sábado, 29 de janeiro de 2011

O expresso do Oriente

O São Paulo Futebol Clube adotou um comportamento estranho, incomum para os padrões de propaganda que vem dos lados do Morumbi. Refiro-me à instituição, e não ao time, contaminado de forma indireta.
O São Paulo resolveu, do ano passado para cá, alimentar-se de desespero, digerir ilusões e expelir erros. Como sobremesa, esbarrar e balançar em dilemas éticos.
O desespero do tricolor decorre de uma doença que castiga quase todos os clubes brasileiros. O mal se chama abstinência de camisa 10. A ausência de um meia, clássico ou moderno, que seja capaz de conectar todos os setores da equipe é dificuldade cotidiana no Brasil. A espécie se encontra em extinção, tanto que importamos meias estrangeiros, de qualidade variada, como ficou cristalino no último Campeonato Brasileiro.
O São Paulo passou a ter tremedeiras constantes e apagões em campo, causados pela abstinência. Tentou vários remédios, novos ou com anos de mercado, todos placebos. Apelou agora para um medicamento, com prazo de validade em vias de vencimento.

A contratação de Rivaldo, de todos os repatriados em final de feira, é o principal sintoma de que misturar passado e presente embaralham o futuro. O São Paulo comprou o Rivaldo semi-aposentado e dirigente-bebê, mas vendeu aos torcedores e à imprensa um produto que não existe mais.
Ninguém sabe como Rivaldo vai se comportar. Qualquer prognóstico é chute. Quem acompanhou o desempenho dele nos últimos cinco anos? Mesmo que o olhássemos de perto, o campeonato do Usbequistão pode ser comparado com qual torneio? Como estabelecer parâmetros de análise?           
Neste ponto, o desespero é mal digerido e se transforma em ilusão. Rivaldo, se a aventura final der errado, será a ovelha no sacrifício. E mais ninguém! O São Paulo repetiu o deslize de outros clubes brasileiros que apostaram em marcas desgastadas na Europa.            
Rivaldo sofrerá – infelizmente - as comparações com outro Rivaldo, que só pode ser visto pelo espelho retrovisor. Muitos torcedores, omissos ou ingênuos, pretendem ver o meia-atacante do final do século passado (a expressão é proposital, para reforçar a distância) ou o sujeito que arrebentou na Copa do Mundo, há quase nove anos.             
O paralelo, acima de tudo, se mostra injusto com o próprio jogador. Rivaldo poderá arrebentar somente em lances esporádicos. Jamais ser o centro das atenções ou carregar o time nas costas. Os cavalos paraguaios do Campeonato Paulista podem reforçar a ilusão e explicitar o erro. Jogar bem contra Linense, São Bernardo e outros enganam os mais apressados.
Do ponto de vista financeiro, vale o custo-benefício? Rivaldo, um atleta discreto, de poucas palavras e inversamente habilidoso com o marketing, poderá atrair dividendos para o clube? E os gastos salariais, dinheiro que poderia ser utilizado em jogadores mais rentáveis e com capacidade de suportar vários jogos em sequência?           
É evidente que a escassez de mão-de-obra qualificada garante a ressurreição de atletas em final de trajetória. Rivaldo nada nesta corrente, inclusive surpreso pelo interesse de um clube de ponta. Preparava a própria despedida. A vida como dirigente é a maior evidência da transição em curso.
É neste ponto que entra o dilema ético, ainda que secundário diante do alarde da contratação. Rivaldo, por cláusula contratual, não pode enfrentar o Mogi Mirim enquanto jogar pelo São Paulo. E se as duas equipes se enfrentarem no mata-mata? O presidente-jogador vai torcer para quem? Como vai definir a gratificação de seus empregados? No mínimo, um conflito de interesses estará caracterizado. Ainda surpreso com a nova condição, Rivaldo disse que pensará sobre o assunto.


Se este texto apresenta mais perguntas do que respostas, é apenas coerente com a chegada do próprio atleta, de 38 anos, ao Morumbi. Rivaldo será mais um bonde a sugar dinheiro de time grande? Ou vai atropelar a todos como um trem expresso, como o que leva a Sibéria, tão longe quanto o exílio que nos leva a tantas dúvidas sobre o jogador? 
Rivaldo soa como incógnita, o que não deveria surpreender o próprio jogador, que vive nesta condição há anos, desde que se exilou no Oriente.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Os solidários de boutique


A repórter entrou ao vivo na programação, direto de um dos galpões onde são recolhidos mantimentos para as vítimas da região serrana do Rio de Janeiro. As informações deveriam seguir o caminho da orientação aos telespectadores. Mas a repórter usava um tom irritadiço:
Os voluntários pedem às pessoas que, quando decidirem doar roupas íntimas, enviem – por favor – as peças limpas!
Como alguém, com o mínimo de decência, é capaz de mandar cuecas e calcinhas usadas? E pior: sujas e rasgadas?
Uma história como as mortes na região serrana do Rio de Janeiro sempre ganha contornos de dramaturgia. De todos os lados, as pessoas se organizam para juntar doações, para exercitar a solidariedade. Muitas vezes, inflamadas via mídia. É uma postura saudável, óbvio, e civilizada para uma espécie que tem o gosto histórico da selvageria nos lábios.
Pensar e agir em prol do outro é apenas um dos comportamentos possíveis. Os sentimentos ao ver o horror se misturam, o que multiplica e diversifica as reações diante das vítimas, dos sobreviventes e das autoridades, estas treinadas para a prática da comoção circunstancial.
Por que nos envolvemos em situações tão distantes? Por que somos capazes de nos mobilizarmos por pessoas desconhecidas, a centenas de quilômetros, e viramos as costas para quem nos pede ajuda na esquina de casa? A vítima sem rosto facilita a ação solidária? Desumanizá-la desgasta a culpa pela omissão coletiva e rotineira?
Ajudar ao sujeito desconhecido pode eximir o doador de responsabilidade, enquanto assassina o remorso. Existe um tipo de doador que, na verdade, enxerga ali a oportunidade de se libertar de tralhas e outras tranqueiras que entopem armários e gavetas.
Repassar objetos que um ser humano não aceitaria a um sujeito incógnito resolve dois problemas: esvazia a casa e muda a vida de alguém. Até porque diante de uma montanha de mantimentos e roupas, quem vai reclamar de uns trapinhos remetidos de má fé?
Uma assistente social da Prefeitura de Santos me explicou que, há alguns anos, metade das doações para a Campanha do Agasalho chegava inutilizada aos postos de entrega. São roupas sem condições de uso, velhas e sujas. Servem para qualquer coisa, menos proteger alguém do frio.
Muitos doadores adoram bater no peito e praguejar que fizeram a ação do dia, que são socialmente responsáveis. Espalham para os vizinhos, postam nas redes sociais, comentam com os familiares e amigos. O ego se sente no mais confortável dos spas para a consciência.
Olhar pelo próximo, para essa gente do bem, dá status ou perpetua a manutenção dele em certos círculos sociais. Doar está no mesmo patamar da preocupação com o aquecimento global, a fome no Sudão ou a seca do Nordeste. Nada que altere o expediente no sofá da sala ou em frente ao computador.   
Doar também pode ser um ato de exibicionismo. Câmeras de TV e holofotes legitimam os bons samaritanos, muitos deles celebridades (ou aspirantes à fama) que necessitam de uma reversão ou reconstrução de imagem. Lembro-me do caso de um ator que, preso com drogas, visitou uma entidade que cuidava de viciados na semana seguinte.
Os doadores que pregam seus atos em praça pública são os primeiros a sofrer de esquecimento quando a tragédia em questão desaparece das manchetes. Talvez enxerguem, de fato, a coisa com a crueza habitual: um episódio sem relação com quem o observa. Mais uma trama triste na TV.  
A solidariedade, para eles, permanece como a roupa dos egoístas, que curam a própria culpa assim que se livram das velhas peças de roupa. Em outros momentos, associam a serenidade do solidário com o entendimento de que quem recebe deve aceitar os restos, sem duvidar, sem se queixar, sem desconfiar.
São famosos os exemplos de senhorinhas voluntárias – meigas de primeira impressão – que embalam e guardam para si e seus familiares roupas e alimentos que teriam um destino mais nobre. E, com a desfaçatez mascarada pelo ar de indignação, perguntam:
— O que eles fariam com um casaco tão bom como este aqui?
Não tenho o direito de condenar a honestidade dos que desconfiam e se negam a doar. Acredito naqueles que doam em silêncio, com a discrição dos humildes. Acima de tudo, prefiro os silenciosos anônimos, que compõem a maioria dos que prezam pela premissa de que o outro representa um espelho. E compreendem a recíproca como um desfecho inevitável.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

