terça-feira, 30 de novembro de 2010

Repetência, um ato de amor



Os três garotos sumiram das aulas. Dois eram irmãos, de 10 e 13 anos. O outro tinha 11 anos. Poderiam ser amigos, mas estudavam em lugares diferentes. Os irmãos estavam matriculados na escola Alzira Martins, no Morro da Nova Cintra. O outro estudante, na escola Esmeraldo Tarquínio. Ambos os colégios ficam em Santos (SP).

As histórias deles se cruzaram na reportagem de Renato Santana, publicada no jornal A Tribuna, em 27 de novembro. Os três estudantes não vão à escola por decisão das mães. Insatisfeitas com o desempenho deles, as mães resolveram pedir à Diretoria Regional de Ensino que seus filhos fossem reprovados.

As mães tornaram pública a decisão após serem procuradas pelo Conselho Tutelar. A medida, de praxe, acontece quando um aluno se ausenta por muito tempo da escola. Um dos garotos possui Transtorno de Déficit de Atenção (TDA), problema de aprendizagem que requer acompanhamento especializado. A sugestão do Conselho foi que as mães processem judicialmente a rede de ensino.

O caso, se analisado de forma apressada, coloca em discussão o sistema de Progressão Continuada, utilizado pelo Governo do Estado há mais de 10 anos, uma adaptação de modelo europeu. Eventualmente, o sistema é questionado e distorcido, principalmente em campanhas eleitorais. O último a adotar esta estratégia foi o candidato derrotado ao Governo de SP pelo PT, Aloisio Mercadante.

O problema não é a Progressão Continuada, interpretada de maneira equivocada como um sistema que não reprova ou que premia os maus alunos. A cegueira ou a má-fé político-partidária retira do foco os obstáculos estruturais das redes de ensino.

Se o aluno não aprende ou tem problemas de aprendizagem com diagnóstico, o atendimento deve ser diferenciado. Como fazê-lo em salas lotadas? Como fazê-lo se faltam professores ou se muitos seguem mal preparados?
Como resolver dificuldades de aprendizagem se um estudante espera por meses para ser atendido por um psicopedagogo. Quando a espera termina, raramente ocorrem as nove sessões habituais, o mínimo para um diagnóstico decente.

Para expor a estrutura deficitária, a tentação seria discutir o nível salarial, mas a gravidade da doença alcança um degrau mais profundo. Corrói todos os patamares da educação escolar. Cursos de capacitação fast-food ou trocas sucessivas de equipes pedagógicas não servem como remédios, sequer paliativos.

É preciso pensar em longo prazo, com políticas públicas que ultrapassem mandatos de quatro anos. As escolas precisam se aproximar, por exemplo, da realidade tecnológica das crianças. Os professores precisam de jornadas de trabalho menos escravizantes a ponto de serem cobrados, de maneira adequada, por conhecimento e resultados em sala de aula. Resultados não são mapas estatísticos que desumanizam o ensino, mas mudanças significativas na vida dos alunos, na relação deles com o mundo.



A história das duas mães me faz lembrar de um episódio que ocorreu na mesma cidade em que elas residem. Há 10 anos, a Prefeitura resolveu abandonar a Progressão Continuada. A alegação – após dois anos no sistema – era de que a aprovação automática levava crianças a alcançar a 7º série (hoje 8º ano) sem saber ler e escrever.

A rede municipal voltaria à Progressão Avaliada. A comprovação estaria nos números. Os mesmos que condenariam a medida. A Prefeitura, com estardalhaço, convocou a imprensa para mostrar a estagnação da aprendizagem média dos estudantes. Com as avaliações posteriores e a inércia estatística, a administração manteve o silêncio.

Qualquer criança com algum conhecimento de matemática perceberia que, se o sistema tinha dois anos de implantação, alguém que chegou à 7º série sem saber ler e escrever o fez independentemente do modelo em vigor. Isso aconteceu porque alunos passaram como fantasmas pelos rombos de uma rede educacional.

Talvez as mães desconheçam ou não se deram conta do impacto do estigma “repetente” carimbado na testa de seus filhos. Ser um aluno repetente implica em desconfiança de colegas, professores, equipe pedagógica e pais de outros estudantes. A tendência é o isolamento, o preconceito contra a inteligência e a capacidade de aprendizagem, além da associação a comportamentos agressivos.

