sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Como sobreviver em um navio de passageiros

Estamos no auge da temporada de navios de cruzeiro. No Porto de Santos, quatro, cinco navios fazem o processo de embarque e desembarque de forma simultânea todos os dias. Sao cerca de 10 mil pessoas transitando, todas com pressa, muitas ansiosas, poucas relaxadas.

Estou no meio de uma viagem destas, que ganhei de presente da família. No navio, acontecem mutaçoes na espécie humana, que fazem muitos perderem a vergonha. Outros deixam o senso de civilidade em terra.

Os comportamentos esquisitos, com cheiro de maresia, podem ser evitados. Já que a viagem se tornará inesquecível, que nao seja pelo lado brega ou humilhante. Algumas sugestoes, coletadas após dias de observaçao preguiçosa e descompromissada:

1) Quando chegar à cabine, certifique-se sobre o funcionamento da descarga. Na hora do alívio, você apertará qualquer botao a sua frente. A descarga é a vácuo. Se você estiver sentado, poderá perder parte da área dos Países Baixos. Este território poderá te fazer falta depois, principalmente em negociaçoes diplomatico-amorosas.

2) Em águas internacionais, muitos pensam que as leis brasileiras nao se aplicam mais. Seguem para o vale tudo globalizado. Nao se esqueça! No navio, sempre haverá alguém que conhece você. Aquele ex-colega do curso de inglês. A ex-namorada do seu primo. A amiga do amigo do teu ex-namorado. Alguém vai se encarregar de espalhar seus escorregoes em sua cidade natal.

3) Nunca se deixe filmar ou fotografar por desconhecidos. Se você se considera um abençoado porque está no navio (ainda que a bençao seja popularizada em 15 prestaçoes), comporte-se como celebridade reclusa. Assim, evitará que imagens suas vazem para as redes sociais. Pensando bem, parentes e amigos também nao sao confiáveis. Os inimigos podem dormir na mesma cabine que você.

4) Se for ao deck da piscina ou entrar em um bar, certifique-se de que as brincadeiras e jogos já começaram. Se estiver lá desde o início, pode ser escolhido para cumprir provas e participar de concursos. Suas imagens estarao no circuito interno do navio e, posteriormente, nas redes sociais. Evite também sentar-se no gargarejo, na beira do palco. As chances de ser convocado para pegadinhas que assistia apenas aos domingos à tarde na TV cresce de maneira substancial.

5) Náo tente treinar o idioma que aprendeu naquela escola de línguas da esquina ou no colégio com tripulantes. Náo vai funcionar! O tripulante nunca te entenderá e a conversa soará macarrônica para os outros passageiros. E eles falam o seu idioma fluentemente, além do risco de estarem com câmeras para registrar do diálogo internacional.

6) Antes de conversar com o tripulante, sugiro também que leia a placa de identificaçao. O nome dele já indicará, provavelmente, a nacionalidade, o que facilitará a conversa e te protegerá de gafes. Perguntei a um recepcionista português se apareciam muitos passageiros brasileiros para contar piadas. Ele me respondeu: — È pior! Eles falam comigo em espanhol!

7) Sobre os tripulantes, lembre-se de que olhar as placas de identificaçao é desnecessário com filipinos. Os nomes sao incompreensíveis. Os rostos, idênticos, e o inglês deles, tao ruim quanto o seu. Apenas sorria, seja simpático e siga a rota de navegaçao.

8) Hà um código de conduta entre os tripulantes: jamais se envolva sexualmente com passageiros!!! Eles sao amáveis com você porque é o trabalho deles. Muitos passageiros se sentem cobiçados porque a garçonete deu atençao quando estavam bêbados. Elas nao ganham para isso. Te fizeram um favor. E em dólar, que vale mais do que o real do seu contracheque.

9) O mesmo vale para as passageiras. Muitas se apaixonam pelos dançarinos após uma aula de tango ou de samba na beira da piscina. A recíproca nao será verdadeira, apesar de que regras, às vezes, se rompem com as fortes ondas em águas internacionais.

10) Se você se manteve a uma distância segura da tripulaçao e conheceu alguém da sua espécie, divirta-se! Mas nao se esqueça de que amor de navio se esvai quando seus pés tocam em terra firme.

Espero ter ajudado, numa época em que você - e o restante da nova (e da velha) classe média brasileira - se considera um sujeito diferente só porque viajou de navio. Sao milhares de eleitos todos os dias. Aproveite! Até porque a ilusao será debitada em sua cartao de crédito por um ano inteiro.

P.S.: Perdoe-me, leitor, pela ausência de til no texto. Até o teclado segue normas internacionais.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

O pior (melhor) emprego do Natal

A criança, que duvidava da existência dele, me perguntou com convicção:

— Como ele pode estar em quatro lugares ao mesmo tempo?

Diante de uma pergunta sem saída, a saída é evitar a pergunta. Se der a resposta verdadeira, serei lembrado como aquele que acabou com uma crença fundamental na infância dela.

A pergunta me levou a pensar em um emprego, talvez o mais deslocado (ao mesmo tempo adequado) neste período de final de ano, também envolvido por um frenesi esquizofrênico de compras e excessos.

Pensar que ele trabalha enquanto a maioria festeja seria óbvio demais. Com a experiência que tem, bebe e come em serviço à vontade. Até porque o velho é a antítese do padrão estético. Talvez seja o único emprego que gordos são candidatos preferenciais.

Dizer que ele morre de calor por causa das roupas feitas para a Noruega ou o Alasca é redundante. Suas roupas o deixam na moda, enquanto o torturam. Mas qual a diferença para certos adereços mínimos do verão, que asseguram status e desconforto, que expõem tudo e escondem o essencial?