O casal invisível


— Olha ali, um monte de papelão.

Era o recado dele para que parassem. Até então, a marcha era mecânica, ritmada, como se os caminhantes esvaziassem os pensamentos para cumprir uma tarefa, seguir uma rota pré-determinada.

O casal passava dos 60 anos, na aparência enganosa de quem vive sob o temperamento do clima. Ele puxava uma carroça, daquelas amarelas padronizadas pela Prefeitura. Ela seguia alguns metros atrás, com o carrinho de feira quase vazio.
Ambos estão magros. Ele parecia ter o peso compatível com a altura (1,80 metros). Sem camisa, mostrava a pele desgastada pelo sol. A barba branca acelerava o tempo de vida.
Ela, baixinha, pesava cerca de 40 quilos. Um chute, claro. Certeza que não passava dos 50. Cabelos curtos, escondidos por um boné. Tão esquálida que, de longe, era percebida como mulher por causa dos seios, que lembravam uma pré-adolescente. A mulher poderia se quebrar a qualquer hora; bastava uma chuva forte ou vento de um carro em alta velocidade.
O calor, acima de 35 graus, castigava, mas não fraquejava o casal diante da mina de ouro. Achar uma quantidade daquela de papelão, às dez e meia da manhã, era mosca branca. Normalmente, o filet mignon da reciclagem some logo após o sol nascer.
O entulho era de uma loja de laticínios e carnes, na avenida Pedro Lessa, em Santos. O depósito, no canteiro central da via, acontecera cinco minutos antes da passagem peregrina do casal. Mas era preciso um olhar garimpeiro.
Em minutos, os dois separaram o papelão dos detritos. A maior parte não prestava. Para a visão geral, nunca presta; caso contrário, não estaria no canteiro central. O papel estava molhado pela comida congelada de prazo vencido. O gelo sumia sob o sol forte.
Para quem come o que cair em mãos sem saber quando repetirá a dose, os frangos embalados prometiam o almoço especial. Quem sabe a janta? Ela ponderava sobre a qualidade do cardápio. Ele argumentava sobre as possibilidades do acaso, da sorte.
O diálogo não interessava a ninguém. O almoço, em duas horas, só interessava a eles. Os frangos não interessavam mais aos cidadãos. Valiam para os invisíveis.
A conversa era quase inaudível por causa do trânsito. Não que o casal tivesse vergonha daquele momento. A vida prática dispensava se importar com o que os outros pensam.
Ambos pareciam cones que atrapalhavam o fluxo da avenida. Assim gritavam os motoristas, que buzinavam enquanto trocavam marchas. Assim tiravam fina os ônibus, preocupados em cumprir os horários.
Invisíveis, os dois corpos permaneciam surdos a remexer o lixo no espremido canteiro central. Não tinham pressa para vender o que pudessem carregar. O preço do papelão, ao contrário do frango, continuaria congelado no patamar miserável da rotina.
Não tinham pressa para chegar em casa. A moradia, de paredes amarelas, era móvel e cabia nas costas daquele homem-caramujo. Um entre quase 600 sujeitos que perambulam pela cidade de Santos.
Naquela casa sobre rodas, quem manda é a mulher, como a maioria dos lares de respeito. Talvez para aquele casal fosse um lar, um espaço – indefinido a cada dia – que os mantinha juntos. Ela decidiu que não valia remexer mais ali. O tesouro era de latão. O frango era apenas o que indicava a embalagem. Não faria aquele almoço.
Que seguissem pela avenida e esquecessem o sol. Tinham uma refeição para resolver. Firme no passo, a chefe puxava o carrinho, por insistência vazio. A ele, a resignação do peso da carroça e da liderança daquela mulher.
O buzinaço ressuscitava a cada semáforo verde. Inexistentes como pessoas, incômodo como cones, o casal retomou a passada mecânica, talvez pela mesma rota ignorada. Os motoristas, para eles, receberiam como única resposta a recíproca invisibilidade.  

domingo, 23 de janeiro de 2011

O prazer de ver um filme ruim

Um velho amigo cinéfilo costuma ter duas reações extremas quando os filmes o perturbam. Se ele adora a história, resume os sentimentos em uma palavra:

- Mágico!

Quando a trama é fraca, costuma repetir duas exclamações:

- Ofensivo! Horroroso!

A segunda palavra vem acompanhada de várias letras “o”, que se multiplicam conforme a ênfase na péssima qualidade da obra.

Quando perguntei sobre “Os Mercenários”, de Sylvester Stallone, pressentia a segunda forma de opinião. Não recebi nenhuma das respostas. Ele apenas disse:

- Oportunidade perdida. Não conseguiu nem me ofender.



A indiferença aumentou minha curiosidade sobre o filme. E me deixou sereno para não esperar coisa alguma da história. Ainda bem! A ausência de expectativa me deu o prazer de assistir a um roteiro previsível, com bombas, tiros, perseguições, flertes entre o protagonista e a mulher fatal (falsa comum) e exótica, cabeças de soldados mudos rolando, piadinhas com testosterona, vilão latino clichê e final com abertura para continuação. Era como uma criança espectadora, que revê inúmeras vezes como se fosse a primeira exibição.

“Os Mercenários” não foi produzido para a mais básica racionalidade, não permite procurar camadas subterrâneas de interpretação ou parir uma análise filosófica de boteco. Reconheço a obviedade, mas muitas produções blockbusters conseguem gerar uma perspectiva que abandona a superfície.

O filme é uma reunião de amigos, com uma câmera em movimento. A produção, também protagonizada por Stallone, ressuscita atores que fizeram parte da carreira dele, de coadjuvantes na violência aos adversários nas bilheterias.

