quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

O casal invisível


— Olha ali, um monte de papelão.

Era o recado dele para que parassem. Até então, a marcha era mecânica, ritmada, como se os caminhantes esvaziassem os pensamentos para cumprir uma tarefa, seguir uma rota pré-determinada.

O casal passava dos 60 anos, na aparência enganosa de quem vive sob o temperamento do clima. Ele puxava uma carroça, daquelas amarelas padronizadas pela Prefeitura. Ela seguia alguns metros atrás, com o carrinho de feira quase vazio.
Ambos estão magros. Ele parecia ter o peso compatível com a altura (1,80 metros). Sem camisa, mostrava a pele desgastada pelo sol. A barba branca acelerava o tempo de vida.
Ela, baixinha, pesava cerca de 40 quilos. Um chute, claro. Certeza que não passava dos 50. Cabelos curtos, escondidos por um boné. Tão esquálida que, de longe, era percebida como mulher por causa dos seios, que lembravam uma pré-adolescente. A mulher poderia se quebrar a qualquer hora; bastava uma chuva forte ou vento de um carro em alta velocidade.
O calor, acima de 35 graus, castigava, mas não fraquejava o casal diante da mina de ouro. Achar uma quantidade daquela de papelão, às dez e meia da manhã, era mosca branca. Normalmente, o filet mignon da reciclagem some logo após o sol nascer.
O entulho era de uma loja de laticínios e carnes, na avenida Pedro Lessa, em Santos. O depósito, no canteiro central da via, acontecera cinco minutos antes da passagem peregrina do casal. Mas era preciso um olhar garimpeiro.
Em minutos, os dois separaram o papelão dos detritos. A maior parte não prestava. Para a visão geral, nunca presta; caso contrário, não estaria no canteiro central. O papel estava molhado pela comida congelada de prazo vencido. O gelo sumia sob o sol forte.
Para quem come o que cair em mãos sem saber quando repetirá a dose, os frangos embalados prometiam o almoço especial. Quem sabe a janta? Ela ponderava sobre a qualidade do cardápio. Ele argumentava sobre as possibilidades do acaso, da sorte.
O diálogo não interessava a ninguém. O almoço, em duas horas, só interessava a eles. Os frangos não interessavam mais aos cidadãos. Valiam para os invisíveis.
A conversa era quase inaudível por causa do trânsito. Não que o casal tivesse vergonha daquele momento. A vida prática dispensava se importar com o que os outros pensam.
Ambos pareciam cones que atrapalhavam o fluxo da avenida. Assim gritavam os motoristas, que buzinavam enquanto trocavam marchas. Assim tiravam fina os ônibus, preocupados em cumprir os horários.
Invisíveis, os dois corpos permaneciam surdos a remexer o lixo no espremido canteiro central. Não tinham pressa para vender o que pudessem carregar. O preço do papelão, ao contrário do frango, continuaria congelado no patamar miserável da rotina.
Não tinham pressa para chegar em casa. A moradia, de paredes amarelas, era móvel e cabia nas costas daquele homem-caramujo. Um entre quase 600 sujeitos que perambulam pela cidade de Santos.
Naquela casa sobre rodas, quem manda é a mulher, como a maioria dos lares de respeito. Talvez para aquele casal fosse um lar, um espaço – indefinido a cada dia – que os mantinha juntos. Ela decidiu que não valia remexer mais ali. O tesouro era de latão. O frango era apenas o que indicava a embalagem. Não faria aquele almoço.
Que seguissem pela avenida e esquecessem o sol. Tinham uma refeição para resolver. Firme no passo, a chefe puxava o carrinho, por insistência vazio. A ele, a resignação do peso da carroça e da liderança daquela mulher.
O buzinaço ressuscitava a cada semáforo verde. Inexistentes como pessoas, incômodo como cones, o casal retomou a passada mecânica, talvez pela mesma rota ignorada. Os motoristas, para eles, receberiam como única resposta a recíproca invisibilidade.  

Um comentário:

Beth Soares disse...

Este é, simplesmente, o texto que eu gostaria de ter escrito! Você não tem idéia do quanto me deixou orgulhosa!

Um beijo.