sábado, 30 de outubro de 2010

O rodeio dos selvagens

Os rodeios, no Brasil, são uma indústria bilionária. Peões são estrelas que alimentam segmentos da economia como mídia, vestuário, alimentação e entretenimento. Os críticos discutem o universo dos rodeios pela perspectiva ambiental, na qual colocam como problema a dualidade entre homens e animais, a linha tênue entre a civilidade e bestialidade.

Cerca de 50 universitários da Unesp, uma das três principais instituições de ensino público do Estado de São Paulo, assumiram o lado animal. Elite do ensino superior, o grupo resolveu praticar o “rodeio das gordas”, ideia imbecil nascida na Internet e praticada no InterUnesp 2010, os jogos da instituição, em Araraquara, no interior de São Paulo.

A brincadeira – na justificativa dos organizadores – consistia em se aproximar de uma garota gorda e fingir interesse por ela. Assim, poderia derrubá-la no chão e montá-la por até oito segundos. O tempo garantiria pontos para o “peão”. Caso a garota se revoltasse, seria classificada como “bandida”, referência a um touro famoso numa novela de TV. Se a “montaria” fosse bastante gorda, a pontuação também crescia.

Um dos organizadores do “rodeio” é Roberto Negrini, estudante no campus de Assis e criador de uma comunidade no Orkut sobre o tema. Para ele, a história representou uma “brincadeira”.

Depois da repercussão na mídia, o Ministério Público de Araraquara resolveu investigar o caso. A Unesp também saiu da inércia e abriu processo disciplinar contra dois alunos, após protestos de estudantes, professores e outros funcionários. Somente dois alunos entre 50 participantes, como se fosse uma missão de espionagem descobrir os envolvidos.

A história representa, no mínimo, a sobreposição de preconceitos e de um olhar intolerante que transforma o outro em objeto. Mulheres que, em metamorfose, viram gado, capazes de serem domadas, domesticadas pelo homem. Mulheres-coisas, tão bestiais, primitivas e inferiorizadas como os homens que se julgam no direito de tê-las como propriedade, ainda que por oito segundos.

O “rodeio das gordas” é uma metáfora da visão masculina ainda sólida sobre as relações de gênero. O rodeio poderia ser trocado por ambientes de trabalho, por residências, por espaços educativos e religiosos. Nestes endereços, homens “montam” em mulheres por exercício de poder, perversidade fruto da crença cega de que questões de gêneros estabelecem graus de superioridade e/ou inferioridade.

Além do machismo inerente ao “rodeio”, é reproduzido o preconceito conectado à ditadura da estética. Mulheres gordas seriam, no olhar boçal, uma sub-espécie. A inferioridade multiplicada ao quadrado. Mulheres gordas seriam, por premissa, uma aberração aos padrões, passíveis de punição por sua condição física. Se as mulheres equivalem à gado, por que os estudantes da Unesp levariam em consideração aspectos intelectuais ou afetivos?

A sociedade contemporânea odeia os gordos, um dos inúmeros paradoxos deste homem individualista, imediatista e intolerante. É um ódio que cresce a partir de um espelho. Uma sociedade que prega com fundamentalismo o discurso da vida saudável mascara – na prática – a própria enfermidade, de mente e corpo. Somos cada vez mais obesos e dependentes de coquetéis químicos para suportarmos os outros e, acima de tudo, a nós mesmos.

O ódio – traduzido pelo “rodeio das gordas” – é a tentativa de expurgar a repulsa pela própria imagem e semelhança. Gordos são retratados como incapazes mentais, preguiçosos e negligentes. Em muitos círculos sociais, a gordura traduz desvio de comportamento e de caráter. O diferente – na verdade, a regra – traz em si a vergonha de nos contar, pela aparência, a essência de nós mesmos.

Os estudantes universitários, que o senso comum indicaria como sujeitos sensatos pela proximidade do conhecimento, apenas engrossam e – ao mesmo tempo – simbolizam como muitos entendem o papel da mulher. Neste foco doentio, a mulher não seria diferente de um pedaço de carne, enquadrado em padrões de qualidade e exposto, por exemplo, em programas de televisão.

Caso se recuse ou não se esforce para se adequar aos limites, esta mulher se transforma em personagem digno de humilhação pública. O processo é inquisitório, com condenação antecipada e carrasco a postos. É preciso punir e excluir aquilo que incomoda, gera temor e, principalmente, escancara nos rostos destes animais o que eles são ou o que deverão se tornar em breve.

Conversei sobre o “rodeio das gordas” com vários grupos de pessoas, todos universitários. O que você, leitor, esperaria como reação? A reflexão posterior não conta, já que permite o esconderijo das convenções sociais e culturais.

Observei as reações instantâneas. A minoria reagiu, de pronto, com indignação e pediu mais detalhes da história. A maioria caiu no riso, ainda que nervoso. Uma parte foi às gargalhadas. Entre os falsos contentes, muitas mulheres. Fiquei em dúvida: de qual lado da cerca está o gado?

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