sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

O professor e o bode

Moralismo se faz com pressa. E política rasteira se pratica com desinformação. Quando os dois se juntam, para deleite dos hipócritas, julgamentos acontecem sem tempo de avaliação. Culpados e inocentes, vítimas e agressores, têm seus papéis definidos no calor da hora.
A Escola Estadual João Octávio do Santos, no Morro do São Bento, se envolveu num episódio impregnado de moralismo barato. Um dos professores de Matemática do ensino médio foi afastado por causa de uma aula. O professor utilizou exemplos de criminalidade, como tráfico de drogas e prostituição, para criar problemas aritméticos para seus alunos.
A história viraria fofoca nos bancos escolares se o assunto não chegasse à imprensa. A partir daí, as “autoridades”, em ritmo de prova de 100 metros rasos, correram para mostrar serviço e exerceram – sem assumir publicamente - os papéis de carrasco e juiz. Sequer cogitaram avaliar os riscos de um estigma, de uma execração pública para qualquer um dos atores da trama.
Os moralistas sempre agem com base em problemas pontuais. Jamais o colocam no contexto. Nunca esbarram na estrutura. Ignoram o entorno. Operam como se o mundo funcionasse no preto e no branco, sem considerar os diversos tons de cinza que transitam entre as duas cores. Reproduzem o enredo de uma novela no horário nobre, na qual mocinhos e vilões são claramente definidos, sem espaço para a contradição e as nuances.
É evidente que os exemplos utilizados pelo professor de Matemática são exagerados, reprováveis em termos pedagógicos. O professor poderia trabalhar o problema da segurança pública de inúmeras maneiras, sem dar margem a ataques histéricos e atabalhoados. É fundamental deixar cristalino que o objetivo não é defendê-lo, e sim colocar alguns aspectos que me parecem fundamentais para a compreensão mais aguda do episódio.
Embora tome decisões sozinho, um professor não é independente em absoluto. Se atua assim, é porque houve confiança ou negligência da equipe pedagógica. Quando o professor comete deslizes, a equipe tem a obrigação de orientá-lo e corrigir a rota das atividades dentro e fora da sala de aula.
Para evitar constrangimentos, é prática recorrente no planeta educação afastar o docente. O bode expiatório recebe o carimbo na testa, e a sujeira é enterrada embaixo do tapete. Não há co-responsáveis ou a percepção de oportunidade para transformar um erro em avaliação de um problema social.
Em Santos, existem escolas públicas e privadas que proibiram professores de discutir política em sala de aula às vésperas das eleições, no ano passado. Em uma das escolas, no Boqueirão, a diretora alegou que opção política era uma questão familiar e que os alunos poderiam se tornar rebeldes. Rebeldia e alienação, que poderiam ser palavras antônimas, foram costuradas como gêmeas.
No caso da escola João Octávio dos Santos, o professor de Matemática, ao falar de criminalidade, não discorreu sobre alienígenas ou temas absolutamente distantes dos estudantes. Quem já foi ao Morro do São Bento sabe que os moradores convivem diariamente com a violência física e psicológica imposta pelo tráfico de drogas. Muitos dos adolescentes, que deveriam estudar, deixam a escola para se transformar em aviões ou vigias dos traficantes locais.
Na outra ponta da corda, a Polícia Civil anunciou – segundo reportagem do jornal A Tribuna – que investigaria possível apologia ao crime. Parece-me sensato acreditar que um professor, quando aborda a criminalidade, tem a intenção de despertar em seus alunos a consciência sobre o problema, e não formar uma geração de consumidores de cocaína e crack. Ou alguém apostaria na teoria de que um professor debate tráfico de drogas ou prostituição para recrutar soldados e garotas para o crime?
Esta história, infelizmente, engrossa o coro do delírio social. Perde-se a oportunidade de expor a frágil infra-estrutura do bairro, e permite-se que o Poder Público, omisso de carteirinha, se esconda por trás da máscara do politicamente correto. Neste festival de cinismo, prevalece o estigma – a “aula do crime”, como o caso foi intitulado –, e o principal envolvido é silenciado para assegurar que o estado de coisas sobreviva, sem maiores estragos.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

A morena do Alceu

A morena não sai da minha cabeça. Seis dias pensando em como ela é sedutora, perfeita para amenizar o calor tropical, saborosa como a pele macia. Surpreendo-me com a imagem dela várias vezes ao dia.

A morena aparece no meio de uma reunião de trabalho, durante o almoço, antes de dormir. Ela teima em se materializar até quando estou com minha mulher, para quem tive que confessar a obsessão. 

Faz seis dias que a música “Morena Tropicana”, de Alceu Valença, grudou em meu cérebro. Vasculhei a memória e não descobri o motivo da neurose. Não reencontro Alceu Valença há anos, seja na TV, em matéria de jornal e revista. Nem nas rádios FM de minha preferência escutei qualquer sucesso dele nos últimos tempos.

Conversei com amigos sobre a música e sobre Alceu. Ninguém a ouve há tempos. Ele também não pingou no noticiário ou recebeu homenagens por premiação, aniversário ou morte.

Não consigo largar a morena. Tentei outras músicas, de outros artistas. Nada. Ela sempre retorna, a partir do refrão. Busquei outros ritmos, em outros idiomas. A morena fincou o pé, pois me pego cantando outros trechos da letra.