Pedir que a escola repita seus filhos de ano é um ato de amor. Nenhum pai quer ver o fracasso estampado no uniforme ou na mochila de uma criança ou adolescente. Todos os pais sonham com a nota 10, sob quaisquer circunstâncias. Como as duas mães, existem centenas que adorariam praguejar contra o ensino ministrado a seus filhos. Mas não o fazem porque esta escola é a única que possuem ou porque temem o mundo sem ela. Talvez seja ainda pior.

As duas mães de Santos devem ser apoiadas porque, involuntariamente, colocaram a incompetência dos gestores (aliás, pedagogos adoram esta palavra para elevar status) em foco. Estas mães devem ser apoiadas porque aprenderam com o erro a tempo de corrigi-lo.

Tirá-los da escola é um pedido de socorro de quem percebeu o estrago que o ensino (a falta de) pode fazer ao ser humano. As duas mães pensam em transferir seus filhos para escolas particulares, o que não seria necessariamente melhor. Mas é uma medida a tempo de evitar as feridas provocadas pelos que fazem política pelo pedagoguês, adeptos da imobilidade e da omissão.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

A lei da felicidade

Os políticos, além de administrarem e legislarem (mal) nosso dinheiro, decidiram que podem regular também os sentimentos de seus eleitores. É claro que o marketing político, em qualquer eleição, se antecipa na busca em estabelecer graus de afetividade entre seus contratados e os que votam. Além de artificial, esta relação se sustenta apenas no período da campanha e na vida pública. Ainda bem que podemos nos proteger na vida privada, resguardar o que sentimos.

A Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado deu um passo invasivo quando aprovou na última semana a Proposta de Emenda Constitucional que inclui a busca pela felicidade como direito do cidadão. A PEC, de autoria do senador Cristovam Buarque (PDT-DF), associa educação, saúde, alimentação, trabalho e moradia como requisitos para se buscar a felicidade. Agora, o caminho é a votação no Senado e na Câmara Federal.

A proposta é tão fantasiosa quanto abstrata. E repleta de incoerências. A busca básica do ser humano é a felicidade. Basta sentar em qualquer divã, literal ou simbólico. As ações, atitudes, princípios e convicções do homem são canalizadas para este desejo.

A definição de felicidade é uma das mais complicadas. Filósofos, psicólogos, sociólogos e outros pensadores escreveram tratados, gastaram décadas para chegar em conclusões diversas sobre o assunto. Todas válidas como incompletas.

Os parlamentares não explicitam sua definição, mas é possível compreender como enxergam o assunto pela PEC aprovada na comissão do Senado. Os senadores ruminaram a ideia contemporânea de felicidade, nada diferente dos programas populares de TV, inclusive os religiosos.

A perspectiva digerida pelos colegas de Cristovam Buarque é a de que felicidade está diretamente associada às conquistas materiais. É conseqüência direta para nós; e premissa inevitável para eles. Se temos coisas, somos felizes. Se não possuímos, a melancolia (depressão, para usar outro termo distorcido e na moda) nos controla.

Buarque justificou sua proposta como uma obviedade. Para ele, a busca pela felicidade é inerente a estes direitos. Se é óbvio, por que então interferir? Por que ratificar o que, na opinião dele, seria cristalino e redundante?

Os direitos conectados a esta visão de felicidade são derivações do olhar cidadão, ações concretas de uma aquisição coletiva, que não deveria precisar de lei para entrar no cotidiano. Não se medem sentimentos por vida material. Talvez consigamos, em certos casos, traduzir nossos sentimentos por objetos ou pela vida prática, mas jamais conseguiremos entender nossa existência única e exclusivamente pelas coisas que desejamos nas prateleiras ou nas vitrines.

A PEC da felicidade parte de outra premissa equivocada, nas entrelinhas do texto jurídico. É possível interpretar que, na crença dos senadores, a felicidade é um estado de espírito permanente, por estar conectado a conquistas de longo prazo, ou com efeitos de longo prazo na vida do indivíduo. Mas também me parece ser caixa de ressonância de uma leitura distorcida e popular do homem contemporâneo.

