sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Crise de identidade

Na metade do mês, tinha que segurar o dinheiro. Ficar em frente à TV no sábado à noite era necessidade, jamais ato voluntário ou obrigação. Mergulhado no tédio, viu o filme publicitário pela primeira vez. 

Todos falavam de alguém que seria fundamental para o futuro do país. Em vários idiomas, elogiavam um sujeito que ele não conhecia. Não compreendia como idolatravam aquela pessoa. Diante da dúvida, preferiu não pensar no assunto e o resumiu numa reclamação rançosa:

 — Isso deve ser coisa do governo!

No dia seguinte, permanecia de olhos congelados na TV, o lazer dos sem-recursos. Já tinha assimilado o golpe depressivo da música do Fantástico quando assistiu a outro filme publicitário. Desta vez, atores e atrizes simulavam depoimentos pessoais de como o professor foi crucial na vida deles.

De quem falavam? Como poderia, por ingenuidade, engolir tão fácil as ilusões da TV? Com mais calma, entendeu que ali poderia estar uma tentativa de mudança. Quem sabe era o momento de ser reconhecido? Testemunharia uma virada substancial na imagem que a maioria tinha da profissão dele?

Nada tão falso. As falas na TV não correspondiam à realidade cotidiana dele e de outros colegas. Ser professor não representava uma carreira desejada. A desilusão assassinara o idealismo após poucos meses de experiência em salas lotadas, com alunos massacrados pela falta de infra-estrutura, no convívio com funcionários desgastados, com a desfaçatez de burocratas que pensam em tudo, menos em educação.

Lembrou-se pela primeira vez do noticiário. Era um dos poucos que ainda conseguiam comprar publicações especializadas. Numa destas revistas, leu que, na Finlândia, onde ficam as melhores escolas do mundo, os professores eram os alunos universitários de melhor desempenho, muitos deles com mestrado e doutorado. Ganhavam em um mês o que ele recebia por ano.

Na sala da faculdade, somente os piores ou aqueles sem outra saída procuravam – em sã consciência – a docência. Ele se via como exceção, com a juventude impregnada de indignação e consciência coletiva.

O irmão, que passara o final de semana na casa dele, personificava a teoria das carreiras. Era advogado, endeusado pela família no país do sabe-com-quem-está-falando. O irmão, que fizera a faculdade no boteco, havia fracassado no exame da ordem quatro vezes. Ou seja: um bacharel. Para todos os efeitos, um homem da lei. O irmão tinha uma estrada promissora a percorrer, fato reforçado a cada almoço de domingo, mesmo que desempregado por dois anos.

No dia seguinte, no intervalo entre as aulas, o professor leu que o Ministério da Educação pretende modificar as regras de financiamento do ensino superior. Os estudantes de licenciatura teriam a dívida perdoada. O débito cairia 1% ao mês. Fez as contas: oito anos e quatro meses para quitação. Um tempo tão doloroso quanto pena em presídio.

Conversando com um amigo jornalista, no final do dia, soube que o país tinha déficit de 200 mil professores. Talvez seja por isso que todos os colegas de faculdade trabalhavam em sala de aula. Ninguém desempregado, mas a que preço? O final de semana em prisão domiciliar, de bolsos vazios, ou condenação mais grave na escola?

Os dois filmes publicitários não saiam da cabeça dele. Tudo parecia combinado em mais uma tentativa de enganá-lo. Será que o professor representaria a base de tudo no país? Ou era uma forma de confirmar a visão dos colegas engenheiros, arrogantes do progresso que enxergavam o professor como o sujeito que ensinava porque não sabia executar?

Sempre desconfiou da tese do guarda-chuva, em que tudo cabe dentro da escola. E tudo seria culpa dela também. O professor adorava demolir a ideia de que a educação seria a pílula curativa de todos os males.

Ninguém briga para ser professor, pensou. É uma vida circunstancial que se torna permanente. Financiamento fácil, publicidade na TV, tudo apontava para a segunda etapa do processo. Depois de toda criança na escola, chegara a hora de contratar os carcereiros para tomar conta delas, empilhadas em depósitos com livros e cadernos? Se fosse fanático, adiantaria rezar todas as noites pelo nascimento da qualidade no ensino?

Voltou para casa e, após ler um pouco, sentou-se diante da TV para chamar o sono. Não precisava cultivar a decepção. No intervalo comercial, novamente o filme sobre a importância do professor. Não se identificava com o que via. Para não se aborrecer com o que vivia, agiu como o telespectador comum. Apanhou o controle remoto e mudou de canal. Em menos de cinco minutos, o som e a imagem sumiram diante dos olhos fechados.


2 comentários:

Cahe´s blog disse...

Como pode a sociedade atual, principalmente a juventude, mudar a visão que tem dos professores hoje se sequer as Universidades os respeitam como tal?
É lamentável ver os melhores, com doutorados e afins, sendo trocados pelos "mais baratos". Isto está afundando o ensino.
Parece mesmo que só os que não sabem o que querem da vida, vão ser professores.
Graças a Deus minha base vem do tempo da ditadura, quando o ensino público ENSINAVA e as escolas particulares eram quase que só para o famoso pagou-passou.

Estou com ele, é melhor mesmo mudar o canal, mas bem que poderia ser um outro canal, bem longe da televisão...

Abraço,
Cahe is a Blogger

disse...

tocante. e, tbm, altamente auto-biográfico.