O problema do Papai Noel não é o Natal. É o que ele pode provocar pelo resto do ano. Ou pelo resto da vida. Uma amiga, na casa dos 25 anos, é sempre uma das mais animadas e sorridentes na ceia de Natal. Mas ela treme quando se aproxima a troca de presentes. Sua frio quando precisa se aproximar do velhinho.



Ela sabe que a tia dela (em outros anos, o primo) é quem veste a roupa, mas prevalece o trauma, de data desconhecida e origem em outro hemisfério. Para síndromes como essa, não há explicação objetiva. As vítimas se alimentam de suas próprias teorias.

— Papai Noel é como palhaço. Dá medo! Por que eles precisam estar de fantasia? Por que não podem estar de cara limpa?

O sorriso do Papai Noel na praça de um shopping é como bilhete de loteria: ter sorte para que a próxima criança seja educada, não chore, não puxe a barba, não peça brinquedos desconhecidos. A paciência do velhinho evita que adultos gastem meses em terapia para escarafunchar o passado freudiano de uma simples tarde de compras. Certos marmanjos acreditam nessas coisas.

O Papai Noel depende de alguém que muitas vezes não liga para ele. Os pais se satisfazem com a alegria das crianças no colo alheio, mas culpam o velhinho fantasiado se o moleque berra, faz birra, recusa colo ou se joga no chão do shopping. O vexame é culpa de quem nasceu para alegrar (ou vender alguma tranqueira), mesmo que a tolerância já tenha se esgotado há horas.

O Papai Noel também leva a culpa quando os pais agem como políticos profissionais. Cartas, e-mails, bilhetes, lembretes, textos que se multiplicam em desejos de presentes. Quando as promessas não se materializam em brinquedos ou se transformam em cuecas e outras roupas, o velho arca com a responsabilidade. À criança, restam a decepção e a ausência de um Procon por erro na entrega da mercadoria.

O Papai Noel carrega em seu saco um peso mais incômodo do que os presentes que talvez desagradem os mimados. Ele simboliza o que os mimados crescidos não conseguem resolver. Entre si e com os outros.

Papai Noel representa à revelia a ilusão de que o Natal é a data da reconciliação, da paz e da amizade. A sorte dele é que se retira do recinto minutos antes da ceia de muitas famílias, a hora em que algum parente mais calibrado de álcool começa a soltar as verdades inconvenientes.

O velhinho seria o mensageiro que, como uma vassoura, empurraria as diferenças para debaixo da árvore. A face simpática esconderia a impotência de algo além de seu próprio papel. Papai Noel não pode servir como intervalo entre o que não pode ser enterrado por 24 horas. Ou por uma noite.

Depois que ele sobe pela chaminé, a noite de Natal expõe os cutucões e os beliscões de quem mal se suporta e pretende dar sempre a última palavra. Ganhar a conversar vale mais do que o risco de incinerar a confraternização na lareira da sala de jantar.

Ser Papai Noel é assumir-se inerte diante da distorção da única data em que se lembra dele. O velho perdeu sua função? Em certos endereços, completa o ambiente como peça de decoração, uma árvore brilhante a mais.

O que o traz de volta no ano seguinte? Aposto, mas não assino embaixo (como diz uma amiga), que é a chance de rever o sorriso de alguém que ainda crê cegamente nele. No espírito dele, com ou sem embrulho e laço de fita.

Ilustração: Kitty Yoshioka

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Os homofóbicos saíram do armário


A Igreja Comunidade Cristã Nova Esperança fica no bairro Nova América, em Fortaleza. Evangélica, a instituição não tem placas na porta ou outras formas de identificação. A Igreja funciona há três anos e possui cerca de 60 membros, a maioria homossexuais.

Desde agosto, a Igreja virou alvo de ataques: urina na porta e pedradas, por exemplo. Perseguir pelas pedras não poderia ser mais simbólico e irônico: é repetir a punição típica do período em que o representante máximo da cristandade viveu, há pouco mais de dois mil anos.

Agora, os “corajosos” do anonimato partiram para as pichações: “Morte aos gays e sapatão” (com erro de português mesmo!), “Igreja gay filosofia do diabo” e “Homofobia não é crime”. Qual será o próximo passo? Repetir seus colegas machões da avenida Paulista?

Para assegurar seus esqueletos inertes e trancafiados, os homofóbicos, definitivamente, saíram do armário. Alguns ainda escondem o rosto e o nome, mas é uma reação previsível diante dos avanços na legislação para os homossexuais.
Muitos até se misturam à turma do politicamente correto, balançam a cabeça em sinal positivo para o problema, mas se entregam nas piadas ou quando o assunto ganha ares de relações familiares ou pessoais.

A violência contra gays existe desde o período colonial. É da natureza histórica, está tatuada na formação cultural da sociedade brasileira. Nos últimos 45 dias, o tema parece que se transformou em sub-editoria nos jornais, pela sucessão de episódios. Escola em Campinas vítima de vandalismo. Ataques nas ruas, em cidades diferentes.

A desvantagem para os machões é que passamos a viver no Big Brother, que os coloca sob a mira de uma lente 24 horas por dia. Os machões que se sentiam livres para agredir e matar estão expostos no telejornal da hora das refeições. Os heróis da testosterona, agora, precisam responder criminalmente pela covardia de seus atos. Pela manifestação de tirania e de desumanidade.