O mundo atual prega a felicidade full-time. A religião da alegria determina que não precisamos ser felizes. Não precisamos estar felizes. Precisamos parecer felizes. Não há tempo para a tristeza. A melancolia é quase um ato criminoso. Não há tempo para a elaboração da perda, para a digestão do luto, para lamber e curar as feridas.

Se os parlamentares querem legislar sobre a felicidade, por que não criariam leis para combater os homens tristes? Esta pergunta me parece exagero, mas – diante do histórico comportamental de nossos políticos – não me surpreenderia se eles transformassem este delírio em ideia genial.

Pena de prisão para os melancólicos! Lembre-se, leitor, de que – na Idade Média - muitos foram à fogueira, sofreram torturas ou foram presos porque tinham comportamento fora do padrão, o que incluía a melancolia.

A busca pela felicidade, nas relações sociais contemporâneas, se baseia em jogos de aparência. A felicidade-aparência está no corpo perfeito, nas cirurgias que fingem enganar a velhice, nas relações líquidas e fugazes rotuladas de amizade e amor perfeitos, nos remédios que empurram a tristeza e os demônios para debaixo do tapete da alma.

A PEC da felicidade comete um terceiro pecado. Quem deu aos senadores o direito de legislar sobre os sentimentos? Quem deu a eles a prerrogativa de definir como obrigação sermos felizes? A felicidade, ainda que construída com o outro, é um sentimento de ordem individual, sentida e manifestada de maneira particular. A felicidade precisa ser dividida com o outro, vivida com o outro. Mas há uma distância considerável entre a construção e a manifestação de um sentimento e a transformação dele em lei.

A ideia de Buarque, legitimada por seus colegas da Comissão de Constituição e Justiça, pode ser derrubada em votação no plenário. Não mudaria – óbvio – em coisa alguma os rumos da história. É inexpressiva como ação política, estúpida como interferência na vida pública. Mas preocupa porque serve como símbolo sobre como os parlamentares enxergam os limites de seu trabalho político, as fronteiras de sua atuação pública.

Transformar felicidade em ato obrigatório por lei não é imaginação brasileira. Como é frequente, os legisladores copiaram outros países. É o surrado complexo de vira-lata de terno, gravata e mandato eleitoral. Há quatro países no mundo, segundo o jornal Folha de S. Paulo, que incluíram a busca pela felicidade na legislação: França, Japão, Coréia do Sul e Butão.

Minha esperança – quem sabe? – é que estes países tenham uma visão diferente de felicidade ou entendam o termo de outra maneira. Na Holanda, existe até um ranking – criado pelo sociólogo Ruut Veehoven – para calcular a felicidade. O ranking envolve 148 países. O Butão, pequeno país asiático, lidera a lista. Honestamente, não me interessa saber em qual posição o Brasil se encontra. Seria assinar embaixo e valorizar o tratado da estupidez humana.

domingo, 14 de novembro de 2010

O ENEM canta reggae

Quando se entra na rodovia BR-116, após sair da Estrada da Banana, no litoral sul de SP, é quase obrigatória a parada em um posto de gasolina. É, na verdade, um daqueles postos que se transformaram em mini-shoppings e vendem desde telefones antigos recauchutados a espetinhos de frango, de lingeries a CDs de vários gêneros musicais. Gasolina, álcool e óleo diesel são detalhes para fechar o pacote.

Nesta parada, comecei a conversar com um sujeito que vendia brincos, colares e pulseiras ao lado da entrada principal. Para ser honesto, ele puxou conversa. Desejava uma carona até Iguape. Pretendia chegar à Ilha Comprida, para alcançar os turistas no feriado prolongado.

— Se aqui eu faturo R$ 10, lá eu faturo R$ 50.

Eu já estava de carona. Não poderia terceirizá-la, ainda mais em um carro lotado, de gente e de bagagens, inclusive bolo de aniversário.
Engatamos um papo de quase meia hora. Família, movimento na beira da estrada, opções de vida até que chegamos no trabalho.

Emerson, que é descrição fiel de Bob Marley, com pequenas adaptações, como um brinco de pena na orelha esquerda, perguntou minha profissão. Emerson é o nome de nascimento, agora em segundo plano. Ele se identifica com um nome rastafári, que me soou mais coerente com o amor demonstrado pelo estilo de vida.

