terça-feira, 30 de novembro de 2010

Repetência, um ato de amor



Os três garotos sumiram das aulas. Dois eram irmãos, de 10 e 13 anos. O outro tinha 11 anos. Poderiam ser amigos, mas estudavam em lugares diferentes. Os irmãos estavam matriculados na escola Alzira Martins, no Morro da Nova Cintra. O outro estudante, na escola Esmeraldo Tarquínio. Ambos os colégios ficam em Santos (SP).

As histórias deles se cruzaram na reportagem de Renato Santana, publicada no jornal A Tribuna, em 27 de novembro. Os três estudantes não vão à escola por decisão das mães. Insatisfeitas com o desempenho deles, as mães resolveram pedir à Diretoria Regional de Ensino que seus filhos fossem reprovados.

As mães tornaram pública a decisão após serem procuradas pelo Conselho Tutelar. A medida, de praxe, acontece quando um aluno se ausenta por muito tempo da escola. Um dos garotos possui Transtorno de Déficit de Atenção (TDA), problema de aprendizagem que requer acompanhamento especializado. A sugestão do Conselho foi que as mães processem judicialmente a rede de ensino.

O caso, se analisado de forma apressada, coloca em discussão o sistema de Progressão Continuada, utilizado pelo Governo do Estado há mais de 10 anos, uma adaptação de modelo europeu. Eventualmente, o sistema é questionado e distorcido, principalmente em campanhas eleitorais. O último a adotar esta estratégia foi o candidato derrotado ao Governo de SP pelo PT, Aloisio Mercadante.

O problema não é a Progressão Continuada, interpretada de maneira equivocada como um sistema que não reprova ou que premia os maus alunos. A cegueira ou a má-fé político-partidária retira do foco os obstáculos estruturais das redes de ensino.

Se o aluno não aprende ou tem problemas de aprendizagem com diagnóstico, o atendimento deve ser diferenciado. Como fazê-lo em salas lotadas? Como fazê-lo se faltam professores ou se muitos seguem mal preparados?
Como resolver dificuldades de aprendizagem se um estudante espera por meses para ser atendido por um psicopedagogo. Quando a espera termina, raramente ocorrem as nove sessões habituais, o mínimo para um diagnóstico decente.

Para expor a estrutura deficitária, a tentação seria discutir o nível salarial, mas a gravidade da doença alcança um degrau mais profundo. Corrói todos os patamares da educação escolar. Cursos de capacitação fast-food ou trocas sucessivas de equipes pedagógicas não servem como remédios, sequer paliativos.

É preciso pensar em longo prazo, com políticas públicas que ultrapassem mandatos de quatro anos. As escolas precisam se aproximar, por exemplo, da realidade tecnológica das crianças. Os professores precisam de jornadas de trabalho menos escravizantes a ponto de serem cobrados, de maneira adequada, por conhecimento e resultados em sala de aula. Resultados não são mapas estatísticos que desumanizam o ensino, mas mudanças significativas na vida dos alunos, na relação deles com o mundo.



A história das duas mães me faz lembrar de um episódio que ocorreu na mesma cidade em que elas residem. Há 10 anos, a Prefeitura resolveu abandonar a Progressão Continuada. A alegação – após dois anos no sistema – era de que a aprovação automática levava crianças a alcançar a 7º série (hoje 8º ano) sem saber ler e escrever.

A rede municipal voltaria à Progressão Avaliada. A comprovação estaria nos números. Os mesmos que condenariam a medida. A Prefeitura, com estardalhaço, convocou a imprensa para mostrar a estagnação da aprendizagem média dos estudantes. Com as avaliações posteriores e a inércia estatística, a administração manteve o silêncio.

Qualquer criança com algum conhecimento de matemática perceberia que, se o sistema tinha dois anos de implantação, alguém que chegou à 7º série sem saber ler e escrever o fez independentemente do modelo em vigor. Isso aconteceu porque alunos passaram como fantasmas pelos rombos de uma rede educacional.

Talvez as mães desconheçam ou não se deram conta do impacto do estigma “repetente” carimbado na testa de seus filhos. Ser um aluno repetente implica em desconfiança de colegas, professores, equipe pedagógica e pais de outros estudantes. A tendência é o isolamento, o preconceito contra a inteligência e a capacidade de aprendizagem, além da associação a comportamentos agressivos.

Pedir que a escola repita seus filhos de ano é um ato de amor. Nenhum pai quer ver o fracasso estampado no uniforme ou na mochila de uma criança ou adolescente. Todos os pais sonham com a nota 10, sob quaisquer circunstâncias. Como as duas mães, existem centenas que adorariam praguejar contra o ensino ministrado a seus filhos. Mas não o fazem porque esta escola é a única que possuem ou porque temem o mundo sem ela. Talvez seja ainda pior.

As duas mães de Santos devem ser apoiadas porque, involuntariamente, colocaram a incompetência dos gestores (aliás, pedagogos adoram esta palavra para elevar status) em foco. Estas mães devem ser apoiadas porque aprenderam com o erro a tempo de corrigi-lo.

Tirá-los da escola é um pedido de socorro de quem percebeu o estrago que o ensino (a falta de) pode fazer ao ser humano. As duas mães pensam em transferir seus filhos para escolas particulares, o que não seria necessariamente melhor. Mas é uma medida a tempo de evitar as feridas provocadas pelos que fazem política pelo pedagoguês, adeptos da imobilidade e da omissão.

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