Um exemplo: Dolph Lundgren (Drago, do Rocky IV). Por coincidência com cheiro de proposital, Stallone derruba o gigante loiro mais uma vez em combate. A diferença é que a vida sexagenária deu momentânea sensação de ridículo a Stallone, que agora economiza no corpo a corpo. Tiros à distância resolvem. Mas não preocupe que a sensação se esvai na cena seguinte.

Tenho a impressão de que o roteiro foi feito depois da escolha do elenco, com objetivo cristalino de encaixar toda a turma. Somente um esqueleto de narrativa, que abre margem para improvisações e piadas internas dos amigos.

Vários ícones de filmes de ação das últimas três décadas se unem em papéis pequenos, como Jet Li, Mickey Rourke, Jason Statham e Bruce Willis, além de Eric Roberts (irmão da Julia) como vilão. Todos em personagens-estereótipos com seus diálogos elementares.



O ex-governador Arnold Schwarzenegger faz uma pontinha e não aparece nos créditos. Ele participa de uma conversa dentro de uma igreja, com Stallone e Willis. A cena serve para uma ação entre colegas, com piadas auto-referentes, sem acréscimo ao filme.

Na prática, os atores toparam servir ao diretor Stallone. Sem vaidades, sem riscos. Todos fizeram aquilo que estão acostumados a fazer, sem pisar em campo minado. A limitação, neste caso, soa como coerência.

Na história, Stallone lidera um grupo de mercenários, contratados por Willis, para derrubar um general ditador numa ilha qualquer da América Central. O general, feito por David Zayas (o detetive Batista, da série Dexter), é dominado por um ex-agente da CIA (Eric Roberts), que pretende fabricar cocaína no local e vender nos EUA. Quem do elenco não sangrou e matou neste mesmo tipo de história, multiplicada a partir dos anos 80?

Se você acompanhou, ainda que por cima, o noticiário, sabe que parte da trama foi rodada no Brasil. É possível identificar o país por certos cenários, mesmo com o filtro amarelado que identifica o modelo mexicano, e particularidades nacionais, como chapas dos automóveis e caminhões.

A mulher exótica, que flerta com o personagem principal, é a brasileira Gisele Itié. Ela incorpora o inglês correto e a sensualidade das mulheres latinas, carimbadas como guerreiras ariscas, apaixonadas e, no fundo, submissas ao macho alfa.



“Os Mercenários” cumpre a missão de passatempo. No meu caso, a manhã preguiçosa de domingo. Se a proposta era curtir a festa, faltou apenas convidar Steven Seagal, Chuck Norris e Jean-Claude Van Damme. No trash 80, vale o conselho de um colega jornalista, depois de um dia cheio:

- Vou assistir a um filme de narrativa acelerada!

Neste contexto, deixe o cérebro em outro cômodo da casa e reforce a nostalgia dos filmes ruins, antigos e que, para não decepcionar, devem permanecer na memória. Entre o ofensivo e o horroroso, “Os Mercenários” é um exemplo fácil de reciclagem.

sábado, 22 de janeiro de 2011

O bigode do xerife

Rodolfo Rodriguez fez 55 anos. O motivo é frágil, reconheço, para justificar essa crônica, mas o aniversário dele despertou em mim a nostalgia das noites de quarta-feira, na Vila Belmiro, na metade dos anos 80. O uruguaio foi o melhor goleiro que vi jogar em um estádio de futebol.

Em 1985, tinha 11 anos. Durante dois anos, fui várias vezes assistir ao Santos jogar em casa. Assistir, corrigindo, Rodolfo Rodriguez. O Santos havia desmanchado aquele time que levou o Campeonato Paulista de 1984. Sobraram Rodolfo, uns bons jogadores e uma série de vigaristas de chuteiras.



O uruguaio ficava exposto, carregava a equipe nas costas em muitas partidas. Também por causa disso, liderava a seleção uruguaia e foi à Copa do Mundo, em 1986, no México.

Sou corintiano. Então, percebe-se com facilidade a importância que o goleiro teve naquela fase de minha vida. Sonhava em ser jogador de futebol e enxergava nele um mestre. Joguei em vários clubes, inclusive o mesmo de Rodolfo, até que a autocrítica, aos 18 anos, me convenceu que futebol seria passatempo de final de semana. Ou de times de faculdade. Ou peladas em gramada sintética e na areia.

Gostava de ir à Vila Belmiro às quartas-feiras à noite porque o estádio ficava mais vazio. Preferia quando o Santos encarava clubes do interior pela mesma razão. Em jogos assim, poderia ficar atrás do gol. Vê-lo, de perto, se movimentar na grande área. Orientar zagueiros, corrigindo o posicionamento deles. Comunicar-se com o resto do time em cobranças de escanteio. As conversas, breves e diretas, fascinavam a testemunha daquele balé bruto, acelerado e, aparentemente, sem rumo.

Atrás do gol, sentia as defesas dele como se fossem minhas. A forma dura, mas respeitosa como tratava os adversários. Ele sabia que podia, com duas ou três frases, mais o olhar, afugentar uma jovem revelação do interior da grande área. Ou equilibrar forças com os medalhões que pretendiam demarcar território na casa dele.



Sempre lamentarei por não estar lá na noite em que o uruguaio fez seis defesas em sequência contra o América, de São José do Rio Preto. Falar em Rodolfo Rodriguez também é associá-lo a milagres como aquele.

Mas vivenciei outra partida entre o Santos e o América, numa quarta-feira chuvosa. A Vila Belmiro com três, quatro mil pessoas mais ou menos. Jogo que morreu em 0 a 0, somente para constar nas listas de estatísticas de futebol.

Aquele jogo, para mim, simboliza Rodolfo Rodriguez. O América tinha se transformado em um pequeno chato, cheio de irritação. Arrancava empates dos grandes clubes, mas se atrapalhava com os colegas coadjuvantes.

O América jogava com um atacante loiro, cara e jeitão de surfista. Ricardo havia sido revelado pelo Corinthians. Não metia medo pela habilidade. Incomodava mais pela boca do que pelos pés. Perturbava na grande área. Faltas, palavrões e cutucões nos defensores do Santos. Para qualquer toque que recebia, chorava as pitangas no ombro do juiz e pedia cartão amarelo aos adversários.

Não sei exatamente o porquê, mas o atacante-galã pensou que poderia mexer com o goleiro uruguaio. Talvez fosse cego porque não notou que o bigode de Rodolfo, clássico dos homens com estrela no peito, dos filmes de faroeste, não era característica suficiente para afugentar um atacante mal educado. O menino - quem sabe pela falta de experiência? - pensou que o bigode deveria ser decoração ou excentricidade de gringo.

Numa cobrança de escanteio, as benditas cobranças que tornam futebol e rugby primos de sangue, Ricardo se enroscou com um dos zagueiros do Santos. A partida se arrastava como a água da chuva no chão duro das arquibancadas. As intrigas, então, se tornavam mais atraentes do que a bola.

Na discussão na pequena área, Rodolfo se meteu. Meteu o dedo na cara do atacante, um moleque de 20 anos, desbocado conforme a coerência da idade. Num momento de silêncio, no intervalo da gritaria, a voz do goleiro sobressaiu. Apenas escutei a voz grave, em bom portunhol:

- Aqui mando eu. Você não entra mais aqui, moleque!