Quando disse que era jornalista, ele me perguntou:

— O ENEM foi cancelado?

Apenas relatei a indecisão do Ministério da Educação e os problemas provocados pelas falhas de organização da prova. Não entrei em detalhes por sentir que ali deveria prevalecer o tom pessoal, ainda que nos conhecêssemos há 15 minutos e sequer tivéssemos nos apresentado formalmente. Não era um noticiário em andamento, e sim uma conversa de beira de estrada, com nascimento e morte marcadas. Bastava que um dos dois seguisse seu caminho. E os destinos não batiam.

Mas o ENEM se transformou no centro do diálogo. Ele me disse:

— Eu fiz a prova para acompanhar meu filho de 17 anos. Não vou à escola há 11 anos, mas sempre li muito. Li mais de 600 livros neste período.

Exagerando ou não no número, a estatística é irrelevante. O mérito está no fato de que ele incorpora mais uma testemunha de como a leitura prescinde dos grilhões e do autoritarismo da escola. A leitura só reforçou suas convicções, que dispensam a arrogância de vomitar saber de almanaque e ignoram a aparência para definir se o outro é digno de algumas palavras.

Não daria carona a ele e não compraria miçanga alguma. Pensei em comprar para a mulher por quem sou apaixonado, mas tive medo de errar na escolha. Era apenas uma conversa para matar o tempo e – quem sabe? – conhecer outra pessoa interessante, sem interesses aparentes. Somente por curiosidade sobre outra história de vida, com intersecções ou linhas paralelas em relação à minha história.

A preocupação do companheiro de conversa era a redação. Temia que fosse desclassificado. Orgulhava-se de ter utilizado Maquiavel e outros autores para sustentar seus argumentos, mas acreditava que – no último parágrafo – cometera o erro fatal. Emerson se posicionou em primeira pessoa, um crime – segundo ele – para um texto dissertativo.

— Será que vão me desclassificar? Acho que o texto estava ótimo.

Eu disse a ele que escrever em primeira pessoa, naquele caso, caracterizava um erro. Diante de olhos arregalados, expliquei melhor: o examinador provavelmente tiraria algum ponto do texto dele, mas jamais o eliminaria por aquele deslize. Deslize para as regras engessadas e para os escravos da forma, pois creio – quase cegamente – que é possível dividir textos em dois: os bons e os ruins. O resto é recurso de linguagem, instrumento para se contar uma história.

Mais aliviado, ele começou a me contar como enxergava o tema da redação do ENEM: O trabalho dignifica o homem. Para alguém que havia optado por um estilo – visto por muitos – transgressor de vida, seria natural que se posicionasse contra a premissa da prova. (Voltarei ao assunto em outro texto)

Encontrei ali um interlocutor e um carrasco de minhas fraquezas. Encontrei ali alguém que havia posto em prática minhas teorias e que representava a concretização da minha falta de coragem – e minha prisão de conforto – transformada em inércia.

Emerson entendia, à maneira dele, que o trabalho amordaçava o homem comum, o mantinha em repouso, o mantinha insatisfeito com promessas de conquistas futuras que, se alcançadas, dariam lugar a outras promessas. Um circuito fechado de submissão. Emerson era capaz de comprovar, ao modo tranqüilo de dizer, como o trabalho foi reduzido a valor moral e alvo da faceta perversa dele, o moralismo.

O diálogo filosófico sobre o trabalho (e o ENEM) serviu como cortina de fumaça para esconder seu papel secundário. A prova me dava a impressão de significar, para meu colega de rodovia, somente mais um caminho para se aproximar do filho de 17 anos, acompanhá-lo em seus sonhos e representar, de um jeito talvez singular, seu papel de pai.

Nós nos despedimos depois de meia hora. Fizemos as apresentações formais e eu segui. Ele esperaria por uma carona para Ilha Comprida e me pediu que fosse em paz.

Como único cliente (fracassado) naquele período, saí com a sensação renovada de que, por vezes, as melhores aulas acontecem fora da sala, nos encontros em que professor e aluno trocam e retrocam seus papéis, numa conversa horizontal, com construção conjunta de experiências e, acima de tudo, sem a pretensão de fazê-la. Aula é aula quando não recebe este nome, pelo menos enquanto acontece.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Pedrinho, o racista?