Os casos sucessivos apresentam algumas semelhanças. Os agressores, em primeiro lugar, se escondem sob o manto do grupo. Ali, se protegem e se fortalecem. Ali, podem dizer o que realmente pensam. Ali, podem evitar a reação da vítima e mantê-la sob condição de humilhação, inerente ao ato de violência. Ali, ejaculam de prazer no auto-exercício da dominação.

Os agressores são, no fundo, covardes. Não assumem suas posições, pois fogem do contraditório. Agridem e defendem a eliminação do outro por ser supostamente diferente deles. Projetam nos gays suas frustrações e fracassos, independentemente do tema, não exclusivamente sexual.

Quando apanhados, buscam amenizar a gravidade de seus atos. Não se veem como selvagens. Veem-se como pregadores de uma moral – com respaldo religioso até -, distorcida e adequada aos princípios próprios dos agressores.

Quem agride se posiciona como vítima. O outro o agride por sua presença, por sua existência. Os homofóbicos entendem que seus alvos devem se manter em guetos, em campos de concentração onde suas opções não machucariam seus olhos. Quem sabe, para muitos, não seria o remédio que afasta tentações?

A exposição pública e a conquista de espaço seriam uma afronta, um avanço ofensivo sem permissão, transgressor ao ponto de exigir um ato imediato, uma resposta violenta.

No caso da avenida Paulista, um dos cinco agressores é maior de idade. Tem 19 anos e foi indiciado judicialmente. A mãe de um dos outros adolescentes chegou a dizer que seu filho adolescente cometera um ato infantil, como se fosse incapaz de avaliar a gravidade das porradas distribuídas gratuitamente.

A mesma mãe afirmou que o caso ganhava ares de exagero por parte da imprensa. Que medidas seriam tomadas em casa, de maneira adequada, como assunto de família.
Nesta perspectiva, crianças que cometeram erros são punidas pelos pais. Nesta lógica, a infantilização do agressor se encaixa como um porrete para as circunstâncias. Manter os desvios de conduta na vida privada é uma estratégia coerente com quem esconde suas posições perversas entre quatro paredes, enquanto sorri em público. E também seria coerente, na visão deles, com a homossexualidade, que mereceria cadeados e trancas para permanecer dentro de casa.

Para esta sociedade que prega a diversidade e a pratica em forma de intolerância, confundir público e privado e misturar violência com coisa de criança solidificam o cinismo de quem confirma que legislação e mentalidade são irmãos que não se entendem, que mal se conhecem.

Ilustração: Kitty Yoshioka

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

A rua que divide o tempo

A rua Francisco Hayden é um pequeno pedaço de asfalto de 200 metros, mal percebido por quem precisa chegar à orla da praia, nas proximidades do Museu de Pesca, em Santos. Ninguém reside ali. Não há grandes empresas ou consistente movimentação comercial. O local não recebe tráfego pesado ou conecta pontos de transporte de mercadorias, por exemplo.

A rua, na Ponta da Praia, é somente ponto de passagem, o instrumento de travessia para quem não deseja sequer saber o nome dela. A brevidade do trecho, inclusive, impede que tenhamos a curiosidade de identificá-la. É uma veia que não nasceu para se tornar definitiva, que se assume secundária.

A rua Francisco Hayden acabou eleita para um trabalho à revelia, função que não a transformou em foco geográfico ou centro de aglomeração de pessoas. A rua dividiu dois tempos que radiografam a cidade de Santos.

A Francisco Hayden é a fronteira que demarca o passado e o presente dos clubes de Santos. Como castigo, terá que se equilibrar em um futuro que se aproxima e vai reescrever sua existência.



De um lado da via, as ruínas do Clube de Regatas Santista. Do outro lado da calçada, o Clube Internacional de Regatas, com novo prédio de visual contemporâneo.

De um lado da via, a morte de um período áureo dos clubes da cidade, que se transformaram em elefantes brancos, congelados como o retrato amarelado que se esfacela ao toque das mãos. Estes animais de concreto não entenderam as alterações culturais e urbanas de uma cidade que cresce sem planejamento adequado.

Do outro lado, outra espécie de elefante, que recusou a classificação de paquiderme, por suas próprias razões. Uma agremiação sobrevivente, que se reinventou para garantir mais alguns anos, ainda que sem o glamour, ainda que diversificando atividades, tanto sociais quanto esportivas.

O Regatas Santista, ao contrário do Vasco da Gama, agonizou lentamente, com um animal abatido para o sacrifício depois de horas de sangria. As dívidas se acumularam, e o amadorismo cultuado de outras épocas virou o tumor que impedia a adaptação aos novos valores culturais da classe média.

As ruínas do Regatas Santista demarcam um caminho de inércia, de cegueira diante do mundo que se movimentava além das grades da sede do clube. O Regatas é o símbolo maior do problema que derrubou outras agremiações tradicionais, como o Clube Atlético Santista. O patrimônio, antes ponto de ostentação e status, passou a ser a doença que resistia aos remédios paliativos.

As ruínas do Regatas Santista guardam, entre pedras, pó e ferros retorcidos, as lembranças de gerações que ali dançavam, praticavam esportes, namoravam, se conheciam e entendiam a dinâmica da cidade de Santos. A memória que perdeu a referência no espaço e se restringiu à imaginação a partir de um vazio na esquina com a avenida Saldanha da Gama.

As ruínas serão trocadas por outras lembranças, a serem construídas depois do parto dos espigões que beijam a ausência de limite vertical. Os mesmos espigões que alterarão a paisagem da avenida Saldanha da Gama. Os mesmos espigões que mudarão o status do Clube Internacional de Regatas. O elefante é a nova formiga, diante de outro mamífero maior e de força no rugido.