Confesso que não me lembro se eram essas as palavras, literalmente. Mas a bandeira fincada dava nome ao proprietário do terreno. Rodolfo despejou o garoto surfista. Isso no primeiro tempo. O atacante até que tentou, no final da mesma etapa, voltar à grande área. O goleiro deu meia dúzia de passos, suficientes para que o menino recuasse.

O atacante do América terminou o primeiro tempo caindo pelas pontas, bem diferente de quem costumava atuar enfiado entre os zagueiros. No segundo tempo, virou um meia esquerda, daqueles bem recuados. Acabou substituído.

No mesmo jogo, chamei pelo goleiro, admirado mais pelo conjunto da obra, do que pelas defesas, escassas num empate mirrado. Rodolfo ouviu e acenou de volta. Para um moleque de 12 anos, cheio de fantasias sobre ser goleiro, Deus havia falado comigo. O melhor jogo do campeonato.

Quase dez anos depois, em 1993, vi Rodolfo em campo pela última vez. Aos 37 anos, vestia a camisa do Bahia contra o Cruzeiro pelo Campeonato Brasileiro. Parecia cansado e desmotivado. Tentava, em vão, segurar o ataque mineiro, com um fenômeno de 17 anos, rápido, magro e letal.

Rodolfo Rodriguez, defendendo um time caído de quatro, fez outra defesa. Ajoelhou-se como se orasse para a tortura cessar. Colocou a bola ao lado para esbravejar com os trapalhões da defesa. Não viu Ronaldo, que tomou a bola dele e marcou mais um gol.

Senti compaixão por aquele santo milagreiro, que cumpria a pior das penitências. Mas Rodolfo era demasiado humano para entender o momento de jogar as luvas numa gaveta qualquer e trancar o armário do clube. Entregou a estrela dourada e virou rancheiro no Uruguai.



De vez em quando, vejo elogios apressados a goleiros voadores, escravos do show das câmeras, frágeis no instante que a responsabilidade cai sobre suas costas. De vez em quando, vejo goleiros que só sabem jogar com defesas sólidas, que tremem diante de partidas enroladas e atacantes encardidos.

Nestas horas, penso em Rodolfo Rodriguez. Sóbrio. Sério. Reflexos felinos. Líder que mandava e desmandava com o senso de justiça dos xerifes. O Santos nunca mais teve um goleiro daquele peso. Outros chegaram perto. Até ganharam mais títulos. Chegaram à seleção. Mas nenhum deles é ovacionado, mais de 20 anos depois, como se fosse semana passada, no centro do gramado da Vila Belmiro.

Parabéns, goleiro uruguaio! E obrigado por alimentar a saudade das noites chuvosas de quarta-feira.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

A máfia palmeirense

Dia de eleição é sintomático. Os otimistas falam em exercício da democracia. Os realistas defendem o discurso do balanço. Os pessimistas viram as costas para um processo que julgam falido.

No Palmeiras, nenhuma das três alternativas parecem apontar o caminho para a mudança, a curto prazo. O cheiro é de mais do mesmo, de confusões encenadas para perpetuar o final previsível. A falta de consenso se dá pelas migalhas do poder, e não pelo anseio de derrubar paredes e abrir outras portas.

O Palmeiras ficou para trás. É a quarta força do Estado. Nos últimos cinco anos, apenas um Campeonato Paulista na estante de troféus. Não revelou jogador que apareça nas listas especulativas da seleção brasileira. Não construiu novos ídolos, exceto o atacante Kléber e o meia chileno Valdívia, ambos longe de serem unanimidades.

O clube contratou 81 jogadores no mesmo período, a maioria para engordar as contas bancárias de empresários. Apostou em medalhões para comandante, como Luxemburgo, Muricy Ramalho e Felipão, e em novatos como Antônio Carlos e Jorginho.

As dívidas envergonham. O Palmeiras mendiga empréstimos bancários. Como ponto positivo, a arena que saiu do papel. Mas a que preço?

Em dia de eleição, prefiro perguntar: por que o Palmeiras não vence? É apenas uma teoria, mas apostaria que o maior dos males palmeirenses está no coração envenenado da cartolagem. A política de gabinete, como sintoma mais doente, levou o clube à vida comum.

As relações políticas se assemelham a um clichê italiano: as máfias. Os capos de verde não matam com pistolas ou bombas embaixo de carros, mas executam adversários, enterram idéias e sacrificam projetos em nome da permanência no poder. O olhar se mantém distante de ideais democráticos ou esportivos. A vida política no Palmeiras é selvagem e autocrática.

As torcidas organizadas, muitas vezes parceiras dos dirigentes omissos, coniventes e medrosos na escalada de violência, têm razão desta vez. O processo eleitoral é tão arcaico quanto à visão dos principais comandantes do clube. Apenas 280 conselheiros têm direito a voto. Os associados ficam à revelia das alianças políticas. Os torcedores e seus desejos são ignorados solenemente,

O Palmeiras dava sinais de que seguiria uma estrada diferente dos demais clubes grandes de SP. Trocou um presidente de longa data, com tendências ditatoriais, por um economista acima de suspeitas. A teoria econômica não foi além dos limites da cantina.

As gafes de Luiz Gonzaga Beluzzo são aceitáveis, fruto de paixões e sentimentos agressivos na quentura de um jogo de futebol. Sempre se espera postura mais sóbria de um dirigente, mas se tolera o instinto de torcedor, exceto quando o amor se traveste de preconceito.

Talvez o problema esteja aí: Beluzzo governou como torcedor, não como administrador. E, acima de tudo, não reuniu forças para arranhar o castelo de pedras que protege os vícios da turma do amendoim.

A eleição de hoje só permite aos palmeirenses rezar e torcer com fé. Melhor ignorar a razão, que insiste em escancarar a lista de problemas. O buraco financeiro varia nos cifrões, varia no rol de culpados. A nova (velha) turma, sem opções convencionais e ou coragem para revolucionar, dará sequência à gestão do bom e barato. Ainda que seja inconveniente usar tais termos no calor da hora.

Sem perspectivas de sacudir a estrutura doente, o modelo político do Palmeiras sangrou o time de futebol. Quando um clube tem como ídolo único o goleiro, a situação gera cuidados. Quando este goleiro vai se aposentar no final do ano e não há um substituto em campo, o quadro preocupa.

E quando a maior referência técnica é o treinador, o momento significa fechar para balanço, seja financeiro, seja apenas no time de futebol.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

10 pílulas de normalidade

É difícil manter o ritmo adequado de respiração quando se está diante do noticiário. Descontando a carga emocional inerente à TV, ainda assim prevalece um rosário de episódios que talvez deixasse corado de vergonha um homem de outra época.

Claro que ele teria gavetas semelhantes para guardar seus próprios fracassos, crueldades e comportamentos doentios, mas fico em dúvida se todos os esqueletos apareceriam para ele ao mesmo tempo como hoje. Uma sucessão de momentos de cinismo, promessas com desfaçatez e ares de indignação de quem senta sobre a própria consciência.

A partir deste olhar inicial, proponho a você, leitor, dez questões que adoraria que sacudissem a passividade coletiva na poltrona da sala de estar.