É “caldo de cana caiana, vem me desfrutar” de manhã, antes do café. Às vezes, “saliva doce, doce mel, mel de uruçu” na frente do chefe, que continua a discutir o cronograma de trabalho do semestre. Pronuncio palavras que desconheço o significado. Resgato frutas que nunca vi. Saboreio iguarias que mal sei se são salgadas ou doces. Todas me remetem à morena do Alceu.

Como um encosto, pensei em exorcizá-la. Recuei nesta bobagem quando me dei conta de que ela é bonita e tentadora demais para ser expulsa com violência. Um pecado tão inofensivo como ela não merece texto em latim, padre e água benta. Cantá-la em português, com água de coco na beira da praia, me soa bem mais tropicano.

O fato é que a morena está no lugar errado. Só é coerente com clima escaldante que nos cozinha todos os dias. Mas música-chiclete, que penetra e sobrevive tempos no cérebro, não escolhe data, endereço e caixa de som, real ou virtual.
           
Música-chiclete é normalmente música ruim. As letras e melodias fazem sacanagens com a vítima. Quanto mais o sujeito odeia a música, mais tempo de vida terá dentro da caixa craniana. Se puder causar danos neurológicos, a missão será considerada bem-sucedida.

Como não é possível medir os estragos, a música-chiclete se contenta com a humilhação pública.

— Você, fulano, quem diria, cantando o novo sucesso daquela banda colorida? Como sabe a letra? Sabia que não me enganava com esta camisa preta e com os cabelos compridos. Teu negócio nunca foi rock pesado. Pelo menos, ficou com a guitarra e seus poucos acordes.

Estou livre deste problema. “Morena Tropicana”, além de boa música, é bem aceita socialmente. Até entre os jovens, pois suponho que haveria apenas a estranheza de quem nunca ouvi falar de Alceu Valença.

Suponho porque consigo me conter. Não me meto a cantarolar a melodia, depois da letra incompleta seguida de hum, hum. Quem não me conhece, não nota que fui enfeitiçado. Segundo um amigo, o único sinal é a cara de paisagem morta, mascarada com a ideia de que me perdi em meus pensamentos.

— Deve ser preocupação com o trabalho ou com os filhos, coitado!

A obsessão pela morena não me levará ao hospital ou a freqüentar o divã. Talvez a morena seja algum sinal simbólico, um recado do inconsciente. Prefiro não descobrir, até porque construí uma imagem deliciosa da moça, indescritível neste instante de egoísmo.

Como sintoma de minha escravidão, mudo a imagem várias vezes para realimentar a paranóia por ela. Dá sempre um novo sabor para a mesma fruta. Prazerosa como paixão recente. Um sentimento de submissão, de servidão até, já que a morena não pediu licença para entrar, demarcou território e insistiu em perpetuar seu domínio autoritário. Mas admito que adoro a presença dela, independentemente do comportamento. No fundo, é boa moça. Moça boa? Ou ambas?  

O lado B deste relacionamento é a consciência de que há um prazo de validade. A morena tropicana morrerá em breve. Será trocada por outra; espero que alguém como Carolina, por exemplo, de Seu Jorge.

Não saber me mata. A música substituta pode ser incompreensível. Uma música instrumental, talvez? Uma melodia na qual não consigo me lembrar da letra? Ou uma peça arqueológica de minha infância, artefato brega que escapou do sarcófago musical?

E se for o hino do maior rival, que ressuscita no meio da transmissão do meu clube de coração, ao lado dos amigos e da cerveja? Ou a música que marcou a história com aquela ex-namorada, que salta aos lábios justamente quando estou ao lado da mulher atual, que detesta todas as ex e todas as ex-músicas?

Com ou sem sofrimento, a morena tropicana sairá da minha vida. Mas duvido que se transforme em passado distante, caminho natural daqueles que perdemos e sepultamos em rituais. Não haverá luto. Fiz uma promessa a ela. Prometi que, mesmo que se dilua em meus neurônios, a morena seria eternizada em palavras. Como feiticeiro, minha mandinga fez com que ela deixasse de ser letra musical para se transformar em crônica.

Obs.: O texto foi publicado, originalmente, no site Jornalirismo.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Crise de identidade

Na metade do mês, tinha que segurar o dinheiro. Ficar em frente à TV no sábado à noite era necessidade, jamais ato voluntário ou obrigação. Mergulhado no tédio, viu o filme publicitário pela primeira vez. 

Todos falavam de alguém que seria fundamental para o futuro do país. Em vários idiomas, elogiavam um sujeito que ele não conhecia. Não compreendia como idolatravam aquela pessoa. Diante da dúvida, preferiu não pensar no assunto e o resumiu numa reclamação rançosa:

 — Isso deve ser coisa do governo!

No dia seguinte, permanecia de olhos congelados na TV, o lazer dos sem-recursos. Já tinha assimilado o golpe depressivo da música do Fantástico quando assistiu a outro filme publicitário. Desta vez, atores e atrizes simulavam depoimentos pessoais de como o professor foi crucial na vida deles.

De quem falavam? Como poderia, por ingenuidade, engolir tão fácil as ilusões da TV? Com mais calma, entendeu que ali poderia estar uma tentativa de mudança. Quem sabe era o momento de ser reconhecido? Testemunharia uma virada substancial na imagem que a maioria tinha da profissão dele?