Monteiro Lobato não teria criatividade para prever a fábula que o envolveu no Conselho Nacional de Educação (CNE) e no Ministério da Educação. A fantasia do politicamente correto – digna de um processo de Kafka – engrossou a lista de episódios nos quais a educação se ajoelha aos pés dos interesses políticos ou da vaidade acadêmica distante da realidade cotidiana brasileira.

O problema foi a recomendação do CNE para que o livro Caçadas de Pedrinho , visto como racista, fosse retirado do acervo do Programa Nacional Biblioteca nas Escolas ou que fosse adotado no ensino público com uma nota explicativa. A segunda sugestão foi compartilhada pelo ministro Fernando Haddad, interessado em jogar um cobertor sobre o fogo que ameaçava se alastrar. Ou – quem sabe? – abafar a inconveniência ao marcar o livro com uma letra escarlate.

A obra, publicada em 1933, foi tirada do contexto histórico. Soa superficial supor que o livro seja capaz de provocar a reprodução literal de uma mentalidade discriminatória a ponto de fomentar o comportamento preconceituoso por parte de crianças.

O Conselho, que tomou a decisão por quatro votos a um, abraçou outra premissa perigosa. Os conselheiros entenderam que os professores não estariam preparados para filtrar o conteúdo do livro e repassá-lo no contexto adequado aos alunos.

Como toda generalização, a premissa não se sustenta numa análise mais detalhada. Como padronizar o comportamento de todos os docentes e desconsiderar diferenças regionais, econômicas, culturais e de infra-estrutura entre as redes de ensino? Como ignorar a relação entre a obra e atividades ou projetos pedagógicos? Como desprezar o uso do livro dentro de um conteúdo programático pré-estabelecido?

Considerar que o professorado atingiu tamanho grau de alienação é relegar em plano secundário a Lei 10639/03, com sete anos de vida, que estabelece o ensino de História e Cultura Afro-brasileira e Indígena nas escolas públicas e privadas do país. Ainda que seja discutível o método, os cursos de capacitação de educadores no sistema público conseguiram, de forma tímida, colocar os professores em contato com a temática racial brasileira contemporânea.



É claro que não se pode esperar profundidade ou a formação de especialistas em relações étnico-raciais, mas os docentes também passam por formação básica nas licenciaturas, fora o fato de que o tema – principalmente por causa das cotas nas universidades – alcançou patamar de razoável relevância na mídia nacional.

Recuso-me a crer que o professorado, por mais deficiente que seja/esteja, não tenha a capacidade avaliar um conteúdo publicado há quase 80 anos. E pior: reproduzi-lo como verdade dogmática.

Monteiro Lobato, como qualquer autor, é fruto do mundo em que viveu ao reproduzir valores, contradições, cores e crueldades. Este fator foi descartado quando o CNE o tornou alvo do momento, como se Lobato fosse réu no julgamento de carrascos de outro cenário e sentenciado por magistrados cegos pela ânsia da perseguição do detalhe, jamais do todo.

Mark Twain (As Aventuras de Huckleberry), James Conrad (O Coração das Trevas) e William Shakespeare (O Mercador de Veneza), por exemplo, tem carteirinha no mesmo clube. Todos foram acusados de racismo por estes livros, sempre em outros períodos históricos.

O movimento atrás das cortinas do CNE escondeu uma disputa político-partidária que cerca a análise das relações raciais brasileiras. A Secretaria de Promoção da Igualdade Racial, que encaminhou o problema ao Conselho depois de procurada por um estudante de mestrado da Universidade de Brasília, seguiu – por exemplo - o caminho do ministro e amenizou o fato.

No cabo de guerra entre os políticos, vence a visão maniqueísta e conflitante do problema. Sobra desinformação e jorra ideologia oferecida como conhecimento. O tema é ignorado como questão coletiva e sintoma de desigualdade social.

A alta cúpula da educação brasileira, ao deslocar Monteiro Lobato da história, preferiu aderir aos ares inquisitórios do que simplesmente colocar na agenda o lado perverso do sistema educacional do país ou agir como braço de fiscalização do ministério e suas políticas públicas.