1)Até quando vamos considerar normal políticos distribuírem passaportes diplomáticos e outros presentinhos para que parentes e amigos possam viajar, com dinheiro alheio, fingindo que estão a trabalho?

2)Até quando vamos achar normal que, a cada quatro anos, ressuscitem uma espécie chamada “deputado de verão”, que custará R$ 107 mil por mês, sem sair da cadeirinha de praia?

3)Até quando vamos entender como normal políticos eleitos abandonarem seus cargos no meio do mandato, para concorrer a outros postos, ou para assumir outras funções, que atendem a fome de poder?

4)Até quando vamos olhar repetidamente para os sobreviventes de deslizamentos de terra, provocados pela chuva, deixar de lado a pilha de corpos e culpar a ira divina?

5)Até quando vamos nos sensibilizar com os mesmos rostos tristonhos dos engravatados que visitam as áreas devastadas pelas chuvas, como se não tivessem responsabilidade alguma com a falta de planejamento urbano e a ocupação desordenada?

6)Até quando será normal conversar horas – e gastar quilos de papel – para debater a vida sexual e matrimonial do vice-presidente da República, em detrimento de seu histórico sombrio na política?

7)Até quando será corriqueiro aceitar que Lula transforme dois ex-presidentes em melhores amiguinhos da escola, o alagoano expulso de Brasília uma vez e o coronel maranhense, tratado como pessoa especial?

8)Até quando vamos engolir como rotineiros os alagamentos diários – e bairros inteiros com água a um metro de altura depois de dias sem chuva - e ouvir que projetos existem e que respostas virão, sem data e compromisso expressos?

9)Até quando vamos suportar horas na fila no posto de saúde, e centenas de casos de diarréia e vômito, enquanto os fornecedores juram de pés juntos que a água da região equivale às marcas sofisticadas francesas?

10) Até quando debateremos aos berros, somente no boteco, salários de R$ 1 milhão, R$ 1,5 milhão para jogadores descompromissados de futebol, enquanto fazemos silêncio para o aumento indecente de R$ 20 no salário mínimo?

Sempre desconfiei de tantas normalidades. É a dose de entorpecente que perpetua a vida passiva. Temo os que se julgam normais, sempre dispostos a enterrar indignações para salvar a si mesmos. Os normais diferem dos comuns, talvez vivos e conscientes no próprio anonimato, talvez capazes de levantar da poltrona e gritar pelo novo.

Sempre desconfiei que, da normalidade, nascem os sintomas da esquizofrenia social.

sábado, 15 de janeiro de 2011

A religião, o futebol e os tabus

O templo ficava atrás de uma concessionária. Quando se busca a paz, o lugar não importa, até porque em ambos os endereços pagavam-se religiosamente todos os meses para viver o equilíbrio espiritual.

O culto era realizado aos sábados, sempre às dez da manhã, com sol, chuva, frio ou feriado. Eram cerca de 25 homens fiéis, todos frustrados de alguma forma porque não alcançaram os sonhos de criança.

Naquele espaço, uma vez por semana, alguns deles se aproximavam do paraíso. Outros pagavam seus pecados. Poucos atingiam o grau de redenção.

O paraíso tinha comprimento e altura. Cinco metros por dois, mais ou menos. Ali, uma vez por semana, eu era o Judas, o traidor, o milagreiro às avessas. Um goleiro, aquele sujeito nascido para matar a beleza da religião, impedir a comunhão do gol.

Como autor, dou-me o direito de ser parcial e filtrar os rumos da micro-história do templo verde sintético. Se tivesse que me confessar, diria apenas que sou um bom goleiro de time de bairro, o que me parece suficiente para um campo de futebol society. De bairro.

Um sábado transformou-se o ritual em tabu. Por circunstâncias de sorteio (na verdade, a escolha é autoritária a partir de qualidade técnica), eu e um amigo, volante nas horas vagas, sempre caiamos no mesmo time. Ele nunca era um dos primeiros a serem escolhidos. Também não era dos últimos, o que indicava o desempenho mediano ao olhar alheio.

A escolha era sábia: o volante carregava o piano à moda antiga. Pouca presença no ataque, vontade de vencer (o que significava dividir com/e os adversários), além de preparo físico invejável (qualidade em uma partida de barrigudos).

Pouco me lembro destes jogos. Era só a válvula de escape das pessoas comuns. Reconheço que guardei com mais clareza as conversas antes e depois das partidas. Diálogos sobre literatura, escritores, cinema e crônicas.

Cinco anos depois, o amigo-volante puxou papo sobre as missas aos sábados. Pensei que falaria sobre as conversas. Foi direto ao ponto: o dia que o céu fechou as portas para ele. O sábado em que quase fez um gol. Ele recitava o lance como o evangelho que escapa aos lábios de um narrador de rádio AM em tarde de clássico.

A narração era tão precisa, tão detalhada que me senti em um daqueles filmes do Canal 100. O volante desceu pela direita, livrou-se do zagueiro adversário em velocidade e disparou o chute. A bola seguiu rasteira, com endereço certo no canto esquerdo do goleiro. Não me lembro, mas ele me disse que espalmei por milagre. A bola foi para escanteio.

A história bastou para cicatrizar o tabu. Nunca tomei gols deste volante. Em cinco anos, apenas uma partida. Jogamos do mesmo lado, no mesmo campo atrás da concessionária, em Santos. Era um jogo amistoso entre o time do society, o Banguzinho, e um apanhado de escritores e jornalistas, que participavam de uma feira literária.

Como jornalista, engrossei o coro dos literatos pernas-de-pau. Como escritores mais tagarelam sobre futebol do que o colocam em prática, o volante se transformou em um aguerrido meia.

De nome José Roberto, o novo volante moderno, despediu-se do campo com honras, em seu último sábado. De sobrenome Torero, o volante de ligação manteve a virgindade, sofreu como um crucificado, mas resistiu à tentação de sacrificar seu próprio goleiro com um gol contra.

Decidi não compartilhar a mesma camisa com ele na próxima pelada. Torero sabe que mais gostoso do que manter um tabu é quebrá-lo.

Observação: Esta crônica foi publicada, originalmente, no blog do escritor José Roberto Torero, na UOL.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

O terminal do caos

Um dia antes do desembarque, o mestre de cerimônias do navio deixou as piadas de lado e falou com seriedade:

— O terminal de Santos é o pior do Brasil. O problema é que também é o maior.

O mestre de cerimônias não andava com um cajado para profetizar, não lia cartas, não jogava búzios nem amarrava paixões por conselho sentimental ou tinha poderes clarividentes. No dia seguinte, a obviedade se repetiu. O Terminal de Passageiros do Porto de Santos era o centro do desentendimento.

As dúvidas estavam estampadas nos rostos de muitas pessoas assim que desciam dos ônibus. O que fazer ou para onde seguir?

As filas, um terror no cotidiano, nunca foram tão desejadas. Poderiam indicar, pelo menos, onde resolver os problemas. As filas passaram por metamorfose. Viraram aglomerações.

As placas não se multiplicavam como coelhos. Pelo contrário, eram estéreis e em vias de extinção em certos pontos, principalmente do lado de fora. Os poucos funcionários tentavam transformar aquele domingo chuvoso em um dia menos traumático. Semblantes de tensão a cada pergunta de resposta complicada. E o dedo apontado pelo funcionário indicava a aventura de cortar a multidão para se alcançar o destino correto.

