da omissão, legitima as ações do Estado e de demais envolvidos.
Este grupo, que me causa a sensação de maioria crescente, defende a limpeza social. O garoto de 14 anos deve ser trancado numa cela e, se possível, apodrecer por lá. O caminho é matar a existência dele e garantir a tranqüilidade inerente à superioridade de quem o condenou.
Não é muito diferente da postura que se adota com moradores de rua. Quem nunca ouviu o argumento de que eles estão lá porque desejam? Problemas psiquiátricos, de saúde pública seriam desculpas que premiam a vagabundagem por vocação, na visão destes faxineiros. São as mesmas pessoas que assinam embaixo – ou fecham as portas – quando Prefeituras sofrem a acusação de transferir mendigos para as cidades ao lado. O lixo na casa do vizinho sempre fede mais.
Na semana passada, outro episódio semelhante também preencheu páginas de jornal. O repórter Renato Santana, de A Tribuna, contou a história de um menino de 10 anos, em Santos, que reside em um abrigo municipal. O garoto fugiu de casa três vezes. Alcoólatra, a mãe perdeu a guarda dele.
Por uma das curvas do acaso, o menino não se tornou viciado em crack. Como medidas do Judiciário, a mãe deve receber vale-transporte para tratamento com a doença. O abrigo onde o garoto mora deve designar funcionário para levá-lo e buscá-lo na escola. A família deve passar por um estudo social, entre outros itens de boa intenção.
Este moleque de 10 anos, que ainda não se transformou em infrator, será acompanhado? Haverá fiscalização para os que recebem para zelar por ele? Ou o veremos, daqui a pouco, no noticiário como mais um recordista de delitos, que aguça a ira da turma da limpeza.
Se a coerência for mantida, os dois poderão se abraçar em alguma unidade prisional. Assim, o mais novo poderá recitar ao colega quatro anos mais experiente o velho slogan da marca de vodka: Eu sou você amanhã!

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