Nada tão falso. As falas na TV não correspondiam à realidade cotidiana dele e de outros colegas. Ser professor não representava uma carreira desejada. A desilusão assassinara o idealismo após poucos meses de experiência em salas lotadas, com alunos massacrados pela falta de infra-estrutura, no convívio com funcionários desgastados, com a desfaçatez de burocratas que pensam em tudo, menos em educação.

Lembrou-se pela primeira vez do noticiário. Era um dos poucos que ainda conseguiam comprar publicações especializadas. Numa destas revistas, leu que, na Finlândia, onde ficam as melhores escolas do mundo, os professores eram os alunos universitários de melhor desempenho, muitos deles com mestrado e doutorado. Ganhavam em um mês o que ele recebia por ano.

Na sala da faculdade, somente os piores ou aqueles sem outra saída procuravam – em sã consciência – a docência. Ele se via como exceção, com a juventude impregnada de indignação e consciência coletiva.

O irmão, que passara o final de semana na casa dele, personificava a teoria das carreiras. Era advogado, endeusado pela família no país do sabe-com-quem-está-falando. O irmão, que fizera a faculdade no boteco, havia fracassado no exame da ordem quatro vezes. Ou seja: um bacharel. Para todos os efeitos, um homem da lei. O irmão tinha uma estrada promissora a percorrer, fato reforçado a cada almoço de domingo, mesmo que desempregado por dois anos.

No dia seguinte, no intervalo entre as aulas, o professor leu que o Ministério da Educação pretende modificar as regras de financiamento do ensino superior. Os estudantes de licenciatura teriam a dívida perdoada. O débito cairia 1% ao mês. Fez as contas: oito anos e quatro meses para quitação. Um tempo tão doloroso quanto pena em presídio.

Conversando com um amigo jornalista, no final do dia, soube que o país tinha déficit de 200 mil professores. Talvez seja por isso que todos os colegas de faculdade trabalhavam em sala de aula. Ninguém desempregado, mas a que preço? O final de semana em prisão domiciliar, de bolsos vazios, ou condenação mais grave na escola?

Os dois filmes publicitários não saiam da cabeça dele. Tudo parecia combinado em mais uma tentativa de enganá-lo. Será que o professor representaria a base de tudo no país? Ou era uma forma de confirmar a visão dos colegas engenheiros, arrogantes do progresso que enxergavam o professor como o sujeito que ensinava porque não sabia executar?

Sempre desconfiou da tese do guarda-chuva, em que tudo cabe dentro da escola. E tudo seria culpa dela também. O professor adorava demolir a ideia de que a educação seria a pílula curativa de todos os males.

Ninguém briga para ser professor, pensou. É uma vida circunstancial que se torna permanente. Financiamento fácil, publicidade na TV, tudo apontava para a segunda etapa do processo. Depois de toda criança na escola, chegara a hora de contratar os carcereiros para tomar conta delas, empilhadas em depósitos com livros e cadernos? Se fosse fanático, adiantaria rezar todas as noites pelo nascimento da qualidade no ensino?

Voltou para casa e, após ler um pouco, sentou-se diante da TV para chamar o sono. Não precisava cultivar a decepção. No intervalo comercial, novamente o filme sobre a importância do professor. Não se identificava com o que via. Para não se aborrecer com o que vivia, agiu como o telespectador comum. Apanhou o controle remoto e mudou de canal. Em menos de cinco minutos, o som e a imagem sumiram diante dos olhos fechados.


quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

O abacateiro

Ninguém sabe como a árvore foi parar ali. Os mais velhos desconhecem quando foi plantada ou quem trouxe as sementes. Um garantiu: o abacateiro sempre esteve naquela calçada da avenida Pedro Lessa, em Santos. Outro, mais sarrudo, decretou: o pé está ali desde que se conhece por gente.

O abacateiro é o único da espécie entre o canal 6 e a avenida Portuária, na Ponta da Praia. A única árvore frutífera, na borda do caldeirão de fumaça e barulho, a poluição de caminhões e espigões de concreto. A única árvore que interferiu nas férias de verão. O abacateiro é a segunda casa das crianças que brincam todas as tardes às margens do corredor comercial.

Confesso que minha opinião sobre o abacateiro mudou por estes dias. Antes, era um incômodo. Ele que me obrigava a ir para rua para não esbarrar o guarda-chuva em seus braços. Parte da folhagem batia na cabeça de meus filhos quando os carregava no colo. Os buracos provocados pelas raízes na calçada completavam o pacote da chateação.

Abandonei meu egoísmo ao testemunhar as crianças em volta dele. E vi como o abacateiro é um erro de geografia e de história. Árvores frutíferas – teimosas por dar frutos em tempos transgênicos – não deveriam existir mais ali. Crianças brincando em árvores nas barb
as do cais também não. 

Ainda bem que, às vezes, árvores são surdas e ignoram as leis humanas. O abacateiro testemunhou o nascimento do canteiro que divide a pista, a troca dos chalés portugueses por edifícios de três andares e depois por casas sobrepostas, a chegada de terminais portuários e dos estacionamentos para caminhões que afogam as ruas do bairro.

A árvore cumpria seu destino de anonimato. Adultos não a enxergavam. Crianças a revivem quando encontram nela uma porta para a fantasia, para as brincadeiras que tornam pés e mãos encardidos no final do dia.