No cais, quatro navios atracados. Cerca de 8 mil pessoas para desembarcar. O mesmo número para iniciar a viagem de cruzeiro. Público de estádio em dia de jogo importante, se pensarmos na Vila Belmiro. Nas lanchonetes e lojinhas, preços de assustar até cambista no mesmo dia do jogo.

Para chegar ao navio, um ônibus. Os passageiros entram sem perguntar. O gado é esperançoso para chegar ao curral certo. Uma viagem de um quilômetro. Duração de 20 minutos. Trem, caminhões e trânsito para compor um congestionamento dentro da faixa portuária.

No embarque, a festa releva o obstáculo. Na volta, as palavras do mestre de cerimônias acertaram o alvo. Na mesma conversa, em alto-mar, ele também havia brincado com outra característica de Santos. Dizia:

— No terminal de Santos, você sai do cais para voltar de novo e depois sair outra vez. Vai entender!

No trajeto entre o navio e o terminal, o ônibus precisa deixar o cais, encarar o congestionamento de veículos que trazem os passageiros para embarcar e então retornar ao terminal. Se você pensar que a espera de quatro horas será acrescida de 20 minutos, é um otimista de carteirinha, daqueles que dão a outra face quando levam um soco no rosto.

Para retirar as bagagens, uma facilidade. É preciso despachar os malas dos passageiros (e suas malas) o mais rápido possível. Basta apresentar um RG ao funcionário. Ele marcará as letras OK com caneta esferográfica na bagagem e te liberará.

Sufocados pelo clima de pressa, os dois funcionários mal dão conta de centenas de malas e mochilas. Vi, por exemplo, uma garota de oito anos, para não atrasar os familiares, pegar uma caneta, marcar a própria mala com OK e sair sem ser questionada. Qualquer vigário enxergaria ali terreno fértil para aplicar um conto.

A dificuldade com as bagagens também se dá quando o passageiro inicia a viagem. Ao descer do carro, é abordado por funcionários que carregam as malas para o armazém, subdividido pelos nomes dos navios. Não há linhas de separação ou balcões para despacho. Você olha para o funcionário que corre com sua mala, entra no armazém e desaparece. Olhe nos olhos dele e confie no sujeito que você sequer sabe o nome e mal conseguiu ler o crachá!

Outro problema grave é o transporte na volta do cruzeiro. Depois que fizeram o zigue-zague de entrada e saída e retiraram as malas, os turistas procuram por táxis, vans ou ônibus de excursão. De cara, você vê o ponto de parada de ônibus. Neste ponto, a organização funciona.

As dificuldades aparecem para quem precisa localizar vans ou apanhar um táxi. Muitos grupos agendam vans para sair rapidamente do local. As vans se misturam com os carros que trazem os passageiros para embarque. Ou seja, com o objetivo oposto. A parada é caótica. Dois funcionários, com jalecos amarelos, tentam organizar a fila tripla, que aumenta com a chuva.

Procurar um táxi é como contar peixes no oceano, brincam os tripulantes. Achou a placa azul com a palavra táxi? Ela é tão grande quanto o espaço vazio que a cerca. É como esperar no deserto. Apenas miragens. Ninguém para por ali.

Conversando com taxistas, perguntei porque não havia carros disponíveis no terminal. A resposta variou entre falta de veículos em dias de chuva e aos domingos (e quando se juntam os dois fatores?) e a bagunça para entrada e saída do local.

Aos domingos, a frota de táxis em Santos cai a 30% dos dias úteis. Muitos motoristas também alegam que há dificuldades para se aproximar de passageiros na saída do terminal.

Nesta coleção de erros, duas ironias. A primeira é que, como repórter, conhecia a tragédia há anos. Apenas tinha esperança de escapar dela como passageiro.

A segunda é que, todos os anos, os responsáveis pelo serviço repetem as mesmas desculpas, anunciam as mesmas soluções para os velhos problemas, que permanecerão vivos na próxima temporada. Enquanto isso, os engravatados comemoram os recordes, os moradores acenam na orla da praia e a cidade fica com a fama alheia.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

A fauna do navio

Viajar em um navio de passageiros é embarcar em um laboratório humano. Ali, a riqueza da fauna pulsa durante vários dias, reclusa em alto-mar e disposta a deixar de lado os freios que seguram as asas em terra firme.

Uma das principais diversões no cruzeiro é observar e identificar as várias espécies que circulam pelos decks. Reconheço que o passatempo é esquisito, mas um navio de passageiros só se sustenta porque as estranhezas são expostas sem pudor. E tomar sol à beira da piscina, como um lagarto, permite enxergar melhor as nuances que diferenciam os seres e suas patologias.

Muitos espécimes que habitam tais embarcações ainda não foram identificados pela ciência. Outros correm risco de extinção porque se reproduzem com dificuldades neste curto cativeiro.

Após uma semana de vadiagem, uma breve lista dos tipos de passageiros:

1)Lady Cate – Em qualquer situação, o argumento inicial (e único) é sempre dinheiro. O bordão “Tô pagando!” é repetido como se o passageiro fosse uma calopsita. Ele julga ter direito a tudo (e a todos) porque pagou pelo cruzeiro; aliás, em muitas prestações.

2)Narciso não é espelho – Este tipo costuma habitar as redondezas da piscina. É avesso à água. Jamais mergulha. Pouco se move. Segura sempre um copo de bebida. Ajuda a compor o tipo “I’m too sexy”. O kit também inclui o corpo marombado, a sunga branca (espero que tenha um estoque para tantos dias de viagem) e a pose de escultura grega.

3)Periguetes – Costumam cercar os Narcisos, em busca de um passo para o paraíso. Passam a maior parte da viagem como moscas de padaria, que cercam sem levar a mercadoria para casa. Como disse um amigo, os marombados só querem “mina top”. Com a aproximação do desembarque, elas apostam na queda brusca do nível de exigência dos Narcisos, o que geralmente acontece. Ficar sozinho não é o destino destas espécies, ainda que sejam ignoradas celulites e estrias.

4)Titanic – Estes passageiros sempre acham que o navio vai afundar. Não prezam pelo bom humor e, portanto, não toleram as piadinhas sobre o filme. Fazem os exercícios de simulação com afinco. Quando viajei, duas passageiras vestiram coletes até quando o exercício era restrito aos tripulantes, tamanho afinco, dedicação e pavor e paranóia do desastre. Na mesma viagem, a falta de energia elétrica por meia hora fez com que outras duas corressem pelos corredores, aos gritos, arrastando suas malas de mão. Quem levaria uma mala em caso de naufrágio?

5)Joselito – Como o extinto personagem da MTV, esta espécie perdeu a noção e não sabe brincar. O sujeito quer participar de todos os jogos e brincadeiras como se estivesse em uma Copa do Mundo. Até na tradicional competição de barrigada na piscina, esta espécie tenta mostrar profissionalismo. Ao menos, é garantia de risadas alheias.

6)O equilibrista – Anda em zigue-zague a maior parte do tempo. Esconde-se na multidão quando o navio balança. Sua condição etílica fica exposta quando a embarcação está atracada. A vantagem é que não se lembrará de muitos episódios desagradáveis ou de gafes cometidas.