A rua Francisco Hayden, com seus 200 metros e insignificância geográfica, é o divisor de águas para um comportamento cultural que deseja (e se escraviza) pela adaptação. O Regatas Santista carregará em sua lápide as pedras de um passado gravado em documentos. A lápide que enfatiza a imagem desfeita em poucos dias pelos equipamentos de demolição, depois de anos em coma a céu aberto.

A rua Francisco Hayden é o mensageiro do alerta, de um tempo que nasceu pela caneta dos políticos e dos interessados em lucro veloz. Os mesmos políticos que agora tentam, entre a desfaçatez e o jogo de cena, conter com esparadrapo as águas vorazes que romperam a barreira do crescimento selvagem. O grupo que abriu a porteira para a boiada de concreto e ferro tem na rua Francisco Hayden um cartão postal macabro que escancara o estrago, fruto da ansiedade por progresso.

Do outro lado, o gigante vermelho deve se preparar para a própria pequenez. Para a luz que será trocada por uma parede de dezenas de andares. Para entender que o morador de hoje é um sujeito com outras formas de lazer em mente. Sujeito que pode desejar o velho clube Internacional, mas que flerta com outros espaços fechados, com vitrines, praças de alimentação e outros atrativos à base de cifrões.

O Internacional de Regatas é o presente que ajudará a redefinir o papel da rua Francisco Hayden. Hoje, somente uma passagem para a orla da praia. Amanhã, a passagem para o canteiro de obras. Depois de amanhã, o início e o fim do cotidiano de novos moradores.

O novo prédio do clube é a resposta de quem procurou tratamento para não morrer. Ou para não acabar em ruínas, que atraem o saudosismo e o lamento das experiências vividas e jamais retomadas. Pelo menos ali, na rua que recebeu o fardo de dividir duas épocas.

Foto: Luiz Nascimento

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

O coelho que salvou os falsários

A Comissão de Inquérito foi instaurada há duas semanas. Há laudos periciais, testemunhos e observações que servem para construir a teoria que mobilizou as três investigadoras neste final de ano. Resolveram até abrir mão do início das férias coletivas para desmascarar a farsa.

A desconfiança sobre o estelionato nasceu há quase um ano, exatamente no dia 24 de dezembro, a quase duas horas da ceia de Natal. Ali, diante de um velhinho vestido de vermelho e barba branca, nasceu a dúvida: Papai Noel existe?

Você, leitor, talvez tenha perdido uma das mais importantes ilusões que compõem a infância. Talvez dê pouca importância para este problema. Mas para uma criança de 8 anos, como Mariana, minha filha, é provavelmente uma pergunta fundamental, uma fronteira entre duas etapas da vida dela.

Sem filosofia de botequim, mas com curiosidade, ela iniciou um processo de investigação, ao lado de duas primas: Letícia, de 9 anos, e Laura, de seis. As três resolveram se reunir na casa de bonecas para juntar as peças, colar os cacos de uma dúvida que as perseguiu em 2010.

Para se protegerem, expulsaram o pai delas, meu primo Orlando Carlos, que pretendia filmar o encontro. Ele desconhecia dois pontos fundamentais: 1) a reunião do “clubinho” era uma investigação; 2) as três haviam expulsado o principal suspeito.

As investigadoras estão determinadas a provar que Papai Noel não existe. Sentem-se lesadas, vítimas de um crime que durou uma vida inteira, ainda que curta. Antes de ouvir testemunhas, reuniram as evidências.

A primeira é que, embora falasse pouco durante a troca de presentes, Papai Noel tinha os óculos idênticos aos do pai de Letícia e Laura. A voz do velhinho também se parecia com a de Orlando Carlos, agora réu. Outra pista: Papai Noel subiu para o primeiro andar do sobrado e foi embora, mas a casa não possui chaminé. Como ele teria saído?

O velhinho também foi visto trocando de roupa pela fresta da porta. Se ele teria que visitar outras casas, por que mudou de roupa? Ainda bem que não tiveram a presença de espírito de minha irmã que, quando tinha mais ou menos a mesma idade delas, deixou de acreditar em Papai Noel ao encontrar a roupa e o gorro atrás da porta do banheiro.

Apesar de relutantes, as três crianças-investigadoras juram não se lembrar do acusado na sala durante a troca de presentes. E não as convence o suspeito exibir filmes natalinos e assisti-los com as crianças para provar que não se vestiu de vermelho naquela noite.

O segundo passo foi a coleta de depoimentos. Mães, avós, pais, tias e parentes próximos foram questionados várias vezes. Só faltou a sala com o espelho falso e a lâmpada forte no rosto da testemunha. As crianças sempre voltavam às mesmas perguntas, em diferentes contextos. Sempre o mesmo ponto de partida: Papai Noel existe?

As negativas mal convenceram. Por que os adultos não escrevem cartas para ele? Por que as etiquetas dos pacotes estão identificadas com a letra parecida com a da vovó? Por que as embalagens têm a mesma cor?

A sequência de dúvidas abriu margem para outros suspeitos. Nem armar a árvore de Natal desviou o rumo das investigações.

Mariana, por exemplo, passou a desconfiar também da Fada do Dente. Lembrou-se do último dente que caiu, não aquele engolido por ela junto o macarrão e jamais visto novamente. Era o dente dos R$ 6, a oferta inflacionada da fada.