Sem querer, o abacateiro conduziu meninos e meninas, de 4 a 11 anos, a um universo que talvez não conhecessem ao vivo. Estas crianças se esqueceram de seus videogames e outras parafernálias eletrônicas. A nova rotina as coloca, no mínimo, a dois metros do chão. Voam e ressuscitam outros brinquedos como pipas. Só faltaram os peões e as bolinhas de gude para que o cenário se encaixasse numa refilmagem de 25, 30 anos atrás.

Para as crianças, o abacateiro é o acampamento de férias, canal para liberdade provisória. Para mim, era a carta de alforria da escravidão domiciliar, onde brincar é tão artificial quanto os desenhos consumidos aos montes na TV.

De surda, a árvore passou a falar pelos cotovelos. Quando se passa embaixo dela, ouve-se uma sinfonia de vozes agudas, masculinas e femininas. Vozes que nascem nos galhos, que me obrigam a olhar para cima e observar a copa, que poderia incomodar o vizinho da casa em frente. Vozes que injetam nele uma dose de misericórdia e adiam o pedido de poda à Prefeitura.

O abacateiro deixou a vida obscura. De um tronco a mais, virou abrigo para aquelas crianças, que despertaram nos avós a saudade da própria infância. E os pouparam de contar histórias cada vez mais abstratas e distantes do universo dos novos moradores da árvore.

Os inquilinos preferem viver a experiência do que servir de depósito para um passado que mal compreendem. Nem é preciso perguntar. O sorriso e a recusa em voltar para casa denunciam a mudança de vida. Nem a comida preferida de mãe altera o ritmo de trabalho. Nem a
ameaça de castigo para o dia seguinte interfere na imaginação daquela comunidade.

Com a retomada das aulas, imaginei que o abacateiro recuperaria a paz e o silêncio. De maneira involuntária, voltaria a ser visto como o conjunto de galhos que obriga os pedestres a abaixar a cabeça.

Para os mais antigos, a árvore teria data de validade por causa da aproximação da floresta de concreto. Mas sujeitos com mais de 1,40 metros não apitam nas regras do abacateiro, que – aliás – foi promovido. Com a volta às aulas, ele seria apenas a casa de final de semana. Previsão de adultos de criatividade limitada. Para as crianças, a árvore agora é atividade extra-curricular, uma espécie de lição de casa depois que chegam da escola.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Os faxineiros que varrem mendigos

Em oito anos como professor, presenciei a cena por três vezes. Era uma aula sobre racismo no Brasil. Nas três ocasiões, alunos diferentes não duvidaram em falar: - Na favela, só tem bandidos.

Acredito que externaram seus preconceitos porque julgaram estar entre pares. Imaginavam que, por estar numa universidade, de maioria branca, poderiam falar qualquer coisa. O espírito de corpo garantiria a defesa deles.

O contrário aconteceu. Uma parte talvez pensasse o mesmo, mas se calou em prol do politicamente correto. Outra parte dos estudantes vinha de bairros de periferia, alguns deles de favelas. O fato é que o corpo cuidou do assunto por si só, sem a necessidade de uma intervenção direta. Apenas mediei o debate acalorado e contive os ânimos.

Lembrei-me deste exemplo para retomar o assunto da coluna passada (“Eu sou você amanhã”). Escrevi sobre o caso de um garoto de 14 anos que havia sido detido pela 17º vez em São Paulo. Os delitos variavam de furto à direção sem habilitação. Na hora de definir as responsabilidades, prevaleceu o tradicional jogo de empurra, em que figuram na lista de culpados os pais, promotores, juízes, a Fundação Casa e a entidade abstrata chamada sistema.

Mas o que me incomodou foi a reação – tão previsível quanto intolerante – de uma parcela de leitores na Internet e de apresentadores de TV. Todos seguiram pelo caminho mais fácil. Adotaram a rota que desemboca em um único responsável: o garoto.
 

É evidente que, aos 14 anos, o rapaz tem absoluta noção do que representam seus atos e as conseqüências deles. A questão é não essa. O problema maior reside no que o garoto poderá se transformar enquanto freqüentar as unidades da Fundação Casa, num entra-e-sai que dura três anos.

O moleque foi reduzido a um número para o sistema de segurança pública. E, quando o sujeito vira um número, começa o processo em que se tenta apagar, anular a identidade dele. O particular se dilui na totalidade, com o propósito de que esta totalidade se encaminhe para o absoluto. O menino cairia de joelhos diante do modelo em vigor.

Para um garoto de 14 anos, significa que crescem as chances de cometer delitos mais graves, por aprendizagem, sobrevivência ou pertencimento. Nesta idade, a influência do grupo compete, em vantagem, com as outras esferas da sociedade, como família, Igreja e escola.

A reação destes leitores jamais se aproximou da salvação ou recuperação do indivíduo. Ou avaliar se a mudança de vida é possível. A hipótese talvez não passe pela cabeça deles. A saída elementar, que mascara o preconceito, envolve culpar a sociedade, sem delimitá-la ou nomeá-la. Assim, a estrada mais serena é eliminar o número. Conduzir o infrator ao canto mais obscuro e invisível para todos. Uma jaula resume a história.

O mecanismo para enjaular é a limpeza social. Favelas, prisões, abrigos públicos, asilos e outros endereços concretizam a postura de descartar e/ou esconder o que, no entendimento dos “faxineiros”, não presta.