O livro Caçadas de Pedrinho, por um dos sarcasmos da história, foi publicado no mesmo ano que Casa Grande e Senzala, de Gilberto Freyre. Clássico da sociologia, o livro serve como divisor de águas entre a visão biológica de raça, com nascimento na metade do século XIX, e a ideia de que o racismo brasileiro seria de menor grau por causa da elevada mestiçagem.

Ambas as mentalidades estão ultrapassadas em termos científicos. Sabe-se que, na atualidade, o olhar sobre as relações e os conflitos raciais só fica mais arejado se interpretado pela combinação de critérios sócio-econômicos e de aparência física.

É uma pena que o olhar científico, por natureza, seja incapaz de conter a vaidade política, o obscurantismo de pensamento e os preconceitos embutidos nas micro-relações de poder. Como o estilingue de Pedrinho, o Conselho acertou o passarinho, mas na árvore errada. A decisão anti-Lobato é jogar fora a oportunidade de se dar o valor adequado a um tema que, na visão de parte da intelectualidade branca, deveria permanecer invisível.

Banir um livro de Lobato, quase 80 anos depois, é enterrar falhas humanas, que deveriam ser enquadradas com decência no espaço e no tempo, sem aprender com elas. É a manifestação da intolerância e do radicalismo de quem enxerga o mundo em preto e branco, sem tonalidades mestiças.

sábado, 6 de novembro de 2010

Como vestir uma senhora de 60 anos?

O Brasil tem mais de 165 milhões de linhas de celulares. Embora oito em cada dez aparelhos sejam pré-pagos, 20% deles tem tecnologia para exibição de programas de TV. Ao mesmo tempo, a nova classe média – na visão do Governo Federal – compra aparelhos de TV cada vez maiores. Como produzir uma programação compatível para um público que – em parte – aumenta o parque de mídia dentro de casa?

A TV brasileira se vê diante de uma sucessão de dilemas. Encruzilhadas que envolvem queda de audiência, mudanças de comportamento do público e avanços tecnológicos acelerados que exigem união de mídias. O aniversário de 60 anos da televisão, em meados de setembro, ofuscou os próximos obstáculos que nascem diante desta senhora.

A postura positiva é da natureza das comemorações, na qual prevalecem os enfeites, mas a urgência dos cifrões determina a releitura imediata da relação entre televisão, outros meios de comunicação de massa e mercado consumidor.

A TV ainda tem muita vitalidade. Mas a velhice saudável é um horizonte ou uma miragem? A televisão, em definitivo, não pode continuar como está. Tem que se preparar para as mudanças, como alguém que – de tempos em tempos – troca o figurino para estar atualizada com a moda.

A audiência da TV aberta caiu cerca de 20% nos últimos dois anos nas grandes cidades. Os espectadores mudaram seus hábitos? Deixaram de ver TV para se dedicar a outras atividades? O consumo de produtos audiovisuais permanece intenso, mas em outras tecnologias. DVDs, videogames, os próprios celulares, notebooks e suportes equivalentes alteraram a relação do consumidor com os meios de comunicação e seus conteúdos.

O Brasil se aproxima do índice de 50% da população com acesso à rede mundial de computadores. A classe média urbana convive com a possibilidade de ver os conteúdos quando desejar. Sites de emissoras tornam hábito a postagem de programas ao vivo ou logo após a exibição. Muitos canais perceberam que importa o consumo do conteúdo, e não como e onde aconteceu.

As novas tecnologias provocaram mudanças de comportamento na senhora sexagenária. As emissoras com visão de mercado não viraram as costas para o suposto inimigo. Trouxeram-no para bem próximo delas. Trabalham com a convergência de mídias, além de planejar a produção de conteúdos especificamente para celulares.

A Internet provocou impactos no modo de se consumir audiovisual. Canais com público-alvo mais jovem aceleraram o ritmo das narrativas e encurtaram o tamanho dos programas. 15 minutos, da MTV, é um exemplo de uma nova forma, bem mais frenética, de narrar e segurar a audiência. A GNT, voltada para uma faixa mais velha, anunciou conteúdos com duração semelhante.

O novo caminho alcançou até os dinossauros da TV aberta. Programas tradicionais, no formato auditório, que duravam até cinco horas, ficaram menores para manter alguma estabilidade em termos de audiência.