Mariana não duvidou da generosidade. Prestou atenção no fato de que, por acaso, a mesma quantia havia desaparecido do criado-mudo da avó. No mesmo dia! A Fada do Dente ganhou posto na quadrilha do velhinho de vermelho. Mas o benefício da dúvida prevalece em favor do réu. A incerteza garantiu até agora a sobrevida desta etapa da infância.

Na quadrilha da fantasia, um integrante foi poupado: o Coelhinho da Páscoa. Todos os anos, pegadas são marcadas com as mãos em vários pontos da casa. A trilha leva aos ovos escondidos. Neste ponto, a investigadora-minha-filha falhou como perita criminal. Para ela, a reprodução das pegadas é impossível. O laboratório dela não percebeu as marcas de talco, que somem ao simples sopro da própria detetive.

O crime perfeito do coelho virou exemplo para salvar os demais acusados. Como um pode existir e os demais não? É a estratégia de defesa dos adultos. Discurso combinado!

Soube que Papai Noel não existia quando tinha a mesma idade que ela. Soube na noite de Natal por um amigo de colégio, o Ricardo, que passou a ceia na minha casa.
Lembro-me exatamente de onde estava. Lembro-me da insistência dele diante de minha decepção. A criança que se sente tola diante do sorriso da outra. Lembro-me de que, por alguns minutos, a festa perdera o sentido.

A dúvida persistiu na manhã seguinte, enquanto abria o presente deixado por Papai Noel na madrugada. A chegada dele virou ritual; em alguns anos, obrigação. A imaginação morreu em duas frases de um moleque da minha idade.

Anos depois, descobri que o velho de vermelho era uma criação da maior marca de refrigerantes do mundo, como publicidade. Pouca diferença fez, até porque as pessoas perpetuam a ilusão (com todo o direito) quando compram a bebida para ter ursinhos polares de brinde ou instalam pinheiros na sala de casa, mesmo com o calor do Saara.

A investigação será concluída na noite do dia 24. Quando as três investigadoras apresentarem o inquérito cheio de teses, restarão dois caminhos para o velhinho e para a fada. O primeiro envolve o papel de pai. Tenho que manter a história do Papai Noel e dos demais amigos da fantasia até que minha filha descubra por si mesma. É parte da infância dela. É parte da imaginação que sustenta a realidade. É parte do sonho que realimenta a felicidade, expelida pelos olhos frenéticos de uma criança.

O outro caminho não depende de mim. Imploro ao meu primo que volte à cena do crime na noite de Natal, menos vestido a caráter. E que nem pense em se fantasiar de Coelho da Páscoa, em qualquer época do ano.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Os tucanos e a selva

Texto publicado no jornal Boqueirão (Santos/SP), na seção Campo Neutro, edição n. 819, em 11 de dezembro de 2010.

Os tucanos adotaram um comportamento adestrado. Pareciam acostumados com a vida em cativeiro, onde se alimentavam, se reproduziam, mantinham-se aquecidos. A vida era demasiado confortável e, ao mesmo tempo, alheia à possibilidade de encarar os perigos do mundo lá fora.

Com três derrotas consecutivas, o PSDB se vê obrigado a abandonar este estilo de vida e encarar as particularidades da selva, se quiser se sustentar como uma oposição efetiva. Não é mais possível dar a alguns espécimes de plumagem mais colorida o poder de praguejar contra um grupo que se manterá no poder por mais quatro anos.

Os tucanos que gritavam mais alto o faziam de trás das grades do cativeiro, pose cômoda e incapaz de incomodar o sapo, como assim chamam seu principal inimigo na floresta. O sapo permanece no comando do brejo e ampliou seus domínios “como nunca antes visto neste país”, para parafrasear o próprio anfíbio.

Com a surra, chegou a hora de se reinventar. Trocar lideranças – que nesta hora não assumem as responsabilidades correspondentes – e refazer o caminho para se construir como opositores. Aliás, aprender com o próprio PT, eficiente neste sentido a ponto de se transformar em situação.

Os macacos fofoqueiros falam em fusão com os Democratas, aves mais antigas e versáteis às oscilações do clima e ao desmatamento de certas áreas. Outros pontos da floresta também indicam que o PPS – uma ave pequena e de opinião volúvel, porém barulhenta - se juntaria ao grupo. Na teoria, o trio abriria uma clareira para incomodar o reino dos anfíbios.

Se fosse otimista, diria que os tucanos desceram do galho, ainda que o voo seja tímido. Saíram da inércia e quebraram a primeira etapa do luto: a negação. Se fosse pessimista, diria que os tucanos só mudarão de perspectiva na árvore se as aves mais velhas perderem as penas.

A reação precisa ser imediata, com data marcada: as eleições municipais de 2012. Se pensarmos nisso, veremos a fragilidade dos tucanos na Baixada Santista. O domínio se restringe à Praia Grande. O restante soa como gritos isolados, que não alteram o estado de coisas.

Os tucanos do litoral têm dois representantes na Assembléia Legislativa. Mas a votação deles depende de outras regiões, onde ambos foram espertos e construíram bases eleitorais. Se dependessem da vegetação litorânea, talvez estivessem extintos.

Na maior cidade da Baixada, os tucanos vivem à sombra da coruja, liderança sempre discreta e ponderada, que está à frente do Paço Municipal há seis anos. Entraram no bolo de 19 partidos e não apresentam candidato à Prefeitura desde que Raul Christiano alcançou o terceiro lugar no começo da década.

Os tucanos caiçaras alegam amadurecimento como resultado da briga, anos atrás, entre veteranos e filhotes. Os mais novos ocupam hoje as copas das árvores. Terão fôlego para propor (ou impor) candidatura própria?