7)O garoto enxaqueca – Aparece em ambos os gêneros. Reclama sempre. Tudo é ruim. Não perde a chance de incomodar um tripulante, mesmo que ele não fale a mesma língua. É preciso desabafar. Sempre esperava mais, ainda que a lagosta e o camarão gigante sejam iguarias de primeira viagem na vida dele.

8)O entrevistador – Este passageiro não tem receio de esclarecer suas dúvidas. Pergunta ainda que ofenda. Faz questões pertinentes aos tripulantes como “Você mora no navio?” e “Este elevador sobe e desce?”. O lado positivo é que sempre agradece pelas respostas, mesmo que sejam: “Não, um helicóptero nos resgata todos os dias e nos deixa numa ilha próxima” ou “Este elevador também anda para os lados.”

9)O poliglota – Fala vários idiomas, variações mal acabadas do português. O interlocutor pode ser filipino, chileno ou até brasileiro. Valem os gestos, elevar a voz e pausá-la, como se o outro tivesse problemas mentais. Olhar as feições do tripulante ou ler o crachá dele para identificar a nacionalidade pouparia esta espécie de constrangimentos constantes.

10)A turma do pré-sal – Estes são os passageiros eternos. Moram nos andares mais baixos do navio. Precisam sorrir sempre e tolerar o comportamento das espécies acima descritas. São versáteis e trabalham até 12, 14 horas por dia. Suas moradias são coletivas e flutuantes. A velocidade nas amizades, a disposição para um bom papo e o desprendimento da convivência transitória são remédios para combater a saudade de familiares e amigos em terra.

A classificação dos passageiros atende somente a fins didáticos e científicos. Isso significa que estes seres podem sofrer mutações ou se misturar com outros tipos. E também criar outros espécimes. Um passageiro pode se encaixar em vários itens, conforme a necessidade de um lugar ao sol no deck do navio.

Se me identifico com algum deles? Como observador atento da inutilidade, posso te dizer, caro leitor: você jamais saberá.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Mercadoria estragada

A noiva é oferecida como virgem. Quatro homens disputam aquele corpo. Todos incorporaram o clima de leilão, com blefes, propostas indecentes, convites fora do script e outros benefícios. As negociações são feitas com o irmão da suposta donzela. A cada dia, novo anúncio de casamento. Só os ingênuos (ou os desesperados) engolem as sucessivas versões.

Ronaldinho Gaúcho, a noiva, perdeu a virgindade e a pureza há tempos. Não há paixões envolvidas. A discussão é por dinheiro, fator que poderia ser secundário no flerte. Pelo rumo da carruagem, a Cinderela vai para o Rio de Janeiro, atuar no time famoso não mais pelos atletas que revela, mas por dívidas, desmandos, além da desfeita com antigos ídolos, como Zico.

O conto em torno de Ronaldinho Gaúcho está mais próximo de golpe do vigário do que fantasias com final feliz. Os jogadores brasileiros que ainda vivem do nome já perceberam o quanto é prazeroso retornar ao Brasil. É a estratégia de vender o passado para mascarar o presente e lesar no futuro.

Apenas os cínicos (ou os alienados) ainda acreditam que os jogadores de futebol poderiam exercer sua profissão de graça. Assinar contratos em branco, como se fazia há mais de 40 anos, era um estelionato contra o atleta, em benefício de dirigentes e, às vezes, dos clubes.

Jogador de futebol é um trabalhador como outro qualquer. É uma obviedade que, por conveniência, se esquece. O discurso de amor à camisa, com beijo no símbolo de clube, atende às circunstâncias de enganar o torcedor, que pensa e transpira por sentimentos.

Quando os torcedores do Grêmio afirmam não perdoar Ronaldinho e seu irmão Assis, mentem e falam a verdade ao mesmo tempo. A sinceridade está na mágoa de quem foi traído no altar, depois de juras de amor que fariam chorar as velhinhas que acompanham a novela das nove. Mas também mentem, pois engoliriam as dores – e as curariam com pílulas de felicidade – assim que o meia marcasse gols. Se fosse contra o Internacional, então ...

A questão é que rifar um jogador como Ronaldinho reforça a ausência de profissionalismo que permeia o futebol nacional. Ainda somos arrogantes o suficiente para acreditar na teoria de que temos o melhor campeonato nacional do mundo. Apenas porque vários times disputam o título? Apenas porque achamos que são 12 os clubes de grande porte?

Várias equipes disputam o primeiro lugar do campeonato porque o nível é baixo. E este é o motivo para que jogadores em decadência resolvam fingir que trabalham por aqui, enquanto se transformam em mercadorias de supermercado, sustentadas por políticas de marketing.

Os exemplos se multiplicam. Ronaldo nunca esteve em forma. Não é comparação com o auge da carreira, mas com um atleta de 33, 34 anos em nível profissional. É verdade que ele contribuiu para dois títulos em 2009, mas entrou em rota de despedida no ano seguinte.

Adriano teve boas passagens por São Paulo e Flamengo, porém atendeu às expectativas de problemas na vida privada. Robinho foi coadjuvante de luxo para Neymar e Ganso no primeiro semestre. Ganhou no currículo uma Copa do Mundo de presente.

Todos eles amargavam a reserva ou estavam em vias de dispensa na Europa. Para os clubes brasileiros, ações de marketing que – note-se – não renderam lucros para as agremiações; sequer amenizaram as dívidas trabalhistas e bancárias.

Vale a pena investir (ou gastar) R$ 1 milhão mensais em um jogador decadente? O dinheiro, por vezes de patrocinadores, não poderia ser gasto em vários jogadores que, juntos, dariam a sensação de um time em mãos e no campo? Ou colocar recursos nas categorias de base? Quem sabe planejar a infra-estrutura do clube, como centro de treinamento, por exemplo?

As chances de Ronaldinho Gaúcho dar certo no Brasil são enormes. Jogar o Campeonato Carioca e encarar times como Madureira e Volta Redonda. Ou disputar o Campeonato Nacional, em que os estrangeiros têm roubado a cena.

O retorno destes jogadores não tem relação alguma com paixões. A volta representa a consolidação de um modelo de negócio, no qual quase todos os envolvidos engordam as contas bancárias. Sobram os clubes, que ficam com a fama e as dívidas, e o torcedor, que se alimenta de amores de verão. Estes amores são selvagens, curtos e com data marcada para terminar; muitas vezes, com uma das partes iludida por um futuro que existe somente nas frases de efeito do marketing.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

O lobo que mora em mim

Por Elizabeth Soares

Certa noite, um lobo veio me visitar. Chegou em silêncio. Escolheu o esconderijo com cautela e frieza. Invadiu meu espaço mais íntimo. Foi cruel. Cometi um erro comum aos que se julgam imbatíveis: subestimei-o.

Quando despertei, ele havia tomado meu sangue. Trouxe-me dor, sofrimento e me aproximou dos meus próprios limites. Desfigurou minha forma. Arrancou meus cabelos. Roubou minha identidade e o espelho passou a refletir uma imagem distante de mim.



Olhei-o com olhos de medo. Depois, com raiva. Mas nem o medo nem a raiva fizeram o lobo ceder. Ao contrário, ele avançou, porque seu alimento eram as minhas fraquezas. Percebi que nunca conseguiria expulsá-lo.

