domingo, 10 de outubro de 2010

No busão



Por Natalia Matias e Thatiane Souza

Ônibus cheio, sem telefone, impossível não escutar as conversas das pessoas, principalmente quando elas fazem questão de serem ouvidas. Hoje, morrendo de sono, vindo para a faculdade, ouço uma mulher falando:

— Vou descer pela frente, porque atrás os caras ficam encoxando e eu não quero ficar grávida.

No começo achei que era um pouco mal-educada, mas depois reparei que ela não tinha o juízo perfeito, dizia que iria votar no Lula porque ele olhava para o povo. E disse:

— Olha que ônibus maravilhoso em que você está andado hoje.

Pensei: “Acho que ela não está no mesmo ônibus que eu.”

Continuou falando:

— Não é pra votar na outra, porque ela só fala em ecologia e ecologia é coisa pra rico, ecologia de pobre é arroz e feijão.

Pensando por um lado, até que ela tinha um pouco de razão ao falar de gravidez, pois um tipinho que sempre aparece nos ônibus são os “encoxadores”, eles pegam o ônibus apenas para isso. Seis horas da tarde você voltando do serviço ou indo para a faculdade, o ônibus lotado e você ainda tem que aguentar um cara que parece que nunca viu mulher na vida; ele te encoxa de qualquer lado, seu braço, sua cabeça, suas pernas, enfim.

Todos os dias você pega ônibus para lugares diferentes, mas parece que encontra sempre as mesmas pessoas. Tem aqueles que escutam música no celular sem fone; engraçado, eles sempre são funkeiros, parece até que combinam de cada um pegar um ônibus diferente e botar o funk bem alto.

Tem as senhorinhas que pegam o ônibus só pra contar a historia das suas vidas, apesar delas falarem e você nunca ouvir direito; mesmo assim, você balança a cabeça, concordando, como se tivesse super interessado. Imagina se ela está te faz uma pergunta e você olha sorrindo que nem retardado.

Tem ainda as pessoas que reclamam de tudo e de todos. Se está calor, se está frio, se o ônibus está cheio, dos assentos reservados. Essas só querem puxar conversa, arrumar um companheiro. Fica a dica: homens bonitos não querem saber se você está passando calor. Existem também os que fazem barraco, gritando que os outros não respeitam os assentos reservados.

Outro tipo que existe no ônibus é o vendedor de chiclete, aquele cara que todo dia passa vendendo seus doces como se fossem a maior promoção. Mas no ônibus a única coisa que queremos de fato é chegarmos ao nosso destino. Em paz.

Obs.: Texto produzido na Oficina Crônica - olhar e ver o (nosso) cotidiano, dentro da IV Semana de Produção Multimídia (Samba), da Universidade Santa Cecília, em Santos (SP).

Ilustração: Kitty Yoshioka

Um comentário:

Mariana Pereira disse...

Esqueceu de mencionar aquelas senhorinhas que vão lá para o fundo e ainda reclamam que os jovens não dão lugar. Detalhe: tem oito bancos reservados na frente, vazios, mas elas fazem questão de roubar o lugar alheio!