Ao contrário da política no Cerrado, em Brasília, os tucanos que residem à beira da Serra do Mar seguem de braços dados com o poder. Vale o preço de ocupar um papel secundário e servir de escada para o PMDB?

Não sou eleitor do PSDB, mas entendo que o partido é fundamental. No âmbito federal, tem a missão de colocar os sapos em alerta. Um animal pressionado, com instintos aguçados, se mexe para não morrer, como predador e como presa. E precisa de adversários à altura (não apenas tucanos) para preservar o ecossistema político.

Por aqui, os tucanos poderiam sair da paralisia – assim como outras espécies partidárias – e incomodar o grupo que ocupa o poder municipal há 14 anos. Mas existe sempre, em política, o caminho mais fácil, o do cativeiro. O problema é que a selva engole sem dó os coadjuvantes silenciosos.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

A soneca

Se você resolveu ler este texto depois do almoço, um aviso: você poderá perder aquela necessidade incontrolável da soneca de 20 minutos, meia hora. Seus olhos não ficarão pesados. Seus pensamentos não voarão longe. Suas roupas não estarão pesadas, desconfortáveis. Nem adianta tirar os sapatos e esconder os pés debaixo da mesa. Prossiga!

O objetivo é que você se mantenha aceso o suficiente para alcançar o final da leitura. Assim, seu chefe continuará te considerando um ser produtivo e eficiente. Na tradução: escravo das metas estabelecidas por ele, que finge quando diz que a iniciativa foi sua.

O assunto é exatamente o sono. Dormir depois do almoço deveria ser obrigatório por lei. Com direito a indenizações por danos morais e materiais a serem pagas pelos empregadores que não concederem o benefício a seus empregados. As grandes cidades (e as grandes empresas) deveriam rever seus conceitos de qualidade de vida e se espelhar no modo de vida de muitas localidades interioranas, onde o tempo e a rotina são amáveis.



Há 11 anos, estive no interior do Rio Grande do Sul por conta de um congresso acadêmico. Ijuí, a cidade onde me hospedei, não era muito diferente de outras que visitei ao longo dos anos. Pessoas educadas, sem pressa, preocupadas (às vezes até demais) com a vida dos outros. Ali, não havia trânsito. Nem semáforos. Os carros paravam assim que alguém colocava um dos pés na faixa de pedestres.

A calmaria está na natureza do lugar, que se transforma em cidade-fantasma diariamente, entre meio-dia e duas horas da tarde. Neste período, era impossível comprar um sapato ou um desodorante, abastecer o carro, tomar um sorvete, beber uma cerveja. O comércio fechava as portas. Patrões e empregados se uniam na mesma tarefa: dormir depois do almoço.

Até os lugares que permaneciam abertos pareciam sofrer de catatonia. Funcionários seguiam em seus postos, sob efeito da picada da mosca do sono. Quem teria a infeliz ideia de procurar a Prefeitura uma hora daquelas? Por que pensar em pagar uma conta de banco? Ninguém teria um raciocínio estúpido como esse.

A cidade gaúcha, assim como outras centenas, estava anos à frente. Hoje, empresas perceberam que seus funcionários são mais produtivos se dormirem após o almoço. É parte da escravidão corporativa, mas ao menos o vassalo produz de maneira mais feliz, avaliam os especialistas em gerenciar pessoas, os capitães-do-mato deste modelo.

A proposta nasceu nas companhias vistas como flexíveis, embora seus funcionários dificilmente percebam que mal saem dela. Comem, treinam, trabalham, namoram e agora também dormem no escritório. Segundo reportagem da revista Época, no Google e na Nike, por exemplo, existem ambientes específicos (com puffs e até colchonetes) para que os “colaboradores” descansem depois do almoço.

Empresas brasileiras utilizam até redes para aproximar (ou enganar?) seus funcionários de casa. É como ficar na casa de praia de terno e gravata, ainda que o nó esteja frouxo.

A sesta deixou de ser transgressão. Como um amigo que trabalhava numa escola de informática e dormia na sala de estoques. Ninguém entendia porque demorava tanto para localizar um cartucho de impressora.

Ou uma colega jornalista que sempre demorava no banheiro. A privacidade garantia um soninho de 15 minutos, sentada no vaso sanitário.

Perdi o sono ao especular se meu local de trabalho poderia apostar no descanso institucionalizado. Perder o prazer de dormir sem a chefia perceber? Brincar com o colega que diz “fechar os olhos” durante as reuniões? Ver companheiros de trabalho envergonhados em tirar os sapatos para deitar nos sofás da sala dos professores?

Dormir virou regra. E negócio lucrativo. Não me refiro às clínicas de sono. Nem aos ingênuos que pagam para ver pessoas dormindo sob edredons em reality shows. Se as empresas ordenaram que dormíssemos, descansar no trabalho poderá ser prejudicial em algum momento, mesmo que os médicos digam o contrário.

Para justificar a novidade, as pesquisas científicas, antes ignoradas. A reportagem de Época menciona estudo da Nasa (isso mesmo! O tema é espacial!) que garante: a produtividade cresce um terço. A capacidade de atenção, 54%, se o sujeito dorme 26 minutos.

Em Nova Iorque, há spas que alugam espaço para o descanso após o almoço. Rio de Janeiro e São Paulo também têm empresas semelhantes.
Até restaurantes criaram ambientes para a soneca depois da refeição. Se não estiver incluído na conta, melhor para o cliente que – aliás – dormirá fora do ambiente de trabalho. Aí o sono volta a ser um pecado saudável. E sonhar sem pagar 10%.