A turma da limpeza não participa efetivamente de ações sociais. Acalma a própria consciência ao ver o trabalho de organizações não-governamentais e grupos afins. O Estado é a mãe imprestável, que não os compreende, mas que deve ser permanecer viva para socorrer os filhos supostamente independentes. E estes filhos não toleram irmãos bastardos, marginalizados.

 
Os defensores da faxina se agarram no paternalismo, tanto dos programas sociais como dos seus próprios olhares. Ao mesmo tempo em que fingem acolher, os paternalistas reforçam a inferioridade do outro. Em muitos casos, visto como um bicho ou um selvagem a ser domesticado.

Na semana passada, três jovens foram detidos em Lindóia, interior de São Paulo, porque bateram e laçaram – seria gado? – um morador de rua. A vítima trabalhou no sítio de um dos agressores. Na delegacia, a desculpa temerosa dos superiores: - Era uma brincadeira!


O morador de rua, apavorado, deixou Lindóia. Ironicamente, os faxineiros cumpriram sua “função”: limparam a cidade.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

A arte incompleta dos jornalistas


Devorava um romance sobre terapia quando duas expressões me causaram aquele efeito valioso: paralisar a leitura. “A arte de ser interessante” e “a arte de se interessar pelos outros” serviam para explicar a ditadura da aparência que escraviza muitas mulheres.
            
Mas as expressões, como qualquer palavra publicada, permitem interpretações de acordo com o olhar particular do leitor. No meu caso, as duas artes me cutucaram sobre o estado atual do jornalismo, prática que abracei profissionalmente há quase 18 anos.

O Jornalismo, como qualquer atividade humana, se sustenta em certas premissas que podem alcançar o nível de intocáveis. Mas tais pontos de partida dão lugar, em certas ocasiões, à máxima “faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço”.

O problema se instala no momento em que esta frase popular ganha traços de regra geral. Esta inversão transforma os seguidores das premissas clássicas em pregadores no deserto ou em anciões com discursos incompreensíveis.

A exclusão dos pregadores – cedo ou tarde – revela os pés de barro da profissão. São as premissas que mantém a atividade viva em sua essência, pulsante em seu papel coletivo. Contratos comerciais, estratégias de entretenimento, chefes e nosso ego pretensioso são obstáculos cujo tamanho aumenta ou diminui pela maneira com que os jornalistas lidam com estes fatores. E pelo grau de decência, claro. Até para sucumbir a pressão, existe o ilusionismo de quem finge concordar com ela.   

O fato é que muitos de nós, jornalistas, estampamos “a arte de ser interessante” no peito e relegamos “a arte de se interessar pelos outros” para o bolso de trás da calça. Como se fosse possível que ambas não estivessem conectadas de forma umbilical, como gêmeos que se completam e se nutrem da mesma fonte.  

A segunda expressão do romance é o combustível que conduz à primeira. Jornalistas deveriam ser sujeitos que, para preservar a própria inteligência, se interessam pelos outros, por suas histórias, deslizes, anseios, dores, alegrias, além das relações com o mundo e seu cotidiano.

O repórter é um terapeuta purista sem divã, como um atendente dos serviços de apoio da madrugada, proibido de alterar – grosseiramente – o curso do sofrimento. Redesenhamos em conjunto, pois estar do outro lado da linha é a certeza de continuidade da narrativa. Somos cúmplices, com envolvido profundo; nunca os mentores do crime.

Jornalistas viraram papagaios surdos de megafone. Jornalistas gastam saliva demais. E dizem pouco. As reproduções de opiniões alheias se multiplicam num estelionato de argumentos em que ninguém – no final da novela – assume o que disse.

Os discursos são quase todos parecidos e quem tenta ser voz dissonante recebe de brinde um ponto vermelho na testa. Ser alvo não representaria um ferimento a ponto de incomodar, pois é inerente ao conflito de perspectivas e valores.

A crueldade reside na desqualificação pública do indíviduo, e não de seus argumentos. Jornalistas, neste ponto, assistem de camarote ao remédio virar veneno em suas próprias veias. Uma visitinha nas redes sociais serve para indicar como os jornalistas se machucam na própria maledicência.

A conseqüência disso é que muitos de nós apresentam pouco ou nenhum interesse no que o outro pretende ou poderia falar. As histórias precisam, em muitos momentos, de um arqueólogo ou de um cirurgião, alguém disposto a cavar fundo, com intervalos, para alcançar o passado ou os relatos antes escondidos que o outro julgava monótono ou anônimo demais para uma apreciação pública.

Jornalismo começa pelos ouvidos e pelos olhos. A boca é um serviçal que aguça os dois (ou melhor, os quatro). Lembro-se do que disse no ano passado o escritor Rubem Alves. Para ele, muitas pessoas necessitam com urgência de cursos de Escutatória, em vez de sacralizar a oratória.
            
Nós, jornalistas, estamos confusos. Misturamos a nossa missão de contar e contextualizar com falar demais. E perdemos – neste surto egocêntrico – o interesse pela casa do vizinho. Os relatos se tornaram mecânicos, inclusive, porque a forma de descobri-los se tornou industrial. Lustramos os vidros da janela do quarto todos os dias sem cogitar abri-la.

