segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Mercadoria estragada

A noiva é oferecida como virgem. Quatro homens disputam aquele corpo. Todos incorporaram o clima de leilão, com blefes, propostas indecentes, convites fora do script e outros benefícios. As negociações são feitas com o irmão da suposta donzela. A cada dia, novo anúncio de casamento. Só os ingênuos (ou os desesperados) engolem as sucessivas versões.

Ronaldinho Gaúcho, a noiva, perdeu a virgindade e a pureza há tempos. Não há paixões envolvidas. A discussão é por dinheiro, fator que poderia ser secundário no flerte. Pelo rumo da carruagem, a Cinderela vai para o Rio de Janeiro, atuar no time famoso não mais pelos atletas que revela, mas por dívidas, desmandos, além da desfeita com antigos ídolos, como Zico.

O conto em torno de Ronaldinho Gaúcho está mais próximo de golpe do vigário do que fantasias com final feliz. Os jogadores brasileiros que ainda vivem do nome já perceberam o quanto é prazeroso retornar ao Brasil. É a estratégia de vender o passado para mascarar o presente e lesar no futuro.

Apenas os cínicos (ou os alienados) ainda acreditam que os jogadores de futebol poderiam exercer sua profissão de graça. Assinar contratos em branco, como se fazia há mais de 40 anos, era um estelionato contra o atleta, em benefício de dirigentes e, às vezes, dos clubes.

Jogador de futebol é um trabalhador como outro qualquer. É uma obviedade que, por conveniência, se esquece. O discurso de amor à camisa, com beijo no símbolo de clube, atende às circunstâncias de enganar o torcedor, que pensa e transpira por sentimentos.

Quando os torcedores do Grêmio afirmam não perdoar Ronaldinho e seu irmão Assis, mentem e falam a verdade ao mesmo tempo. A sinceridade está na mágoa de quem foi traído no altar, depois de juras de amor que fariam chorar as velhinhas que acompanham a novela das nove. Mas também mentem, pois engoliriam as dores – e as curariam com pílulas de felicidade – assim que o meia marcasse gols. Se fosse contra o Internacional, então ...

A questão é que rifar um jogador como Ronaldinho reforça a ausência de profissionalismo que permeia o futebol nacional. Ainda somos arrogantes o suficiente para acreditar na teoria de que temos o melhor campeonato nacional do mundo. Apenas porque vários times disputam o título? Apenas porque achamos que são 12 os clubes de grande porte?

Várias equipes disputam o primeiro lugar do campeonato porque o nível é baixo. E este é o motivo para que jogadores em decadência resolvam fingir que trabalham por aqui, enquanto se transformam em mercadorias de supermercado, sustentadas por políticas de marketing.

Os exemplos se multiplicam. Ronaldo nunca esteve em forma. Não é comparação com o auge da carreira, mas com um atleta de 33, 34 anos em nível profissional. É verdade que ele contribuiu para dois títulos em 2009, mas entrou em rota de despedida no ano seguinte.

Adriano teve boas passagens por São Paulo e Flamengo, porém atendeu às expectativas de problemas na vida privada. Robinho foi coadjuvante de luxo para Neymar e Ganso no primeiro semestre. Ganhou no currículo uma Copa do Mundo de presente.

Todos eles amargavam a reserva ou estavam em vias de dispensa na Europa. Para os clubes brasileiros, ações de marketing que – note-se – não renderam lucros para as agremiações; sequer amenizaram as dívidas trabalhistas e bancárias.

Vale a pena investir (ou gastar) R$ 1 milhão mensais em um jogador decadente? O dinheiro, por vezes de patrocinadores, não poderia ser gasto em vários jogadores que, juntos, dariam a sensação de um time em mãos e no campo? Ou colocar recursos nas categorias de base? Quem sabe planejar a infra-estrutura do clube, como centro de treinamento, por exemplo?

As chances de Ronaldinho Gaúcho dar certo no Brasil são enormes. Jogar o Campeonato Carioca e encarar times como Madureira e Volta Redonda. Ou disputar o Campeonato Nacional, em que os estrangeiros têm roubado a cena.

O retorno destes jogadores não tem relação alguma com paixões. A volta representa a consolidação de um modelo de negócio, no qual quase todos os envolvidos engordam as contas bancárias. Sobram os clubes, que ficam com a fama e as dívidas, e o torcedor, que se alimenta de amores de verão. Estes amores são selvagens, curtos e com data marcada para terminar; muitas vezes, com uma das partes iludida por um futuro que existe somente nas frases de efeito do marketing.

6 comentários:

Pedro Henrique Fonseca disse...

Belo texto, mas não acho que o nivel do campeonato brasileiro seja tão baixo. Se tivessemos organização no futebol (ou no país), o Brasileirão não perderia para campeonato nenhum. Ainda acho o campeonato daqui melhor do que o Italiano, por exemplo.

Marcus Vinicius Batista disse...

Pedro, obrigado pela visita. Penso que nossos melhores jogadores estão fora do país, com honrosas exceções, como Neymar e Ganso. Isso interfere diretamente no nível do campeonato. Sonho com o dia que a organização será profissionalizada e menos corrupta. Grande abraço!!!

futebolivre.com disse...

Olá, Marcus.Essa negociação envolvendo o craque dentuço pode ser considerada um dos piores capítulos do futebol nacional. Deixou explícita o amadorismo da cartolagem brasileira, uma pena. Parabéns pelo texto. Abraços e feliz 2011.

Anônimo disse...

Marcos, não considero a volta do Robinho um fracasso, senão vejamos:
Estreeou com um golaço de letra, dando a vitória em um clássico hiper disputado contra um arqui-rival. Um deleite.
Não vou pesquisar, vou falar de cabeça e posso cometer algum equívoco, ok. Deu outra vitória ao Santos com seu gol ao entrar no final de um jogo contra o Paulista(?!)(na volta da seleção), fez, que eu me lembre 3 pinturas de gol por cobertura(um deles decisivo contra o Grêmio na Copa do Brasil na vila), fez outro gol decisivo contra o Grêmio na Copa do Brasil no jogo de ida. Entre tantas assistências. Compôs com maestria o time histórico do primeiro semestre de 2010. Além disso, ganhou os dois campeonatos que participou. Pra mim, ele arrebentou em sua segunda passagem pelo SANTOS. Abraços
LEVI

Marcus Vinicius Batista disse...

Caro amigo do Futebol Livre, obrigado pelo comentário. Assino embaixo no que escreveu. Desejo o mesmo a você. Abraço!!

Marcus Vinicius Batista disse...

Levi, agradeço pela leitura e pela opinião. Não disse que Robinho foi um fracasso. Concordo que ele teve excelentes momentos. Mas entendo que foi uma "escada" para a dupla Neymar e Ganso. Robinho só veio para o Santos por amargar a reserva na Inglaterra e por correr o risco de ficar de fora da Copa do Mundo.