Se chegou aqui, fico contente que este texto não te apagou. Durma um pouco. Meia hora, talvez. Sem culpa. Só não o faça, por favor, na frente do seu chefe. Por uma questão de privacidade. E de saúde!

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

O time que não quis vencer

O comentarista Casagrande, quando ainda era jogador, relembrou durante uma entrevista o período em que jogava no Ascoli, pequeno time italiano. As palavras não são exatamente essas, mas indicam com clareza o discurso de um dos símbolos do Corinthians.

- O desejo da torcida era garantir a permanência na Série A. Contra os grandes, como o Milan, entrávamos em campo perdendo de 1 a 0. O sonho era empatar. O Ascoli tinha que vencer os pequenos, concorrentes diretos contra o rebaixamento.

Vou me esquivar de comentar diretamente o empate do Corinthians contra o Goiás, ontem, em Goiânia. Olhar apenas esta partida permitiria interpretar, pelo avesso, a declaração de Casagrande. É claro que o Corinthians tinha que vencer. Pela disputa do campeonato e pela diferença enorme entre as equipes.



A questão é que, faturar ou não um título, não depende somente de um jogo. O campeão nasce do conjunto da obra. E aí está o que separa o Fluminense do Corinthians.

O sistema de pontos corridos, melhor modelo que temos hoje, premia o time mais regular. Valoriza quem erra menos. Adota como filho os que se planejam. Despreza e rebaixa os times que mal conseguem estabelecer uma rota na disputa. Não perdoa os volúveis e os indecisos.

Perder ou vencer um campeonato é o resultado óbvio – poucas vezes o futebol surpreende, por mais que desejemos acreditar na “caixinha de surpresas” – de uma postura ao longo da temporada, ainda mais quando se trata de um campeonato com 38 partidas.

O São Paulo ganhou três campeonatos seguidos de mesma maneira, ao comer os adversários pelas beiradas, perder nos momentos menos importantes, fazer experiências no início do torneio (jamais no final), nunca trocar o pneu com o carro em movimento.

Não é à toa que o técnico do antigo São Paulo e do atual campeão nacional é o mesmo sujeito. Muricy Ramalho, quando não venceu, chegou na reta final, mesmo no ano passado. Lá, o Palmeiras – dirigido por Muricy - dava os primeiros sinais da doença crônica que o acomete hoje.

O Fluminense manteve o mesmo treinador. É uma marca de quem leva o torneio. Tempo para dar a cara e o jeito do técnico ao time. O Corinthians teve quatro treinadores, se contarmos o interino Fabio Carlyle. Foram três reinícios, o que inviabiliza de imediato o entrosamento entre os atletas e a maturidade diante dos obstáculos do jogo.



Em um campeonato longo, é fundamental ter elenco, reservas à altura para suprir contusões e suspensões. Os reservas do Corinthians, principalmente no ataque, decepcionaram. Souza, Danilo e Dentinho (fora da maioria das partidas por lesão) fizeram apenas dois gols cada. Jorge Henrique também amargou a inatividade e fez seis gols. Iarlei, a exceção, foi titular em boa parte do torneio. Marcou oito gols.

No meio-campo, Bruno César – artilheiro com 14 gols – não teve substituto. De Frederico já está na Argentina e não deve voltar. O “novo Messi” ficou na promessa. Sequer foi relacionado para a última partida.

Um time campeão precisa de um comandante. Sempre presente. Conca jogou todas as partidas e foi o maestro do Fluminense. O reconhecimento veio com o título de craque do campeonato e o pedido de convocação para a seleção argentina por vários jornais estrangeiros.

No Corinthians, vários jogadores dividiram a liderança, o que – em tese – seria saudável. Mas esta liderança não se concretizou na parte técnica, apenas nos bastidores. Um exemplo foi a relação conflituosa entre parte dos jogadores e o ex-treinador Adilson Batista.

Em campo, as estatísticas, que respondem parte da dúvida, indicam a dependência de Ronaldo. O time tem desempenho superior quando o atacante joga. O problema é atuou em 11 partidas (seis gols), pouco para uma disputa rodada a rodada entre três clubes grandes. Bruno César mal chegou e é muito novo para assumir o controle e ditar como o time deveria jogar.

Se voltarmos à declaração de Casagrande, chegaremos aos pontos que talvez tenham feito diferença na classificação final. O Corinthians, apenas para pensar no segundo turno, empatou com Vitória (BA), Guarani e Goiás, todos rebaixados. Ganhou somente do Grêmio Prudente.

Fora da zona de rebaixamento, o Timão empatou com o Ceará e conseguiu perder por 4 a 3 para o Atlético (GO), dentro do Pacaembu. Venceu o Avaí, assim como Fluminense.

O campeão brasileiro, aliás, perdeu as duas partidas para o Corinthians. Mas venceu Vitória, Guarani e Ceará e empatou com Goiás e Prudente. Perdeu somente para o Atlético (GO). O conjunto compensa – de certa forma – a diferença de pontos para o rival paulista.



Sei que os números sempre têm carga relativa. Há o risco do reducionismo. Ou talvez ajudem a entender a falta de fôlego. O fato é que o Corinthians, apesar de sempre próximo das decisões, foi irregular ao longo da temporada, assim como sua principal estrela.

Culpar o terceiro lugar no Campeonato Brasileiro à pressão e à maldição do ano do Centenário é transitar entre a especulação e a mandinga, ambas subjetivas. A compensação é que explicar a perda de um título não envolve somente a objetividade de tabelas e porcentagens. Implica também nas opiniões contraditórias, nos achismos, nos episódios de fundo de vestiário que jamais saberemos, nos desmandos e nos conflitos de relacionamento em vários níveis dentro do clube.