Não ouvimos. Fingimos escutar. Entramos numa conversa com o pensamento na próxima ou em como enquadrar a fala do outro em aspas, conformes e segundos. Assim, fragmentamos o raciocínio do interlocutor e o amaldiçoamos em pílulas de declarações.

Os mais velhos diziam que os jornalistas novos não ouvem respostas porque pensam sempre na próxima pergunta. Queimaram a língua de tanto tagarelar lições e acabaram enquadrados no ensinamento-clichê.

Qualquer revista ou edição de domingo de jornal ainda mantém – mesmo que numa salinha no porão - os jornalistas que se interessam pelos outros. São aquelas matérias em que o leitor deixa a catarse quando o ponto final do texto nasceu diante dos olhos dele.

Ali, naquela reportagem perdida no meio da sopa de letrinhas, não há prazer maior do que perceber alguém com ouvidos atentos e sensibilidade suficiente para pular o muro do senso comum que robotiza os conteúdos tão padronizados quanto o cardápio de uma lanchonete fast-food.

Não se interessar pelos outros afeta a outra expressão. A esquizofrenia que cegou parte dos jornalistas se manifesta pela distorção de “a arte de ser interessante”. Somos interessantes pelo que fazemos, jamais pelo que dissemos que fizemos ou faríamos.

Na era das celebridades-instantâneas e do marketing pessoal, o jornalista moeu a imagem que aparece no espelho. E trocou seu nome por outro que rima. Jornalistas passaram a se comportar como artistas, em versão morto-vivo. Reduziram “a arte de ser interessante” ao rosto iluminado por câmeras ou aos autógrafos concedidos em corredor de shopping.

Ser interessante é bem diferente da popularidade. Jornalistas nasceram para as sombras dos fatos. Reconhecimento é fenômeno eventual. São as cicatrizes das histórias que realimentam a próxima pauta e amadurecem o contador. Apenas as marcas na pele podem quebrar certos preconceitos e nos colocar no mesmo patamar dos outros, fundamental para qualquer diálogo.

É doloroso para muitos colegas, mas o jornalista tem os limites do entregador. Se cruzar a fronteira, crescem em proporção geométrica os riscos de virar uma caricatura de si mesmo. Quantos sujeitos na TV abandonaram o Jornalismo e, por metamorfose, são hoje personagens, com todo o grau de artificialidade das mentiras que vomitam? Estes personagens não interpretam ouvir como confirmar teses?

Reclamamos que o público não se interessa pelo que produzimos. É a resposta para quem os olhou sem enxergá-los. É o troco de quem não se vê naquilo que entregamos a eles. Menosprezamos a inteligência alheia ao mastigar suas histórias, sem sabor e tempero, em textos de telegrama.

A sabedoria do leitor está na simplicidade da premissa ignorada por nós, jornalistas: “a arte de ser interessante” só se materializa após o cultivo de “a arte de se interessar pelos outros”.

A reportagem, quando impregnada pela sensibilidade dos ouvintes, é a colheita que legitima esta conexão.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Promessas e pedidos

Ele esperou pouco mais de um mês para começar com as cobranças. Ela ainda estava no lucro porque, em pensamento, ele havia programado 30 dias de sobrevida para atacá-la com palavras duras. Arrumou algumas desculpas como final de semana e volta às aulas para adiar o cerco e a guerrilha. Mas precisava exterminar, de vez, o festival de promessas.
Aí residia o problema entre eles. O marido não suportava mais as promessas de reveillon. Chegou a repensar o casamento em um momento de irritação. A esposa mentia mais do que político em discurso de posse nas festas de final de ano.
A lista crescia conforme a ingestão de álcool se prolongava. Na hora da virada, ninguém mais conseguia decorar tantos desejos, tantos clichês de uma vida coerente com capa de revista de celebridade.
Ela prometera tantas mudanças que as promessas ganharam promoção. Viraram juramentos, tamanha a convicção com que falava sobre os planos para 2011. Como os anteriores, este – nas palavras dela – seria o ano. O ano inesquecível, dos novos rumos, de novos projetos em prática. Na opinião dele, a esposa só precisava do palanque e do megafone para completar o pacote do comício. Ah, e o terninho para se parecer com deputada.  
O sujeito estava escaldado. Nos últimos oito anos, as promessas cresciam na proporção em que se multiplicam nas bocas dos candidatos com a proximidade das eleições. Muitas delas eram repetições de farras anteriores, devidamente apagadas com a ressaca. Ou negadas na primeira discussão. Onde estariam as provas de que ela disse tal absurdo? Atos impraticáveis para uma mulher centrada, sempre focada em suas habilidades e limites.
Ele já previra este discurso de guru de administração. Ou de manual de auto-ajuda. Como também sabia que ela começaria vários projetos, que morreriam antes da segunda semana. Muitos se encaixavam nas promessas de segunda-feira. Morte certa na terça.
Por isso, as cobranças seriam diretas, sem permitir divagações ou negações. Anotara – escondido em três guardanapos - todos os delírios.
A lista tinha dez itens. De academia de ginástica à viagem para Campos de Jordão. De curso de yoga a aumento na freqüência semanal do sexo. Promessas variadas, ecléticas para uma pessoa só. Factóides em demasia para um casamento com as artérias entupidas e a glicemia acima do limite.
Ele considerou seriamente a hipótese de registrar a lista em cartório, mas achou que abriria a porta para outra crise. Era sua esposa, apesar dos surtos parlamentares. Ela poderia alegar perseguição, e as cobranças ficariam estéreis. Até porque não tinha expectativa de que a dezena de itens seria cumprida. Metade seria surpreendente. Um terço, coerente. Duas promessas, a evolução de quem nunca as cumpriu.
Ele sabia que fevereiro era o momento do ataque cirúrgico. O Carnaval era no mês seguinte. Assim como boa parte do país, ela adiaria as promessas para depois da folia. E criaria outras tantas para compensar a culpa do novo período de excessos.
Esperou pelo final de semana. Aproveitou o ambiente de bom humor e tocou no assunto. Era sua única promessa: cobrar as promessas dela e torná-la sua imagem e semelhança.
As reações eram de quem lidava com a perda, com a morte eminente. Negou tudo. Explodiu de raiva. Negociou os termos do acordo. Caiu em lágrimas. E se resignou. As reações deles eram de quem se esquecera de que, no réveillon, valem mais os pedidos do que as promessas. Pular sete ondas, conversar com Iemanjá, comer romã e acender uma vela ao anjo da guarda. Fora a sopa de lentilhas antes da ceia.
Em todos os rituais, ela queria somente uma coisa. E aproveitou as cobranças para comunicar onde e quando as promessas seriam materializadas:
— Eu tenho outra pessoa. Vamos morar juntos. Saio de casa amanhã!  

