segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

O pior (melhor) emprego do Natal

A criança, que duvidava da existência dele, me perguntou com convicção:

— Como ele pode estar em quatro lugares ao mesmo tempo?

Diante de uma pergunta sem saída, a saída é evitar a pergunta. Se der a resposta verdadeira, serei lembrado como aquele que acabou com uma crença fundamental na infância dela.

A pergunta me levou a pensar em um emprego, talvez o mais deslocado (ao mesmo tempo adequado) neste período de final de ano, também envolvido por um frenesi esquizofrênico de compras e excessos.

Pensar que ele trabalha enquanto a maioria festeja seria óbvio demais. Com a experiência que tem, bebe e come em serviço à vontade. Até porque o velho é a antítese do padrão estético. Talvez seja o único emprego que gordos são candidatos preferenciais.

Dizer que ele morre de calor por causa das roupas feitas para a Noruega ou o Alasca é redundante. Suas roupas o deixam na moda, enquanto o torturam. Mas qual a diferença para certos adereços mínimos do verão, que asseguram status e desconforto, que expõem tudo e escondem o essencial?

O problema do Papai Noel não é o Natal. É o que ele pode provocar pelo resto do ano. Ou pelo resto da vida. Uma amiga, na casa dos 25 anos, é sempre uma das mais animadas e sorridentes na ceia de Natal. Mas ela treme quando se aproxima a troca de presentes. Sua frio quando precisa se aproximar do velhinho.



Ela sabe que a tia dela (em outros anos, o primo) é quem veste a roupa, mas prevalece o trauma, de data desconhecida e origem em outro hemisfério. Para síndromes como essa, não há explicação objetiva. As vítimas se alimentam de suas próprias teorias.

— Papai Noel é como palhaço. Dá medo! Por que eles precisam estar de fantasia? Por que não podem estar de cara limpa?

O sorriso do Papai Noel na praça de um shopping é como bilhete de loteria: ter sorte para que a próxima criança seja educada, não chore, não puxe a barba, não peça brinquedos desconhecidos. A paciência do velhinho evita que adultos gastem meses em terapia para escarafunchar o passado freudiano de uma simples tarde de compras. Certos marmanjos acreditam nessas coisas.

O Papai Noel depende de alguém que muitas vezes não liga para ele. Os pais se satisfazem com a alegria das crianças no colo alheio, mas culpam o velhinho fantasiado se o moleque berra, faz birra, recusa colo ou se joga no chão do shopping. O vexame é culpa de quem nasceu para alegrar (ou vender alguma tranqueira), mesmo que a tolerância já tenha se esgotado há horas.

O Papai Noel também leva a culpa quando os pais agem como políticos profissionais. Cartas, e-mails, bilhetes, lembretes, textos que se multiplicam em desejos de presentes. Quando as promessas não se materializam em brinquedos ou se transformam em cuecas e outras roupas, o velho arca com a responsabilidade. À criança, restam a decepção e a ausência de um Procon por erro na entrega da mercadoria.

O Papai Noel carrega em seu saco um peso mais incômodo do que os presentes que talvez desagradem os mimados. Ele simboliza o que os mimados crescidos não conseguem resolver. Entre si e com os outros.

Papai Noel representa à revelia a ilusão de que o Natal é a data da reconciliação, da paz e da amizade. A sorte dele é que se retira do recinto minutos antes da ceia de muitas famílias, a hora em que algum parente mais calibrado de álcool começa a soltar as verdades inconvenientes.

O velhinho seria o mensageiro que, como uma vassoura, empurraria as diferenças para debaixo da árvore. A face simpática esconderia a impotência de algo além de seu próprio papel. Papai Noel não pode servir como intervalo entre o que não pode ser enterrado por 24 horas. Ou por uma noite.

Depois que ele sobe pela chaminé, a noite de Natal expõe os cutucões e os beliscões de quem mal se suporta e pretende dar sempre a última palavra. Ganhar a conversar vale mais do que o risco de incinerar a confraternização na lareira da sala de jantar.

Ser Papai Noel é assumir-se inerte diante da distorção da única data em que se lembra dele. O velho perdeu sua função? Em certos endereços, completa o ambiente como peça de decoração, uma árvore brilhante a mais.

O que o traz de volta no ano seguinte? Aposto, mas não assino embaixo (como diz uma amiga), que é a chance de rever o sorriso de alguém que ainda crê cegamente nele. No espírito dele, com ou sem embrulho e laço de fita.

Ilustração: Kitty Yoshioka

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