O Corinthians perdeu o campeonato por uma série de circunstâncias. Qual é o peso de cada uma delas? Não saberia dizer. Não apostaria nem me arriscaria. Apenas enumerei algumas hipóteses para entendermos que o mínimo que se espera de uma equipe deste tamanho é planejar todos os passos durante a temporada.

É claro que nenhum clube se mostrou digno do termo “profissionalismo”. Valem mais as rimas, como personalismo e paternalismo, entre dirigentes técnicos e jogadores. Planejamento – quem sabe? – se encaixaria melhor como contenção de danos ou administração de egos. E isso me parece que o Corinthians não fez com tanta eficiência como o tricolor carioca.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

A turma do bem

Não faço parte de grupos que se intitulam a “turma do bem”. Tenho medo deles! Evito abraçar suas causas e compartilhar de seus palavrórios. Da campanha eleitoral ao ambientalismo de shopping center.

Da indignação inerte com a violência urbana em lugares distantes ao abraço por causas sociais da moda. Do discurso da qualidade de vida (ainda que se trabalhe 12, 14 horas por dia) à obsessão pelo corpo perfeito (ainda que travestido de saúde). Do espiritualismo que se curva aos badulaques (e suas etiquetas) empilhados na sala de estar ao uso de Deus como justificativa pelo desprezo contra quem não é reflexo no espelho.

A turma do bem seduz pela falsa ingenuidade e comove pelo texto decorado que se encaixa nas necessidades do instante exibido na TV. O sonho é o padrão. A neurose é a uniformidade. Todos iguais, pensamento único. Neste universo, a turma se encarregaria das batutas da orquestra, de olho em cada acorde, punitiva em cada nota desafinada.

A turma do bem é o politicamente correto com novas roupas. Enxerga o mundo em preto e branco, despreza as nuances e as contradições, ignora a diferente perspectiva. Sob a máscara da generosidade e da solidariedade para as câmeras de TV, os filiados ao politicamente correto desejam o controle, protegem seus privilégios, minimizam as próprias responsabilidades.

O caminho natural do controle é a patrulha. Definir como todos devem se sentir, quais são as causas “eleitas”, enquadrar os discordantes e estabelecer os adversários (talvez inimigos) como a turma do mal. Claro, sem dar este nome, que infantilizaria a própria nomenclatura dos bondosos.

A turma do bem esconde o autoritarismo pelo sorriso e pela voz de locutor da madrugada. Camufla a intolerância pelas palavras pseudo-poéticas que piscam – por exemplo - em slides de natureza. A energia positiva dos almanaques de auto-ajuda sobrevive de sensações, ao mesmo tempo em que mata a reflexão e contexto que nos levam às inquietações mais profundas.

A turma do bem se expõe quando ouve o não. Ser contrariada resulta na explosão de preconceitos, traduzidos em ofensas e leviandades imediatas por todos os canais de comunicação possíveis. A voz macia arrebenta os decibéis aceitáveis, enquanto o sorriso é esmagado pelo ranger de dentes.

A indignação também se manifesta, com maior freqüência, quando as determinações sobre as normas de conduta não são cumpridas. A virulência é o sintoma de quem adora decidir o que devemos dizer, comer, vestir e, principalmente, pensar.

Mesmo nu, o politicamente correto não se assume no conflito. Apenas descobrimos quem são os sócios do clube. A hora da crise desvela a cor original. Mas os ataques são negados ou, no máximo, minimizados. Os atos ganham nomes – claro – politicamente corretos.

A turma do bem é composta sempre por vítimas, as verdadeiras e as de ocasião. As primeiras viram escravas. As de ocasião ganham as páginas das revistas de fofocas e os holofotes dos programas da tarde. Como vítimas, podem transferir a culpa, sentar-se no sofá do conforto e torcer para que a piedade as embale.

Os ataques – a turma do bem manda falar em reações, comentários e afins, desculpe! – sempre trazem o tom de limpeza. Não significa empurrar causas, grupos ou pessoas para debaixo do tapete ou exercitar a indiferença e o desprezo por eles. Significa eliminar quem pode atrapalhar o ideal de pensamento único, quem pode balançar os instrumentos que perpetuam o status diante do que deve ser dito e pensado.

A turma do bem se sente ofendida quando questionada. Não há contraponto. Existe alvo, com marca vermelha no meio da testa. A turma reage de forma truculenta, mas se faz de desentendida – às vezes, injustiçada – diante do que considera publicamente como agressões sem fundamento. A cara de espanto e o “OH!” de surpresa completam a atuação dos mocinhos.

A nova forma de politicamente correto se fortalece com aqueles que realmente se importam com as causas “eleitas”. Alimenta-se deles como sanguessugas para depois abandoná-los quando os ventos ganham outra direção, quando a moda traça novos desenhos por meio dos problemas sociais tratados como inéditos da semana no noticiário.

A patrulha da limpeza está em todos os setores da sociedade contemporânea. As celebridades legitimam as ações. Parte da mídia serve como caixa de ressonância. Os fatos se repetem no noticiário diante da indignação fugaz, do falatório de frases feitas, da monotonia do próximo pedaço de pizza a ser fatiado. Repete-se o enredo, o cardápio e a sobremesa.

Para a turma do bem, a vida deveria repetir o roteiro de um comercial de margarina, um encarte de empreendimento imobiliário ou um panfleto de agência de viagens. E com o direito de exorcizar os mauzinhos, os feios e os que não se encaixam, como uma história barata de programa infantil.