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

O anti-Corinthians


O Corinthians abriu o armário para esconder mais um esqueleto. O fantasma vai passar por sessões de exorcismo, no mínimo, até domingo, quando o time poderá trancar a porta e mantê-lo no escuro se vencer o Palmeiras, líder do Campeonato Paulista. A memória curta é a tábua de salvação dos condenados, ávidos pelo perdão.

Todos os clubes possuem os próprios demônios que, eventualmente, reaparecem para cutucar as feridas. O demônio do Corinthians é a Libertadores da América. Mas a eliminação do time paulista não pode ser creditada na conta do demônio que costuma apavorar jogadores e dirigentes a cada (des)classificação para o torneio continental.


Desta vez, o espírito maligno apenas jogou a última pá de terra sobre o túmulo. O corpo já estava moribundo. Cheirava mal e dava sinais de que seguiria doente. O próprio clube abriu caminhos para a ressurreição de velhos traumas e realimentou os esqueletos que pareciam adormecidos. Talvez entendessem que os estragos seriam escoriações, sem maiores conseqüências.

Perder a Libertadores não pode ser vista como um erro comum, passível de um simples pedido de desculpas com sorriso amarelo. Envolve outros sentimentos, muitos deles distantes da nobreza humana.

O time indicava que a avaliação era distorcida, incompleta e frágil. A soberba se instalou há mais de uma semana e cegou quem já mancava.

O Corinthians é um time comum desde 2010. E irregular além da média desde outubro. O time não mantém uma sequência de partidas convincentes. Deixou de ser confiável. O favoritismo tornou-se questionável, inclusive diante de equipes pequenas, que roubam pontos dentro do Pacaembu, estádio onde a aposta era acertar o número de gols, por causa da vitória certa.

O Corinthians olha no espelho e não se reconhece. Os princípios e os comportamentos que diferenciam o clube foram adormecidos. Resta descobrir se esta letargia é voluntária ou induzida.

O primeiro sintoma visível é a dormência em campo. O frenesi sumiu. Aqueles olhos agressivos – de quem mata a fome na refeição – se apagaram. Onde está o sangue que corre nas veias do Pacaembu, que ecoa nas arquibancadas e transforma jogadores medianos em foras de série? A equipe se comporta como se o resultado final tivesse importância secundária, como se todo jogo fosse parte de uma pré-temporada estendida.

O Tolima – a qualidade dos colombianos é irrelevante – representa papel secundário em um processo que se arrasta há meses. A hemorragia não foi estancada. Foi encoberta com curativos de segunda mão. Culpou-se o médico – o então técnico Adilson Batista – e a sangria permaneceu. O Campeonato Brasileiro foi um presente de Natal aos adversários. No Paulistão, a equipe segue em posição intermediária.

O conjunto da obra aponta para um segundo sintoma anti-corintiano. O time me passa a impressão de que acredita na premissa dos arrogantes. O Corinthians atua como se pudesse vencer no momento que quiser. Equipes assim se afogam na própria pretensão. E de formas humilhantes. Perdem no momento mais indesejado para o adversário mais improvável.

O Corinthians exala o cheiro perfumado de quem veste terno novo, mas caminha com sapatos furados. O Corinthians provou em sua história que não vence quando deseja. Luta para ganhar quando precisa.

O Corinthians jamais demonstra a intenção de dar espetáculos. É de sua natureza se surpreender – e chocar aos outros – com bailes de gala. É sua essência servir como caixa de ressonância da vida popular, como extensão do dia-a-dia de quem pagou para assisti-lo.

Equipes de ponta costumam aprender com as derrotas na marra. A pressão externa altera a paisagem à força. Talvez seja esta a única vantagem para a crise de identidade atual. É a hora de engolir o discurso de palavras difíceis e as táticas tão mirabolantes quanto ineficazes.


Para expulsar os demônios, a estrada é tortuosa. De cara, simplificar a rotina da casa, cortar as gorduras – inclusive as publicamente conhecidas –, rejuvenescer certos setores e reconstruir o olhar sobre si mesmo.