Surpreendentemente, a dor me fez enxergar meu algoz de um jeito diferente. Quando pensei estar mais frágil, estava na verdade mais forte. Entendi que o lobo representava o freio de meus impulsos mais primitivos. E isto inclui a própria raiva e o próprio medo. Encarei-o com outros olhos. De aceitação.

Agora, eu e o lobo somos quase amigos. De vez em quando, por piedade ou pura preguiça, ele se aquieta e dorme. E se mantém assim por muito tempo. Tem sido desta maneira há dez anos. Neste período, ele já acordou, com toda a sua fúria, por cinco vezes. Em uma delas, oprimiu meu coração até quase fazê-lo parar. Queria que eu silenciasse para escutar o quanto o ressentimento pode calar o amor. Por sorte, entendi a tempo.

Na última vez que despertou, há aproximadamente dois meses, o lobo feriu com seus dentes afiados minhas pernas e deixou pequenas, mas dolorosas marcas. Sinceramente, fiquei triste. Achei que tínhamos nos entendido.

O lobo me disse que voltou porque queria me lembrar que eu não precisava fugir do desconhecido. Não estou só, ao contrário do que sinto quando passa pela minha cabeça me atirar do alto do meu próprio ego. Disse que a solidão é apenas uma impressão, não minha essência.

Ele também queria me dizer que eu precisava reduzir o passo, ir com calma, admirar a paisagem. Olhar para a vida e para as pessoas com mais tolerância e paciência, compreendendo que cada um só pode doar aquilo que tem e, mesmo para doar, precisa encontrar o tempo certo. E, seja qual for meu desejo, cada um tem seu próprio tempo. Eu, (in)felizmente, teria que respeitar isso.

Mais uma vez o lobo me salvou. Desta vez do ilusório controle permanente da vida. O nome disso – e é preciso deixar de lado o eufemismo que habitualmente usamos para definir nossos defeitos - é prepotência. Um engano que me fez acreditar que tomar as rédeas dos acontecimentos era a única receita para ver meus planos e sonhos concretizados.

Ao contrário do que eu pensava, meus planos e sonhos só se concretizam porque vivo cada dia aproveitando os momentos, assimilando as lições, me relacionado com pessoas que admiro, respeito, amo e me apaixono.

No fundo, desde o início, o lobo sempre tentou me dizer “Ei, mocinha, presta atenção na vida. Ao contrário do que diz seu nariz empinado, você não é imortal. E você precisa alegrar-se por isso”.

Mais cedo ou mais tarde, terei que reconhecer: ele sempre esteve certo.

Ilustração: Kitty Yoshioka

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Uma escola possível

Da janela da sala de aula, as crianças se sentem dentro de um helicóptero imaginário. Quando viram a cabeça para a esquerda, enxergam o Porto de Santos. Quando mantém os olhos à frente, vêem a orla da praia. Um pouco à direita, a Ilha Porchat. Com uma dose de paciência, testemunham o voo das asas deltas e dos paragliders.

As crianças passam boa parte do dia no alto do Morro do José Menino, entretidas em inúmeras atividades na Unidade Municipal de Ensino (UME) Padre Lúcio Floro. A escola é uma das três que trabalham em regime de tempo integral. Mais do que depositar alunos dentro dos muros por todo o dia, a Padre Lúcio Floro faz educação com poesia, assim como o religioso que – com coerência – dá nome ao espaço. (In)felizmente, o lugar é a concretização mais próxima do modelo ideal de educação, com dinheiro público.

A escola existe desde 2008. Todas as áreas são acessíveis a pessoas com deficiência física. O piso é demarcado com referências em borracha para ajudar deficientes visuais. As salas possuem placas em braille, assim como o elevador, que atende os três andares do local.

O número de grades e portões é reduzido, o que ameniza o caráter prisional que a maioria dos colégios carrega nas costas. As cores, mesmo longe da vivacidade que brilharia nos olhos de uma criança, escapam ao padrão “azul-calcinha-de-velha”, marca da rede municipal que reforça o ar cadavérico das fachadas escolares.

As salas da educação infantil não têm carteiras. No início, a construção do espaço chocou professoras, acostumadas ao modelo repressor para crianças de 3 a 5 anos. A ausência de mesas e cadeiras aproxima os alunos e dá maior liberdade para que possam conviver numa relação mais coletiva.

No ensino fundamental, até o 5º ano, as salas têm capacidade para 25 alunos, um terço menor do que a média das classes inchadas, inclusive nas escolas privadas. Na aula de informática, as crianças têm à disposição um número de computadores – todos em LCD - quase para proporção de uma máquina por aluno. Há até uma sala específica para crianças com necessidades especiais.

Conheci a escola Padre Lúcio Floro há poucos dias. A visita aconteceu com certa desconfiança. Pensava que os relatos de uma escola possível eram exagerados. Ou um exercício de legislação em causa própria, tão comum quando se fala de educação. O mais do mesmo predomina em um universo onde um enfeite adicional é alardeado como a invenção da roda.

A escola Padre Lúcio Floro vestiu, de forma efetiva, o modelo construtivista, aclamado por nove em dez educadores, praticado por poucos beatos no deserto. O construtivismo funciona como uma espécie de oxigênio na educação: todos sabem que existe, mas ninguém o vê. No final das contas, prevalece o modelo tradicional de ensino mais a política de resultados e as obsessivas estatísticas que robotizam o estudante.

Em dois anos de existência, as sementes começaram a incomodar. Os casos positivos se multiplicaram. Alunos de 1º ano, por exemplo, produzem textos com coesão e coerência, fato raro na rede pública nesta fase de aprendizagem. Crianças da educação infantil constroem conhecimento de culinária ou aprendem noções de finanças por atividades lúdicas, dentro e fora da sala de aula.

Outro exemplo: uma aluna de nove anos ficou em 4º lugar em um concurso municipal de redação. A proposta era adaptar uma notícia de jornal para conto de fadas. Dois detalhes: 1) Beatriz, a aluna, era a única do sistema público; 2) ela era a única do 4º ano. Os demais estudavam a partir do 6º ano.

A prática pedagógica é rígida, não no sentido militar disciplinador, mas para adequar um discurso coerente com a teoria. Este discurso decorre do diálogo entre equipe pedagógica (detesto o termo gestora, uma herança corporativa) e professores. A escola faz valer a autonomia diante da Secretaria de Educação, o que facilita inclusive a aplicação de recursos que chegam diretamente do Governo Federal.

Por essas e outras particularidades, a escola Padre Lúcio Floro se fortificou como uma exceção no cenário carente da educação pública. E, infelizmente, expôs as contradições do próprio sistema. Feridas que gritam e sangram diante da mesma janela do helicóptero.

Logo abaixo, no mesmo bairro, a UME Irmão José Genésio, onde equipe e professores sofrem com as políticas públicas tão instáveis quando enfermas. Mais antiga, virou em dois anos o primo pobre do morro. O cartão postal às avessas de um governo que sabe como fazer, mas opta pelo piloto automático da inércia. A paralisia que impede a metamorfose da exceção em rotina, com vista natural e panorâmica, como a admirada pelas crianças do alto da montanha.