As emissoras perceberam o quanto podem explorar as redes sociais para capitalizar o olhar e o bolso do espectador que absorve várias mídias ao mesmo tempo. Apresentadores, atores, atrizes, jornalistas e celebridades em geral se aproximam do público pela Internet, o que gera – em certos casos – uma continuidade do programa além do tempo de exposição na TV.

Os equipamentos de exibição, mais rápidos e menores, representam o próximo passo a ser dado pelas emissoras. A Rede Globo, por exemplo, estuda há mais de um ano a possibilidade de produzir conteúdo específico para telefones celulares.

A TV Digital, que seria o passo natural deste processo, segue adormecida. Nada além da conversa de transmissão em alta definição. O país ainda tem seis anos para se atualizar. Os equipamentos seguem caros e, portanto, indisponíveis para a maioria dos telespectadores, ainda escravos do modelo analógico por fatores culturais, sociais e econômicos.

A ironia é que o avanço acontece às cegas. Por mais que o discurso de marketing ofereça a aura de visionárias, as emissoras de TV desconhecem o terreno onde caminham. Elas não estão sozinhas.

Os consumidores, a princípio submissos ao frenesi da tecnologia, poderiam dar a impressão de que querem apenas saber onde assistir melhor ao programa preferido. Um jogo de cena, no qual as emissoras podem se iludir pela crença de que, para a audiência, a forma é o futuro em corpo presente. A qualidade, assim, finge ser apenas um detalhe.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

A vencedora da eleição

Dilma Rousseff levou a eleição dentro das previsões, que enxergaram o desejo de continuidade de boa parte do eleitorado brasileiro. Captar os efeitos do lulismo não foi tarefa de videntes, apenas o olhar para o óbvio, indicado no primeiro turno, quando 16 Estados tiveram a eleição decidida.

A primeira mulher a governar o país venceu na urna, mas não ganhou a eleição. A dona do bilhete premiado em termos políticos se chama Marina Silva. A candidata do PV, com 20 milhões de votos, saiu com a imagem reciclada – com o perdão do trocadilho ambiental - e revigorada. Mesmo sem mandato, a senadora do Acre terá voz ativa nas encruzilhadas e nas costuras do processo político a partir da posse de Dilma Rousseff.

Marina Silva conseguiu o poder de transitar pelos círculos políticos sem depender de seu partido, volúvel como a maioria, sedento de alianças de última hora para assegurar cargos e outras benesses dos palácios. O personalismo cai bem a ela neste aspecto, pois a mantém sob o manto verde e, simultaneamente, reforça a aura de posições políticas éticas.

A mobilidade da candidata se deve também à votação, capaz de fazer com que muitos caciques a engulam a seco e se sentem à mesa para, no mínimo, ouvir as palavras dela. O poder de negociação da senadora ultrapassou o arco de instabilidade dos múltiplos grupos, e suas variadas cores, que habitam o Partido Verde.

Marina Silva foi coerente em sua posição política durante o segundo turno, quando optou por não apoiar nenhum dos dois candidatos. A decisão agradou uma parcela considerável do eleitorado, que a escolheu justamente pelo descontentamento com Dilma e Serra.

A candidata do PV à presidência também tem a vantagem, ainda que falte muito tempo, de manter a candidatura para 2014 em banho-maria, se desejar. Ampliou o leque de eleitores, ao ir além dos limites da classe média urbana, dos universitários e dos ambientalistas, tanto os de carteirinha como os de boutique.

O discurso evangélico de Marina foi relevado por estas fatias de eleitores e atendeu aos anseios dos religiosos mais radicais. Marina Silva escorregou como sabão no caso do aborto ao falar em plebiscito. Desinformou, não negou nem confirmou. A dúvida foi distorcida de modo a soar como música aos ouvidos dos que misturaram religião e política.

Os 20 milhões de votos, mais a abstenção no segundo turno, tiraram qualquer chance de veiculá-la ao lulismo. A saída amarga do governo vale mais do que o tempo de permanência nele.

Marina Silva vestiu a capa de adversária e se transformou em pedra, fator importante durante os primeiros passos de Dilma Rousseff como presidente, ávida por provar que não se trata de um fantoche de Luiz Inácio.

Enquanto Marina seguirá confortável na cadeira do crítico, Dilma terá missão paradoxal: mostrar que caminha sozinha, mas também ampliar o legado de Lula, sem que pareça ministra do ex-presidente.

