quinta-feira, 4 de novembro de 2010

A vencedora da eleição

Dilma Rousseff levou a eleição dentro das previsões, que enxergaram o desejo de continuidade de boa parte do eleitorado brasileiro. Captar os efeitos do lulismo não foi tarefa de videntes, apenas o olhar para o óbvio, indicado no primeiro turno, quando 16 Estados tiveram a eleição decidida.

A primeira mulher a governar o país venceu na urna, mas não ganhou a eleição. A dona do bilhete premiado em termos políticos se chama Marina Silva. A candidata do PV, com 20 milhões de votos, saiu com a imagem reciclada – com o perdão do trocadilho ambiental - e revigorada. Mesmo sem mandato, a senadora do Acre terá voz ativa nas encruzilhadas e nas costuras do processo político a partir da posse de Dilma Rousseff.

Marina Silva conseguiu o poder de transitar pelos círculos políticos sem depender de seu partido, volúvel como a maioria, sedento de alianças de última hora para assegurar cargos e outras benesses dos palácios. O personalismo cai bem a ela neste aspecto, pois a mantém sob o manto verde e, simultaneamente, reforça a aura de posições políticas éticas.

A mobilidade da candidata se deve também à votação, capaz de fazer com que muitos caciques a engulam a seco e se sentem à mesa para, no mínimo, ouvir as palavras dela. O poder de negociação da senadora ultrapassou o arco de instabilidade dos múltiplos grupos, e suas variadas cores, que habitam o Partido Verde.

Marina Silva foi coerente em sua posição política durante o segundo turno, quando optou por não apoiar nenhum dos dois candidatos. A decisão agradou uma parcela considerável do eleitorado, que a escolheu justamente pelo descontentamento com Dilma e Serra.

A candidata do PV à presidência também tem a vantagem, ainda que falte muito tempo, de manter a candidatura para 2014 em banho-maria, se desejar. Ampliou o leque de eleitores, ao ir além dos limites da classe média urbana, dos universitários e dos ambientalistas, tanto os de carteirinha como os de boutique.

O discurso evangélico de Marina foi relevado por estas fatias de eleitores e atendeu aos anseios dos religiosos mais radicais. Marina Silva escorregou como sabão no caso do aborto ao falar em plebiscito. Desinformou, não negou nem confirmou. A dúvida foi distorcida de modo a soar como música aos ouvidos dos que misturaram religião e política.

Os 20 milhões de votos, mais a abstenção no segundo turno, tiraram qualquer chance de veiculá-la ao lulismo. A saída amarga do governo vale mais do que o tempo de permanência nele.

Marina Silva vestiu a capa de adversária e se transformou em pedra, fator importante durante os primeiros passos de Dilma Rousseff como presidente, ávida por provar que não se trata de um fantoche de Luiz Inácio.

Enquanto Marina seguirá confortável na cadeira do crítico, Dilma terá missão paradoxal: mostrar que caminha sozinha, mas também ampliar o legado de Lula, sem que pareça ministra do ex-presidente.

A nova presidente precisará também conter a voracidade de Michel Temer, hábil mestre das sombras e representante de uma das personalidades do PMDB, obsessiva por se agarrar e beijar o poder. Caso contrário, Dilma perderá força de articulação com o Congresso Nacional e, neste caminho, faltará a ela somente a coroa para ser equivalente à rainha da Inglaterra.

A oposição estará mais forte, sem Lula e sua popularidade no horizonte, e mais experiente após três derrotas consecutivas. E, por suposição, mais inteligente, com Marina Silva – e o discurso de propostas – e Aécio Neves, com o jeito mineiro de fazer política, herdado do avô.

Depois de recolher os cacos, o PSDB poderá ganhar roupas novas, enquanto Serra cumpre pena política de dois anos na Sibéria. Aécio deverá reformular as estratégias do partido, ainda mais diante de uma governante com muito a provar e a fazer para ter iluminação própria.

Das duas mulheres, Marina Silva venceu a eleição. Definitivamente. Tem a vantagem do tempo para costurar nova candidatura, com maior respaldo político e financeiro. E tem a vantagem de estar fora do poder. Assim, ela poderá se preparar com crédito para cometer erros e sem riscos de sair chamuscada dos sucessivos incêndios que envolvem os jogadores de dados na política.

2 comentários:

C. A. disse...

Texto impecável marcão. Vejamos se a candidata verde terá força nos próximos 4 anos para se manter na crista da onda.

O que me preocupa mesmo no novo cenário é o vice-presidente. Creio que desde a redemocratização ninguém terá tanta força no cargo quanto o Temer, talvez tenhamos que temer mesmo.

O uso da máquina pública por políticos e familiares será um dos maiores da história desse país. Uma tradição do PT com o cranco do PMDB.

abraços

Marcus Vinicius Batista disse...

Cezar, infelizmente você está coberto de razão. Temer já colocou as mangas de fora. A tendência é piorar. Grande abraço!