É preciso abandonar a pompa porque as circunstâncias são outras. Não servem roupas e sapatos chiques. O Corinthians nasceu predestinado ao terrão, ainda que simbolicamente. Quando incorpora o espírito operário e ignora as brincadeiras alheias, vence. Não há sorrisos e afagos antes ou durante as partidas.

O Corinthians de ontem vibra para assegurar o dia seguinte. O Corinthians de ontem é representado por jogadores que não precisam beijar a camisa para fingir amor de ocasião. O Corinthians de ontem mistura arquibancada e gramado, como simbiose.

O jeito corintiano de viver, no qual dor e sofrimento se transformam em gols e troféus, precisa matar a versão atual. Pelo bem do futuro, ou seja, o restante da temporada.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Eu sou você amanhã

O garoto de 14 anos parece destinado a ser uma exceção. Detido 17 vezes, ganhou matéria no jornal. Estaria na escalada rumo ao topo da criminalidade. Um moleque irrecuperável, cuja “carreira” começou aos nove anos, quando dirigia um carro, obviamente, sem habilitação.
A última detenção do menino-prodígio aconteceu na semana passada. Dirigia um veículo furtado em Cidade Ademar, na periferia de São Paulo. O infrator foi encaminhado novamente para a Fundação Casa, a antiga Febem. A família disse à imprensa que desistiu dele. O pai alegou que bateu bastante nele, mas não teve jeito. “O que pretendo é arrumar um lugar para ele ficar, porque quero que estude.”
O primeiro detalhe é que, na apreensão aos nove anos, o garoto conduzia o carro do pai, para buscar a mãe no shopping. O segundo ponto é que, sem idade mínima para detenção (12 anos), o Judiciário determinou por três anos que ele tivesse supervisão psicológica, presença na escola e visitasse com freqüência à Vara da Infância. A vida prática demoliu o discurso teórico. Oito detenções, por furto de carro, arrombamento e direção proibida.
O terceiro fator do pacote da negligência são as nove detenções entre os 12 e 14 anos. Em todas as ocasiões, o garoto passou férias na Fundação Casa.  A maior estadia foi de três meses, no ano passado, porque os pais não foram buscá-lo na delegacia.
O conjunto da obra permite interpretações. O garoto não representa de longe um exemplo singular. Chamou a atenção pela quantidade de vezes, mas será esquecido no labirinto do sistema em breve.
Há também uma dose de sorte que permeia – de forma secundária – o caso dele. Todas as apreensões foram por delitos leves. Por algum motivo, que ninguém quis apurar porque não se prestou atenção nele, o garoto não “evoluiu” para crimes mais graves, como estupro e homicídio. Ele teve todas as ferramentas disponíveis, mas estagnou na escola da criminalidade.
Quem seriam os responsáveis? A complexidade da pergunta conduz à tentação das respostas simplistas, que centralizam fogo em alvo único. Família, que não o controlou e/ou impôs limites de comportamento? Poder Judiciário, que estabeleceu a pena, sem particularizar o caso? A Fundação Casa, que o depositou em suas unidades como mais um número em recuperação?
Apostaria na divisão da culpa, mas sem arriscar graus de responsabilidade. Somente incluiria outro ator nesta dramaturgia: nós. Na Internet, um pequeno passeio permite perceber como uma parcela da sociedade reage a este tipo de história. E, no silêncio da omissão, legitima as ações do Estado e de demais envolvidos.
Este grupo, que me causa a sensação de maioria crescente, defende a limpeza social. O garoto de 14 anos deve ser trancado numa cela e, se possível, apodrecer por lá. O caminho é matar a existência dele e garantir a tranqüilidade inerente à superioridade de quem o condenou.
Não é muito diferente da postura que se adota com moradores de rua. Quem nunca ouviu o argumento de que eles estão lá porque desejam? Problemas psiquiátricos, de saúde pública seriam desculpas que premiam a vagabundagem por vocação, na visão destes faxineiros. São as mesmas pessoas que assinam embaixo – ou fecham as portas – quando Prefeituras sofrem a acusação de transferir mendigos para as cidades ao lado. O lixo na casa do vizinho sempre fede mais.
Na semana passada, outro episódio semelhante também preencheu páginas de jornal. O repórter Renato Santana, de A Tribuna, contou a história de um menino de 10 anos, em Santos, que reside em um abrigo municipal. O garoto fugiu de casa três vezes. Alcoólatra, a mãe perdeu a guarda dele.
Por uma das curvas do acaso, o menino não se tornou viciado em crack. Como medidas do Judiciário, a mãe deve receber vale-transporte para tratamento com a doença. O abrigo onde o garoto mora deve designar funcionário para levá-lo e buscá-lo na escola. A família deve passar por um estudo social, entre outros itens de boa intenção.
Este moleque de 10 anos, que ainda não se transformou em infrator, será acompanhado? Haverá fiscalização para os que recebem para zelar por ele? Ou o veremos, daqui a pouco, no noticiário como mais um recordista de delitos, que aguça a ira da turma da limpeza.
Se a coerência for mantida, os dois poderão se abraçar em alguma unidade prisional. Assim, o mais novo poderá recitar ao colega quatro anos mais experiente o velho slogan da marca de vodka: Eu sou você amanhã!