sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Como sobreviver em um navio de passageiros

Estamos no auge da temporada de navios de cruzeiro. No Porto de Santos, quatro, cinco navios fazem o processo de embarque e desembarque de forma simultânea todos os dias. Sao cerca de 10 mil pessoas transitando, todas com pressa, muitas ansiosas, poucas relaxadas.

Estou no meio de uma viagem destas, que ganhei de presente da família. No navio, acontecem mutaçoes na espécie humana, que fazem muitos perderem a vergonha. Outros deixam o senso de civilidade em terra.

Os comportamentos esquisitos, com cheiro de maresia, podem ser evitados. Já que a viagem se tornará inesquecível, que nao seja pelo lado brega ou humilhante. Algumas sugestoes, coletadas após dias de observaçao preguiçosa e descompromissada:

1) Quando chegar à cabine, certifique-se sobre o funcionamento da descarga. Na hora do alívio, você apertará qualquer botao a sua frente. A descarga é a vácuo. Se você estiver sentado, poderá perder parte da área dos Países Baixos. Este território poderá te fazer falta depois, principalmente em negociaçoes diplomatico-amorosas.

2) Em águas internacionais, muitos pensam que as leis brasileiras nao se aplicam mais. Seguem para o vale tudo globalizado. Nao se esqueça! No navio, sempre haverá alguém que conhece você. Aquele ex-colega do curso de inglês. A ex-namorada do seu primo. A amiga do amigo do teu ex-namorado. Alguém vai se encarregar de espalhar seus escorregoes em sua cidade natal.

3) Nunca se deixe filmar ou fotografar por desconhecidos. Se você se considera um abençoado porque está no navio (ainda que a bençao seja popularizada em 15 prestaçoes), comporte-se como celebridade reclusa. Assim, evitará que imagens suas vazem para as redes sociais. Pensando bem, parentes e amigos também nao sao confiáveis. Os inimigos podem dormir na mesma cabine que você.

4) Se for ao deck da piscina ou entrar em um bar, certifique-se de que as brincadeiras e jogos já começaram. Se estiver lá desde o início, pode ser escolhido para cumprir provas e participar de concursos. Suas imagens estarao no circuito interno do navio e, posteriormente, nas redes sociais. Evite também sentar-se no gargarejo, na beira do palco. As chances de ser convocado para pegadinhas que assistia apenas aos domingos à tarde na TV cresce de maneira substancial.

5) Náo tente treinar o idioma que aprendeu naquela escola de línguas da esquina ou no colégio com tripulantes. Náo vai funcionar! O tripulante nunca te entenderá e a conversa soará macarrônica para os outros passageiros. E eles falam o seu idioma fluentemente, além do risco de estarem com câmeras para registrar do diálogo internacional.

6) Antes de conversar com o tripulante, sugiro também que leia a placa de identificaçao. O nome dele já indicará, provavelmente, a nacionalidade, o que facilitará a conversa e te protegerá de gafes. Perguntei a um recepcionista português se apareciam muitos passageiros brasileiros para contar piadas. Ele me respondeu: — È pior! Eles falam comigo em espanhol!

7) Sobre os tripulantes, lembre-se de que olhar as placas de identificaçao é desnecessário com filipinos. Os nomes sao incompreensíveis. Os rostos, idênticos, e o inglês deles, tao ruim quanto o seu. Apenas sorria, seja simpático e siga a rota de navegaçao.

8) Hà um código de conduta entre os tripulantes: jamais se envolva sexualmente com passageiros!!! Eles sao amáveis com você porque é o trabalho deles. Muitos passageiros se sentem cobiçados porque a garçonete deu atençao quando estavam bêbados. Elas nao ganham para isso. Te fizeram um favor. E em dólar, que vale mais do que o real do seu contracheque.

9) O mesmo vale para as passageiras. Muitas se apaixonam pelos dançarinos após uma aula de tango ou de samba na beira da piscina. A recíproca nao será verdadeira, apesar de que regras, às vezes, se rompem com as fortes ondas em águas internacionais.

10) Se você se manteve a uma distância segura da tripulaçao e conheceu alguém da sua espécie, divirta-se! Mas nao se esqueça de que amor de navio se esvai quando seus pés tocam em terra firme.

Espero ter ajudado, numa época em que você - e o restante da nova (e da velha) classe média brasileira - se considera um sujeito diferente só porque viajou de navio. Sao milhares de eleitos todos os dias. Aproveite! Até porque a ilusao será debitada em sua cartao de crédito por um ano inteiro.

P.S.: Perdoe-me, leitor, pela ausência de til no texto. Até o teclado segue normas internacionais.

4 comentários:

Chris disse...

Marcus, acabei de conhecê-lo através de texto no jornal boqueirão news. Amei seu texto que aborda com muita clareza a diferença entre a educação possível e o abandono do sistema público, seja mun, est ou federal. Todos apegando-se à estatísticas e querendo nos fazer 'engolir' que (eles) têm feito muito pela educação... Parabéns!!!! Amei o que li e a forma como descreveu lindamente a diferente realidade entre as duas escolas no morro.
Lecionei na Vila Parise e Vila Esperança em Cubatão pq acreditava q educação de qualidade deveria ser pra todos. Sou realizada, mas queria mais... Grata por compartilhar. meu twitter é Chris_Paiva_ . Abçs

Fabricio disse...

Lembrei de varios casos...e de varios protagonistas tambem!!!
...E como é bom saber que uma vida inteira de trabalho às vezes não nos leva a lugar algum...Mas dá uma barrigada bem dada na piscina pra você ver a fama bigbrothesca que vc consegue....
ate...

Marcus Vinicius Batista disse...

Chris Paiva, muito obrigado pela leitura. Infelizmente, a qualidade na educação não é para todos. Os governos cumpriram o primeiro passo ao inserir (quase) todas as crianças na escola. Mas ainda entendem as unidades de ensino como depósito de pessoas. Pouco se movem para elevar a qualidade da educação pública, independentemente do partido. Grande abraço!!

Marcus Vinicius Batista disse...

Fabricio, obrigado pela visita e pela companhia. Deixo as barrigadas para as figuras bizarras do navio. Viagens costumam colocar em dúvida a obsessão pela carreira e outras invenções corporativas. Grande abraço!!