terça-feira, 21 de dezembro de 2010

A rua que divide o tempo

A rua Francisco Hayden é um pequeno pedaço de asfalto de 200 metros, mal percebido por quem precisa chegar à orla da praia, nas proximidades do Museu de Pesca, em Santos. Ninguém reside ali. Não há grandes empresas ou consistente movimentação comercial. O local não recebe tráfego pesado ou conecta pontos de transporte de mercadorias, por exemplo.

A rua, na Ponta da Praia, é somente ponto de passagem, o instrumento de travessia para quem não deseja sequer saber o nome dela. A brevidade do trecho, inclusive, impede que tenhamos a curiosidade de identificá-la. É uma veia que não nasceu para se tornar definitiva, que se assume secundária.

A rua Francisco Hayden acabou eleita para um trabalho à revelia, função que não a transformou em foco geográfico ou centro de aglomeração de pessoas. A rua dividiu dois tempos que radiografam a cidade de Santos.

A Francisco Hayden é a fronteira que demarca o passado e o presente dos clubes de Santos. Como castigo, terá que se equilibrar em um futuro que se aproxima e vai reescrever sua existência.



De um lado da via, as ruínas do Clube de Regatas Santista. Do outro lado da calçada, o Clube Internacional de Regatas, com novo prédio de visual contemporâneo.

De um lado da via, a morte de um período áureo dos clubes da cidade, que se transformaram em elefantes brancos, congelados como o retrato amarelado que se esfacela ao toque das mãos. Estes animais de concreto não entenderam as alterações culturais e urbanas de uma cidade que cresce sem planejamento adequado.

Do outro lado, outra espécie de elefante, que recusou a classificação de paquiderme, por suas próprias razões. Uma agremiação sobrevivente, que se reinventou para garantir mais alguns anos, ainda que sem o glamour, ainda que diversificando atividades, tanto sociais quanto esportivas.

O Regatas Santista, ao contrário do Vasco da Gama, agonizou lentamente, com um animal abatido para o sacrifício depois de horas de sangria. As dívidas se acumularam, e o amadorismo cultuado de outras épocas virou o tumor que impedia a adaptação aos novos valores culturais da classe média.

As ruínas do Regatas Santista demarcam um caminho de inércia, de cegueira diante do mundo que se movimentava além das grades da sede do clube. O Regatas é o símbolo maior do problema que derrubou outras agremiações tradicionais, como o Clube Atlético Santista. O patrimônio, antes ponto de ostentação e status, passou a ser a doença que resistia aos remédios paliativos.

As ruínas do Regatas Santista guardam, entre pedras, pó e ferros retorcidos, as lembranças de gerações que ali dançavam, praticavam esportes, namoravam, se conheciam e entendiam a dinâmica da cidade de Santos. A memória que perdeu a referência no espaço e se restringiu à imaginação a partir de um vazio na esquina com a avenida Saldanha da Gama.

As ruínas serão trocadas por outras lembranças, a serem construídas depois do parto dos espigões que beijam a ausência de limite vertical. Os mesmos espigões que alterarão a paisagem da avenida Saldanha da Gama. Os mesmos espigões que mudarão o status do Clube Internacional de Regatas. O elefante é a nova formiga, diante de outro mamífero maior e de força no rugido.

A rua Francisco Hayden, com seus 200 metros e insignificância geográfica, é o divisor de águas para um comportamento cultural que deseja (e se escraviza) pela adaptação. O Regatas Santista carregará em sua lápide as pedras de um passado gravado em documentos. A lápide que enfatiza a imagem desfeita em poucos dias pelos equipamentos de demolição, depois de anos em coma a céu aberto.

A rua Francisco Hayden é o mensageiro do alerta, de um tempo que nasceu pela caneta dos políticos e dos interessados em lucro veloz. Os mesmos políticos que agora tentam, entre a desfaçatez e o jogo de cena, conter com esparadrapo as águas vorazes que romperam a barreira do crescimento selvagem. O grupo que abriu a porteira para a boiada de concreto e ferro tem na rua Francisco Hayden um cartão postal macabro que escancara o estrago, fruto da ansiedade por progresso.

Do outro lado, o gigante vermelho deve se preparar para a própria pequenez. Para a luz que será trocada por uma parede de dezenas de andares. Para entender que o morador de hoje é um sujeito com outras formas de lazer em mente. Sujeito que pode desejar o velho clube Internacional, mas que flerta com outros espaços fechados, com vitrines, praças de alimentação e outros atrativos à base de cifrões.

O Internacional de Regatas é o presente que ajudará a redefinir o papel da rua Francisco Hayden. Hoje, somente uma passagem para a orla da praia. Amanhã, a passagem para o canteiro de obras. Depois de amanhã, o início e o fim do cotidiano de novos moradores.

O novo prédio do clube é a resposta de quem procurou tratamento para não morrer. Ou para não acabar em ruínas, que atraem o saudosismo e o lamento das experiências vividas e jamais retomadas. Pelo menos ali, na rua que recebeu o fardo de dividir duas épocas.

Foto: Luiz Nascimento

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