A nova presidente precisará também conter a voracidade de Michel Temer, hábil mestre das sombras e representante de uma das personalidades do PMDB, obsessiva por se agarrar e beijar o poder. Caso contrário, Dilma perderá força de articulação com o Congresso Nacional e, neste caminho, faltará a ela somente a coroa para ser equivalente à rainha da Inglaterra.

A oposição estará mais forte, sem Lula e sua popularidade no horizonte, e mais experiente após três derrotas consecutivas. E, por suposição, mais inteligente, com Marina Silva – e o discurso de propostas – e Aécio Neves, com o jeito mineiro de fazer política, herdado do avô.

Depois de recolher os cacos, o PSDB poderá ganhar roupas novas, enquanto Serra cumpre pena política de dois anos na Sibéria. Aécio deverá reformular as estratégias do partido, ainda mais diante de uma governante com muito a provar e a fazer para ter iluminação própria.

Das duas mulheres, Marina Silva venceu a eleição. Definitivamente. Tem a vantagem do tempo para costurar nova candidatura, com maior respaldo político e financeiro. E tem a vantagem de estar fora do poder. Assim, ela poderá se preparar com crédito para cometer erros e sem riscos de sair chamuscada dos sucessivos incêndios que envolvem os jogadores de dados na política.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

A bicicleta e a faculdade

Por Lívia Barros

Há algum tempo venho me perguntando isso. Eu prefiro ir de carro, mas será que o estresse compensa? Apesar de estar confortável, conversando com meu namorado, que está dirigindo e ouvindo música, demoramos demais parados nos semáforos porque têm carros estacionados dos dois lados. A fila fica enorme.

Indo pela Avenida Pedro Lessa, o problema são os cruzamentos com a Rua Frei Vital e com o canal 4. O semáforo fecha umas três vezes antes de conseguirmos passar. Já na rua Oswaldo Cruz, são os semáforos com as ruas Bento de Abreu e Lobo Viana, quando o sinal finalmente fica verde tem um fretado, dois, três, fechando o cruzamento. Vejo muito mal motorista que buzina para você, sendo eles os errados.

Algumas vezes tive que ir de ônibus, mas só vejo desvantagens. Você gasta tempo esperando, dinheiro da condução, tempo no transito também e, no final, tem que andar do ponto até a faculdade. Uma vez, eu me atrasei um pouco, cheguei no ponto de ônibus pouco depois das 19h. Deu 20h e nada do meu ônibus. Para ajudar, eu estava debaixo de chuva.

Quando me dei conta da hora, pensei: eu tô aqui para não pegar chuva e, no final das contas, se eu tivesse ido a pé ia me molhar menos porque em meia hora estaria lá. Estou aqui há muito mais tempo em pé esperando e já perdi a aula. Desisti de assisti-la e voltei pra casa.

Vou a pé então? Não, também não compensa. Demora, você se cansa e se estressa com os maus motoristas do mesmo jeito.

Solução: saudável, não polui e é rápido. Do que estou falando? Bicicleta, claro! Também nos deparamos com maus motoristas, mas às 19h o trânsito é tão parado que nem corremos perigo.

Na primeira vez em que fui atropelada de bicicleta, foi de madrugada e a motorista estava bêbada. Na outra vez, foi num sábado de manhã por desatenção minha e da motorista. Só mulher nas histórias, mas tudo bem. Não foi grave em nenhuma das vezes.

Podemos ouvir musica no fone de ouvido e, se tivermos companhia, dá até pra conversar. Uma vez fui assaltada, estava eu e meu namorado em uma bicicleta. Vieram uns garotos de bicicleta também e nos abordaram, mas eles se deram mal porque a gente não tinha nada. Esse risco a gente corre em qualquer meio de transporte; não tem jeito.

Fora isso, pela expressão do agente da CET quando toquei no assunto, bicicleta não dá problema. Quando chego à faculdade, vejo tanto problema que me espanto. “De onde saiu tudo aquilo?” Não vemos no trânsito porque chegaram rapidinho.

Obs.: Texto produzido na Oficina Conto/Crônica - olhar e ver o (nosso) cotidiano, dentro da IV Semana de Produção Multimídia (Samba), da Universidade Santa Cecília, em Santos (SP).