terça-feira, 11 de janeiro de 2011

A fauna do navio

Viajar em um navio de passageiros é embarcar em um laboratório humano. Ali, a riqueza da fauna pulsa durante vários dias, reclusa em alto-mar e disposta a deixar de lado os freios que seguram as asas em terra firme.

Uma das principais diversões no cruzeiro é observar e identificar as várias espécies que circulam pelos decks. Reconheço que o passatempo é esquisito, mas um navio de passageiros só se sustenta porque as estranhezas são expostas sem pudor. E tomar sol à beira da piscina, como um lagarto, permite enxergar melhor as nuances que diferenciam os seres e suas patologias.

Muitos espécimes que habitam tais embarcações ainda não foram identificados pela ciência. Outros correm risco de extinção porque se reproduzem com dificuldades neste curto cativeiro.

Após uma semana de vadiagem, uma breve lista dos tipos de passageiros:

1)Lady Cate – Em qualquer situação, o argumento inicial (e único) é sempre dinheiro. O bordão “Tô pagando!” é repetido como se o passageiro fosse uma calopsita. Ele julga ter direito a tudo (e a todos) porque pagou pelo cruzeiro; aliás, em muitas prestações.

2)Narciso não é espelho – Este tipo costuma habitar as redondezas da piscina. É avesso à água. Jamais mergulha. Pouco se move. Segura sempre um copo de bebida. Ajuda a compor o tipo “I’m too sexy”. O kit também inclui o corpo marombado, a sunga branca (espero que tenha um estoque para tantos dias de viagem) e a pose de escultura grega.

3)Periguetes – Costumam cercar os Narcisos, em busca de um passo para o paraíso. Passam a maior parte da viagem como moscas de padaria, que cercam sem levar a mercadoria para casa. Como disse um amigo, os marombados só querem “mina top”. Com a aproximação do desembarque, elas apostam na queda brusca do nível de exigência dos Narcisos, o que geralmente acontece. Ficar sozinho não é o destino destas espécies, ainda que sejam ignoradas celulites e estrias.

4)Titanic – Estes passageiros sempre acham que o navio vai afundar. Não prezam pelo bom humor e, portanto, não toleram as piadinhas sobre o filme. Fazem os exercícios de simulação com afinco. Quando viajei, duas passageiras vestiram coletes até quando o exercício era restrito aos tripulantes, tamanho afinco, dedicação e pavor e paranóia do desastre. Na mesma viagem, a falta de energia elétrica por meia hora fez com que outras duas corressem pelos corredores, aos gritos, arrastando suas malas de mão. Quem levaria uma mala em caso de naufrágio?

5)Joselito – Como o extinto personagem da MTV, esta espécie perdeu a noção e não sabe brincar. O sujeito quer participar de todos os jogos e brincadeiras como se estivesse em uma Copa do Mundo. Até na tradicional competição de barrigada na piscina, esta espécie tenta mostrar profissionalismo. Ao menos, é garantia de risadas alheias.

6)O equilibrista – Anda em zigue-zague a maior parte do tempo. Esconde-se na multidão quando o navio balança. Sua condição etílica fica exposta quando a embarcação está atracada. A vantagem é que não se lembrará de muitos episódios desagradáveis ou de gafes cometidas.

7)O garoto enxaqueca – Aparece em ambos os gêneros. Reclama sempre. Tudo é ruim. Não perde a chance de incomodar um tripulante, mesmo que ele não fale a mesma língua. É preciso desabafar. Sempre esperava mais, ainda que a lagosta e o camarão gigante sejam iguarias de primeira viagem na vida dele.

8)O entrevistador – Este passageiro não tem receio de esclarecer suas dúvidas. Pergunta ainda que ofenda. Faz questões pertinentes aos tripulantes como “Você mora no navio?” e “Este elevador sobe e desce?”. O lado positivo é que sempre agradece pelas respostas, mesmo que sejam: “Não, um helicóptero nos resgata todos os dias e nos deixa numa ilha próxima” ou “Este elevador também anda para os lados.”

9)O poliglota – Fala vários idiomas, variações mal acabadas do português. O interlocutor pode ser filipino, chileno ou até brasileiro. Valem os gestos, elevar a voz e pausá-la, como se o outro tivesse problemas mentais. Olhar as feições do tripulante ou ler o crachá dele para identificar a nacionalidade pouparia esta espécie de constrangimentos constantes.

10)A turma do pré-sal – Estes são os passageiros eternos. Moram nos andares mais baixos do navio. Precisam sorrir sempre e tolerar o comportamento das espécies acima descritas. São versáteis e trabalham até 12, 14 horas por dia. Suas moradias são coletivas e flutuantes. A velocidade nas amizades, a disposição para um bom papo e o desprendimento da convivência transitória são remédios para combater a saudade de familiares e amigos em terra.

A classificação dos passageiros atende somente a fins didáticos e científicos. Isso significa que estes seres podem sofrer mutações ou se misturar com outros tipos. E também criar outros espécimes. Um passageiro pode se encaixar em vários itens, conforme a necessidade de um lugar ao sol no deck do navio.

Se me identifico com algum deles? Como observador atento da inutilidade, posso te dizer, caro leitor: você jamais saberá.

4 comentários:

Fabricio D disse...

Não esquece que tem aqueles que so são vistos quando aparecem no bar para beber água, como se tivessem saído do Saara, tamanha a sede, mas que na verdade moram na esteira da academia do navio....como se nunca tivessem visto um halteres na vida!!!...tinha varios assim...abs

Marcus Vinicius Batista disse...

Fabricio, você está coberto de razão. Mas esta espécie ainda precisa passar pelos processos de identificação científica. Quem sabe você faça o levantamento na próxima viagem? Grande abraço!!!

Anônimo disse...

Marcus,

Texto de pura realidade vivida em alto mar durante 7 dias, onde passou um filminho na minha mente a cada paragrafo lido!
Observarei mais na próxima viagem.
Processo de identificação científica sim!
Mas convenhamos que o comportamento do ser humano é algo bizardo e ao mesmo tempo engraçado!
Ai fica a pergunta:
O que é ser uma pessoa normal?
beijos
Sua irmã.

Marcus Vinicius Batista disse...

Catarina, como poderia saber se não sou uma? Será que existem?(risos) Beijo.