domingo, 23 de janeiro de 2011

O prazer de ver um filme ruim

Um velho amigo cinéfilo costuma ter duas reações extremas quando os filmes o perturbam. Se ele adora a história, resume os sentimentos em uma palavra:

- Mágico!

Quando a trama é fraca, costuma repetir duas exclamações:

- Ofensivo! Horroroso!

A segunda palavra vem acompanhada de várias letras “o”, que se multiplicam conforme a ênfase na péssima qualidade da obra.

Quando perguntei sobre “Os Mercenários”, de Sylvester Stallone, pressentia a segunda forma de opinião. Não recebi nenhuma das respostas. Ele apenas disse:

- Oportunidade perdida. Não conseguiu nem me ofender.



A indiferença aumentou minha curiosidade sobre o filme. E me deixou sereno para não esperar coisa alguma da história. Ainda bem! A ausência de expectativa me deu o prazer de assistir a um roteiro previsível, com bombas, tiros, perseguições, flertes entre o protagonista e a mulher fatal (falsa comum) e exótica, cabeças de soldados mudos rolando, piadinhas com testosterona, vilão latino clichê e final com abertura para continuação. Era como uma criança espectadora, que revê inúmeras vezes como se fosse a primeira exibição.

“Os Mercenários” não foi produzido para a mais básica racionalidade, não permite procurar camadas subterrâneas de interpretação ou parir uma análise filosófica de boteco. Reconheço a obviedade, mas muitas produções blockbusters conseguem gerar uma perspectiva que abandona a superfície.

O filme é uma reunião de amigos, com uma câmera em movimento. A produção, também protagonizada por Stallone, ressuscita atores que fizeram parte da carreira dele, de coadjuvantes na violência aos adversários nas bilheterias.

Um exemplo: Dolph Lundgren (Drago, do Rocky IV). Por coincidência com cheiro de proposital, Stallone derruba o gigante loiro mais uma vez em combate. A diferença é que a vida sexagenária deu momentânea sensação de ridículo a Stallone, que agora economiza no corpo a corpo. Tiros à distância resolvem. Mas não preocupe que a sensação se esvai na cena seguinte.

Tenho a impressão de que o roteiro foi feito depois da escolha do elenco, com objetivo cristalino de encaixar toda a turma. Somente um esqueleto de narrativa, que abre margem para improvisações e piadas internas dos amigos.

Vários ícones de filmes de ação das últimas três décadas se unem em papéis pequenos, como Jet Li, Mickey Rourke, Jason Statham e Bruce Willis, além de Eric Roberts (irmão da Julia) como vilão. Todos em personagens-estereótipos com seus diálogos elementares.



O ex-governador Arnold Schwarzenegger faz uma pontinha e não aparece nos créditos. Ele participa de uma conversa dentro de uma igreja, com Stallone e Willis. A cena serve para uma ação entre colegas, com piadas auto-referentes, sem acréscimo ao filme.

Na prática, os atores toparam servir ao diretor Stallone. Sem vaidades, sem riscos. Todos fizeram aquilo que estão acostumados a fazer, sem pisar em campo minado. A limitação, neste caso, soa como coerência.

Na história, Stallone lidera um grupo de mercenários, contratados por Willis, para derrubar um general ditador numa ilha qualquer da América Central. O general, feito por David Zayas (o detetive Batista, da série Dexter), é dominado por um ex-agente da CIA (Eric Roberts), que pretende fabricar cocaína no local e vender nos EUA. Quem do elenco não sangrou e matou neste mesmo tipo de história, multiplicada a partir dos anos 80?

Se você acompanhou, ainda que por cima, o noticiário, sabe que parte da trama foi rodada no Brasil. É possível identificar o país por certos cenários, mesmo com o filtro amarelado que identifica o modelo mexicano, e particularidades nacionais, como chapas dos automóveis e caminhões.

A mulher exótica, que flerta com o personagem principal, é a brasileira Gisele Itié. Ela incorpora o inglês correto e a sensualidade das mulheres latinas, carimbadas como guerreiras ariscas, apaixonadas e, no fundo, submissas ao macho alfa.



“Os Mercenários” cumpre a missão de passatempo. No meu caso, a manhã preguiçosa de domingo. Se a proposta era curtir a festa, faltou apenas convidar Steven Seagal, Chuck Norris e Jean-Claude Van Damme. No trash 80, vale o conselho de um colega jornalista, depois de um dia cheio:

- Vou assistir a um filme de narrativa acelerada!

Neste contexto, deixe o cérebro em outro cômodo da casa e reforce a nostalgia dos filmes ruins, antigos e que, para não decepcionar, devem permanecer na memória. Entre o ofensivo e o horroroso, “Os Mercenários” é um exemplo fácil de reciclagem.

Um comentário:

Mariana Dias disse...

Nossa Marcão, tinha visto que o filme era rodado no Brasil e fui ver toda animada. Eu achei que a trama passaria mesmo no Brasil, mas essa não foi a minha decepção com o filme. Tudo bem, eu já sabia que ia ser porrada, clichês e bomba, afinal, não nego que tb gosto de uma ação dessas pra relaxar. haha O problema é que mesmo filmes de pancadaria tem que ter um enredo, um história com um mínimo sentido, uma linha q te prenda até o final. Mas esse filme foi difícil de entender. Como vc disse bem, acho q o filme era só pra reunir amigos e atender às piadas internas.